Maysee, Um Toque do Mar [Parte 3]: Segredos e Promessas

chuva1

O abraço que Claud deu em Emilly transpassou a parte de baixo da porta que estava entre os dois. Quarenta e dois anos faziam desde que haviam se tocado daquela maneira, um abraço tão íntimo, tão cheio de amor e familiaridade, como se nenhum daqueles anos houvessem se passado.

Claud alisava os cabelos brancos de Emilly, sentindo o perfume de maresia e canela que emanava da sua esposa. Ela chorava, silenciosa, em seu colo molhado como se tivesse encontrado um tesouro valioso há muito perdido. Seus dedos traçavam o caminho dos ombros e pescoço de Claud, quando sentiu o cordão, e afastou-se um pouco, trazendo a mão ao pingente de ouro semipolido.

– Acho que você perdeu o seu… – disse ele com a voz intensa e baixa.

– Eu o joguei fora. De que outra maneira eu poderia viver aqui? – Respondeu suspirando e enxugando as lágrimas.

– Redy… – Claud levou a mão ao rosto dela, mas ela recuou.

– Não me chamo mais assim. Há quarenta e dois anos renunciei, e continuo firme aqui. – Disse incisiva, já com os olhos secos e abrindo a porta para sair, não queria que as meninas vissem aquilo.

– Eu não pude recusar! – Ele defendeu-se, a voz ainda tranqüila e os olhos marejados – Você sabe que a minha função era guardar, e guardei! E quando falhei tive que pagar, fui punido e minha pena foi reduzida, mas preciso continuar servindo. Foi para isso que nasci.

– Eu sei. – ela disse, mais suave – Eu sei, meu amor. E mesmo tendo renunciado, continuo… – Interrompeu-se, ninguém sabia de seu segredo, nem mesmo seu marido. – Mas isso me lembra de perguntar, o que faz aqui? Porque voltou agora?

– Algumas coisas estão acontecendo… – ele falou, os olhos escurecendo como a tempestade – Segui uma serpente marinha até cinco quilômetros daqui, e durante a luta algo estranho aconteceu – sua voz era enigmática – ela seguiu até a praia.

Emilly sentiu o horror no momento em que ouviu a palavra praia. “Loreena” pensou, “mais cedo, toda molhada e assustada!”. Tentou conter o tremor que percorreu seu corpo, mas infelizmente a idade não a permitia ter o controle que antes possuía. Mesmo assim, Claud não percebeu sua reação, parecia preocupado com outra coisa.

– Consegui destruir o monstro – disse, – mas encontrei isso sob seu corpo. – Concluiu, apontando para o canto onde estava se escondendo anteriormente. E só então Emilly percebeu os restos de plástico e metal retorcido. Algo que ela reconhecia de muito tempo e sabia que seus temores estavam confirmados. Loreena estivera na praia. – Pensei que ele poderia ter engolido alguém, mas o rastro do cheiro que estava no guarda-chuva vinha até próximo daqui.

– Ora, mas que loucura! – Sua voz quase elevou-se. – Eu não andaria na praia durante uma tempestade! Não com este corpo. – Concluiu mais baixo. Claud franziu as sobrancelhas para ela, e Emilly sabia que ele podia ler seus olhos.

– Não sugeri isto – respondeu olhando em seus olhos, sondando – mas talvez… senti algo familiar… O que você anda fazendo Emy?

– Nada. – Respondeu rápido demais – apenas cuidando de duas garotas órfãs. – Duas garotas, despista bastante toda a história. Ele franziu o cenho, ela sabia que estava raciocinando.

– Posso vê-las? – perguntou.

– Mas é claro que não! – ela disse e foi veemente, assustando-o. – Elas sabem que sou viúva há quarenta anos, e já viram uma foto nossa, como eu explicaria você ser igual ao meu marido desaparecido há quarenta anos?

– Você guardou fotos? – falou – Pensei que tivesse renunciado…

– Sim, renunciei ao meu posto, à minha função e ao meu berço… Meu próprio nome. E não guardei fotos, guardei uma foto… E que, querendo ou não, era a única lembrança que eu poderia ter do nosso amor e de tudo que perdi. – Emy falou comovendo-se novamente.

– Desculpe – Claud arrependeu-se da rispidez – Eu compreendo. Então devo retornar. Não posso me ausentar por mais tempo.

– Então é adeus novamente? – Emilly surpreendeu-se com a dor que aquilo a infligiu, perdê-lo novamente, talvez para a eternidade, uma segunda vez…

– Por enquanto, não sei. – Disse ele, olhando para a chuva forte. – Mas talvez ainda me veja essa semana… Ainda tenho assuntos a tratar por esta região. E não posso dar adeus a minha amada desta forma. – disse a olhando novamente, os olhos cinzentos mais brilhantes.

– Entendo… – Emilly levou a mão à boca – sinto saudades da nossa vida, Divere.

– Eu sinto falta de ter minha Redy nos braços. – Disse ele tocando o rosto dela, enquanto ela fechava os olhos para não chorar.  – Quando posso vir para despedir-me? – Falou, mas sua voz trazia algo mais, que Emilly tratou de tentar identificar como curiosidade, mas não poderia ser isto.

– Amanhã à noite – falou suavemente – haverá fogos na praia, mas não posso ir… – falou, “e as meninas irão”, pensou sem falar nada.

– Então eu virei – disse a abraçando e se afastou novamente – Eu continuo te amando, minha querida. – disse afagando seu rosto e virando-se para partir.

– Eu também continuo – Emilly respondeu depois, mas ele já estava na chuva, longe demais para ouvir.

 

 

Na Biblioteca

Loreena e Jane estavam sentadas, cada uma em uma poltrona, Jane lendo seu livro antigo e Loreena encarando a lareira fixamente, perdida nos pensamentos. Estava começando a achar que havia sonhado tudo aquilo que acontecera mais cedo. Não tinha explicações lógicas para aquilo. Uma serpente marinha gigante? Impossível, não existiam esses seres, nunca ninguém comprovou sua existência. Ainda estava concentrada no turbilhão de pensamentos quando um estalo chamou sua atenção. Era Jane batendo palmas para Lore.

– Terra chamando Loree? – Disse acenando.

– Ah, desculpe, estava concentrada. – Corrigiu a postura e piscou para desfazer os fantasmas das chamas na sua visão. – O que você disse?

– Estava perguntando se você vai ver os fogos na praia amanhã… – Jane prosseguiu – Eu sei como você odeia esse lugar, e como seu nariz empinado fez uma quantidade negativa de amigas na escola, mas eu queria sair com você um pouco. – Concliu.

– Ora, Jane! Fogos na praia? Isso é tão…

– Tão nossa Dartmouth! – Exclamou Jane, interrompendo-a. E Loreena já sabia que estava certa. Loreena sentia falta de sua cidade antiga e das festas com fogos de artifício na praia junto a seus pais.

– Aqui não é Dartmouth – fez um muxoxo. – Dartmouth era aconchegante. Era nosso lar.

– Bluecastle* é nosso lar agora, Lore. Você queira ou não. – Jane disse de certa forma incisiva – Tia Emilly é nossa família agora. E não venha com essa desculpa esfarrapada. Já tem dois anos que estamos aqui! Você terminou a escola tão depressiva que nem fez nada para mudar sua vida e ir para a universidade de Dartmouth!

 Isso foi uma tapa na cara de Loreena. Considerando que privou-se de ir para aquela universidade para não abandonar sua irmãzinha e sua tia idosa. Mas não iria falar isso para elas, claro que não.

– E suas amigas não vão? – Falou tentando desanuviar a mente.

– Sim, claro que vão. E queria que você fosse comigo! – Jane estava realmente animada.

– Ok… – expirou. Já sabia que as amigas da irmã torceriam o nariz para ela e Lore sairia de perto para não atrapalhar a diversão de Jane. – Eu vou.

Jane levantou-se e abraçou a irmã cantarolando e saltitando.

– Festival Bluecastleee… Festival Bluecastleee….

 

 

Rochedo

Claud voltou ao rochedo, onde seu jovem acompanhante o aguardava. Não havia mais sinal da serpente e Golde estava sentado na parte baixa do rochedo olhando para o mar, como um sentinela.

– Achou algo? – Claud falou e rapidamente o rapaz ajoelhou-se, apoiando um dos braços sobre o joelho, em sinal de reverência.

– Não, senhor. A serpente não devorou nenhum ser humano. – respondeu prontamente.

– Desconfiei que não – Claud falou, olhando para o Leste, onde ficava o Chalé e imaginando…

– Então aquele guarda chuva… – Golde iniciou.

– é um sinal de que foi por pouco. – Claud concluiu – Por pouco não houve uma tragédia. Quando um monstro marinho devora um ser humano, sempre corremos riscos. – Terminou, pensando ainda no reencontro. O rapaz o encarou, percebendo como estava diferente, mas nada mencionou. – Vamos voltar, Jonathan. Temos um relatório a entregar.

Se alguém estivesse observando, veria apenas duas pessoas na chuva fraca, dois pescadores à beira mar. Mas se a visão fosse perfeita, rasgando o véu da normalidade humana, abrindo passagem para o mundo real, veriam dois homens caminhando mar adentro até que suas cabeças submergissem e depois de alguns segundos um pequeno flash de algo grande e prateado e outro pouco menor e dourado cortando as águas e desaparecendo.

Eles não voltaram à superfície.

 

*Cidade fictícia

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É isso mesmo, Maysee voltou com tudo! Comentem que talvez eu lance mais um capítulo essa semana ❤ G.W.

6 comentários em “Maysee, Um Toque do Mar [Parte 3]: Segredos e Promessas

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