Maysee, Um Toque do Mar [Parte 4]: Descobertas

mulher-idosa-rugas-1307386280006_956x500

O resto daquele dia foi completamente distinto de todos os dias que Loreena ou Emilly tenham passado naquele chalé. Lore não parou de pensar em tudo, mesmo depois que a chuva diminuiu pelo meio do dia e cessou pela tarde. Seus pensamentos sobre a visão do monstro, o nome em sua mente e a foto da tia mais jovem, atrasaram e atrapalharam todos os seus afazeres, e ela apenas podia ansiar que a qualquer momento acordasse e tudo não passasse de um sonho louco.

Emilly, por sua vez, estava inquieta com a repentina aparição de Claud. Sonhou por tantos anos que tudo voltasse ao normal. Embora não estivesse arrependida de suas escolhas, sua renúncia pesava hoje, mais que nunca, e todos os anos vivendo só nunca pareceram mais vazios. Mesmo 18 anos atrás, quando teve que agir em segredo, pois havia renunciado, essa escolha não pesou. Agora parecia suportar todo o peso do mundo. Abandonar seu lar, esquecer seu nome e deixar seu marido e único amor partir, foi a decisão mais difícil, porém necessária naqueles tempos turbulentos e difíceis, onde todos eram suspeitos ou estavam escondidos.

Não era agora que iria olhar para trás. Seu relicário estava perdido no fundo do mar, seu nome agora – e desde 42 anos atrás – era Emilly Sweem, uma velha humana, doente demais para andar na praia, mas saudável o suficiente para cuidar de suas sobrinhas-netas, órfãs. Ao menos uma era. “Ah, Loreena,” pensou, “você consegue sentir sua origem, mas não faz idéia de nada.”, e olhava Loreena ajudando a limpar a casa com aparência de que estava pensando muito mais longe que o chalé. Uma das maiores dores de Emilly: nunca entender direito a própria sobrinha. A sobrinha legítima. As conjecturas de Emilly a atordoaram por todo o dia.

Apenas Jane parecia estar animada, em uma sintonia completamente diferente das suas parentas, de modo que cantarolava enquanto fazia o dever de casa, afinal na segunda haveria aula, mas sua mente divagava entre os fogos de artifício e a promessa do tempo que o dia seguinte seria seco e agradável.

_X_

– Nossa! – Jane exclamou ao descer as escadas para o jantar – Que clima esquisito é esse nessa sala?

– Como assim, querida? – Emilly perguntou, enquanto punha os pratos na mesa.

– Sei lá! Essa sala parece afundada numa névoa de depressão nostálgica! – Exclamou.

– Deixe-me adivinhar – Loreena falou, trazendo a travessa com o jantar – Você tirou essa frase daquele livro velho que estava lendo esta manhã?

– Haha – Jane mostrou-lhe a língua e dirigiu-se para a copa buscar os copos e a jarra de suco. – Loree – Cantarolou ao voltar e sentar à mesa.

– Humm – respondeu a irmã, distraída enquanto servia a comida.

– Está animada para amanhã?

– Amanhã…? – Loreena repetiu com a mente ainda no monstro, Jane revirou os olhos.

– Sim! Os fogos amanhã à noite, lembra?

– Ah… – Loreena deu atenção a Jane – Acho que não vou mais. – Estava sem vontade alguma de sair para festa. Depois de pensar muito, imaginou que seria terrível se aparecesse um monstro daquele na praia durante a festa, e se fosse só imaginação de Loree, seria um verdadeiro desastre.

– COMO ASSIM? – Jane esbravejou – Você prometeu hoje cedo!

– Shiii! – Emilly interveio – Não grite á mesa, Jane. – Disse, e Jane cruzou os braços afundando na cadeira. – Loreena, por que não quer ir? – Falou virando-se para a outra.

– Porque eu não estou a fim de festas. Porque as amigas de Jane não gostam de mim e eu não gosto de quem não gosta de mim. – Respondeu tentando enrolar a tia. Porém Emilly também estava interessada que Loree fosse à festa, afinal Claud não poderia vê-la. Se ele chegasse e a encontrasse ali logo saberia. Ela precisava fazer Loreena ir a todo custo.

– Querida, você passa muito tempo em casa… – disse com suavidade – E você parece tão triste em alguns dias… Talvez sair um pouco possa te ajudar a se sentir melhor.

– Mas eu saio. – Loree rebateu enquanto comia.

– Quis dizer sair para onde tenha pessoas e movimento. Uma festa. – foi a vez de Emilly revirar os olhos. – Sair de madrugada para tomar chuva correndo o risco de ser pega por um furacão ou ciclone não se enquadra na minha categoria de “Sair para se sentir melhor”. – Concluiu apontando o garfo para ela.

– Mas tia Emy! Eu não gosto das pessoas daqui. – Loreena retrucou, ficando sem argumentos.

– Está vendo? – Jane interrompeu a tia que abriu a boca – Ela diz que as pessoas não gostam dela, mas é o contrário!

– Jane, silêncio! – Emilly foi firme desta vez. – Não quero saber de desculpas, está bem? A cada dia vejo você mais depressiva! Não quer fazer uma faculdade, não quer ir trabalhar. Eu sei que você não quer me deixar sozinha, até mesmo pela minha idade – Disse e quando viu que Loreena ia abrir a boca levantou o dedo – Mas não pode deixar de viver por minha causa. E se isso não é argumento suficiente, não vou permitir que sua irmã de 14 anos saia sem sua companhia.

– Então não deixe que ela saia! – Loreena disse sem pensar, recebendo uma careta de Jane.

– E confiná-la à sua depressão e à minha velhice? – Emilly rebateu – Ela vai para os fogos, e você vai junto. – Quando viu o olhar acusador de Lore, como se Emilly a tivesse traído, concluiu – Que eu me lembre ainda sou a responsável pelas duas na casa, e por mais que você já seja maior de idade, você não trabalha e mora comigo, então obedece a mim. Você nunca me ouviu quando pedi para não sair na tempestade e agradeceria se me obedecesse pelo menos dessa vez. É para o seu bem. Para o bem das duas.

– Ok – Loreena suspirou e empurrou o prato pra frente – Mas não vou ficar andando atrás das amigas de Jane e se eu me entediar, volto cedo para casa. Ela sabe o caminho sozinha.

– Você vai ficar pelo menos até os fogos. Prometa. – Emilly barganhou, sabendo que os fogos começariam à meia noite, seria tempo suficiente para que Claud viesse e saísse sem vê-la.

Loreena apenas assentiu e pediu licença para se retirar. Para sua própria infelicidade viu o olhar triunfante de Jane. Lavou rapidamente seu prato e correu escada acima para seu quarto, onde escreveu sobre o dia até adormecer sobre seu caderno.

 

 

No dia Seguinte

O dia fora de sol intenso e muito movimento na praia. Carros, vendedores e pessoas iam e vinham pela estrada da praia em frente ao chalé, em geral pouco movimentada. Mas tudo teria que estar pronto antes do por do sol, quando o festival começaria. Seria uma semana de comemorações pelo aniversário de Bluecastle. Esta noite seria a abertura, e todos estavam ansiosos. O píer, a oeste, seria o palco das principais atrações e todas as praias próximas estariam lotadas de turistas. Bandas foram convidadas, dançarinos locais, atores para contar a história da fundação da cidade.

Loreena sabia que teriam algumas exposições interessantes, mas seu humor não estava em sintonia com festa. No ano anterior ela fora sozinha dar uma olhada nas amostras de artesanato, na feira de roupas e artigos locais e até assistiu a um show e à peça da fundação. Mas neste ano estava muito desanimada. Não tinha pais, não tinha amigos, nem emprego ou universidade. Tinha apenas uma vida, a qual sobrevivia todos os dias por sua tia e sua irmã, que por sinal não estava nem aí para a vida de Lore, mais sim e viver a própria.

Às 18h as duas estavam terminando de se ajeitar, Loreena vestia-se da forma de sempre: shorts, botas, camiseta estampada com um desenho que ela mesma pintou e seus anéis de pedras. Os cabelos ruivos ondulavam em volta de si e não se deu ao trabalho de maquiar-se, pois não tinha motivos para isso. Mesmo assim ela destacava-se.

Saiu do quarto suspirando, ainda com um pouco de rancor pelo complô da noite anterior e ainda preocupada com a manhã passada. Deparou-se com a tia ao pé da escada, aguardando-a descer.

– Você está tão linda… – Emilly falou suavemente.

– Obrigada tia Emy. – Loreena não tinha como ficar com raiva da tia por muito tempo.

– Você cresceu tanto desde que chegou aqui. Tinha só quinze anos, e agora, que moça você está! – Abraçou Loreena, que achou o gesto um pouco estranho, mas abraçou a tia para confortá-la.

– Ora tia, não se preocupe. E eu já tinha quase 16 quando cheguei aqui. – Loreena respondeu simplesmente e separou-se da tia. – Jane! Se você não descer em 3 minutos eu vou embora sem você! – Falou mais alto. – Eu não estou muito a fim de ir para essa festa, e se eu for na frente você não me verá por lá!

– Calminha! – Jane apareceu no topo da escada com um vestidinho branco de algodão e descalça. Parecia uma hippie, loira e leve. – Porque está de bota? Você é louca por acaso? Nós vamos à praia caso não tenha notado.

– Caso não tenha notado, – Lore revirou os olhos – Eu não estou a fim de ter meus pés pisoteados. Vamos?

– Deixa eu pegar minha bolsa! – Jane deu um salto e voltou ao quarto.

– Leve isto para comprar o que quiser – Disse a tia assim que Jane sumiu, entregando a Loreena um pacotinho, que ao pegar percebeu ser dinheiro.

– Não precisa tia! Tenho minhas economias.

– Claro que precisa! – A tia empurrou o pacotinho na sua bolsinha – Para compensar sua saída, caso goste de algo e caso alguma atividade seja paga. – Loreena agradeceu a tia e saiu assim que Jane desceu. – E não volte antes dos Fogos, Lore! – Emilly reforçou. Loree acenou e acompanhou a irmã até o píer, a um quilômetro da casa.

_X_

O píer ainda estava vazio, mas toda a área em volta, pela praia estava completamente lotada de barracas, mesas e vendedores ambulantes. Desta vez o palco fora montado na praia, ao lado do píer. Os fogos sairiam do próprio píer e de toda a área em volta. O palco secundário, onde as apresentações de teatro e dança seriam exibidas, estavam do lado esquerdo, do outro lado do píer. A ornamentação estava muito bonita. Várias faixas de azul e dourado enfeitavam as tendas. Brasões com o símbolo de Cleanhad, a família fundadora de Bluecastle em 1200, ornavam paredes e postes. Era quase uma feira medieval com coisas históricas e modernas.

Logo as irmãs estavam distraídas com os objetos ali expostos. Loreena notou que havia muito mais barracas que o ano anterior, e a área estava muito maior. Por ainda ser cedo, havia poucas pessoas no local. Era melhor ver tudo antes dos shows, pois depois estaria tão lotado que mal poderia se mover. Passaram por exposições de roupas e livros, pararam algumas vezes para ver um grupo de danças urbanas no meio das ruas que os grupos de barracas formavam. Jane se queixou que as amigas demorariam um pouco para chegar e resolveu parar em uma das lojas onde as peças pareciam mais baratas.

Loreena estava muito distraída olhando as pulseiras artesanais enquanto Jane escolhia um brinco. O problema de Jane escolher algo era que haviam tantos modelos que ela ficou perdida admirando-os antes de escolher. Hora ou outra pedia a opinião da irmã, até que Loreena mostrou um par que era de escamas de peixe brancas formando uma flor. Jane maravilhou-se com o artefato e decidiu levá-los. Quando ela dirigiu-se ao caixa, Loreena sentiu um cheiro peculiar que no primeiro momento não conseguiu identificar. Olhou em volta à procura da origem deste cheiro tão forte quanto um perfume, mas não poderia pertencer a um perfume.

Uma mulher levando um imenso mostruário de produtos hippies passou ao seu lado. O cheiro fazia lembrar algo que a levava a outro lugar, uma lembrança que não conseguia identificar. Um casal parou para olhar o mostruário e Loreena pode analisar a mulher. Ela tinha cabelos de um castanho médio, muito curtos e assanhados, num estilo menininho hippie. Usava uma blusa que parecia de algodão amarelo claro, jeans velhos e sandálias de couro artesanais. Sua pele era bronzeada e havia tatuagens nos pés e no braço direito. Uma bolsa marrom estampada com listras vermelhas e laranjas estava pendurada em seu ombro, e pulseiras de açaí e fio encerado enfeitavam seus pulsos.

Seu rosto possuía algumas linhas fonas perto da boca e na testa. Seus olhos estavam cobertos por seus óculos escuros de modelo aviador. Loreena achou um pouco estranho, considerando que o sol estava se pondo. De qualquer forma, não dava para saber a sua idade. Poderia ter 29 ou 50 anos. Era muito magra e menor que Loreena, que possuía a mediana altura de 1,70. O casal saiu de perto e a mulher ficou contra o vento, de modo que o cheiro açoitou-se. Era cheiro de mar, Loreena reconheceu, de coisas salgadas. Não aquele cheiro de melancia, mas um cheiro de algas marinhas na areia ao sol. Não era ruim. Causava uma nostalgia desconhecida, que a fazia sentir saudades de casa. Mas em sua velha casa nunca havia sentido esse cheiro.

– Lore? – Jane chamou – Vamos ver as outras barracas?

– Ah… – Loreena saiu da hipnose que aquele aroma causava, enquanto a mulher se afastava – vamos. Jane… – Começou – Você sentiu o cheiro daquela mulher que passou? – Por mais que estivessem na praia, não havia pessoas com tal cheiro.

– Aquela com protetor solar demais? – Jane disse franzindo o nariz – Ela exagerou mesmo, né?

– Não achei que fosse protetor… – Loreena respondeu, considerando que jamais havia sentido aquele odor em ninguém.

– Qual é? Tava na cara que ela passou protetor solar demais até! – Jane levantou os braços – Vamos. – Puxou a irmã em direção às outras barracas.

 

_X_

Já estava completamente escuro quando Loreena avistou as amigas de Jane próximas da barraca de livros. Suspirou e mostrou-as a irmã, que saltitou até elas para abraçá-las. Loreena a acompanhou quase à sombra, como se quisesse não ser notada. Mas é claro que era impossível, a começar pelo seu cabelo aceso.

Oiii Lorena! – Acenou efusivamente Charlotte, a pessoa mais desagradável que Loreena já conhecera, que errou de propósito o nome de Lore.

– Oi. – Loreena respondeu secamente, recebendo cumprimentos das outras amigas de Jane: Julie, Mary Ann e Kate. Jane lançou um olhar duro para a irmã ao ver sua expressão nada educada. – Bom, vou dar uma volta e ver as oficinas. Talvez a gente se esbarre na hora dos shows – Lore disparou, mais como uma desculpa para se afastar o mais rápido possível das amigas irritantes da irmã. Não ficaria para ver os shows. Veria os fogos e voltaria para casa.

 

 

5 km a Leste

Claud e Golde saíram do mar, secaram-se próximos ao rochedo da manhã anterior, onde verificaram ser pouco movimentado. Vestiram roupas secas e observaram o mar.

– Já sabe o que fazer Golde? – Claud falou ainda olhando o movimento das ondas sob a luz das estrelas.

– Sim, senhor. A movimentação deste festival parece estar no raio de interesses dos Telquines. Farei uma ronda por lá.

– Ótimo. Farei minha própria investigação pelos chalés… – Claud informou.

– O cheiro estava muito forte por lá não era? – Golde percebeu que isso preocupava seu superior.

– Sim, o dono daquele guarda-chuva precisa ser investigado. – Concluiu olhando agora em direção à luminosidade do Festival à Oeste.

Golde assentiu e caminharam silenciosos na noite escura, até chegarem próximo do Chalé das Areias e separarem-se. Claud esperava descobrir o que Emilly escondia. E Golde nem fazia idéia de que encontraria no Festival o que Claud procurava e muito mais.

 

 

Chalé das Areias

Emilly sabia que teria que conversar um pouco com Claud, despistá-lo e rapidamente ele iria embora. Sabia também que não poderia ter o que sentia tanta falta nos últimos anos, o amor de Claud. Agora ela era velha e ele permanecia jovem e forte. Provavelmente desposara outra pessoa e já teriam filhos…

Não. Claud passara algum tempo preso, informara a ela no dia anterior, e certamente considerariam isto antes de… Não, o seu Claud jamais desposaria outra pessoa. Ele só tinha dois amores: Emilly (sua Redy) e sua função na Corte. De qualquer forma, ela não poderia tê-lo nunca mais. Seu relicário fora perdido, e como não poderia fazer um novo, continuaria assim até a morte… Mesmo se Claud renunciasse, levariam anos para envelhecer e ficar igual a ela, ela já teria completado seu ciclo mortal e partido. Seriam díspares para sempre e isso a fez derramar algumas lágrimas.

E mesmo pensando nisso Emilly tomou um banho e perfumou-se, vestiu um vestido simples, mas bonito que a deixava pelo menos apresentável. Deixou os cabelos ondulados, mas já sem volume, soltos para trás. Sentia falta da cor deles, que originaram seu nome “Redy”. Parou na escada, para observar sua velha fotografia. Loreena era tão parecida com ela, uma herança de família os cabelos ruivos e os olhos verdes. Lembrou-se de sua irmã… Ah, quantos anos faziam desde que não pensava realmente nela?

Suspirou voltando o pensamento para si. Seus olhos serão os mesmos até a sua morte. E isso Claud reconheceria assim que visse Loreena. Não poderia permitir que ele encontrasse a sobrinha. Teria que mentir para ele, com muito pesar, pois antigamente dividiam tudo. “Antigamente”, reforçou mentalmente para si mesma.

Ainda tinha alguma ligação com ele, pois sentiu que ele chegara antes mesmo de ouvir as batidas na porta do quintal. Lembrou-se de anos passados, quando ele ia pescar e voltava sorridente com um Lunaris Óstis, um peixe de seu verdadeiro lar. Ajustou novamente o vestido impecável e caminhou para a cozinha, para abrir a porta e deparar com seu marido completamente seco e bem vestido.

– Boa noite Redy. – Ele disse estendendo a mão para tocar e acariciar as dela. Por um breve momento Emilly permitiu que ele a tocasse e depois recolheu as mãos, lembrando-se de que não era mais como antigamente. Ela observou seus olhos escurecerem um pouco – Posso entrar?

– Por favor, entre e sente-se à mesa. – Ela disse trêmula com as lembranças que a presença dele lhes trazia.

– Nossa cozinha não mudou muita coisa, não? – Ele riu olhando em volta. O mesmo ambiente semicircular, enfeitado com conchas e madeira, a bancada que separava a cozinha da sala de jantar forrada de madeira e enfeitada de xícaras e bibelôs. A velha pia com torneiras mais modernas, o fogão e a geladeira novos e o microondas, que não estavam presentes quarenta anos atrás. – Sempre cultivando essas flores, minha Redy e sua paixão pela Lavanda. – Falou contemplando o vaso com flores lilases sobre a mesinha da cozinha.

– Este não é mais meu nome. – Falou apenas. – Só me chame do modo certo. Não sou mais sua Redy.

– Porque está tão rebelde hoje? – Claud falou, parecendo magoado – Parece que até que está com raiva…

– Na verdade – Emilly disse ainda ríspida – Estou sim. De você aparecer aqui quarenta anos depois e me tratar como se nada tivesse acontecido e como se o tempo não tivesse passado.

– Ora Emy. – Claud falou apenas. Fechou a boca e a observou calmamente, analisando-a, pensando no peso que a escolha dela teve, em como deve ter sido difícil passar tantos anos sozinha naquele chalé.

– Porque está me olhando assim?

– Eu sinto muito. – E foi sincero, Emilly pode ver em seu olhar – Eu não podia permitir que nosso lar ancestral, que tudo que nossos pais e avós construíram ruísse daquela forma. Eu precisava proteger o berço, o mesmo que o seu, para que nenhum mal acontecesse… – suspirou – E, no entanto…

– Você falhou – ela disse, mas desta vez sem muita raiva na voz, mais como uma constatação do que uma acusação.

– Eu falhei e fui punido. – Ele continuou olhando para ela suavemente – Fiquei preso por tanto tempo depois de tudo… Eu não podia sequer renunciar, me juntar a você. Fui suspeito de ter ajudado no rapto, fui encarcerado, fui investigado… – Ele agora olhava para a mesa, Emilly conhecia Claud por tempo suficiente para saber que ele estava prestes a chorar.

– Eu sabia que você teria ficado. Mas eu não poderia ter feito escolha melhor. O trono pertence à minha irmã. Sempre pertenceu. Eu nunca tive o dom de liderança. Eu só queria dançar…

– Foi Tálassa quem me libertou. – Ele disse levantando o olhar e vendo que não deveria ter dito. O sangue fugiu do rosto já pálido de Emilly, que há muito tempo parecia não ter pensado sequer no nome da irmã.

– O que disse? – conseguiu dizer, recuperando o fôlego.

– Sua irmã conseguiu convencer Nered que eu não estava envolvido no rapto. – Explicou – Além do mais depois de tanto tempo, alguém capaz de sumir com o berço da corte já teria fugido daquela prisão. Ele argumentou que eu poderia estar esperando o momento certo para tirar o que sobrou. E ela simplesmente disse que a irmã dela jamais se casaria com um traidor. – Ele falou vagarosamente, para que as palavras não pesassem tanto sobre a frágil Emilly, que tremia, ainda em pé, com uma mão apoiada sobre a bancada e a outra sobre o coração.

Claud percebeu que ela não estava conseguindo falar e levantou-se apressado e pôs-se ao seu lado, ela respirava rapidamente, tentando absorver tantas revelações e sentimentos. Ligeiramente ele segurou seu cotovelo com uma mão e apoiou a outra em suas costas e a guiou para a sala, para sentá-la confortavelmente na poltrona que outrora pertencera a ele.

– Só preciso de um copo de água. – Emilly falou finalmente ao que Claud rapidamente foi buscar na cozinha e trouxe-lhe também o pote de vinagre para reanimá-la caso viesse a desmaiar. – Estou bem. Estou bem. – Ela disse ao terminar de tomar a água. – Sente-se. – concluiu segurando firme o copo na mão.

– Nunca pensei que a veria assim… – Ele deixou escapar lamuriosamente – Frágil, podendo passar mal e eu ter que cuidar de você como se fosse de cristal antigo e delicado… – Ela o encarava, muda – Você sempre foi tão forte e saudável, tão dona de si e… – As palavras sumiram de sua mente, olhando para ela ali e sentindo um desejo súbito de estar ao lado dela. De estar igual a ela, mas não nesta situação: ele jovem e ela idosa. Ele desejou ter renunciado e envelhecido junto a ela. Teriam tido filhos…

– Você… – ela falou parecendo ponderar para dizer – Você tem muitos filhos lá, Divère? – Ela a olhou com incredulidade, com certa vontade de rir, se a situação não fosse tão tensa ele certamente teria gargalhado com o absurdo que aquela pergunta representava e insinuava.

– Se eu… – ele repetiu – Tenho filhos? – Ela assentiu – Eu jamais me casaria com outra pessoa que não fosse você Emy! Eu amo você! Martirizei-me por todos esses anos por ter deixado você sozinha aqui, rezando que encontrasse alguém que cuidasse de você, mas sabendo que você jamais se permitiria ser tratada como frágil. Nunca imaginei… Nunca imaginei que poderia vê-la novamente. E encontrar você aqui, assim… Sozinha… Isso me dói no mais profundo arrependimento por não ter renunciado. Não fez diferença no fim das contas e acabei preso e você… Você ficou assim.

– Eu não estou sozinha. – Ela disse séria ignorando a constatação da idade. E ele a encarou por um segundo.

– Ah, sim… As garotas. – ele concluiu ao que ela assentiu – E onde estão?

– Jane e – falou com um aperto no coração – Loreena foram ao festival, ver os fogos. Elas me fazem companhia desde que seus pais morreram em um acidente. Sou sua tia avó.

– E como você conseguiu adotá-las?

– Apenas fui muito amiga da avó delas, Ligia, e ela só teve uma filha, Léa, a qual se casou e gerou Loreena e Jane. Então quando seus pais faleceram no acidente, Lígia já havia partido dois anos antes e eu era a “família” mais próxima delas, já que a família do pai nunca gostou de Léa. Eles eram pessoas muito boas.

– Entendo… – ele disse olhando em volta para mudar de assunto. – Eu…  Gostaria de rever a biblioteca. – disse saudoso, suspirando. – Tenho lembranças maravilhosas de lá.

– Seus livros ainda estão lá… As meninas os lêem, assim como os meus. Elas têm nosso apreço por leitura. – Emilly falou sentindo-se mais relaxada pela mudança de assunto.

– Posso?

– Vamos. – Ela disse levantando-se antes que ele oferecesse ajuda e atravessou a pequena sala até as portas duplas de corrediça. Claud entrou lentamente atrás dela, olhando para as estantes coladas na parede repletas de livros antigos e novos.

– Quase como me lembro. – sussurrou e caminhou até a lareira branca ornada de livros e porta-retratos. – Então… – falou analisando-os – São elas? – concluiu a pergunta para o extremo horror de Emilly, apontando para uma foto de Loreena e Jane com os pais às margens do Tâmisa, o London Eye atrás no céu crepuscular.  Ela havia esquecido completamente de ocultar os porta-retratos.

– S… Sim. Com os pais. – disse gaguejando e tremendo novamente. Claud voltou a atenção para os outros porta-retratos, onde haviam outras fotos delas.

Não tinha como não notar. “Ele descobriu” Emilly constatou. Era um destaque praticamente óbvio. Léa era loira, assim como Jane, os olhos azuis e brilhantes. Harry tinha cabelos escuros e olhos castanhos. Sua visão escureceu quando viu que Claud analisava uma foto apenas de Loreena num piquenique com suas cores ressaltadas, ruiva de olhos verdes.

____________________________________________________

Olá queridos leitores, estão curiosos? Espero que sim, porque vou postar outro capítulo já amanhã! Isso mesmo! Muitas surpresas e revelações acontecerão no Capítulo 5 de Maysee! Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar. G.W. ❤

4 comentários em “Maysee, Um Toque do Mar [Parte 4]: Descobertas

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s