A Garota Má (Pt.15): Sussurros Sombrios

Escrito por Natasha Morgan

tumblr_mqcfh6SUuN1qfn3d2o1_500

Willa acordou com lentidão.

Sua cabeça doía miseravelmente, pendendo para trás.

Ela franziu o cenho, sentindo seu corpo suspenso balançar.

Espere. Suspenso?

Ela forçou seus olhos a se abrirem devagar, a imagem meio embaçada. Grogue, deu-se conta de que estava sendo carregada, o corpo frágil jogado nos braços fortes de alguém. Forçou os olhos a clarearem, tentando enxergar e entender o que estava acontecendo… Porque tudo o que se lembrava era daquela maldita sérvia jogando sua cabeça contra a parede. Depois disso tudo ficou preto e ela mergulhou naquele mar de inconsciência.

Willa piscou uma vez, varrendo os olhos primeiro pelo lugar onde estava. Um corredor acarpetado de paredes floridas. O cheiro ali era doce demais, o que irritou um pouco seu nariz. Ela olhou para cima, para quem a carregava tão delicadamente. E o rosto que viu lhe trouxe uma onda de choque.

Impossível.

Seu coração começou a bater desenfreado, o medo se apossando de sua alma pequena. Lembranças amargas de um passado não tão distante a assombraram. Aquele rosto… Aquele maldito rosto!

Willa congelou, perdida em seus próprios temores enquanto era carregada para sabe-se-lá onde. Ela tentou se mexer, dizer alguma coisa, mas seu corpo e boca não lhe obedeciam. Estava paralisada naquele estado terrível de lentidão.

As paredes floridas passavam lentamente conforme o homem andava, causando enjoos na jovem. Ele parou diante de uma porta de ferro ameaçadora e a abriu. O quarto em que entrou era sofisticadamente rico em detalhes e luxo, obras de arte cercavam as paredes, vasos com flores repousavam nas escrivaninhas e uma cama vitoriana ocupava o centro, com um dossel elegante de madeira rústica.

O cheiro ali também era desagradavelmente adocicado, devido ao perfume das flores.

Willa foi delicadamente depositada sobre a cama. A colcha macia acolhendo seu corpo numa carícia suave. O homem deixou-a imóvel e soltou um suspiro, preparando-se para sair.

Ela abriu os olhos num rompante, assustada demais. O torpor finalmente deixara seu corpo, libertando-o daquela paralisia. Quando encontrou o olhar dele, o rapaz aparentou surpresa. Ah, não fazia parte dos planos ela estar acordada então.

– Você… – disse a menina, encolhendo o corpo na cama.

O homem fechou a cara, comprimindo os lábios numa careta severa. Seus olhos escuros em nada lembravam o homem gentil que costumava ser. Ele nada disse.

– Você me salvou? – ela perguntou, cautelosamente. Os olhos ainda bastante assustados.

Mas o sujeito nada respondeu.

Virou as costas e repousou a mão na maçaneta ornamentada da porta.

– Por quê? – Willa se ouviu sussurrando.

– Porque Bóris ordenou. – a voz do estranho lhe causou arrepios.

Willa pulou da cama, aterrorizada. Avançou sobre a porta, mas o homem a fechou antes que pudesse sequer tocá-lo, trancando-a ali dentro daquele quarto opressor e matando qualquer fagulha de esperança ainda viva dentro dela.

Willa deu de cara no metal gravado da porta, chorando copiosamente. Seus punhos esmurraram a pintura antiga enquanto ela gritava.

– August! Não me deixe aqui! – ela implorou.

Mas não ouve resposta a não ser o lamento de sua respiração ofegante.

E o medo profundo que habitava sua alma.

 

*-* *-*

Halle quase sorriu ao ver a pose desafiadora da mercenária. Há muito ouvira falar daquela mulher misteriosa, mas nunca pensou estar frente a frente com ela. Bom, ele também não imaginava que ela fosse tão bonita assim. Ao fitar aqueles lábios corados num sorriso repuxado de escárnio, soube imediatamente por que Cherry gostara daquela mulher.

Observou, pacientemente, enquanto King a recebia. Era notável a intimidade que ambos tinham um com o outro. O Mouro se aproximou com passos elegantes e lhe deu um beijo no rosto, sutilmente, mas quem observasse bem notaria os segundos demorados que aqueles lábios se demoraram na pele bronzeada.

Meera deixou-se sorrir, mais educada. E então olhou com curiosidade para a família Von Kern, que a observava igualmente.

– Temos uma situação… – King começou.

– Sim. Imaginei isso quando você estragou minhas férias. – a mercenária disse, um tanto distraída enquanto estudava Fridda.

A Bestemor da família mantinha uma postura firme, o pescoço lânguido erguido em algum tipo de desafio. Seus olhos azuis cinzentos fitaram a outra mulher fixamente, sem medo de ser desnudada por aquela observação metódica.

Meera pareceu gostar, pois seus lábios mais uma vez se repuxaram naquele sorriso presunçoso.

Sulten Løvinne – ela sussurrou, acariciando as palavras com um sotaque perfeito.

Fridda a acompanhou no riso.

– Borsahy.

King deixou escapar um pequeno palavrão ao mesmo tempo em que Klaus dava um passo à frente e Halle deslizava a mão para sua pistola, só por segurança. Apenas Sander parecia alheio ao que acontecia, concentrado no decote ousado da mercenária.

No entanto, não havia motivo para preocupações.

Meera limitou-se em ser educada.

– Quem diria que nos cruzaríamos de novo, velha.

– De novo? – Klaus parecia confuso.

Fridda sorriu, fazendo um pequeno gesto antigo ao qual a mercenária retribuiu.

– Nunca pensei que fosse um dia recorrer a sua ajuda, mas aqui estou. – Fridda se lamentou.

– O que quer de mim? – os olhos de Meera voltaram-se para King. – E o que você tem a ver com isso? Prometeu me deixar de fora de seus negócios com esta família.

– Eu só a chamei porque não temos mais ninguém a recorrer. – King disse.

– Cherry está em perigo. – Halle foi logo dizendo e cortando todo aquele papo furado. – Sei que vocês trabalharam juntas. Talvez isso signifique algo para você.

– Talvez. – a mercenária meneou a cabeça. – O que Cherry aprontou desta vez?

– O Búlgaro a levou. – Fridda disse, com uma voz incisiva demais.

Meera voltou seus olhos para ela.

– Então parece que você tem um problema, velha.

– E sua gente vai me virar as costas outra vez?

O restante se entreolhou.

– Depende. O que exatamente querem de mim?

– Não se faça de idiota, Borsahy! – Fridda avançou, com cara de poucos amigos. – Sabemos muito bem que você tem informações especiais do Búlgaro!

– Você é influente. – King concordou. – Uma viajante como você deve ter alguma pista.

– E se tem, Cherry nunca vai perdoá-la por não ter mencionado.

– Cherry não estava procurando pelo Magnata. – Meera disse. – E sim, eu tenho informações valiosas sobre ele. Talvez possa até ter uma vaga ideia de para onde ele a levou. A pergunta verdadeiramente interessante é: Quanto vão me pagar por elas?

Fridda rosnou.

– Achei que sua parceria com Cherry significasse alguma coisa para você. – Halle disse, um tanto sentido.

– Eu disse talvez.

– Maldita mercenária! – Sander resmungou.

– Eu não disse que sou santa, não é mesmo? Se querem caridade, procurem uma freira.

– Três milhões. – a voz de King retumbou, cheia de poder.

A mercenária voltou seus olhos para ele, com as sobrancelhas erguidas.

– Três milhões. – o Mouro repetiu. – Para nos levar até o Búlgaro e nos ajudar a resgatar Cherry.

– Agora está falando minha língua. – ela sorriu, lambendo os lábios de deleite. – Mas se quer que eu ajude a resgatá-la, vai custar mais caro.

– Eu não vou pagar para essa vadia me dar informações que eu posso arrancar! – Fridda fez menção de avançar no pescoço da mulher.

– Cuidado, Velha.

– Velha é a puta que te pariu! Vou lhe ensinar boas maneiras, sua menina abusada.

– Você já tentou, lembra-se?

Fridda rosnou.

– Chega, meninas. – King tentou intervir, mas tudo o que conseguiu foi ser fuzilado pelos olhos de ambas as partes.

– Eles pegaram Willa. – a voz de Sander preencheu o silêncio tenso. – E enquanto as duas estão sofrendo horrores nas mãos daquele porco búlgaro, vocês ficam aqui discutindo.

– A menina foi levada? – Meera olhou para o ruivo.

– Junto com Cherry. Estávamos tentando resgatá-la quando Cherry caiu nas mãos do miserável.

Meera amaldiçoou em sua língua materna.

– Sei que tinha certo apreço por ela. – disse King. – Você sempre tem.

– O quê? Pena das garotinhas? – o olhar dela, de repente, encheu-se de cólera. – Garotinhas sofrem todos os dias! Não é meu problema salvá-las!

– E o peso do passado retorna. – Fridda disse, misteriosamente, provocando a mercenária.

– Você bem sabe disso, não é mesmo? Teve uma neta sequestrada por duas vezes e nada fez para impedir isso!

Fridda avançou com rapidez e lhe virou um tapa na cara, com força.

Meera revidou, fazendo o tabefe ecoar no aeroporto cheio. As pessoas ao redor olharam indignadas, alguns curiosos se aproximando para ver o que estava acontecendo. Mas foram ignorados.

– Saiba, velha, que tudo o que me fizer lhe será devolvido. É um debito justo, você bem sabe.

– Maldita! Vai ou não ajudar? Se quer dinheiro eu lhe pago! Mas diga logo onde aquele miserável se encontra! Ou descontarei minha fúria em você.

– Eu vou levar seu dinheiro sim. Como pagamento pela afronta e abertura de antigas feridas. Mas não precisa pagar pelo resgate. Se a pequena Miss Sunshine foi levada, eu vou ajudar a resgatá-la. Engula seu orgulho, velha. Pois hoje seremos parceiras.

– Então você sabe onde ele está? – Halle interferiu.

– Não é assim tão difícil de achar. Pelo menos não para mim.

– Não percamos mais tempo então. – Klaus se apressou. – Já estamos chamando atenção demais. – seus olhos passaram pelos curiosos.

Meera aprumou-se, olhando feio para as pessoas que os observavam.

– Acertamos o pagamento mais tarde. –disse o mafioso.

– Não é assim que ela trabalha… – King respondeu pela mercenária, com um longo suspiro.

– Hoje podemos modificar algumas regras. – disse Meera. – Mas nunca se esqueça, Nórdico, eu ainda posso roubar o dinheiro que me deve.

– Prometo me lembrar disso.

A mercenária deu um sorrisinho.

– king, preciso de seu escritório emprestado por alguns minutos.

O Mouro assentiu, dirigindo-se com os outros para o estacionamento do aeroporto. A tensão era visível no ar e ele foi inteligente em manter a colega afastada da família Von Kern.

Fridda foi marchando até o Bentley e fechou a porta com força, evitando olhar para os outros. Quando a mercenária se apossou do acento do passageiro, a Bestemor fez uma pequena careta. King assumiu o volante em silêncio enquanto o silêncio imperou, constrangedor e cheio de demônios.

Klaus olhava para a mãe com a confusão e desconfiança espreitando os olhos, mas optou por ficar calado até chegarem à Hex.

A boate estava vazia naquela noite e eles seguiram direto para o escritório apertado do Mouro. Meera correu para o notebook de última geração, ocupando-se em batucar os dedos hábeis pelas teclas e buscar suas informações mais preciosas. Halle se pôs ao seu lado, como um fiel escudeiro.

Klaus se aproveitou daquele momento para interrogar a mãe, puxou-a para um canto mais reservado enquanto Sander se embebedava no bar vazio.

– Que história era aquela de que já conhecia a mercenária?

Fridda fez cara de poucos amigos.

– Isso não é assunto para debatermos agora.

– Esse é o exato momento para falarmos sobre isso!

– Foi há muito tempo. Quase não me lembro mais.

– Mentira. Ao que parecia lá no aeroporto, as lembranças estão bastante frescas em sua mente. Eu a conheço, Mor. O ressentimento é visível em seus olhos quando olha para ela. O que aconteceu? O que deu em você para se envolver com os Borsahy num passado tão remoto.

– Cherry. Se algum dia fui até a casa Borsahy foi por Cherry. Foi logo depois que ela foi levada. Enquanto todos se ocupavam em procura-la usando os recursos que tínhamos, eu vaguei pelos confins do mundo usando a minha influência para achar informações. Ou pessoas influentes nesse meio macabro. Os Borsahys sempre foram inteligentes, uma Ordem cheia de segredos. Fui em busca de respostas, um meio de encontrar minha neta. E o que encontrei foram portas fechadas na minha cara!

Os olhos dela arderam.

– Meera era apenas uma garota naquela época, mas uma assassina treinada. Uma caçadora de relíquias quase tão bem estimada quanto nós. Quando a conheci, ofereci uma boa quantia em dinheiro para que fosse caçar os rastros de minha Mona. Mas ela, assim como seus superiores, negou-se a ajudar. Disse que a oferta era pequena diante de tamanho risco. Nenhum deles queria se meter no império Búlgaro atrás de um Magnata tão bem protegido.

– E então você passou a odiá-la. – Klaus deduziu.

– Não podia ser diferente.

– Não sabia que você foi tão longe para encontra-la.

– Minha família sempre foi tudo para mim. Sempre foi assim. Somos uma corrente unida. Se um se solta da rede, a rede se quebra e tudo rui.

Fridda baixou a cabeça, a tristeza assombrando-lhe os olhos.

– Vamos encontra-la! – Klaus reconfortou a mãe.

– Nós vamos. – Fridda assentiu, com determinação. – Não vou deixa-la desamparada mais uma vez. Nem que eu tenha que arrancar as informações da garganta daquela mercenária!

– Acho que não será preciso. – Klaus deu um sorrisinho. – Pelo que ouvi, ela não tem mais medo de se intrometer no Império Búlgaro.

– Não. Não é mais uma franguinha medrosa. – Fridda deu um sorrisinho presunçoso.

– E vamos pagá-la.

– É ela quem está em débito comigo. Então, ao fim dessa jornada, talvez o pagamento dela seja sair disso tudo ilesa à minha lâmina.

Klaus deixou escapar um sorriso de satisfação.

– Você é imutável, Mor. Sempre com essa sede de sangue.

– Nós, os Von Kern, nascemos com essa fome.

– Entendo o que quer dizer. – ele a puxou de volta, olhando para o filho do outro lado pelo canto de olho. A respiração funda que soltou foi uma forma de lamento.

Fridda seguiu seus olhos e compreendeu.

– Deixe-o. Um pouco de álcool lhe fará bem.

– Não é assim que soldados se portam.

– Ele não é um soldado nesse momento. É um Berserker atrás de sua mulher.

– Eu nem quero ver o estrago que ele fará se não a encontrar viva…

– Vamos encontra-la viva! – Fridda disse com determinação, como se estivesse obrigando suas palavras a se tornarem reais. – Vamos encontrar as duas vivas!

– Cherry é forte.

– Willa também. Você a treinou.

– Mor, a alma daquela criança é pura. Talvez os demônios não tenham tido tempo de tomá-la e moldá-la mais forte.

– Willa é forte. Tenho certeza disso. E que os Deuses mais antigos tenham piedade de Sander se ela não for!

Klaus fitou o filho com preocupação.

– Ele pode se autodestruir em um piscar de olhos.

– Por aquela menina? Sim, é possível. Está completamente apaixonado.

– Não é só isso. Eu vejo a forma como ele se envolveu com ela. Mor, a criança pode ser a perdição do meu filho.

– Então devemos nos empenhar em tirá-la de lá viva.

Fridda mal terminou de falar quando King apareceu, vindo dos corredores. Sua expressão era indecifrável, parecia cansado e um pouco triste. Sentou-se ao lado do ruivo, no bar, e serviu-se de uma boa dose de whisky.

Eles se aproximaram.

– Alguma novidade? – Klaus perguntou.

– Meera está terminando de checar seus contatos. E está otimista.

– Bom.

Poucos minutos depois, Meera apareceu junto a Halle, carregando um pequeno mapa e um sorriso de satisfação.

E como aquela expressão de dona do mundo aborrecia Fridda!

Ela dispôs o mapa em cima de uma das mesinhas vazias do bar e todos se aproximaram, observando-a batucar o dedo num ponto pequenino desenhado na ilustração.

– É aqui que ele está.

Fridda deu uma olhada para onde ela apontava.

– Em Uksville?

– É um condomínio de luxo, privado. Perfeito para um maníaco se esconder.

– Eu conheço o lugar… – disse Fridda. – Íamos comprar para fazer a sede da Família.

Meera torceu o nariz.

– Que ironia bizarra.

– Como sabe se ele está aí? – Halle perguntou.

– Eu sou boa no que faço, Caçador. Como você. Seu faro não diz nada sobre esse lugar?

– É um bom lugar para se esconder. – ele admitiu. – Mas existem milhões de outros. Não quero perder tempo procurando no lugar errado. Cherry não pode continuar nas mãos…

– Relaxe, relaxe. Vamos encontra-la em poucos segundos. Meu faro diz claramente que estou no lugar certo. – a mercenária ajeitou sua espada sob o coldre nas costas. – E quando tudo isso acabar, prometo lhe dar parte do corpo dele para se vingar.

– Essa é uma presa que teremos que repartir. – Fridda disse num aparte, a expressão bastante severa.

– Não me importo de partilhar com você, Velha. Desde que a diversão seja garantida.

Sander se levantou do balcão de bebidas, finalizando sua dose.

– Podemos ir? Ou será que ficaremos mais alguns minutos embargados em detalhes técnicos? – sua voz sarcástica saiu um tanto letárgica e ele deu uma leve cambaleada ao dar alguns passos.

Klaus avançou contra ele e arrancou-lhe o copo das mãos, espatifando o vidro contra uma das paredes. Sua expressão beirava a fúria e o desgosto.

– O que pretende com isso, garoto estúpido! Embebedar-se quando está prestes a enfrentar inimigos? Que espécie de idiota você é?

– Eu estou bem. – o rapaz enfrentou o pai, altivo. – Perfeitamente capaz de enfiar a porrada em qualquer idiota.

– Não é o que parece. A bebida entorpece os sentidos. E quando os sentidos se perdem, você não é nada. Essa foi uma lição que lhe ensinei!

– E ela não me serve de nada.

Klaus lhe virou um tabefe com as costas das mãos.

– Moleque insolente, recomponha-se!

– Não nos voltemos uns contra os outros. – Fridda interveio, mas foi interrompida pelo olhar furioso do neto.

– Fique fora disso, Bestemor.

– Para o inferno que vou! – a velha lhe deu outra bofetada. – Recomponha-se! Ou quer que eu lhe dê uma surra como bem merece? O que aquela menina fez com você, roubou seu juízo?!

– De certo o coração. – Meera sussurrou, baixinho, prestando atenção na discussão que se desenrolava.

– Estou perfeitamente bem. – o garoto insistiu. – E se quer saber, Bestemor, eu iria até o inferno por ela.

– Admiro essa sua compaixão. Mas não é se enchendo de Vodka que vai conseguir alguma coisa. Vamos clarear a mente e buscar aquelas duas! Para a sanidade de nossa alma e a delas, vamos tirá-las das mãos daquele porco búlgaro. Largue essa merda e segure suas pistolas, porque é hora de agir!

– Já estou preparado, Bestemor. E desta vez, não vou decepcioná-las!

– Tente não decepcionar a Família também. – disse Klaus, afastando-se a passos largos.

Sander observou o pai se afastar com os olhos duros.

Fridda lançou um último olhar para o neto e seguiu o filho, deixando para trás o resto do grupo.

Halle se aproximou e deu um leve apertão no ombro do garoto.

– Vamos, garoto. Vamos buscar sua garota.

Meera respirou fundo e acompanhou o resto do grupo, obrigando-os a se unirem novamente para que pudesse apresentar um plano de invasão, resgate e fuga. O que seria mais difícil era entrar na fortaleza, como eles sairiam de lá não era problema. Qualquer aço, ferro ou concreto não era páreo para a quantidade de explosivos que a mercenária levava na bolsa.

E ela duvidava muito que os Von Kern ficariam para trás. Além disso, depois que Cherry fosse libertada de suas correntes, ela duvidava muito que sobrevivesse alguém para tentar impedi-los de saírem de lá. Só Deus sabia o estrago que aquela mulher faria!

Não se aprisiona uma leoa faminta. Nunca.

 

*-* *-*

Acorde…

Acorde…

O sussurro era doce.

Cherry acordou com um tapa na cara.

Abriu os olhos assustada e, num rompante, as lembranças a dominaram, fazendo-a arfar. Mas não teve muito tempo para pensar em mais alguma coisa, pois seu corpo foi novamente prensado contra a cama macia.

Alline a olhava de cima, deitada sobre ela e com uma faca afiada direcionada contra a carne do pescoço da outra. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, o rosto ainda mais assombroso do que se lembrava. A expressão sombria espreitava por seu olhar destemido.

– Boa noite, vadia.

Cherry forçou seu corpo para cima a fim de derrubá-la. Mas a lâmina serrilhada ameaçou romper a pele fina do pescoço.

– Eu não faria isso se fosse você.

– Não tenho medo de morrer.

Alline riu.

– Não vou matar você. Embora eu devesse muito. – seu riso transformou-se num lamento e as lágrimas surgiram nos olhos, derramando-se. – Você matou meu Lucien!

– Ele mereceu.

Alline lhe virou um tapa.

– Maldita! – ela gritou, rompendo o choro.

Ela chorou copiosamente por longos minutos. As gotas amargas das lágrimas tingindo o rosto surpreso da outra, seus soluços eram agoniantes.

– Eu deveria aproveitar esse momento e silenciar seu coração!

– E o que te impede? –Cherry a enfrentou.

– Ah, você não sabe os horrores que Bóris planeja fazer com você. – a sérvia sorriu, entre soluços. – Vê-lo se servir de você será muito mais prazeroso do que infligir sua morte. Eu quero vê-la sofrer, Cherry Von Kern. Quero vê-la lamentar a audácia de sair da barriga da sua mãe!

– Meu nome é Cherry Vicious. E eu não estou disposta a te dar esse gostinho!

Cherry deu uma cabeçada na adversária e conseguiu se livrar, saiu correndo pelo quarto e deu de cara com a porta enorme de ferro. Ela testou a tranca, descobrindo que não funcionava. Desesperada e furiosa, ela a esmurrou.

Alline começou a rir.

– Você não entende, não é? Não vai sair daqui. Está presa novamente sob as garras do predador.

Ela se aproximou, girando a faca.

– E só vai sair quando eu quiser!

Elas se atracaram, dando murros e chutes. Alline a empurrou para longe, fazendo-a se chocar contra a penteadeira. Os perfumes finos voaram, espatifando-se no chão e contaminando o lugar com uma mistura de aromas doces.

Cherry se ergueu, os pés descalços esmagando o vidro dos frascos quebrados, e voou na direção da outra, grudando as unhas na carne do rosto já ferido. Alline gritou de dor, mas o sorriso alucinado continuava presente em sua expressão, o que a tornava ainda mais horripilante. Ela puxou os cabelos da inimiga e lhe aplicou um chute certeiro, fazendo-a cambalear.

– Podemos ficar nisso a noite toda. – disse, recuperando o fôlego. – Podemos destruir o quarto inteiro. Ainda assim, não vai mudar nada. Você ainda vai morrer aqui.

Cherry a ignorou, lançando-se sobre a maldita novamente. Sua raiva a deixava quase cega.

Alline se divertia perversamente com tudo aquilo, embora as lágrimas ainda fossem cultivadas em seus olhos sombrios. Mas em dado momento toda a diversão perdeu o foco.

Deu um chute no estômago de Cherry, derrubando-a na cama novamente e avançou sobre ela, encaixando a faca serrilhada na curva do pescoço delgado. Cherry paralisou, sentindo a lâmina pressionar sua pele numa promessa perigosa. Seus olhos se encontraram com os da rival num ódio fervente.

Alline sorriu, satisfeita em se sair vitoriosa.

– Sabe, eu sempre a achei bonita…

Ela deslizou a lâmina pelo corpo desnudo. Seus olhos eram cobiçosos.

– Sempre lamentei o fato de você ser uma Von Kern.

Cherry riu, sarcástica.

– Nem em um milhão de anos eu olharia para você. Você está horrível!

– Você e sua família maldita contribuíram para isso.

– Você sempre foi horrível.

– Eu sempre fui linda. – ela sorriu com arrogância. – Não foi por isso que centenas de homens poderosos se curvaram aos meus pés? Incluindo seu tio tolo.

– Klaus vai arrancar sua língua por tal impertinência!

– Aposto que vai. – Alline riu.

Seus olhos recaíram sobre o corpo da rival novamente e a lâmina voltou a deslizar naquela carícia insolente.

Cherry se mexeu de modo brusco, evitando o contato com o frio da lâmina.

– O que quer, maldita?

Alline sorriu e inclinou-se sobre a outra novamente, beijando-lhe os lábios melancolicamente.

Surpresa demais para ter qualquer outro tipo de reação, Cherry estancou.

– Quero fazer um pacto. – a megera sussurrou, os lábios de veludo roçando os da outra. – Bóris não fez nada para salvar Lucien, como eu ordenei que fizesse. Seu tio puxou o gatilho, mas o verdadeiro responsável foi Bóris Petrov. Graças à ele meu amado está morto. Eu quero vingança. Olho por olho, dente por dente. Acho que no fundo sou tão vingativa quanto você, Mona. – ela acariciou o rosto da outra. – Mate-o! Mate o Búlgaro e conseguirá o que mais deseja: a minha morte.

Cherry a empurrou.

– O que eu mais desejo. – ela riu presunçosamente. – Você se julga muito importante para achar que meus desejos mais sombrios tem alguma coisa a ver com a sua morte. Está enganada. A sua morte é algo prometido a somente uma pessoa.

– Estou te dando a sua grande chance. Pode finalmente abraçar sua tão preciosa vingança. Se firmar esse pacto comigo, eu a libertarei e levarei diretamente até Bóris.

– E depois vai fugir como uma cadela covarde! Essa é a sua chance de escapar! Sabe que quando eu sair daqui vou destroçar o Império dele e tudo o que tem dentro! Você sabe que vai morrer miseravelmente pelas mãos da Família.

Alline esboçou um sorriso.

– Pelas mãos da Família, não. Pelas suas. Acho que te devo isso, não é mesmo, menina? Uma revanche. Afinal de contas, eu estraçalhei sua vida. E no final das contas nunca foi uma coisa pessoal. Você era apenas uma criança atrapalhando meu caminho.

– Para o inferno com o seu sentimentalismo! O que é isso? Um pedido de perdão?

– Não me arrependo das coisas que fiz.

– Pois deveria. Se não tivesse sido uma puta ambiciosa, talvez seu francês ainda estivesse vivo!

– Cretina! – Alline lhe deu uma bofetada.

À qual Cherry retribuiu.

– Enfie esse pedido de desculpas bem no meio…

Alline a calou com a lâmina da faca, pressionando-a contra os lábios da rival.

– Você é uma cadela mal criada. Pense na minha oferta. É tudo o que tem em mãos.

Ela se levantou num giro rápido.

– E enquanto você pensa, vou me divertir com seu bichinho.

Cherry se levantou de um pulo e se jogou contra a mulher, pouco se importando com a existência de uma faca. No entanto, tudo o que conseguiu foi atingir a porta de metal que se fechava bem na sua cara.

Ela a esmurrou com força, gritando.

– Tire-me daqui! Sua Vadia, se você a machucar…

Mas seus gritos se perderam no eco daquela escuridão.

 

*-* *-*

Alline rodou a tranca da porta e soltou um suspiro cansado. Era engraçado não sentir mais satisfação com o que antes lhe faria flutuar pelas nuvens. Naquelas últimas horas nada lhe trazia alegria, sequer a ideia macabra de concluir seu plano.

Em toda sua vida jamais pensou existir homem que lhe trouxesse a ruína. Mas ali estava ela, decadente pela morte de Lucien. Lamentando o fato de ainda continuar num mundo onde ele não vivia mais. Aquela era uma traição sem limites! Uma solidão insuportável.

As lágrimas se acumularam em seus olhos novamente e, paciente, ela deixou que caíssem.

Os gritos de Cherry preencheram o corredor silencioso com elegância, permitindo-lhe um raro momento de prazer.

Ela fechou os olhos e se permitiu ouvir o som com clareza, deleitando-se naquela melodia sombria que começava ecoar em seus ouvidos. Em outros tempos, teria dado as mãos à seu amado e, juntos, teriam dançado.

– Ah, aí está você. – a voz de Bóris a fez pular.

Alline voltou seus olhos para ele, sem nenhuma expressão.

– Ah, continua nessa melancolia? – Bóris pareceu aborrecido.

– E você tem alguma esperança que isso mude?

– Sinto muito por seu amante. Realmente sinto muito.

Alline focou seus olhos no rosto do búlgaro. Não disse mais nada, voltando seus olhos em outra direção.

Bóris se mexeu, desconfortável.

– E então, como está nossa leoa?

– Furiosa.

– Do jeito que eu gosto. Cuidarei dela mais tarde.

– Para mim você adia demais. Já não esperou por ela longos anos?

– Você é por demais impaciente, querida Vedrana.

Alline rosnou, furiosa, e lhe deu um tapa.

– Jamais ouse me chamar assim de novo! Lucien me chamava assim. Vedrana morreu há muito tempo. E quando o coração dele parou de bater, ela se foi definitivamente.

Bóris engoliu seu orgulho com certa dificuldade, como se houvesse mastigado algo amargo.

– Está bem, querida. Vou respeitar seu momento de dor. Ser tolerante.

– Eu é quem estou sendo tolerante! Por sua causa Lucien está morto! Sua incompetência em cuidar da segurança dele foi impressionante.

– Cuidado, Alline. Não esqueça qual é o seu lugar.

– Sei muito bem qual é o meu lugar. –ela o enfrentou, engolindo o medo.

– Lucien morreu porque era um idiota. Eu já disse a você. Não sirvo para ser babá.

– Lucien estava cego! Aquela maldita que você tanto gosta arrancou os olhos dele! Ele precisava de alguém para sua segurança.

– E por que você mesmo não ficou tomando conta dele? A culpa não é minha se aquele idiota se meteu com o Von Kern! E se está tão insatisfeita, pegue suas tralhas e se mande daqui. Não fique me afrontando ou talvez eu mude de ideia e decida fazer de você uma de minhas putas. Sem o francês, você não passa de mais uma mulher estúpida!

Alline estremeceu.

– Viu? É maravilhoso quando as pessoas se colocam em seu devido lugar. Você é a única mulher com quem tive o prazer de fazer negócios não baseados em sexo. Considere-se sortuda por eu a respeitar. Agora vamos, pare de me aborrecer. Tenho uma coisa que talvez mude esse seu ar de melancolia.

Ele seguiu pelo corredor moderno, ignorando a porta de onde ecoava os gritos. Posou a mão na maçaneta da porta vizinha. Alline se aproximou com uma expressão melhorada, a sombra da alegria reavivando-se em seu rosto destruído.

Quando Bóris abriu a porta, os sussurros sombrios do outro lado cessaram. Somente para dar lugar ao pavor.

 

Willa se ergueu do chão ao ouvir a tranca da maçaneta se abrir. Instintivamente, afastou-se em direção à cama, encolhendo-se.

Bóris entrou primeiro, a postura rígida como a de um general.

Assim que o viu, Willa tentou fugir, encolhendo-se na parede ao fundo do quarto. Seu coração dava pulos dentro do peito, ameaçando esmagar seu ser. O pânico já presente, se intensificou a ponto de fazê-la arfar.

De trás dele, Alline surgiu, carregando uma expressão sombria. A sérvia trancou a porta atrás de si, esfregando as mãos como uma criança que espera pelo presente de Natal. Seus olhos traziam uma ardência incomum. E, ao fitar a garota encurralada como uma ratinho de laboratório, sorriu.

– Da última vez que nos vimos, você me chamou de cadela e disse que eu ia me ferrar. Olha só quem está ferrada agora. Quase sinto pena.

Willa desviou os olhos da mulher, fixando-os em Bóris. O Búlgaro parecia furioso.

Ele avançou alguns passos, fitando a menina. Tranquilo, como era a maior parte de seus gestos, tirou o cinto que prendia sua calça impecável, estalando-o duas vezes nas mãos.

– Vejamos o que eu faço com as cadelas desobedientes que fogem de mim.

Ele avançou.

Willa correu, desviando-se de seu captor com a agilidade de alguém desesperado. Derrubou uma mesinha de canto quando passou apressada por ela e quase tropeçou em meio sua fuga alucinada até a porta. Alline a agarrou pelos cabelos antes que sentisse o cheiro de liberdade, segurando-a com força pelas madeixas.

– Onde pensa que vai, cadelinha?

A megera a jogou sem a mínima consideração e Willa caiu no chão aos pés de Bóris.

Ele a puxou pela nuca, como se fosse um animalzinho e fixou os olhos nela por longos segundos. Cheirou-a uma vez, para se certificar de que não fora tocada por nenhum outro macho e então a jogou na cama, de bruços.

Willa agarrou-se à colcha florida que cobria o colchão, soluçando.

O cinto estalou mais uma vez, ameaçador. E então sua fúria recaiu sobre a pele delicada da garota, arrancando-lhe um grito a cada chicotada. E a cada lamento, mais o búlgaro se satisfazia.

Alline sentou-se na poltrona vitoriana, assistindo em silêncio. Mais uma vez fechou os olhos para permitir seus ouvidos apreciarem a sinfonia alegre para sua alma distorcida.

 

Bóris desceu o cinto pela última vez com um urro de deleite, como se tivesse acabado de chegar ao clímax e agora flutuasse sobres as nuvens. Seus olhos vidrados fixaram-se na carne lacerada e ele tomou fôlego, respirando com sofreguidão. O suor pingava da ponta de seu nariz.

Encolhida na cama, Willa soluçava baixinho. Seu coração estava em frangalhos, estraçalhado como suas costas delicadas, agora marcadas por mais violência. Ela fechou os olhos apertados, engoliu o que lhe sobrou de dignidade e obrigou a guerreira dentro de si a se calar, adormecer por um tempo indeterminado porque, no momento, tudo o que podia fazer era se perder em meio as sombras.

Tudo o que Klaus lhe ensinou naqueles dias agradáveis no porão de nada lhe valia naquele momento. Não quando as sombras do passado a sufocavam com tanta podridão. Ela mal se lembrava da guerreira que lhe ensinaram a ser.

Aquele monstro havia matado sua alma sorridente e colorida.

Bóris a agarrou pelos cabelos, forçando-a a encará-lo.

– Espero que tenha aprendido desta vez, Puta! Ninguém foge de mim. Muito menos toma chazinho com o inimigo! – ele a jogou com violência na cama novamente. – Se ousar me desobedecer de novo, eu lhe darei um destino pior que a morte: Entregarei você a meus homens para que se satisfaçam, todos de uma vez!

Ele marchou até a porta e a abriu, mandando o jovem estranho entrar.

– Cuide das feridas dela!

O rapaz se aproximou como o mandado, os olhos distantes como sua própria alma. Como um soldado que obedece, sentou-se ao lado da cama e tocou as costas dilaceradas da garota. Willa fixou os olhos no rosto do rapaz e a única alteração em sua expressão foram as lágrimas que se empoçaram em seus olhos e derramaram-se com amargura.

Bóris observou a cena com um sorriso cheio de escárnio e sua risada saiu num rompante alegre, assustando Alline e o estranho.

– Ah, Willa! Sua tristeza seria trágica se não me divertisse tanto! Vejo que reconhece seu antigo amante. Aquele que lhe jurou amor eterno. – ele se engasgou com a risada. – Amor eterno! – riu. – Por favor! Quanta babaquice.

O búlgaro aproximou-se da cama.

– Acreditou mesmo que ele te amava? Realmente chegou a acreditar que um dos meus homens me trairia por uma cadela?

Willa encarou aqueles olhos sarcásticos, enfrentando-o em silêncio.

O estranho continuou em sua expressão séria, indecifrável. Um soldado leal sem sentimentos ou expressão.

– Você é mais tola do que eu pensei. – Bóris desatou a rir.

Alline se levantou, entediada. Seus olhos mal passaram pela menina ou o soldado.

– Já se divertiu o suficiente? Temos assuntos a resolver. Ou já se esqueceu do nosso acordo?

Bóris desviou os olhos a contragosto.

– Sim. Sim. Os contratos.

– Sinto muito se lhe aborreço, querido. Mas eu mesma me encontro num estado lastimável de tristeza onde nem mesmo a dor de uma garotinha pode me alegrar. Então vamos discutir assuntos mais importantes e quem sabe depois eu sinta alguma satisfação em vê-lo surrá-la novamente.

O búlgaro sorriu.

– Sua perversidade não tem limites, minha pequena impiedosa.

Alline correspondeu o sorriso, mostrando-se satisfeita com o elogio, e deu-lhe as costas, seguindo pelo corredor florido.

Bóris olhou mais uma vez para aquela cena deprimente de Willa e seu amante traidor, e então os deixou mergulhados naquelas sombras geladas da amargura.

Sozinho, o soldado fez o que lhe foi ordenado, ouvindo o som das trancas preenchendo a porta de metal. Puxou um kit de primeiros socorros, separando as gazes com cuidado, os medicamentos e esparadrapos. Seus olhos estavam cautelosamente longes da menina. Estava ciente da força dos olhos dela sobre seu rosto, a respiração estremecida e as marcas roxas em carne viva nas costas delicadas.

Silencioso como um túmulo, ele tocou as feridas com uma gaze umedecida em antibióticos e a sentiu se contorcer sob seus dedos. A menina mordeu os lábios, mas permaneceu quieta até que ele terminasse de limpar todos os ferimentos.

August passou uma pomada cicatrizante e fez um curativo com a bandagem que achou. Quando estava terminando de prender os esparadrapos, ela falou.

– Por quê? – sua voz ecoou baixinha.

O soldado permaneceu impassível. Os dedos hábeis com as bandagens.

– Por quê? – Willa repetiu, um pouco mais firme.

August levantou-se, guardando o que restou das gazes e afins.

Willa se ergueu da cama, ignorando as repuxadas em suas costas. Dor não era um problema àquela altura do campeonato. Ela o agarrou pelo braço, firme.

– Eu perguntei por quê! Por que mentiu para mim, fez todo aquele teatro e foi embora? Por que decidiu voltar?

August respirou fundo e finalmente permitiu-se encará-la.

– Eu não devo falar com você.

– Eu também não. Mas quero respostas. Se vai me trair, pelo menos mereço uma explicação plausível. Nem que seja para ouvir de sua boca que é apenas um miserável mentiroso. Ainda assim eu quero ouvir!

– Não menti para você. – foi tudo o que disse.

Willa continuou o encarando.

– Como está suas costas?

– Doendo como o inferno.

– Eu te daria um analgésico, mas Bóris quer que você sinta dor.

– É claro que ele quer. Caso contrário não teria descido a porrada!

August franziu o cenho.

– Desde quando você fala assim? – um princípio de riso beirou seus lábios.

– Desde o momento em que eu acordei. Despertei dessa vida.

– Você nunca saiu desta vida, Willa.

– Tem razão. Foi um erro acreditar que eu tinha mesmo escapado dele. Mas por cada segundo de ilusão, valeu a pena. Pelo menos eu soube apreciar minha liberdade teatral, não fui idiota como você que voltou por livre e espontânea vontade.

August desviou os olhos.

– Acho que prefiro a velha Willa.

– Mas é claro que prefere! A velha Willa te deixava pisar nela, seu filho da puta!

– Eu nunca quis pisar em você.

– E o que o fez mudar de ideia?

– Você não faz ideia das coisas que sacrifiquei. Não faz ideia.

– Espero que o sacrifício tenha valido a pena. – disse ela com amargura.

August voltou os olhos para ela.

– Sinto muito.

– Sente porra nenhuma!

Fez-se um silêncio doloroso onde as sombras aproveitaram para deixar seus sussurros sombrios.

– Bóris matou toda a minha família. Por todos os confins da Europa. Foi como voltei para cá. – August disse, no mesmo tom frio que usou antes.

Willa permaneceu em silêncio, esperando para ver se ele terminaria a história ou se só ficaria ali paradão, olhando-a de forma impassível.

Mas August optou por lhe dar as costas. À princípio, Willa achou que ele iria embora, mas o soldado apenas iniciou uma caminhada reflexiva pelo quarto, os olhos perdidos na imensidão. Era difícil saber o que se passava pela mente dele, em seu coração. O que era cômico porque Willa sempre o decifrou muito bem… Em tempos passados.

Era quase chocante como as pessoas poderiam mudar drasticamente num piscar de olhos, as sombras assombrosas que elas abrigavam secretamente dentro de si.

– Não voltei por escolha própria como você julga. – disse ele. – Eu voltei porque fui ameaçado, como nós dois sabíamos que aconteceria cedo ou tarde. Afinal de contas, não se pode escapar do búlgaro. Não me orgulho da escolha que fiz, mas depois de presenciar minha família inteira, sem exceção de ninguém, ser torturada e morta, só posso dizer que jamais voltarei a traí-lo! Sou um pobre miserável e morrerei um pobre miserável fiel à Bóris Petrov, doa a quem doer.

August olhou para ela.

– Sinto muito, Willa. Essa é a verdade.

– É bom ouvir a verdade. Pelo menos uma vez na vida. Obrigada. – ela disse. E o socou.

August chegou a cambalear, mas não caiu. Atônito, fitou a garota enquanto segurava o nariz quebrado.

– Você estava certo ao supor que eu mudei. – disse ela, marchando e se sentando na cama.

– Eu estava errado. Acho que prefiro a nova Willa. – o soldado disse, sem sorrir. – Uma pena que eu não possa ajuda-la.

Ele seguiu em direção à porta, cauteloso com os movimentos dela.

Antes de sair, parou com a mão na maçaneta de metal.

– Seja prudente e não tente nenhuma gracinha. Ficará melhor se não fugir outra vez.

– Não se preocupe, August. Não vou fugir agora. Tampouco atacar você. Ficarei quietinha aqui no quarto… Esperando Bóris.

August não soube dizer por que, mas aquela expressão da menina lhe congelou os ossos.

 

 

Alline serviu-se de uma taça de vinho, o aroma preenchendo a sala a céu aberto. Sentou-se no sofá elegante de cashmere e cruzou as pernas, admirando a paisagem. O teto aberto conferia uma visão incrível do céu estrelado e a pequena lagoa artificial com uma queda invejável contribuía para a sofisticação do espaço. O búlgaro era exímio na arte de decoração.

Assim como Lucien.

O pensamento a deprimiu, aumentando a melancolia em seu olhar.

Ela bebericou a bebida tinta em sua taça, fechando os olhos de prazer. O sabor adocicado foi capaz de diminuir sua amargura e ela se lembrou de como seu Francês amava o sabor do vinho.

A porta pesada ao fundo da sala se abriu, trazendo Bóris em seu estado alterado.

– Essas cadelas nunca conseguem me agradar! Nem arrumar um escritório são capazes!

Ele se aproximou aos resmungos, folheando alguns documentos.

– Você se preocupa demais. – Alline se mexeu, indiferente.

– Ah, sim. E você continua nessa melancolia.

Alline deu um sorriso falso.

– É preciso mais que um cálice de vinho para melhorar meu humor.

– Pegue o que quiser. – Bóris fez um gesto abrangente, oferecendo seu império para o desfrute dela.

– Ah, você pode ter certeza.

Alline se levantou do sofá e apanhou os documentos das mãos dele. Seus olhos correram pelas folhas pardas, ambiciosos.

– Está tudo aí, todos assinados. – garantiu o búlgaro.

– Todos em meu nome?

Bóris suspirou, como um pai impaciente.

– Todos em seu nome. As minhas mais belas propriedades no Caribe em oferta à morte de Lucien. Acrescentei também uma parte generosa de minhas ações numa empresa suíça, como cortesia. Considere-se uma mulher um pouco mais rica.

– Você é muito gentil, Petrov.

– É claro que sou. – ele deu um sorriso forçado. – O francês era um bom sujeito.

– Poupe-me de suas mentiras. – o sorriso no rosto dela amargou.

– Sinto muito por sua dor. Não imaginei que o amasse tanto.

– Você não imaginou que eu o amasse de verdade. – ela o corrigiu.

– Sim. Lamento. Você sempre foi uma mulher difícil de decifrar.

– Esse é um dos motivos pelos quais amei Lucien. Ele sabia me decifrar perfeitamente.

Uma única lágrima escorreu por seu rosto de pedra.

Bóris pigarreou, fugindo daquele sentimentalismo.

– Bom, espero que você me perdoe pela morte dele. Eu realmente sinto muito.

– Não se preocupe, Bóris. – ela sorriu. – Esses documentos quitam suas dívidas comigo. Não estou zangada.

Ela se aproximou do búlgaro, o sorriso doce nos lábios. Ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo no rosto.

– No entanto, ainda tenho um favor a lhe pedir. – sussurrou. – Quero o Von Kern morto.

Bóris deu uma ligeira gargalhada.

– Qual deles, minha pequena impiedosa.

– Klaus. – ela o fitou no fundo dos olhos. – Mate-o da pior forma que encontrar.

– Não quer você mesma fazer isso? Posso lhe proporcionar toda a diversão.

– Ah, eu adoraria esse presente, querido. Mas devo declinar e lamentar tal fato. Tenho assuntos mais importantes a tratar. – ela deu um sorriso gélido, seguindo novamente para o sofá sofisticado e apanhando sua taça de vinho.

Bóris a observou em silêncio.

– Em outras vidas eu a tomaria como esposa.

Alline ergueu o olhar.

– Não servimos um para o outro, querido. Seus gostos me causam repulsa.

– Esse é o motivo de eu nunca ter me casado. – ele riu.

– Quem quer estivesse destinada a ser sua esposa, agradece.

O búlgaro ignorou a malícia afiada, servindo-se de uma dose de conhaque.

– Lamento deixa-la sozinha, principalmente o momento sendo tão delicado, mas preciso cuidar de meus afazeres.

– Ah, sim. Vá perturbar seus bichinhos. Ficarei aqui na companhia de um bom vinho e música.

– Aprecie a vista. – Bóris a deixou.

Alline tomou mais um gole do tinto enquanto assoviava alguma música desconhecida, balançando os pés. Abraçava a tristeza com a alma e aquela união lhe era por demais apreciada. Tudo estava num estado lastimável de torpor e negação e, a seu ver, isso parecia aceitável.

Foi quando começou a chover.

Ela ergueu os olhos para o céu, sentindo os pingos frios como um presságio em seu rosto. O veludo da noite se turvou, apagando as estrelas e o brilho da lua e trouxe consigo não só a tempestade, mas também o aviso de uma morte tranquila.

 

 

Bóris caminhou pelo corredor de forma pomposa, usando um manto vermelho pesado. Sentia-se o próprio rei de seu império de horror. Suas submissas ajoelhavam-se ao vê-lo passar, abaixando a cabeça em sinal de respeito. Era notável o medo que espreitava em seus olhos baixos, assim como a alma despedaçada que se refletia neles.

Todas servas, todos bichinhos que ele podia usar sem qualquer consideração. Seu império era constituído de dor, aflição e poder. Ele era o senhor naquela casa, o soberano sombrio ao qual todos respeitavam e temiam.

Desde pequeno, estava destinado a ser um rei. Já dizia seu pai quando matou sua mãe. Desde pequeno sem nenhum respeito pelas mulheres. Desde pequeno sádico e maldoso. Era um pobre miserável sem uma alma para iluminar os dias frios em que passou naquela casa com o pai lunático. Os Petrov eram uma família amaldiçoada e assombrada por demônios impiedosos.

Bóris obrigou sua mente a deixar para trás as lembranças que o atormentavam e focou-se na lição que seu pai lhe ensinou aos doze anos de idade, quando o obrigou a violentar uma jovem desconhecida: As mulheres foram feitas para servir.

Ele sorriu, lambendo os lábios famintos. E então abriu a porta de um dos quartos.

Willa encontrava-se sentada na beira da cama, como a haviam deixado. As roupas em frangalhos pendia dos ombros, os pés descalços balançavam-se no ar. A cabeça baixa escondia seu olhar. E o silêncio, a alma.

Bóris apreciou a cena, deliciando-se com aquela oferta. Ali estava seu animalzinho, exposto para seu desfrute, destruído e sem esperanças. Do jeitinho que gostava. Ele se aproximou, trancando a porta atrás de si.

O som de suas botas alertou a presa da presença de seu caçador. Willa ergueu os olhos para ele e sua expressão sem vida o confundiu. Elas sempre demonstravam algum tipo de emoção, mesmo que apenas uma sombra. Mas sempre havia algo ali, espreitando o olhar delas. No entanto, dentro daqueles olhos claros não havia nada.

Isso assustou Bóris.

Ele se sentou ao lado dela com cautela, experimentando a aura sombria que circulava o quarto. A respiração da menina tremeu, fragilizada, mas ela não tentou fugir novamente. Ele sorriu uma vez, aprovando o comportamento.

– Vejo que aprendeu a se comportar diante do seu senhor.

Willa o fitou nos olhos demoradamente. Numa postura completamente submissa, ela desviou os olhos obedientemente e se curvou uma vez, imitando as outras servas dele.

O sorriso de Bóris foi deslumbrante. Ele mesmo a ergueu, permitindo-a relaxar.

– Ah, doce Willa. É tão mais fácil quando vocês cedem. Vê como me orgulha? – ele guiou suas mãos pequeninas até a braguilha de sua calça, mostrando o quanto estava contente.

Willa apenas o fitou em silêncio e aquele olhar inocente o fez ferver de desejo. Bóris a beijou com força nos lábios, agarrando-a com brusquidão. Sua língua forçou os lábios dela a cederem e ele a explorou profundamente.

Willa emitiu um gemido baixo, apossando-se da boca dele com vontade, seus dedos envolveram os cabelos dele e ela o trouxe para mais perto, deixando-o a vontade para desfrutar de seu corpo.

Bóris suspirou, deslizando os lábios pelo pescoço da menina e beijando a pele macia.

– Amada Willa, finalmente vai se entregar por livre e espontânea vontade? – ele sorriu. – Acho que minhas cintadas obtiveram um resultado muito melhor do que eu planejei.

Willa fechou os olhos, entregue, e de seus lábios surgiu um sorriso tenebroso.

Ela deslizou a mão sutilmente por baixo das cobertas, puxando a adaga do meio do emaranhado de veludo e, num movimento rápido e preciso, cravou a lâmina afiada na coxa de seu captor até ouvi-la partir o osso num estalo.

Bóris urrou de dor.

– Vadia! – gritou, surrando a menina.

Com um grito doloroso, puxou a faca de sua carne.

Ele respirou com sofreguidão, a saliva acumulando-se ao redor da boca contorcida de agonia. Seus olhos recaíram em Willa novamente e ele a agarrou pela nuca, forçando-a a encarar sua fúria.

– De onde tirou isso, hã? – ele apontou a adaga para o rosto dela, a lâmina muito próxima dos olhos.

– Roubei-a de August – Willa respondeu com petulância. – Apenas um dos truques que aprendi.

Com mais um movimento imperceptível, ela o acertou no rosto com um grampo de cabelo.

Bóris rugiu, furioso, arrancando o objeto de sua sobrancelha.

Willa gargalhou, como uma louca.

Cego de ódio, agarrou a menina com força pelos cabelos.

– Eu lhe mostrarei como se doma uma égua!

E saiu arrastando-a pelos corredores enquanto a ouvia gritar e chutar.

 

Ao lado, Cherry ouviu os gritos e o desespero apoderou-se de sua alma, despertando a fera adormecida dentro de si.

Ela rugiu, faminta. E começou a chutar a porta.

– Willa, eu vou te tirar daqui! – gritou numa promessa selada com sangue.

A cada chute, o metal tremia, cedendo um pouco.

E quando o risco do raio imponente cruzou o céu, iluminando o quarto pelas grades da janela, a porta cedeu com um baque violento, libertando a fera.

A leoa espreitou pelo corredor, grunhindo, e finalmente deu um salto, iniciando sua caçada feroz.

9 comentários em “A Garota Má (Pt.15): Sussurros Sombrios

  1. C A R A L E O!!!! Cara está bom demais. Ver a Willa poderosa e destemida foi fodástico, a cherry sempre imponente. Vovó Fridda quero vê-la em ação, acho que ela merece detonar a Alline e o Petrov merece umas porradas multiplas do Sander.
    Enfim PERFEIÇÃO nas alturas por aqui. Um dia serei assim…rs Parabéns Na! ❤

    Curtir

    1. Gata, você já é assim!
      E por mais que as pessoas digam que está perfeito, sempre tem aquele lado perfeccionista que diz não estar. Ignore ele! E desfrute do seu talento, porque você tem!
      Obrigada por sempre estar incentivando ❤
      Você é demais!

      Curtir

  2. Naaaaaaaaaaaaaaaat, que que é isso?
    Você disse que escreveu muito??? Escreveu foi é pouco, queremos o dobro IUAHSIDUAHSDIAUDHAISUHAIUS
    Nossa, como é bom ter essas mulheres poderosas e sem mimimi! AMOO DEMAISSSSSS!!!! INSPIRAÇÃO TOTAL!!!

    Curtir

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s