Sociedade das Sombras: Beijo Eterno( Pt.10) – Rehael

Por Mille Meiffield

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LITZA

A floresta estava escura. Eu não conseguia enxergar um palmo a minha frente. Algo estava atrás de mim mas eu não conseguia mais correr. Minhas pernas doíam. Meus pulmões queimavam. Não conseguia respirar. Estava sufocando. Sentei embaixo de uma árvore enorme. Precisava descansar. Um medo de congelar os ossos me envolvia, não sei do que estava fugindo e não me lembro como vim parar aqui.

– Addam! – gritei – Addam, me ajuda.

Vozes fantasmagóricas chegavam a meus ouvidos. Eu estava apavorada. Sozinha. Uma forte ventania açoitava a parte exposta de minha pele.

– Liiiiiitzaaaaaaa… – uma voz fantasmagórica me chamou. – Venha aqui. Sou eu meu amor, Chris.

Comecei a correr novamente. Os galhos das árvores feriam minhas pernas. Eu tinha que continuar até encontrar uma estrada. Senti duas mãos se-

gurarem meus braços e gritei.

– Te peguei!

– Me solta, me solta. – comecei a me debater com toda minha energia reserva. – Chris me solta.

– Não sou Chris, meu nome é Rehael.

– Me solta.

– Calma Litza, estou aqui para te ajudar.

– Como você sabe meu nome?

– Sou seu anjo da guarda.

– Meu o quê?

– Olha, não temos tempo. Você corre perigo aqui, precisa encontrar o caminho para casa.

– Eu não sei como sair daqui.

– Venha, eu te mostro.

Rehael era a própria imagem de um deus. Seus cabelos negros como a escuridão da noite, olhos de um azul tão intenso. Ele me pegou no colo, abriu suas enormes asas negras e saltou em direção ao céu noturno. A floresta foi se tornando apenas um grande borrão, enquanto subíamos. Ele voava cada vez mais alto até que ficou difícil ver qualquer coisa abaixo de nós.

– Você deveria aprender a não confiar nas pessoas Litza, elas podem facilmente deixá-la cair.

Rehael me soltou no ar. Eu tentava gritar mas de minha boca não saía som algum. Eu começava a ver pequenos pontos de luz a minha frente e senti meu corpo se chocar contra algo.

***

Addam

– Litza, anjo, acorda, por favor. – Ela estava imóvel em meus braços. Seus lábios eram frios e começavam a ganhar tons lilases.

– Ela está em estado de paralização Addam, ela vai ficar bem. – Gilly falava suavemente. – Ela só precisa descansar, ela tem passado por muita coisa.

– Mas ela parece estar morta. – minha voz estava embargada. Meus rosto banhado em lágrimas. – Ela está morta Gilly.

– Não, não está. – Gilly foi firme em suas palavras. – Ela está absorta em si. Litza está viva, mas algo a prendeu em sua própria mente. Se ela ficar mais de vinte e quatro horas sem esboçar nenhuma reação, aí sim ela morre.

– Eu não estou conseguindo entender, por favor me explica melhor. Como posso ajudá-la.

– Não se pode fazer muito Addam – disse Petter. – Só alguém com um grande dom para a hipnose pode fazer isso. Litza precisa encontrar o caminho de volta, ela quebrou o encanto que Brian lançou nela, ela pode fazer isso de novo.

– Acho que podemos ajudá-la. – Dirk se aproximou do corpo de Litza. – Deixe-me ver. Ela comeu ou bebeu algo que não tenha vindo do nosso refeitório hoje?

– Não, ela nem queria comer, eu a forcei a beber um suco e comer uma fruta, ela só comeu isso.

– Ela não está num simples transe. Gilly, receio que haja algum objeto enfeitiçado no quarto da jovem. – disse Dirk.

– Impossível! – Gilly estava receosa. – Não tem como entrar uma magia do mundo externo em nossa Sociedade, todo o perímetro é cercado com feitiço de proteção.

– É magia antiga Gilly, tenho certeza.

– O que quer dizer com isso? – perguntei.

– Quer dizer que ela corre mais perigo do que eu imaginava. – Petter estava preocupado.

– O que vamos fazer? – não aguentava mais essas suposições.

– Eu sou um iluminado – disse Dirk.

– Um o quê? – indaguei.

– Um iluminado pode ter sensações sobre coisas ou pessoas, como um vidente, mas diferente em alguns aspectos. Os iluminados tem o poder de perceber se há algo errado e o que está errado. São filhos de nefilins com djamphirs. – explicou Gilly

– Somos uma raridade. – Dirk continuou a explicação. – Em todo o planeta, só existem sete iluminados, nós temos afinidades com os elementos da natureza e seus poderes.

– É, me desculpe, eu me lembro. – eu disse. – Meu pai, Alek me contou tudo sobre o mundo sobrenatural, mas eu não vejo como isso pode ajudá-la.

– Alguém de dentro da Sociedade das Sombras quer que ela morra. Ela precisa retornar logo e você pode trazê-la de volta.

– Como? – perguntei ansioso. – Por favor, me diga como posso fazer isso.

– Eu posso conectá-lo a ela, mas só por poucos segundos. Você terá que chama-la de volta, mas será muito rápido. Tente ser objetivo.

– Dirk, você acha que isso pode funcionar? – perguntou Petter.

– Tem que funcionar. – eu disse.

– Gilly, preciso de velas e sálvia trançada com lavanda. Petter, apague as luzes. Addam, me passe a Litza, preciso que você se deite no chão. Vou deitá-la junto a você. Se acomode de modo que seu rosto fique próximo ao ouvido dela, você precisa sussurrar a ela palavras que a façam voltar.

– O que eu digo a ela. – Perguntei a Dirk.

– Use as palavras de seu coração Addam. – Gilly havia acendido as velas e estava sentada ao lado do corpo inerte de Litza. – Você saberá o que dizer.

– Se preparem, vou começar. Addam, quando eu falar agora, você precisa ser rápido. Traga a princesa de volta.

– Estou pronto, eu preciso que ela volte.

– Perfeito. Petter, preciso que você defume o ambiente com a sálvia e a lavanda.

– Já estou fazendo isso.

– Então vamos começar.

Dirk se conectou a Terra, ao Ar, ao Fogo e a Água. Com uma curta meditação sua aura começou a se tornar palpável. Em poucos minutos ele era apenas Luz.

– Agora Addam.

– Litza, volta para mim. Eu te amo. Anjo.

Dirk gritou e começou a cambalear ao meu lado. Petter o segurou para que não caísse no chão. Gilly se levantou imediatamente para ajudar Petter a levar Dirk até um pequeno catre que estava na lateral do salão do Conselho.

– Não sei o que aconteceu, eu estou exausto.

– Você usou muita energia para falar com a Litza. Sua energia vital. Você precisa se alimentar.

– Eu não vou sair de perto dela.

– Addam, Gilly e eu vamos levar Litza para o quarto. Quando você terminar de se alimentar poderá ficar com ela. Dirk vai com você até o refeitório.

– Mas Petter…

– Ela precisa descansar Addam, e sua presença ao lado dela vai ajudá-la a regressar. Mas se você não estiver bem, Litza não vai sentir sua energia.

 

***

Litza

 

            O vento estava forte. Fazia muito frio. Eu usava um vestido branco de tecido fino, quase transparente. Levantei da cama e subi uma pequena escada. Estava num barco, em alto mar.  Não conseguia ver nada além de umas poucas luzes do próprio barco.

– Que bom que você acordou.

Gritei e pulei ao mesmo tempo. Um arrepio gelado de medo subiu por minhas costas me fazendo estremecer.

– Tome. – ele me entregou uma jaqueta. – vista isso aqui.

– Quem é você? – perguntei

– Eu já te disse, sou Rehael, seu anjo da guarda.

– Eu não acredito nessas bobagens, exijo que você me leve para casa.

– Você mesma terá que encontrar o seu caminho, eu não posso leva-la, apenas protegê-la.

– Me proteger? – eu estava cansada desse jogo de gato e rato. Não fazia ideia de onde estava, nem do que estava acontecendo. – Eu quero ver o Addam, agora!

– Sei que é isso que quer. Ele tentou falar com você, mas acho que você não se lembra das palavras dele.

– Addam está aqui?

– Não Litza, nós estamos no Mundo Longínquo, Addam não pode entrar aqui, a não ser que esteja morto.

– Eu estou morta?

– Estaríamos conversando se estivesse?

– Como vou saber? Nunca morri.

– Você não está morta. – disse Rehael como se dizer isso lhe causasse dor. – Seu espirito deixou seu corpo porquê sua comida estava enfeitiçada.

– Isso para mim parece a mesma coisa que estar morta.

Rehael pegou minha mão e me levou de volta a cabine do barco.  Ele abriu uma pequena geladeira, pegou uma caixinha de suco e me entregou.

– Beba um pouco.

– Não estou com sede.

– Anjo, isso não é uma bebida comum. Você vai precisar disso se quiser voltar para casa.

– O que é isso?

– É um simples suco de fruta, mas nele contém uma poderosa magia. Magia análoga a que trouxe você até aqui.

– Se eu beber isso…

– Vai ficar mais forte para poder voltar.

– Por que está me ajudando Rehael?

– Por que eu já disse que eu sou…

– Não acredito nessa história, vejo em seus olhos que é mentira. Eu não entendo porque me ajuda. Você é um deles? Um dos “Caídos”?

– O que você sabe sobre isso? – Rehael levantou-se e derrubou o copo que estava em sua mão.

– Nada, ouvi Addam e seus irmãos falando que meu tio era aliado dos “Caídos”. É isso o que você é? Um Anjo Caído?

– Sim. – disse ele visivelmente irritado. – Eu sou um Anjo Caído.

– Você está aqui para garantir que eu não volte? – perguntei – Vai me matar?

Ele soltou uma gargalhada estrepitosa e me segurou com força pelos braços. Me levantou e ficou olhando no fundo de meus olhos por

longos segundos. Rehael prendeu seus dedos em meus cabelos puxando delicadamente minha cabeça para trás. Ele aconchegou seus lábios em meus ouvidos.

– Litza, volta para mim. Eu te amo. Anjo.

Meu peito começou a arder. Sentia brasas em meus pulmões cada vez que tentava respirar. Uma dor aterradora atingiu minha cabeça e eu a segurei com as mãos, tentando contê-la. Fiquei nauseada e tonta. Levantei e vomitei. Nada saía de meu estômago, mas a ânsia continuava.

– Calma. – disse uma voz conhecida. – Bem vinda de volta Litza.

Era a voz de Petter. Eu a reconheci. Minha visão estava turva, mas eu sentia que se estabilizava lentamente.

– Eu não estou enxergando direito.

– Você estava no Mundo Longínquo. – era a voz de Gilly. – Aquele é um lugar entre dimensões. Espíritos aprisionados como o seu foi, vagam pelo Mundo Longínquo por toda a eternidade, poucos conseguem voltar. Você se esforçou muito, sua visão vai melhorar aos poucos.

– Addam. Foi a voz de Addam que me trouxe de volta. – olhei para todos os cantos do quarto. –  Onde ele está?

– Ele gastou muita energia para falar com você através de um feitiço. Addam precisava se alimentar e repor as energias.

– Não, não perguntei por Addam, Rehael, onde está Rehael?

– Quem é Rehael, Litza? – perguntou Gilly sem entender.

– E.. eu não sei, ele estava comigo lá.

– Tinha alguém com você no Mundo Longínquo? – perguntou Petter.

– Sim. Primeiro eu pensei ser a voz de Chris, mas depois ele apareceu, disse que era meu anjo da guarda, mas não, ele parecia ser o que vocês chamam de “Caídos”.

– Seria esse Rehael? – perguntou Addam. Ele estava sério. Parecia triste.

– Addam. Addam, como eu te chamei. Por favor, nunca mais me deixe sozinha.

– Parece que você não estava tão sozinha. – disse Addam colérico. – Esse Rehael deve ter sido uma ótima companhia.

– Addam!

– Chega Litza! Eu não quero mais ser sua segunda opção. Primeiro Chris, agora esse Rehael.

Addam saiu do quarto batendo a porta com força. Lágrimas escorreram por meu rosto e me encolhi em posição fetal. Parecia que sempre precisava juntar meus pedaços. Sem Addam me sentia vazia, sem vida. Incompleta.

– Eu vou falar com ele Litza. – disse Petter.

– Ele tem razão. Eu dormi com Chris, e quando voltei ao meu corpo perguntei por Rehael e não por ele.

– Não, Addam está com ciúmes. Você não teve culpa do que houve com o Chris, eu sei, eu estava lá. Ele virá falar com você, dê um tempo a ele.

– Eu só não entendo uma coisa. – disse Gilly. – Você deveria estar sozinha no Mundo Longínquo, não imagino como esse Rehael foi entrar lá. Só espíritos aprisionados vagam por essa dimensão. E por falar nisso, vou pedir a Garret, um dos nossos cozinheiros, para fazer a sua refeição meticulosamente. Se isso se repetir, você pode não voltar mais.

– Isso o quê? – perguntei

– Alguém colocou um forte feitiço em sua refeição. – explicou Gilly. – Você estava conversando conosco e desmaiou. Dirk e Addam a trouxeram de volta.

– Addam. – Falar seu nome me afligia.  – Eu gostaria de ficar um pouco sozinha.

– Litza, Addam te ama. – disse Petter

– Eu sei, eu também o amo.

Gilly e Petter foram embora. Quando eu ouvi o som da porta se fechando, empecei a chorar.

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