A fé da gente – A busca

Igrejinha de Ipoméia

 

A fé da gente

A busca

Escrito por: Zuleika Juliene

 

Não há comércio mais promissor em um bairro de periferia, como o de Iponéia, do que uma igrejinha.

E no trajeto de casa até o ponto de ônibus Catarina passava por umas cinco, se bem que uma não podia ser denominada “igrejinha”, pois era muito grande e bonita, além de muitíssimo bem freqüentada apesar de Iponéia ser um bairro pobre e uma outra estava desativada.

Catarina às vezes até pensava em começar a freqüentar uma delas, mas a verdade é que ela não suportava aquela gritaria, pensava em como aquilo era desnecessário, que Deus ouvia até nossos pensamentos.

Sua vida era extremamente pobre e sem graça e o pior é que ela já havia percebido isso. Ela gostaria de mudar, de viver uma nova vida, uma nova aventuram, mas parecia que as palavras de sua comadre eram mais que verdadeiras – “Tá amarrado”. E com base nesta frase Catarina começou a refletir, pois de fato nada mudava em sua vida. Saía de casa todas as manhãs tendo deixado um filho pequeno na creche e o maiorzinho na escola, pegava o buzão lotado e chegava à casa da patroa nem sempre tão disposta a limpar uma sujeira que parecia não ter fim, agüentava os caprichos da patroinha, filha adolescente da patroa, e toda sorte de peraltices e estripulias que os gêmeos faziam sem que nem a babá, nem a patroa tomasse conhecimento. Saia de casa às sete, horário de pico, e chegar beirando às nove transformada em um verdadeiro trapo humano para ainda limpar a sua própria casa, fazer comida, aguentar os desaforos de um marido que apesar de estar desempregado não servia nem para olhar os filhos que não raro aprontavam alguma coisa que na certa iria lhe trazer dores de cabeça.

Este era o retrato fiel da vida de Catarina, sem tirar nem por, se bem que ela também tinha seus vícios e manias, gostava de vez em quando de tomar umas biritinhas, falava um pouco da vida dos outros, jogava água nos cães que entravam em seu quintal.

Uma vez conversando com sua comadre depois de algumas doses e de ter falado bastante da vida alheia Catarina se queixou da falta de dinheiro, da falta de mudança, disse que queria ter uma vida melhor, então sua comadre lhe ofereceu alguns catálogos para vender, mas vender para quem? Catarina não tinha amigos, não tinha tempo para manter uma amizade e o dia da sua folga era sagrado, um dia todinho dedicado à faxina grossa de sua casa.

Dona Esther, sua patroa, só usava produto estrangeiro daquele que tem uns nomes que Catarina não sabia nem ler, então nem considerou essa ideia de vender em catálogos.

Mas a ideia da igreja, de estar mais próxima de Deus, vez ou outra enchiam seus pensamentos de esperança, uma esperança que ela nem ao menos sabia definir de quê. Ficou durante uns três meses namorando cada uma das igrejas pelas quais passava, às vezes dava uma paradinha em frente a uma, do lado de fora mesmo, e tentava analisar a seu modo uma coisa ou outra que lhe despertasse a vontade e a coragem de entrar. Era bem verdade que as pessoas que frequentavam as igrejas estavam sempre bem arrumadas, geralmente dentro de seus melhores vestidos, os penteados, ah, os penteados, estes certamente eram feitos no salão e a maioria das mulheres usavam salto. Catarina queria se sentir bonita como aquelas mulheres, queria ter um motivo para se arrumar, queria ter aquela expressão de paz a qual as pessoas que dali saiam exibiam, nem que fosse só aos domingos, mas rapidamente recobrou a razão, pois ela não teria tantos vestidos e sapatos para exibir e salão de beleza definitivamente não entrava em seu orçamento.

Pensando na questão financeira Catarina lembrou que as pessoas que freqüentavam igrejas contribuíam mensalmente com uma quantia em dinheiro, então se sentiu envergonhada, pois sabia que dinheiro nunca sobrava e apenas ela sabia o tanto que tinha que rebolar para conseguir suprir as necessidades mínimas de sua casa, então adiou novamente a idéia, foi trabalhando as possibilidades, mas concluiu que uma das igrejas era barulhenta demais, a outra ouvia-se rumores de que o pastor era tarado, a contribuição mensal de outra era muito elevada, e levantando estes tópicos ela ia eliminando as alternativas até que um belo dia a caminho do ponto de ônibus Catarina avistou uma senhorinha saindo da igrejinha desativada, então ela apertou o passo para alcançá-la.

– Bom dia, a senhora sabe informar se vão reabrir esta igrejinha?

A senhora de olhar penetrante olhou para Catarina como se pudesse ler sua alma e respondeu sem nenhuma expressão:

– Esta igreja nunca esteve fechada minha senhora.

Catarina arregalou os olhos em um profundo espanto.

– Mas nunca vi luz ou movimentação aqui, nem mesmo vozes…

– Certamente estava distraída ou ainda não era o momento.

Catarina achou estranho e por um momento chegou a duvidar da sanidade daquela senhora, pois morava em Iponéia há bastante tempo e por período igual fazia aquele trajeto, como ela poderia nunca ter reparado alguma movimentação ali e como nunca teria ouvido falar de alguém que ali frequentasse? Ficou sem graça e sem ter o que dizer, mas a senhora prosseguiu.

– As pessoas que aqui frequentam sempre estão em busca de algo, como em qualquer outra igreja, porém aqui temos uma triagem de cinco palestras, estas palestras ajudam as pessoas a descobrir o que realmente estão buscando. Todos que chegam até aqui têm que passar por estas palestras. Você estaria interessada?

Catarina sentiu-se confusa, mas sobretudo curiosa, para ela parecia inacreditável haver alguma atividade naquele local, até mesmo observando por fora o lugar dava sinais de abandono, mas Catarina resolveu ariscar, talvez ali fosse uma organização secreta, talvez tivesse algo de misterioso que realmente pudesse mudar a sua vida, então disse:

– Sim, eu estou interessada, o que preciso fazer?

– A primeira palestra será daqui a uma semana, será em uma segunda- feira às vinte e três horas, a palestra terá duração de uma hora é importante que venha sozinha e principalmente que não falte. A primeira palestra eu que conduzirei, meu nome é Divina e estarei te esperando, agora creio que esteja atrasada.

Ao ouvir aquelas últimas palavras Catarina olhou para o relógio e verificou que havia passado meia hora, com certeza estava atrasada e se não corresse iria começar o dia com uma bronca daquelas. Agradeceu Dona Divina e saiu correndo em direção ao ponto de ônibus.

Foi martelando aquela história durante toda a viajem, sua comadre conhecia apenas dois em Iponéia “Deus e o mundo”, como era possível ela nunca ter comentado nem da igreja nem de Dona Divina, e se fosse apenas uma senhora louca, se nada daquilo fosse verdade, Catarina sentiu um calafrio ao pensar estas coisas, cortou seu pensamento, pois sentiu que se deixasse por conta iria fantasiar coisas além, não por maldade, mas o mundo andava muito violento e todos os dias se tinha notícias de coisas estranhas, de mortes, assassinatos entre outros.

Aquela semana demorou a passar, pois a ansiedade era muita e enquanto o tempo passava vagarosamente Catarina ia imaginando a mudança tão esperada.

Continua

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