A Garota Má (Pt.14): A Besta de Bergen

Escrito por Natasha Morgan

A Besta de Bergen

A poeira flutuava no ar do túnel, densa. Na parca iluminação só se via a pilha alta de pedras e pó lá dentro, o portão velho de ferro quase completamente soterrado. Uma trágica cena para aqueles que amavam construções antigas como aquela mansão.

Uma antiguidade destruída. Reduzida a pó… Assim como os ossos que repousavam sob as pedras.

Podia-se ouvir o lamento doce de um violino, entoando seu último suspiro e deixando para trás uma onda de tristeza e cheiro de morte.

O vento frio zumbiu pela fresta do corredor, uivando alto, e as rochas estremeceram devagar, fazendo surgir do meio delas uma mão crispada. As unhas bem feitas estavam sujas de poeira e não demorou muito para empurrarem o restante de pedras.

O corpo empoeirado ressurgiu com a elegância selvagem de um felino, sacudindo-se do pó que se acumulava no vestido florido. Fridda abriu os olhos com impetuosidade e olhou ao seu redor. Sua boca se crispou numa ameaça fria e ela rosnou.

– Grandessíssima cadela!

A velha resmungou seu ódio e chutou com a ponta do sapato o que restou de pedras partidas, saindo debaixo dos escombros do túnel. Chacoalhou a cabeça uma vez e apanhou sua garrucha perdida no meio da poeira.

O corredor por onde marchara antes estava interditado, mas ela foi esperta e paciente em retirar o que impedia a passagem, enfiou-se pela fresta dos escombros e conseguiu passar.

O outro lado estava igualmente congestionado, pedaços de concreto e canos estourados profanavam a beleza daquele antigo lugar. O chão rochoso estava alagado e era difícil o acesso ao restante do caminho. Uma sorte felinos serem tão ágeis.

Fridda caminhou pela água suja, tomando o cuidado de desviar dos pequenos fios soltos que pendiam do teto, seus olhos sempre atentos a qualquer tipo de ameaça, embora ela duvidasse muito que mais alguém tivesse sobrevivido àquela explosão.

Maldito Búlgaro! Ele pagaria com a vida por tê-la emboscado daquela maneira.

E por ter pego Cherry novamente.

Cherry…

Ela apertou os olhos com pesar, permitindo-se apenas aquele momento de distração. Sua amada Cherry mais uma vez nas garras daquele miserável. Ela precisava sair logo dali e convocar a família. De jeito nenhum deixaria sua preciosa Barnebarn mitt enfrentar mais uma parcela daquele inferno. Era hora de dar um fim nisso! De uma vez por todas. Cessar o tormento daquelas pobres almas que o demônio roubava.

Era hora de destroçar o coração do búlgaro.

Fridda apertou a garrucha em suas mãos, furiosa.

Ela marchou pelos escombros espalhados pelos corredores sob a parca iluminação, o cheiro de mofo irritando seu nariz. Os olhos atentos e impetuosos avistaram um coturno assim que virou a esquina.

A Von Kern se aproximou desconfiada, a garrucha muito bem firme em suas mãos pequenas. O que se revelou foi um corpo caído em meio à poeira do cofre imundo e violado.

Fridda abaixou a arma no exato instante em que viu o rosto do sujeito.

O caçador.

Ela soltou um suspiro misterioso e guardou a garrucha no coldre dos ombros, abaixando-se para poder observá-lo. Analisou o rosto machucado por alguns instantes antes de lhe acertar um tapa na cara.

Halle despertou assustado, olhando para os lados. Tão logo pressentiu companhia, fechou o punho com força e tentou acertar um golpe em seu inimigo.

Fridda soube desviar com agilidade e puxou a garrucha novamente, apontando-a para o peito do adversário quase ao mesmo tempo em que o caçador apanhava sua própria pistola e a engatilhava para disparar contra a velha.

– Vá com calma, grandão! – ela alertou, respirando um pouco mais rápido.

– Fridda. – ele pareceu surpreso.

– Esperava que fosse o Búlgaro? – ergueu as sobrancelhas.

Halle olhou ao seu redor, checando o território.

– Ele se foi. Há muito tempo.

– Miserável! – o caçador explodiu, pondo-se de pé.

– Raiva não vai trazer minha neta de volta.

– Ele a levou! – Halle fitou a velha com os olhos arregalados, o medo espreitando por trás das íris negras como o limbo.

– Vamos pegá-la de volta. – Fridda prometeu.

O caçador avançou em direção à saída, marchando com a força de um tigre.

– Alto lá! – Fridda o interrompeu. – Onde pensa que vai?

– Tirar Cherry das patas daquele porco! – praticamente cuspiu as palavras.

– Sozinho?

– Sou o suficiente para tirá-la dessa enrascada!

– Menos pompa, super herói. Você não é o Hulk! Sequer sabe onde ela está.

Halle rosnou.

– E o que sugere? Que eu fique parado aqui, conversando com você enquanto aquele miserável faz sabe-se-lá o que com ela?

Fridda guardou a garrucha, suspirando com cansaço.

– Vamos nos reunir com os outros. Reagrupar em nossa casa. Lá montaremos um plano de resgate, com todas as armas que possuímos, e então vamos atrás da nossa Cherry.

– Porra nenhuma! Eu vou busca-la agora mesmo! Essa merda já durou tempo demais. Sempre me virei muito bem sozinho, ficarei bem.

– Não seja teimoso, menino.

Halle continuou andando, deixando a mulher falar sozinha.

Fridda suspirou novamente.

– Ok. Que esteja claro que foi você quem me obrigou a fazer isso.

Ela tocou no ombro dele uma vez e no instante em que ele se virou para ela, Fridda lhe deu um soco capaz de fazer seu cérebro explodir numa dor miserável. O caçador cambaleou e acabou caindo no chão, desmaiado.

– Teimoso. – ela repetiu num resmungo e levantou o corpo pesado, arrastando-o pelo corredor.

*-* *-*

Os outros estavam no que costumava ser a sala de estar da antiga mansão. Klaus ajoelhado diante de um cadáver, apreciando a morte em sua mais bela forma. Sander apoiado contra a estante de mogno, a expressão vazia. Os olhos vermelhos do menino indicavam que ele chorava e a postura rígida denunciava o ódio queimando-o vivo.

Fridda surgiu pelo corredor arrastando Halle e pareceu despertar a atenção dos dois. Klaus ergueu os olhos sem empolgação e Sander levantou sua pistola.

– Sou eu. – Fridda parecia aflita.

– O que aconteceu lá embaixo? Sentimos o chão tremer e logo a casa começou a se deteriorar. – Klaus avançou em direção á mãe. – Eu me preocupei com você e Cherry…

– Eles a levaram. – Fridda soltou. – Levaram nossa Cherry!

– Quem?!

– O Búlgaro e aquela maldita cadela amante do diabo!

Sander rosnou.

– Você a deixou viva?!

– Bóris a ajudou escapar.

– Ninguém nunca escapa de você! – o rapaz mirou a Bestemor beirando a fúria, suas palavras foram mastigadas com violência e cuspidas.

Klaus lhe deu um empurrão.

– Sander!

– Acha que estou contente com isso? – Fridda fitou o neto com a mesma agressividade.

– A cadela maldita terá o que merece. – Klaus prometeu, mais para si mesmo.

– Com toda a maldita certeza. – Fridda saboreou suas palavras. – Assim que eu puser as mãos nela não sobrará nada. A vadia não me escapará novamente. Esta será a última vez que mancho as mãos com sangue Borsahy. E eu vou me lambuzar.

– O que aconteceu com ele? – Klaus pareceu notar Halle.

– Desta vez ou na primeira vez que o encontrei desmaiado?

O mafioso ergueu as sobrancelhas.

– Tive que desmaia-lo. – Fridda suspirou com pesar. – O idiota queria ir atrás de Cherry sozinho.

– E por que não o deixou? – Sander disse. – É o que eu teria feito por Willa se meu pai não estivesse me prendendo!

– Tolos! – Fridda resmungou, dando um tabefe de leve no rosto do neto. – Quando é que vão aprender a pensar? Jovens tolos! – ela saiu resmungando.

Klaus apanhou o corpo desmaiado do caçador.

– Vamos para casa. – disse. – Juntar armas e contatos.

Sander apanhou um malote pardo do chão, encaixou o óculos de sol no rosto e seguiu o pai.

– Vamos caçar, Far?

– Não, meu filho. Nós vamos despedaçar.

*-* *-*

Halle acordou com uma dor de cabeça filha da puta e a primeira coisa que pensou foi em esganar aquela velha. Maldita família de loucos aquela à qual Cherry pertencia! Ele abriu os olhos num rompante e se levantou de onde quer que estivesse.

A sola de uma bota pesada o jogou de volta ao sofá creme.

Fridda o encarou com seriedade. Estava vestida de negro, como o restante dos integrantes da família, que o observava de longe.

– Vai bancar o teimoso novamente ou se juntar a nós? – ela perguntou.

– Velha… – ele soltou um resmungo.

– Acho melhor não terminar a frase insolente. As coisas nunca acabam bem para quem me chama de velha.

– Você me deu um soco. – ele a lembrou.

– Verdade. Mas você mereceu. Ia fazer uma idiotice.

– Eu sempre faço idiotices.

– É, mas agora terá a chance de fazer idiotices com a gente. – Sander disse, estendendo a mão para o caçador e o ajudando a se sentar.

Halle o olhou desconfiado. Gostava do garoto ruivo, mas estava longe de confiar naquela família mafiosa e assassina.

– Pode se juntar a nós nessa noite de caça. – Klaus disse, encarando-o do outro lado da sala. Estava igualmente elegante a seu filho, vestido em couro negro e portando aquelas duas pistolas ornamentais escandinavas.

– No entanto – disse o chefe da família. – Sugiro que repense caso tiver algum problema com o odor ou sabor do sangue. Porque hoje vamos nos deliciar nesse banquete infernal, meu amigo caçador. Hoje vamos devorar sangue, carne e almas.

Halle esboçou um sorriso.

– Sangue não é meu problema.

– Ótimo.

– É uma oferta de paz?

– Considere um convite amistoso. – Fridda disse. – Até agora eu não o matei, não é mesmo? – a velha deu um sorrisinho. – Você quer sua Cherry de volta, assim como nós. Que trabalhemos juntos nisso.

– Parece um bom acordo para mim. Contanto que você divida os traseiros a serem chutados.

– Não dividiremos traseiros esta noite, meu jovem. Dividiremos carne e sangue.

Halle não soube dizer por que, mas sua alma se arrepiou com as palavras daquela mulher. Há muito ouvira sobre a matriarca Von Kern, histórias terríveis a respeito daquela senhora. Mas nunca sentiu verdadeiro medo como agora, encarando-a banhada em ódio.

   Devoradora Escarlate, eles a chamavam.

   Sulten Løvinne.

Despedaçadora de almas.

Não interessava os nomes, Halle sempre soube que aquela mulher era um demônio.

E ela chamava Alline de amante do diabo? Ele quis rir internamente.

– Você exala escuridão e odor de sangue. – ouviu-se seu sussurro.

Fridda voltou seus olhos para ele.

A gargalhada sádica que ela soltou foi de estremecer a alma.

                                               Alguns anos atrás, Sul da Albânia

O Gjuetar[1] inclinou a cabeça em direção à mesinha de vidro ornamentada, inspirando com força a fileira perfeitinha de heroína. Uma cheiradinha não faria mal, não quando a ansiedade o estava deixando louco. Raul já devia ter chegado com novas informações! Aquele lugar não era totalmente seguro afinal, nenhum lugar era seguro quando se ousava investigar aquela maldita família!

Desta vez tinha ultrapassado todos os limites naquele trabalho.

Ele sacudiu a cabeça, sentindo a química da droga domar cada pedacinho de seu ser. Suas pupilas dilataram e o sangue correu mais forte em suas veias, deixando um sorriso insano se esboçar em seus lábios finos e trincados pelo frio.

Naquela noite ele seria conhecido no mundo todo, desde a Interpol,  DEA até o FBI. O cara que conseguiu pegar os Von Kern.

Ele gargalhou, inclinando-se sobre a mesinha mais uma vez e dando um fim naquelas fileiras branquinhas e preciosas.

O relógio soou a meia noite, atraindo seu olhar ansioso.

E foi nesse instante que ele ouviu o som suave… Suave como um aviso sórdido.

A porta de titânio do galpão explodiu numa chuva de metais pontiagudos, atingindo-o no rosto algumas vezes. O Gjuetar se jogou ao chão, gemendo de dor e tocando o rosto cravado de pequenos pedacinhos de titânio.

Mas que porra!

O medo invadiu seu ser no mesmo instante, fazendo-o lamentar não ter ido se aliviar no banheiro. Tinha a ligeira impressão de que o macho dentro de si o abandonaria e liberaria a versão mais covarde de si mesmo.

Usando a mesa como uma espécie de proteção, ele deu uma pequena espiada na direção da porta. Só para constatar a beldade mortífera que vinha em sua direção.

Para o inferno com o orgulho! Fez xixi nas calças ali mesmo.

A Besta de Bergen.

A maldita que aterrorizava a Escandinava há tantos anos, espalhando um rastro de sangue fresco e corações dilacerados.

A matriarca Von Kern o havia achado, afinal de contas. Mas o que o fazia pensar que ela não o acharia?

Ele riu de sua própria imbecilidade. Seus amigos estavam certos a final, ele deveria ter permanecido em suas aventuras simples, caçando criminosos menores. Mas sua ambição o colocou naquela situação… E agora era a hora de enfrentar a leoa enfurecida.

Tomado de uma coragem surpreendente e guiado pela heroína, o Gjuetar se ergueu do chão e encarou a Besta. Sua mão repousada em sua pequena pistola atada á cintura. Os olhos cruzaram-se com os da mulher e sua alma estremeceu. Há quem dizia que ela fora extremamente linda no passado… Uma beleza predadora.

A velha trajava vermelho, uma cor ousada e ultrajante naquele frio. A bota negra e pesada trazia neve acumulada, assim como a capa longa que usava. Seus olhos azuis eram mortais, e traziam uma promessa maléfica, os lábios comprimidos em deboche.

Ela mirava uma pistola antiga para seu oponente e na outra mão trazia uma corrente grossa e cheia de ganchos – uma visão perturbadora.

O Gjuetar desistiu de tentar lutar, olhando bem para aquela imagem saída de seus piores pesadelos, e decidiu correr. Virando-se na direção da saída, ele iniciou sua fuga para a estrada da salvação.

No entanto, a Besta era sempre muito mais ligeira. No movimento gracioso, ela lançou seu laço sobre o fugitivo e o enganchou com a corrente pesada. Os ganchos de metal se prenderam à carne do Gjuetar num doloroso abraço e ela o puxou.

Ele gritou ao ser arrastado pelo chão imundo, sentindo sua carne se rasgar com a velocidade. Quando abriu os olhos, deparou-se com o olhar enfurecido da velha.

– Sulten Løvinne – ele balbuciou.

A Besta deu um sorriso imperturbável.

– É como vocês, caçadores, me chamam? – perguntou ela em sua língua materna.

– É como o mundo a conhece. – respondeu o homem, cauteloso. – A Besta de Bergen.

A velha gargalhou.

– Besta é? – riu de novo. – Vejamos por que eu tenho esse nome… – ela puxou a corrente, levantando-o do chão em meio a lamentos.

Os olhos turbulentos da mulher se fixaram nos dele.

– Diga-me, caçador, o que lhe fez me atrair a um país de merda como esse só para lhe caçar?

O homem a encarou com firmeza, mantendo aquele pequeno disfarce. E então sorriu.

– Estávamos esperando por você.

Com um pequeno assovio, ele fez surgir oito homens das extremidades do galpão.

Como soldados bem treinados, os sujeitos se aprumaram com suas metralhadoras profissionais.

A velha deu um pequeno sorriso.

– Todos caçadores, como você?

– Acontece que estamos cansados de nos esconder nas sombras, temendo a Besta de Bargen. – o rapaz começou, livrando-se das correntes pegajosas e assumindo um lugar ofensivo ao lado da mulher. – Resolvemos nos unir e pegar você.

Ela avaliou os outros.

– Um plano inteligente. – concluiu. – Uma pena que não tenham te ensinado a não cutucar uma Besta!

Num movimento rápido, ela lhe deu um golpe na garganta, cortando a carne com a lâmina afiada de uma adaga. O sangue jorrou espesso, engasgando o rapaz que caiu, fixando os olhos surpresos na velha poucos segundos antes de ser levado pela morte.

Ela se virou para os outros homens, erguendo uma sobrancelha.

– Quem será o próximo a se curvar à minha fome?

Corajosos, os caçadores decidiram enfrentar a fera. E acabaram despedaçados.

A Besta usou de suas habilidades para se esquivar dos golpes dos oito adversários, chutando, atirando e enlaçando-os com sua corrente horripilante. E quando a fome grunhiu, ela finalmente os despedaçou, manchando os muros daquele galpão de vermelho.

Em oitenta anos, nunca houve um massacre tão brutal.

E foi exatamente nessa noite que o nome de Fridda Von Kern aterrorizou as demais gerações de caçadores de recompensas.

Fridda voltou seus olhos para o presente.

Aquelas lembranças eram por demais saborosas. Olhando para Halle agora quase não podia culpa-lo pelo olhar aterrorizado com que a fitava. Já havia visto esse olhar em milhões de rostos ao longo de sua vida…

Mor – Klaus a chamou.

Fridda desviou os olhos para o filho.

– Por onde devemos começar?

– Vamos rastreá-lo.

Em poucos minutos a Matriarca da Família estava em movimento, conduzindo todos ao sofisticado escritório da mansão onde se ocuparam em checar seus melhores contatos e programas internacionais em busca de qualquer propriedade no nome do búlgaro. Tarefa árdua encontrar um Magnata tão exímio na estratégia de se esconder.

Halle ficou em silêncio, sentado numa cadeira de veludo ao fundo do aposento. A cara de poucos amigos era notável. Sua camisa escura ainda estava manchada de sangue, onde a ferida seguia aberta. Ele olhou desconfortável para o ombro.

A maldita bala ainda se encontrava cravada em sua carne.

– Quer ajuda com isso? – Sander perguntou, aproximando-se dele.

– Não. Preciso apenas de uma faca.

O garoto deu uma risadinha sem humor e retirou uma pequena adaga ornamental de seu coldre.

– Isso deve funcionar.

Halle agradeceu silenciosamente e apanhou a adaga pelo cabo de couro. Com um puxão rasgou a camisa preta e expôs o ombro ferido. Respirando fundo, ele usou a ponta da lâmina como pinça, enfiando-a na carne dilacerada e cutucando-a até que a bala saísse.

Uma pequena pontinha metálica caiu no chão num surdo baque, aliviando seu sofrimento.

Halle respirou aliviado.

– Acho que vai precisar de pontos. – Sander disse, avaliando o ferimento que vertia um pouco de sangue.

– Não se preocupe com isso.

– Vai precisar, sim. – Fridda disse, sem desviar os olhos do computador ao longe. – Tem um kit de primeiros socorros no banheiro do corredor. Sander, cuide disso.

Halle resmungou alguma coisa.

A velha voltou seus olhos, impaciente, para ele.

– Se quer se juntar a nós, precisa estar em perfeitas condições. Por favor, colabore. Seria uma pena vê-lo morto.

– Acha que um tiro como esse vai me matar?

– Não. Mas eu posso perder minha paciência e lhe meter uma bala nos testículos caso você não colabore. – ela ergueu as sobrancelhas.

Halle deixou escapar um sorrisinho, contra sua vontade.

Paciente, permitiu que o garoto ruivo o costurasse enquanto ouvia as centenas de ligações que o restante da família fazia. Sua paciência estava se esgotando com toda aquela demora. Será que não viam que isso só os atrasava? Havia jeitos melhores de encontrar Cherry!

Sander franziu os lábios e o fitou com compreensão.

– Sei o que sente.

Halle voltou seus olhos para ele.

– Eles a pegaram também. Sua Willa.

– É. Pegaram sim.

– Homens como Bóris Petrov pegaram minha irmã também.

– Eu ouvi alguma coisa a respeito.

– É claro que ouviu. – Halle fez uma breve pausa. – Minha irmã não teve um final feliz. Vamos nos certificar que Cherry e Willa tenham.

Ele se levantou, ignorando as fisgadas no ombro.

Aproximou-se da mesa enorme em que Fridda e Klaus estavam amontoados, analisando documentos e históricos.

– Isso é perda de tempo. – disse o caçador, interrompendo-os.

Fridda desviou os olhos da tela do notebook, mais uma vez com impaciência.

– Não vão achar Bóris desse jeito! Acha que ele não se preveniu para um caso como esses? Não é idiota! – Halle disse numa enxurrada de palavras.

– Você sugere outra abordagem? Porque somos todo ouvidos. – foi a vez de Klaus falar.

– Precisa falar com alguém que saiba das coisas. Alguém que tenha todo tipo de contato. Passe-me o telefone.

– Para quem vai ligar? – o nórdico olhou feio para ele.

– Passe a porra do telefone!

– Menino mal educado. – Fridda repreendeu.

– Não sou mais um menino, senhora. E minha mãe me educou muito bem. – Halle a olhou com paciência. – Estou tentando ajudar. Dê-me o telefone.

– Dê a ele. – a velha ordenou.

Klaus apanhou o aparelho sem fio e o entregou.

– Se querem encontrar Bóris precisam de alguém que comande as coisas aqui em New York, alguém que seja neutro dentro do território. E precisam de uma ajuda extra.

Halle discou um número pouco acessado por ele.

Quando a linha deu sinal, sua voz soou rouca.

– King, preciso encontrar Meera.

Ouviu-se um chiado agudo.

Fridda, Klaus e Sander encaravam o caçador como se ele tivesse acabado de chutar o gato da família.

Halle continuou falando ao telefone.

– Não, eu preciso encontra-la agora mesmo! Sem joguinhos.

      – O que está acontecendo, Halle? – A voz de King mudou imediatamente e ele se empertigou em sua poltrona de camurça.

– O Búlgaro levou Cherry. – a voz do caçador veio como um chute no saco.

– O quê?!

      – Se você tem qualquer pista sobre onde ele possa estar, essa é sua chance de dizer.

      – Eu não tenho a menor ideia de onde encontrar aquele miserável. Já disse isso a Cherry milhões de vezes. Como isso aconteceu?

      – Não tenho tempo de explicar. Preciso de Meera.

      – Onde você está?

       – Isso não interessa.

      – Bennett, sem joguinhos comigo! Diga-me onde você está.

      – Digamos que com uma companhia interessante. Não tenho tempo para demorar nos detalhes, honestamente, sequer deveria estar enrolando com você ao telefone. Basta me dizer onde encontrar Meera e tudo se resolverá. E não me venha com piadinhas que ela me encontrará assim que seu nome for sussurrado ao vento!

      – É assim que ela ouve o chamado.

      – Deixe de besteiras, Mouro!

     – Ótimo! Onde está, maldito caçador?! Se quer Meera terá que me dizer. Se acha que ficarei de fora está muito enganado. Cherry é minha amiga.

 

Halle pareceu refletir.

O Mouro seria de muito ajuda.

– Von Kern. – disse ele. – Estou na mansão Von Kern.

Ouviu-se um palavrão do outro lado da linha.

      – Estarei aí em quinze minutos. – King prometeu e desligou.

Halle voltou o telefone no lugar e finalmente encarou os outros.

Fridda balançava o pezinho com impaciência.

– Quer me dizer por que infernos convocou uma mercenária à minha casa?

– Porque se tem alguém capaz de encontrar Bóris Petrov, esse alguém é Meera.

O olhar do caçador fora tão franco que calou a mulher.

– Temos que usar qualquer recurso possível. – Sander concordou.

– Não me agrada trabalhar com mercenários.

– Também não me agrada trabalhar com a Besta de Bergen, mas aqui estamos. – Halle disse, encarando a mulher.

– Mas que mal agradecido! – Fridda lhe deu um safanão. – Eu lhe salvo a vida e é isso o que recebo em troca?

– Sinto muito se feri seus sentimentos, vovó.

A velha rosnou.

Sander riu.

E Klaus revirou os olhos.

King levou o equivalente a catorze minutos para chegar até a Mansão. Como um bom homem de negócios, ele tinha total acesso àquela casa a hora que quisesse. Estacionou seu Bentley ao lado do canteiro de flores silvestres e acenou para os seguranças antes de sair do carro.

Suas vestes eram igualmente simples à dos demais, uma calça folgada, camisa social preta e botas pesadas de couro italiano. Mas a elegância natural do Mouro acabava ali mesmo. Em seu peito largo e musculoso pendia um coldre ultra moderno, preenchido com duas pistolas calibre 9mm e um canivete suíço.

Sua expressão fechada contribuía para a fama de severo que ele tinha. E naquele dia não era diferente. Esta muito puto da vida!

Halle o recebeu no hall, junto aos outros.

– Onde ela está? – inquiriu logo o caçador.

– Calminha aí, Amigo. Primeiro vai me contar o que diabos está acontecendo! Cherry nas mãos do búlgaro de novo?!

Seus olhos negros se voltaram para Klaus.

O mafioso se aproximou com formalidade, oferecendo a mão num cumprimento honroso.

– King.

O Mouro aceitou o cumprimento, respeitosamente.

– O que houve, Klaus?

– Uma fatalidade. Já estamos cuidando para resolver tudo. Não precisa se preocupar. Os Von Kern sempre cuidam de quitar as dívidas, não é mesmo?

– Uma dívida como essa é valiosa demais para se cobrar sozinho, querido amigo.

– Sabemos disso.

– Ora, parem com essa conversinha! – Halle perdeu a paciência novamente. – Estamos aqui nos esbaldando em elegância, discutindo sobre nada e fazendo planos a esmo enquanto Cherry está com aquele miserável! Vamos, King! Diga onde está Meera!

– Acalme-se, Caçador. Ou eu farei isso por você. – Klaus o olhou feio, deixando claro sua desaprovação diante de tamanha falta de elegância.

– Estamos fazendo o que podemos. Procurando devagar para não deixar nada despercebido. Não podemos enlouquecer ou essa será a nossa queda. – Fridda concordou.

Halle lançou um olhar enfurecido ao nórdico.

– Talvez, se você não tivesse perdido tanto tempo em esbanjar sua elegância fina, Cherry houvesse saído ilesa da primeira vez.

Klaus soltou um rosnado do fundo da garganta e seu punho afundou-se no rosto do caçador insolente.

Halle cambaleou em direção à parede, surpreso. Seus olhos furiosos miraram o agressor. Ele respirou fundo, esfregando o queixo.

– Atreva-se a dizer mais uma besteira dessas e eu juro que estouro seus miolos e os dou aos meus cães! – Klaus cuspiu as palavras, furioso. – Acha que não fui atrás da minha sobrinha?! Acha que não esgotei todos os meus recursos procurando-a em todos os cantos deste maldito mundo!

– Parece que seus recursos não foram o suficiente.

– Maldito! – Klaus avançou novamente contra o rapaz, mas Sander se interpôs entre os dois.

O garoto olhou o pai de forma séria.

– Isso não vai nos ajudar agora, Pai. – disse, sensatamente.

– Ele tem razão. – Fridda concordou, colocando uma mão confortadora no ombro do filho.

– Esse miserável merece uma boa surra! Como se atreve entrar em minha casa e dizer tais coisas?

– Eu não queria estar em sua casa! – Halle o enfrentou. – Por mim estava lá fora, fazendo alguma coisa de útil! Caçando o búlgaro!

– Acha que vai encontra-lo, garoto? Acha mesmo que tem mais recursos que nós?

– Eu vou até o inferno por ela!

– E é exatamente disso que precisamos. – Fridda fitou o filho e depois caçador. – Estamos todos desesperados para encontra-las.

– Não é o que parece…

Klaus avançou novamente contra Halle, arrastando o corpo pesado do filho junto.

Sander fez força e empurrou o pai de volta.

Fridda berrou algo em outro idioma, silenciando todos. Seu olhar severo foi o suficiente para acabar com aquela discussão idiota.

– Já chega com essa merda! Vamos nos comportar como pessoas civilizadas e não dar lugar à besta selvagem! Isso não vai ajudar Cherry e Willa.

King pareceu despertar.

– A jovem garota está desaparecida também?

– Desaparecida não. Ela foi levada. – Sander disse por entre os dentes cerrados.

Halle se soltou da restrição do ruivo, dando alguns passos à frente.

– Precisa nos levar até Meera.

– Não vou leva-los a lugar nenhum. Meera virá até vocês.

– Onde ela está?

King deu de ombros.

– Eu não faço ideia. O que? Acha que somos casados ou coisa parecida? Como é que vou saber de todos os passos daquela louca?

– Achei que sabia onde encontrar a mercenária. – disse Klaus, um pouco decepcionado.

– Temos um contato um tanto íntimo. Eu chamo e ela vem.

Fridda revirou os olhos.

– Sussurre aos ventos e ela virá… Essa é a lenda mais estúpida a respeito dos Borsahys que eu já ouvi!

King estreitou os olhos.

– Para uma Von Kern, sabe muito a respeito de Meera.

– Pouco sei sobre essa mercenária, meu rapaz. Exceto que ela pertence a uma organização muito antiga. Eu conheço uma puta que se diz Borsahy, espero que essa característica não faça parte de todos eles. Não quero ter problema com essa mulher.

– Basta manter a boca fechada e não encontrará problemas, minha senhora. – King disse, da forma mais respeitosa que conseguiu.

Fridda aprumou-se.

– Ninguém diz às mulheres desta família para manterem suas bocas fechadas!

– Sinto muito, milady.

A velha estreitou os olhos numa expressão agressiva.

– Não sou nenhuma Lady!

King deu um sorriso malicioso.

– Qual de seus outros apelidos prefere que eu use?

– Acho que entendo por que você é o mais requintado e renomado distribuidor que temos.

– Sou apenas um homem de negócios, senhora. Um homem que teve o prazer de fazer alianças com sua família. Cherry é uma amiga por demais amada. Se ela está com problemas, conte comigo.

– Tal aliança não será esquecida. – Klaus disse, fitando o Mouro com respeito.

– Não vim atrás de benefícios, Nórdico.

– Eu sei que não. – Klaus ofereceu o braço em cumprimento novamente.

Halle revirou os olhos, impaciente.

– Já acabaram, mocinhas? – seus olhos se voltaram para King. – Então, onde encontramos ela? Não temos o dia todo para espera-la dar o ar da graça.

– Pode apostar que vou contar isso à ela. – King girou a chave de seu Bentley nas mãos, o chaveiro de caveira balançando. – Vamos, eu tenho um contato sobre onde ela pode estar.

Os Von Kern conduziram o convidado a uma sala de paredes escuras e portas de madeira pesada ao fim do corredor principal. Quando as portas se abriram num suave rangido, o arsenal se revelou, enchendo os olhos dos convidados de brilho.

As paredes eram forradas de vidraças de cristal, abrigando uma quantidade fenomenal de armas, pistolas, espadas, adagas e qualquer tipo de objeto ofensivo. Havia até mesmo uma Besta de 1521 presa à uma elegante estante de mogno.

King caminhou lentamente pelo piso refinado, apreciando a obra de arte. Ao seu lado, Halle parecia igualmente hipnotizado, observando a coleção interminável dos Von Kern. O que parecia ser uma simples sala se revelou um esconderijo intimidador.

Fridda, Klaus e Sander se apressaram em apanhar tudo aquilo o que precisariam, ignorando o encanto dos convidados. Encheram os coldres de pistolas, granadas e alguns explosivos. Klaus parou em frente um computador de alta tecnologia e começou a batucar os dedos no teclado transparente.

Halle se aproximou das paredes de cristal, observando as pistolas antigas e poderosas. Seus olhos varreram o local com interesse e repousaram num compartimento diferente em meio a tantas outras. O pequeno revolver se encontrava isolado dos outros, majestoso em toda sua elegância.

O caçador pousou os dedos no vidro fino, admirando.

– É dela. – Fridda disse baixinho, ao seu lado. – É a preferida de Cherry, embora ela não a use tanto. Diz que é A Vingança da Caçadora.

Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto dos lábios do caçador.

Ele abriu a trava do vidro e retirou a Magnum. A arma encaixou-se com elegância em sua mão.

– Que ela faça valer sua vingança esta noite então.

Fridda assentiu uma vez, aprovando.

– Vamos, Caçador. Vamos buscar sua garota.

– Ela não é minha garota. Cherry não é a garota de ninguém.

– E mesmo assim você quer resgatá-la. – Klaus disse, fitando o rapaz.

– Não teria como ser diferente.

O Nórdico pareceu aprovar, embora seu ar severo nada revelasse. Com apenas um balançar de cabeça, ele se afastou, terminando de se armar.

King os esperou pacientemente. Felizmente não precisava de nada daquela sala. Suas pistolas especiais estavam em seu devido lugar, então tudo estava certo. Olhou em seu relógio uma vez, constatando os poucos minutos que ainda tinha e então conduziu seus companheiros para o Bentley sofisticado.

Sander ignorou a ordem, apanhou o Mustang vermelho e sentou-se em sua poltrona personalizada. Quando suas mãos apertaram o volante de couro e o motor roncou, soube que estava pronto para pegar a estrada para o inferno… Ah, sim… Naquela noite o banquete seria em veludo vermelho!

Halle não esperou por um convite formal, ocupou o lugar ao lado do ruivo e se apressou em ligar o som.

Quando as batidas demoníacas de uma banda antiga começaram a soar pelos alto falantes, eles partiram estrada à fora.

                                                                Aeroporto Central

Meera levantou-se de sua confortável poltrona, ciente de que todos a estavam encarando. Já estava acostumada aos olhares que atraía com aquele seu estilo e aura excêntricos, o que podia fazer? Suas botas fizeram um pequeno e elegante barulho no carpete grosso do avião à medida que ela se dirigia à longa escada e descia os degraus certinhos.

Em sua mente ecoavam milhões de perguntas. Dentre elas, por que King havia se incomodado em ligar e estragar completamente suas férias improvisadas no Caribe. Maldição! Mal havia terminado sua última missão e lá estava ela, abandonando as areias quentes mais uma vez em apenas algumas semanas.

No entanto, recusar um pedido de um velho amigo não era uma opção.

Não quando quem implorava era o Mouro.

Quando passou pelo arco bem elaborado de Bem-Vindo à New York, avistou o amigo parado ao lado de uma pequena lojinha de doces. Ao seu lado estava a corja Von Kern.

A mercenária ergueu as sobrancelhas, surpresa e deu um sorrisinho, finalmente parando numa pose impertinente.

Seu ar sedutor era inconfundível.

– Então… O que é tão importante?

[1] Caçador

10 comentários em “A Garota Má (Pt.14): A Besta de Bergen

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