A fé da gente – Lição 1

Lição 1

 

A fé da gente

Lição 1

Escrito por: Zuleika Juliene

 

  Finalmente a tão esperada segunda-feira chegou e parecia que para Catarina o dia se arrastava, também pudera, a cada cinco minutos o relógio era consultado e desta maneira não há tempo que possa passar, o trânsito naquele dia também decidiu colaborar para a angústia dela fazendo-a imaginar que jamais chegaria a tempo, porém o que ela não sabia é que há coisas que estão escritas, coisas que inevitavelmente acontecerão e a ida dela àquela reunião era uma destas coisas.

  De tão parado que estava o trânsito Catarina decidiu tirar uma soneca, temia por ter um ataque cardíaco caso continuasse naquela expectativa. Quando acordou já estava perto de descer, correu mais do que nunca, pois para quem ainda teria que chegar e preparar janta ela estava por demais atrasada, sem contar o fato de que ela gostaria de se arrumar, nem que fosse um pouquinho, afinal de contas como seria admitida em uma igreja como aquela, que no mínimo deveria ser muito rígida para darem cinco palestras introdutórias antes dos membros iniciarem, sem estar nem um pouquinho arrumada, e a primeira impressão, sempre ouvira falar que a primeira impressão é a que fica, então queria estar muito bem preparada, pois sentia que sua vida iria mudar naquele dia.

E se quer saber estava com sorte, pois naquela semana sua patroa havia feito uma limpeza em seu guarda-roupas e Catarina aproveitou muitas peças planejando estar bem vestida em sua nova caminhada.

  Pronta e elegante com direito até a um saltinho Catarina dirigiu-se a igreja, o coração acelerado, os pensamentos descoordenados, quem será que ela encontraria lá? Haveria muitas pessoas conhecidas? Qual seria o tema da palestra? E se fosse chato e maçante, ela sentia-se muito cansada, com muito sono, como seria deselegante se ela dormisse durante a palestra, mas duraria apenas uma hora. Catarina olhou para o pulso esquerdo e percebeu que havia esquecido o relógio. Que droga! Mas não tinha problema, de certa maneira era até bom, assim se estivesse chato ela não daria uma de mal educada consultando ele a cada segundo.

  A primeira coisa que notou ao entrar no salão da igreja foi a luz fraca, amarelada, notou isso antes mesmo de notar o quanto o chão brilhava apesar da pouca luminosidade, antes mesmo de sentir o perfume de rosas e de ter a sensação de já ter estado lá.

  A sala estava cheia, mas não lotada, havia lugares ainda a serem preenchidos, mas que pelo horário certamente permaneceriam vagos. Dona Divina estava linda, parecia uma rainha, vestia um terninho em tom pastel e o cabelo preso em um coque muito elegante, a maioria das pessoas ali haviam se preocupado com a aparência, ela estava certa, aparência era muito importante. Catarina procurou um lugar bem à frente para se sentar, pois a palestra já iria começar.

  – Quero agradecer a presença de todos, sei que muitos que aqui estão vieram de muito longe, mas que todos tem um ponto em comum, vieram aqui atrás de algo, seja uma resposta, um caminho ou uma mudança, não tenho dúvidas de que estão no lugar certo.

  Quero que reflitam sobre o que é uma religião, as consequências de aderirem a uma, qualquer uma. Quero que pensem nos compromissos e responsabilidades que terão que assumir ao se declararem pertencentes a uma religião. Pensem nas imposições, nos deveres, pensem nos ensinamentos.

  Apesar do meu pedido sei que nesse instante estão pensando que para analisar todos estes pontos teriam que ter uma religião definida, pois cada uma tem normas distintas a serem seguidas, então peço que pensem de forma geral, pensem em todas as que conhecem, pensem nas regras, nos amigos, nos vizinhos, nos parentes. Tendo em vista a religião de cada um pensem em como levam suas vidas e em que a religião contribui.

  Houve uma pausa e muitos burburinhos foram escutados, a inquietação era geral. Catarina observava as pessoas, observava Dona Divina que olhava a todos com olhar examinador, para falar a verdade Catarina não sabia o que pensar, nunca em sua vida havia parado para pensar em tais aspectos e como não poderia imaginar sua participação em uma dinâmica como aquela, não estava preparada para aquilo também.

  Passados aproximadamente uns dez minutos Dona Divina retomou a palavra.

  – Sei que o que pedi a vocês não é tarefa fácil, nuca foi e nunca será, mas para fazermos parte de algo temos sempre que refletir sobre os diversos aspectos que disso fazem parte e creio que a maioria das pessoas não o faz.

Agora gostaria que analisassem uma frase, quem conta um conto aumenta um ponto. Pensem, esta máxima é verdadeira?

  Rapidamente pode-se observar que a resposta era unanime e incontestável, todos concordavam que quem conta um conto aumenta um ponto, esta verdade era universal, todos já haviam vivenciado algum fato que ao reproduzirem haviam exagerado no calor da empolgação ou diminuído também por acharem irrelevante.

  -Digam-me agora quem aqui presente conheceu pessoalmente o líder de alguma ordem ou quem tem conhecimento de que algum líder tenha escrito ele mesmo os preceitos a serem seguidos por alguma religião. Digam-me qual deles instituiu a construção de algum templo, sua frequência, seus impostos e regras não condizentes com seu tempo.

  Desta vez o salão pegou fogo, as divergências de opinião levaram tempo até serem silenciadas, as pessoas sentiam-se incomodados com tais questionamentos, nunca haviam sido levadas a pensar sobre tais questões e era provável que mesmo de porte das respostas muitos tivessem resistência em analisar algo que para eles era incontestável.

  -Vejo aqui o produto mais importante e o que mais leva tempo de ser adquirido, a fé. Sabemos que alguém tem fé quando mesmo não vendo ou não sabendo direito das coisas a pessoa não contesta, não questiona, não duvida. A fé é algo realmente poderoso, a questão é o como ela é usada? Para que ela é usada? Para manipular? Para amedrontar? Uma pessoa que tem fé é capaz de qualquer coisa em nome disso, é capaz de destruir, de aniquilar, de humilhar, de matar.

  Uma pessoa que tem fé age em nome desta mesmo sabendo que pode estar cometendo um crime, mesmo indo contra seus princípios, mesmo que esteja nas escrituras, para esta pessoa os fins justificam os meios, para esta pessoa não importa o individuo o que importa é a palavra, não importa a vida e talvez ela se confunda sobre o significado de dignidade. Creio que uma fé mal direcionada forme um exército de escravos, robôs que agirão sem a mínima reflexão em nome de algo que não podem provar, pois não têm conhecimento de quem ditou tais regras.

  Esta semana quero que reflitam sobre o que foi dito aqui e nos veremos na próxima segunda-feira às vinte e três horas.

  Catarina já estava há algum tempo com vontade de ir ao banheiro e quando ela voltou não encontrou mais ninguém no salão. Sentiu que aquela palestra havia sido muito pesada e que assim como ela muitas outras pessoas estavam analisando se de fato iriam voltar na próxima semana.

Continua

3 comentários em “A fé da gente – Lição 1

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s