Em Minha Pele (Pt.01) – Michigan

Por Mille Meiffield

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KATH

A chuva caía forte em Almont – Michigan. Meu melhor amigo Sean Walker e eu saímos do cinema e fomos a um bar. Estávamos eufóricos, comemorando nossa formatura na faculdade.

– Você está linda nesse vestido azul.  –  disse Sean galanteador

– Sei que estou. – eu disse, um pouco alto demais.

– Vou ao banheiro e já volto. Não vá cair. – Sean se afastou rindo. Eu estava feliz, queria comemorar. Bebi mais uma tequila, esse era o meu primeiro dia de verdadeira liberdade.

– Kath? – chamou Sean voltando do banheiro. – Kath, acho melhor irmos embora. Você não parece muito bem. Espera aqui, vou pegar o seu casaco.

Eu realmente estava me sentindo tonta por causa da bebida. Já havia bebido além da conta uma vez quando tinha 17 anos, foi logo depois que meus pais morreram quando o avião em que eles estavam, caiu perto das Bahamas. Dessa vez eu parecia estar pior, meus lábios estavam dormentes e meu corpo já se movia sozinho. Sean se afastou para pegar minha bolsa e meu casaco que estavam na mesa perto do bar. Nesse momento um homem alto, moreno e com um chapéu estranho se aproximou de mim e segurou minha cintura, esfregando seu corpo ao meu. Tentei empurrá-lo, mas ele era forte e eu estava sem forças por causa da bebida.

– Me solta.

– Calma benzinho, eu só estou me divertindo.

– Me solta seu babaca. – usei toda minha força e mais uma vez tentei empurrá-lo.

– Calminha beleza, você não vai a lugar nenhum

– O que está acontecendo aqui? – Perguntou Sean. Me soltei do grandalhão e me agarrei a Sean.

– Não está acontecendo nada aqui moleque, vai trocar as fraldas e deixa que eu cuido dessa delicia. – Disse o grandalhão.

Sean se virou pra mim, ajeitou meu casaco em meus ombros e segurou minha mão para sairmos dali.

– Aonde vocês pensam que vão? – Perguntou o grandalhão em tom de ameaça.

Eu o ignorei. Segurei mais firme ainda a mão de Sean e o puxei para fora do bar. Estávamos ao lado do meu carro quando eu entreguei as chaves na mão de Sean. Entramos no carro e ele dirigiu até minha casa. Sean me levou para dentro, me ajudou a trocar de roupas e me deitou na cama.

– Nossa como você é linda. – Seus olhos tinham um brilho diferente.

– Obrigada por cuidar de mim.

– Temos que variar as vezes, né? – Ele abriu seu belo sorriso me deixando desconcertada.

Sean se deitou na cama ao meu lado e com sua mão acariciava meu rosto. Eu comecei a ficar sonolenta e o abracei. O cheiro de seu corpo era intenso, madeira e folhas verdes com um toque fresco. Levantei uma das mãos e toquei em seu rosto. Era macio e quente.  Ele beijou a palma da minha mão e foi subindo, beijando a extensão de meu braço até se aproximar da minha clavícula e deixar um beijo bem demorado ali. Sean roçou a ponta do nariz de leve em meu pescoço, mordeu de leve a ponta de meu queixo subindo seus lábios até encontrarem os meus, tocando-os levemente num beijo suave. Um beijo doce. Seus lábios se afastaram por um momento e ele olhou no fundo dos meus olhos. Parecia que estava pedindo permissão para ir além. Eu enrosquei meus dedos em seus cabelos castanhos e o puxei para mim. Beijei-o com voracidade. Nossos corpos estavam fervendo de paixão.

A campainha tocou e nos afastamos bruscamente. Ficamos nos encarando timidamente por um momento, mas a campainha tocou nova e insistentemente. Sean levantou e foi até a porta.

Tudo aconteceu muito rápido. Tiros. Pneus “cantando no asfalto” e um grito. Me dei conta de que o grito era meu. Sean, meu melhor amigo e quase namorado, se esvaia em sangue na entrada da minha casa, e eu não fazia ideia de quem tinha feito aquilo. Ele era educado, meigo e estava sempre tentando ajudar as pessoas. Ninguém teria motivo para tentar matá-lo.

A polícia chegou a minha casa em poucos minutos. Minha sala estava repleta de pessoas desconhecidas; peritos, detetives, policiais, paramédicos. Fui interrogada por diversas vezes, principalmente pelos detetives Gilbert e Chandler. Danna Gilbert era uma detetive loira, alta, de olhos claros e com uma pose bastante amigável;

– Senhorita White, você poderia nos acompanhar até a delegacia por favor? Gostaríamos de colher o seu depoimento.

– Eu preciso ir ao hospital ficar com o Sean, preciso saber se ele vai ficar bem.

– Senhorita White, os paramédicos estão fazendo todo o possível para salvar seu amigo, a única coisa que a senhorita pode fazer para ajudar o senhor Walker agora é nos ajudar a encontrar a pessoa que fez isso.

Eu não podia fazer muito, então entrei no carro da detetive e fomos até a delegacia da cidade.

O detetive Chandler já nos aguardava na sala de interrogatório. Em sua frente havia um copo com um liquido amarelado e um comprimido ao lado. A detetive Gilbert me levou até uma cadeira que estava no lado oposto ao que estava sentado o Detetive Chandler. Eu me sentei e em seguida ela foi sentar-se ao lado de seu parceiro.

– Muito bem. Senhorita White, pode nos contar exatamente o que aconteceu em sua casa? – Perguntou Chandler

– Eu não sei. – respondi num sussurro. – Não estou me sentindo muito bem.

– A julgar pela sua aparência, creio que esteja falando a verdade. – ele apontou para o copo e o comprimido. – Vá em frente, vai se sentir melhor depois de tomar isso.

Peguei o copo e o comprimido e bebi devagar. Não estava com vontade de responder às perguntas dos detetives, até por que eu não sabia o que tinha acontecido.

– Então senhorita White, o que aconteceu?

– Eu já disse, eu não sei. Sean e eu estávamos deitados na minha cama, rolou um clima, nos beijamos e alguém tocou a campainha. Sean se levantou, atendeu a porta e atiraram nele.

– Você ouviu alguma discussão, alguma coisa. – Perguntou Gilbert

– Nada. – minhas mãos começaram a tremer. – Só os tiros.

– O senhor Walker tinha algum inimigo senhorita White? – Dessa vez foi Chandler quem perguntou

– Não. Nós saíamos sempre juntos, só os dois. Sempre fomos bons amigos.

– Ele teve algum desentendimento com alguém ultimamente? –  Chandler era uma pessoa fria, eu tremia a cada pergunta que ele fazia.

– Não, como eu disse… Espera, sim… Teve sim. No bar. Sean foi buscar meu casaco e a bolsa que eu havia deixado na mesa em que estávamos. Eu estava na pista de dança e um sujeito estranho, alto, moreno e usando chapéu tipo de cowboy tentou me agarrar. Ele não queria se afastar embora eu tentasse empurra-lo. Sean chegou e eu o abracei forte, o grandalhão não gostou, chamou Sean de moleque e perguntou aonde a gente pensava que ia. Eu não dei importância, peguei a mão do Sean e saímos dali. Essa foi a única vez que vi Sean se alterar desde que nos conhecemos.

– Parece que temos um suspeito. – comentou Chandler – Você conhece esse homem senhorita White?

– Não, Sean e eu sempre vamos àquele bar. Foram quatro anos de faculdade frequentando o mesmo lugar. Conhecemos todo mundo lá.

– Você acha que alguém do bar possa ter passado o seu endereço para esse homem? – perguntou Gilbert

– Não faço ideia. – Eu não podia esperar mais, precisava ter notícias de Sean. – Por favor, eu já posso ir? Preciso ir ao hospital ver o Sean, preciso ficar com ele.

– Infelizmente não podemos deixar a senhorita sair daqui. Senhorita White, a sua vida também pode estar correndo risco. Não podemos liberá-la até amanhã. – disse a detetive Gilbert afetuosamente. – Vou pedir para o meu pessoal ligar para o hospital para saber como está o senhor Walker. Mas preciso que colabore conosco.

– Danna, pode ir, eu fico aqui com a senhorita White. – disse Chandler

-Bom senhorita White, nós vamos reunir todas as informações que a senhorita nos forneceu e faremos o possível para prender o responsável pelo incidente. A senhorita tem algum outro lugar para ir?

– Não aqui em Almont. Minha irmã Sarah mora na Califórnia.

– Eu aconselho que a senhora se mude para a casa de sua irmã senhorita White. A senhorita pode estar correndo risco ficando sozinha em casa. Não sabemos quem efetuou os disparos ou por que.

– Eu entendo, mas não posso deixar o Sean sozinho no hospital. Ele foi atingido por minha culpa.

– Por sua culpa? – indagou Chandler – Pode esclarecer senhorita White?

– Claro que por minha culpa, a única pessoa que pode ter feito aquilo, foi aquele homem no bar. Sean tinha vários amigos, ninguém em sã consciência tentaria mata-lo. – desabei em lágrimas. Chandler se aproximou e pôs a mão em meu ombro.

– Senhorita White, acho que a senhorita deveria descansar, venha, vou leva-la até o alojamento, lá a senhora estará segura. Assim que tivermos alguma noticia sobre o seu amigo a avisaremos.

– Por favor, eu preciso ir ao hospital, eu não vou conseguir descansar sem ver o Sean.

– Senhorita White… – O detetive Chandler foi interrompido quando a detetive Gilbert entrou na sala com um semblante pesaroso. Sabia que as notícias não seriam boas.

– Senhorita White, eu estava ao telefone com o pessoal do hospital, sinto muito em dizer que o seu amigo entrou em estado de coma.

– Não. – gritei. Lágrimas quentes desciam por meu rosto. Eu sentia que a vida de Sean estava se esvaindo.

– Sinto muito senhorita White. – disse Chandler.

***

Eu estava de mudança definitiva para a Califórnia. Dois meses haviam se passado desde que Sean fora baleado e ele ainda continuava no hospital, em coma, e possivelmente sem nenhuma chance de melhora.

Minha irmã Sarah e eu conversamos e ela achou melhor que eu fosse morar com ela em Fountain Valley – Orange County. Eu não estava acostumada ao calor intenso dessa cidade. Teria que me acostumar.

Cheguei ao John Wayne Airport em Huntington Beach. Peguei minhas malas na esteira de bagagem do aeroporto e me dirigi ao saguão principal. Sarah minha irmã mais velha estava lá me esperando. Entrei em seu carro e fomos dirigindo de Huntington Beach até Fountain Valley onde Sarah mora com o namorado.

– Kath! – chamou Sarah. – Kath, quanto tempo. Que carinha triste é essa?

– Antes de sair de Almont, passei no CTI do hospital para ver se Sean estava melhor. – meus olhos marejaram.

– Ei, ele vai ficar bem.

– Espero que sim.

Sarah e eu entramos no carro.

O calor reconfortante da Califórnia fez eu me sentir melhor. Mudar de ares era o que eu precisava para voltar a me sentir viva. Sarah estava feliz, eu me sentia ótima, tudo estava perfeito.

***

O apartamento de Sarah era enorme. Janelas cobriam toda a parede leste.  A sala de estar estava decorada com dois sofás enormes e reclináveis, uma pequena mesinha de centro, um televisor tela plana que eu acho era de sessenta polegadas e um home theater com caixas de som acústicas espalhadas por vários lugares. Um enorme abajur cor de creme ornava um dos cantos da sala.

Seu apartamento ficava no vigésimo quinto andar do prédio, na cobertura para ser mais precisa. Pesadas cortinas cobriam parte das janelas de vidro. Um corredor levava aos quartos e ao banheiro. Sarah me acomodou em um quarto grande, com paredes de cores neutras, uma cama king size estava coberta por um macio edredom com motivos florais. O Closet era grande e espaçoso. Também havia um enorme banheiro com uma espaçosa banheira branca, na pia, objetos decorati-vos eram os únicos enfeites.

– Só falta agora você me dizer que esse apartamento tem porão e sótão. – eu disse.

– Bom, podemos providenciar. – disse Sarah com sarcasmo.

– Desde quando minha irmã mais velha, linda e maravilhosa gosta de apartamentos grandes?

– Ah, Kath, esqueci de avisar, Dean e eu vamos passar o fim de semana na Flórida para comemorar nosso aniversário de namoro.

– Esse fim de semana? – indaguei

– Sim, algum problema? – perguntou Sarah. –  O prédio é seguro Kath, você estará segura aqui.

– Não estou com medo Sarah, acho que um tempo sozinha em um lugar diferente é tudo o que eu preciso.

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