A fé da gente – Lição I aprendida

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A fé da gente

Lição I aprendida

Escrito por: Zuleika Juliene

  Durante toda a semana, dia e noite, as palavras de Dona Divina ecoavam na cabeça de Catarina, pois de fato muitas religiões tinham imposições absurdas a serem cumpridas pelos fiéis. Lembrou de uma prima de seu marido que todos diziam ser uma folgada, pois devido a sua religião não podia comemorar seu aniversário e nem o Natal, mas sempre estava presente no aniversário dos outros e nas festas de fim de ano. Lembrou de Dona Iolanda, uma antiga patroa que sofreu muito ao perder o marido para uma bela mulher, pois sua religião não permitia a vaidade e mesmo ela tendo muito dinheiro era uma mulher desleixada, beirando a feia.

  Aos poucos sua memória foi trazendo história que anteriormente Catarina não dera a mínima importância, como quando era criança e ia aos finais de semana na casa de sua avó visitá-la e passava o dia sem ver televisão porque a religião dela não permitia. Lembrou um caso muito engraçado que acontecera há alguns anos atrás, uma moça da vizinhança e seu noivo eram de uma determinada religião que não permitia sexo antes do casamento, os pais dos noivos gastaram tubos de dinheiro no casamento que não durou nem três meses uma vez que eram incompatíveis sexualmente, e deste caso veio a sua mente alguns outros, como o do filho do senhor Rômulo que era um ótimo menino, educado, cavalheiro, sempre ajudava às senhoras a subir a ladeira carregando sacolas pesadas, era muito inteligente, sempre ganhava premiações na escola e teria um futuro brilhante se ao descobrir que o filho era homossexual o pai não o tivesse colocado para fora de casa dizendo que Deus havia feito apenas o homem e a mulher e que certamente ele era obra do Diabo.

  Ah, lembrou da Luciana, a Lucy, uma jovem bonita mesmo, sempre bem arrumada com roupas finíssimas, Lucy fazia faculdade, trabalhava e ajudava em casa, na condição humilde dos moradores de Iponéia a filha de Seu Tito e Dona Carmem mantinha um padrão muito bom de vida dando comodidade e conforto aos seus pais, mas estes quando descobriram que a menina era acompanhante de luxo de empresários não tardaram a escorraçá-la de casa proferindo a ela os mais diversos nomes, meretriz, Maria Madalena, entre outros. O curioso é que mesmo tendo ido embora de casa Lucy nunca deixou de enviar dinheiro que eles nunca acharam ruim em aceitar.

Olha só o que Catarina foi lembrar, que quando era menina chegou algumas vezes a acompanhar sua mãe no serviço, que assim como o dela era de doméstica. Sua mãe trabalhava na casa de um senhor chamado Crispim, um viúvo que morava com a irmã, pela beleza e dimensão da casa Catarina imaginava que eram muitíssimo ricos, porém Eulália, irmã de seu Crispim só receberia sua parte da herança quando casasse, o fato foi que a escolha da moça não agradou o irmão, pois Eulália se apaixonou por um jovem lindo e negro que era de outra religião. A conclusão é que Eulália escolheu o amor e saiu de casa com uma mão na frente e outra atrás, pois o irmão dela não aceitou o relacionamento, é bem verdade que neste caso Catarina não saberia dizer ao certo se foi realmente por causa da religião, por causa da raça do rapaz ou se o irmão queria ficar com todo o dinheiro para ele.

  Pensou que as religiões contribuem em muitas coisas, pois fornecem apoio, equilíbrio, paz, reflexão, mas que de fato às vezes as pessoas se utilizam dela para humilhar, excluir, julgar, condenar. Refletiu sobre o tanto que as pessoas já haviam sofrido em nome de alguma religião, por não compreenderem, por levarem ao pé da letra alguns ensinamentos que muitas vezes haviam sido escritos como enigmas, como era mesmo que o padre Simão havia dito uma vez em uma missa que Catarina tinha ido quando era pequena? Ah, que os ensinamentos eram passados por meio de parábolas… Catarina ponderou que se as pessoas têm dificuldades em entender o que é dito em sentido literal o que dizer de ensinamentos passados por meio de parábolas?

  Lembrou do que Dona Divina disse na palestra, e analisou que realmente nenhum líder religioso havia escrito nada, quem havia escrito eram os discípulos, ou seja, pessoas comuns, pessoas com fé, mas pessoas comuns como ela, de repente veio a sua mente a corrupção os jogos de interesse, de poder. Catarina considerou que muitas Instituições religiosas ganhavam rios de dinheiro e isso era fato, noticiado na televisão e em jornais, verdadeiros escândalos. Assim era fácil ganhar dinheiro em cima do sofrimento, angústias e ignorância do povo. Talvez os ensinamentos pudessem ter sido escritos moldados aos interesses de alguém. “Quem conta um ponto aumenta um ponto”. Sim, todos concordaram com isso, então não há garantias, não há certezas.

  Catarina sentiu pontadas de revolta, nunca havia parado para analisar tais fatos, e olha que na segunda-feira quando saiu da palestra sentiu-se incomodada, teve a impressão que Dona Divina estava falando mal de alguma religião, que estava tentando desestimular as pessoas, mas agora via claramente que não era nada daquilo, que sua intenção era mesmo a de fazer as pessoas pensarem e isso foi o que Catarina não conseguiu parar de fazer durante toda a semana.

  Em um determinado dia daquela semana ao chegar ao serviço repleta de dúvidas e incertezas Catarina assustou-se ao ver que Debi ainda estava em casa, pois a patroazinha deveria estar na faculdade naquele horário. Catarina questionou o que havia acontecido e Debi respondeu que estava apenas com preguiça mesmo, Catarina achou estranho, todos aqueles anos nunca tinha visto Debi faltar a faculdade, mas o que é que tinha, todo mundo tem direito a um dia de preguiça… Aproveitou aquele momento em que estavam sozinhas para conversar um pouco com ela enquanto preparava seu café, pois se Debi fosse rude com ela pelo menos não passaria tanta vergonha.

    – Você faz faculdade de História, né Débora?

  – É. – respondeu a menina demonstrando desinteresse, mas Catarina insistiu.

  – Vocês estudam sobre religião?

  – Não. Teologia estuda religião, mas vemos alguns fatos históricos referentes à religião. Por quê? O que quer saber Catarina?

  – Não sei, talvez se as religiões sempre ajudaram as pessoas no decorrer da história.

  – E por que isso agora?

  – Nada, só curiosidade.

  – Então Catarina, esta resposta depende do ponto de vista de cada um, ajudou alguns, destruiu outros. O Cristo, por exemplo, por causa de interesses políticos Pilatos lavou as mãos, deixou um homem que não fez nada de errado morrer, ele poderia ter feito alguma coisa, mas foi covarde e em minha opinião foi conivente, pois teve medo de perder seu governo e sendo assim foi culpado também. Sabe Catarina, eu penso da seguinte maneira, se você não ajuda uma pessoa podendo fazê-lo, você está sendo conivente com o mal que desta atitude resultou.

  Catarina olhou para aquela menina a qual sempre tivera julgado como sendo fútil e pensou que assim como ela as outras pessoas têm a mania de julgar sem conhecer, jamais ela poderia imaginar que Debi tivesse pensamentos tão maduros e benevolentes como àquele que acabara de expor. Foi mais além em seus pensamentos analisando que talvez a massa ignorante estivesse centrada mesmo nas periferias.

  – Temos como exemplo Catarina a Inquisição que começou lá pelo ano de 1200 a qual a igreja católica criou um tribunal para julgar os hereges, ou seja, as pessoas que não pertenciam a esta religião e nestes julgamentos normalmente as pessoas sentenciadas culpadas eram mortas.  Esta prática se estendeu por mais de 350 anos, há quem diga que alguns Trovadores na Idade Média louvavam a Deusa em suas cantigas de amor que para nós é ensinado nas escolas que eles cantavam o amor por uma rainha que nunca conseguiriam ter, uma mulher belíssima e inatingível.

  – Quem são os Trovadores? Quem é a Deusa?

  – Há, há, há, ai Catarina quem são os Trovadores é uma longa história que não cabe nesta conversa, fica para uma próxima, mas posso te dizer que nesta época, assim como em muitas outras antes e depois deste período havia pessoas que cultuavam a natureza tendo como representante desta prática a Deusa ou deuses em vez de apenas um deus e por isto eram caçados como bichos. Concomitante a esta época os estudiosos da ciência e da medicina que obviamente eram pessoas bem relacionadas tinham seus próprios interesses em acabar com curandeiros e parteiras e denominando-os bruxos estes eram julgados e queimados em fogueiras.

  – Então na realidade a religião sempre foi um mal na vida das pessoas.

  – Não! Como te disse anteriormente isto depende, depende de como as pessoas a interpretam e de que maneira a usam. Quando usam só a favor de seus ideais sem pensar na vida e no bem de todos, estas coisas abomináveis acontecem, mas quando se pensa em um mundo melhor onde todos vivem felizes e em harmonia temos aí uma prática limpa.

  Em meados de 1828 em Madagascar, na África, houve uma rainha realmente má, não como nos contos de fada, pois esta foi muito real. Seu nome era Ranavalona I, ela assumiu o trono após a morte de seu marido, ele enquanto era rei permitiu que missionários ingleses evangelizassem seu povo e deste trabalho também criaram seu alfabeto, pois o povo de Madagascar não tinha uma forma de escrita. Após a morte do rei e com a subida da rainha Ranavalona ao trono, esta só esperou seus interesses em nome da vaidade serem atendidos, pois os ingleses sabiam fazer sabão e a rainha desejava muito que seus súditos aprendessem aquela arte, então assim que ela se certificou de que sabiam a rainha decretou que qualquer pessoa que fosse pega com escrituras, professando outra religião ou até mesmo em atitude suspeita seria punida com a morte. A história diz que eram abertas valas gigantescas e colocadas várias pessoas presas a estacas, então derramavam água fervida em tonéis nestas pessoas até a altura da cintura para que morressem sentindo muita dor. Esta rainha tinha seus próprios ídolos, acreditava em encantamentos e montanhas encantadas.

  Viu só? Independente do que acreditamos é o uso que fazemos dos ensinamentos que é certo ou errado, pois podemos fazer o que quisermos, seguirmos o que quisermos desde que seja para o bem de todos.

  – É verdade, e o pior é que ao que parece antes as pessoas até lutavam por seus ideais, agora estão acostumadas a dizer amém para tudo.

  Quando Catarina olhou no relógio estava quase na hora do almoço, então ela correu desesperada atrás do atraso que sua conversa com Debi havia ocasionado.

  Ao fim do dia estava uma chuva muito forte e na hora em que Catarina passou em frente à igrejinha no caminho de volta para casa ela viu um cartaz pregado na parede, quase descolando e caindo devido à chuva.

Próxima semana teremos palestra com senhora Esperança.

Segunda-feira às 23:00.

Sua presença é muito importante.

Não falte!

Catarina entristeceu-se, havia feito muito bem sua lição de casa, acreditava ter aprendido muito com as reflexões que havia feito e com as explicações de Debi, de certa forma havia criado uma cumplicidade com Dona Divina, pois ela havia feito Catarina pensar.

A chuva apertou e Catarina também apertou o passo para não se molhar muito.

Continua

4 comentários em “A fé da gente – Lição I aprendida

  1. Está ficando cada vez mais interessante! Estas reflexões são simplesmente o que devemos fazer todo dia, antes de qualquer ato. “Isso vai me beneficiar, mas e as outras pessoas?” é um pensamento que devemos levar sempre conosco! Continua escrevendo porque tá bom demais ❤

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  2. Zuleika, sem zuera…… arregaçou sem descer do salto!
    Olha como uma história pode abrir nossos olhos!
    Obrigada por isso… entendo a Catarina, pois descobri todas essas coisas quando estava no ensino médio e foi muito tenso ver o pessoal xingando a professora, como se ela estivesse inventando algo.

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