Vendetta Pt.1 – Funeral

Vendetta 1

Por Lillithy Orleander

A marcha fúnebre tocava solene e eu olhava para as lapides que por mim passavam enquanto meu pai e irmãos carregavam a alça do caixão mogno, que carregava minha mãe, Marie.

Muitas pessoas haviam comparecido para dar seus pêsames e alguns parentes fingiam chorar descaradamente como se sempre estivessem presente nos dias de vida que foram ceifados dela por causa da doença. “Bando de abutres.” – pensei comigo mesma. Ela definhou dia após dia e ninguém foi capaz de lhe levar um copo de água na cama, aquela cena toda me enojava.

O padre fez o sermão da vida eterna, pois minha mãe era religiosa demais e em nossa família ela era a exceção. Afastei – me de todos e encostei-me a uma arvore próxima. Eu estava entediada, não gostava desses rituais que insistem em manter a família presa numa farsa, afinal de contas ela nem estava mais ali, o que sobrará era apenas uma casca vazia. Ela partirá sorrindo ao lado de alguém que nunca vi, enquanto o que parecia ser um anjo de longas asas negras e olhos acinzentados alçava vôo por cima de outras lapides próximas. Ela havia cumprido sua missão, e eu estava aqui, presa nesse inferno, eu só não sabia que as coisas poderiam ser piores. Ou melhor, eu nem imaginava quem eu me tornaria e nem que motivos banais me fariam ver que o Inferno era o Paraíso comparado a certas coisas…

As semanas passaram e como sempre, dentro de casa só se lembravam de mim quando precisavam de algo do contrario eu havia me tornado invisível. Meu pai continuava com os “negócios” da família caminhando de vento em polpa, enquanto meus irmãos cuidavam da parte suja deste mesmo trabalho familiar.

– É hora de voltar para a faculdade Charlie.

Eu adorava aqueles olhos azuis, ele vestia uma jaqueta de couro e estava sentado no batente da janela, como sempre.

Rolei na cama, deitando – se sobre meus cotovelos e o olhei friamente.

– Você acha realmente que devo voltar para a faculdade? – perguntei irônica.

– Oras Charlie, vai ser divertido. Vai ser diferente, vamos ter fé. – disse ele piscando.

– Diferente? Você ainda acredita que possa ser… Diferente? Nós já vimos esse filme antes então me poupe dessa sua fé barata e vê se evapora Éolo.

Ele  sorriu e bateu continência sumindo no ar.

– Ele tem razão, eu preciso fazer algo antes que eu enlouqueça nessa casa.

Os gritos ensurdecedores invadiam meu recanto sagrado pintado de preto, meu quarto era meu templo. Peguei o Iphone e escolhi Tears don’t Fall¹, coloquei no último volume e peguei alguns livros da Faculdade de Literatura pra tentar me distrair. O solo da guitarra era ensurdecedor, e para mim não havia coisa melhor. Ele calava o som das vozes que muitas vezes entravam porta adentro e me perseguiam sem pedir licença…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

– Charlotte Maensen. – gritou o homem alto, de óculos caídos sobre o nariz adunco e os olhos amendoados. Ele vestia uma calça social cáqui e uma camisa branca acompanhada por uma grava de listras azuis – turquesa, sentado atrás da mesa de ébano, com as mãos cruzadas

– Charlie, apenas Charlie. – Sussurrou ela

A garota estava vestida em uma bata de renda preta, calça de couro e botas no mesmo tom. Tirou os óculos escuros e adentrou a sala do diretor, olhando – o friamente com os olhos verdes, jogando a longa trança castanha para trás.

– Olá diretor Callahan?

Ele em tão se levantou e estendeu a mão em direção á moça.

– Bem vinda de volta Srta. Maensen, meus sentimentos pelo ocorrido, mas espero que isso não atrapalhe ao seu retorno para suas aulas e amigos. Temos alguns professores novos e seus horários parecem que mudaram um pouco mais do que você está habituada, mas em breve creio que tudo estará de volta normal pra você. – dizia ele rapidamente mexendo nos papéis referentes á ela.

– Alguma duvida?

– Não. – respondeu ela pegando um papel que ele estendia com um sorriso franco.

– Então, que seu retorno seja repleto de coisas boas e seu dia maravilhoso Srta. Maensen.

– Obrigado Sr. Callahan, mas duvido muito que será. – respondeu ela saindo da sala sem olhar pra trás e deixando o diretor sem entender.

– Srta. Maensen precisa de ajuda? – perguntou uma moça morena de pouco mais de 30 anos, boca carnuda, corpo escultural.

– Acho que ainda me lembro como chego à sala de aula.

– Então seja bem vinda de volta. – sorriu ela sincera.

– Dispenso as boas vindas, Madeleine. – Charlotte sorriu sarcástica.

A moça voltou a se sentar em sua mesa se sentindo incomodada com a resposta, mas nada disse.

Charlotte caminhou até seu armário, colocando novamente os fones de ouvidos, para fugir dos burburinhos que começavam a se espalhar enquanto ela passava pelos corredores. Ela abriu a porta do armário, soprou os livros que estavam um pouco empoeirados, e olhou o novo horário em sua mão.

– Olha só quem está de volta… – disse uma garota magra, que vestia um vestido lilás até os joelhos e salto agulha na cor preta. De cabelo ruivo que formavam grandes cachos, ela chupava um pirulito e olhava para outra com desdém.

Charlotte bateu a porta do armário e encostou-se a ele, olhando a beldade de cima a baixo, com um sorriso irônico, ela colocou o óculos novamente e se posicionou para sair.

– Vyolette Mon’t Blanc. É um desprazer te rever novamente, eu realmente acreditei que quando chegasse aqui você estaria morta no armário de vassouras do Sr. Leminsky, mas pelo o que vejo, até as  vassouras te repudiam, não é mesmo? Afinal de contas ninguém gosta de vadias. – disse ela deixando a outra furiosa e virando as costas para partir.

– Se eu fosse você teria medo dessa vadia. – Charlie parou e abaixou o óculos quando olhou para trás, voltou os poucos passos que a separavam da  outra e fez como se fosse beijar a outra na face, deixando a boca bem próxima do ouvido da mesma.

–  Eu não tenho medo de pessoas  que eu mesma posso matar.

– Assassina.

– Não, Vy. Minha família é assassina, e isso é bem melhor do que ser a garotinha de  programa do papai cafetão.

Vyolette levantou a mão, pronta para desferir um tapa na cara de Charlie, mas foi impedida.

– Sabe Srta. Mon’t Blanc no dia que você encostar um dedo em mim ou me tirar algo que tenha muito valor eu acabo com essa sua carinha perfeita. – ela soltou o braço da outra e apertou seu queixo, e deixando a outra sozinha .

– Maldita Charlotte Maensen. – disse Vyolette.

Charlotte apenas sorriu já de costas e mostrou o dedo para a rival.

– Eu voltei Vy, bem vinda ao Inferno, queridinha.

– Vejo que as coisas começaram agitadas hoje?

O rapaz loiro, de olhos verdes vestia uma jaqueta do time de basquete da faculdade em vermelho e amarelo, calça jeans rasgadas e um tênis vermelho.

– Benjamin Orachi. – disse Charlie abraçando – o

– Um dia eu ainda vou acreditar que você me abraça simplesmente pra me provocar, garota. – ele sorriu sem jeito por sobre seu ombro, fechando os olhos e inalando o perfume que dela emanava.

– Como é bom te ver.

– Me desculpe pelo enterro de sua mãe, eu queria ir, mas você sabe como são as coisas na minha casa.

– Não se preocupe você não perdeu nada, a não ser meu pai bancando o durão no enterro e depois se matando de beber na biblioteca até a manhã do dia seguinte. Andrew não saiu do quarto por três dias e Joseph viajou para algum lugar nas montanhas, voltou barbudo e mais magro do que já era. Foi um mês difícil, mas…

– o Éolo te mandou voltar.

– É, isso também. – disse ela olhando para o amigo, surpresa. – Sério às vezes eu esqueço que te conto minha vida inteira.

– E o que aconteceu com a miss Perfect que a deixou tão vermelha quanto o cabelo? – perguntou ele

– Coloquei ela no lugar dela.

Os dois saíram sorrindo se sem preocupar, enquanto Éolo caminhava ao lado dos dois, sem ser notado por Benjamin.

A vida começava a voltar ao normal para Charlotte Maensen novamente, era tudo tão adolescente.

A escola, a rival, o melhor amigo vivo e o melhor amigo etéreo. Charlie sentia que algo se aproximava e que algumas coisas não seriam lá muito boas, mas o que importava agora? Era hora de viver novamente, e era isso Charlie faria…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

A senhora caminhava desesperada pelo corredor dos quartos, com sua bengala em punho, batendo – a com força no chão, murmurando xingamentos indistintos.

Ela era alta e tinha os cabelos totalmente grisalhos e presos em um coque com finos palitos de prata cravejados de pérolas, vestia um vestido de cor salmon, todo drapejado com um laço no pescoço.

Foi então que ela p arou diante de uma porta e empurrou a mesma com violência para que batesse no móvel mais próximo que ali tivesse.

– Acorde imediatamente seu imprestável.

O rapaz se assustou e puxou o silenciador cromado de criado mudo próximo a cama.

– Mas que merda vó, quase meto um tiro em você. Droga.

Ele então puxou o travesseiro para cima de sua cabeça para abafar todos os xingamentos que a mulher proferia.

– O que você está fazendo da sua vida Aleksander Svalden? Sua mãe já tem horas que saiu pra resolver alguns problemas e você se quer tem a displicência de fingir que estuda ou trabalha? Você é o desgosto dessa casa.

Ele ria desenfreadamente do nervoso de sua vó.

Aleksander era neto de agiotas, e seu pai assumirá os negócios assim que o pai dele faleceu, mas não teve muita sorte e acabou por morrer em uma emboscada que armaram para ele, a mãe antes tão doce jovial, depois do ocorrido se tornou uma mão de ferro inigualável e assumiu os negócios da família, que seriam deixados para ele assim que ela não pudesse mais gerenciar nada.

Nhara era justa, boa mãe e tratava todos com cortesia, andava matar qualquer um que tentasse passar a perna nela.

Ele se levantou da cama e ainda dando risadas recebeu as primeiras bengaladas do dia na cabeça e nas pernas se trancando no banheiro para tomar banho. Estava atrasado como sempre, a mãe o matriculara em uma faculdade de Administração e em um curso de Contabilidade, mas este último havia fracassado miseravelmente.

Ele ligou o rádio no banheiro e se olhou no espelho, a pele bronzeada, os olhos castanhos – claro que puxavam um pouco para o verde, unido á boca carnuda e ao cabelo preto lhe conferiam um ar misterioso e doce.  Tudo isso unido ao corpo definido fazia com que ele levasse a mulher que quisesse para cama. Ele sorriu, satisfeito com o que viu, ligou o chuveiro e voltou para escolher a música.

Eram 8:30hs da manhã e dentro da mansão Svalden Dead but Rising² mostrava aos empregados que Aleksander havia acordado de ótimo humor…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Do outro lado da cidade uma mulher de calça social preta e camisete bege, de olhos verdes, cabelo negro, de pouco mais de 40 anos, sentava – se em uma cafeteria requintada e de renome para esperar seu novo parceiro nos negócios, se tudo dê – se certo, ela teria uma boa nora, conhecedora dos negócios que ela possuía, e filha de um dos melhores “cobradores” no ramo de seus negócios, o que garantiria á ela um lucro maior e uma união de famílias poderosas. Ela queria descansar, também queria netos, e como toda boa mãe, desejava que seu filho criasse juízo, já que nada o interessava a não diversão, gastos e mulheres.

– Nhara.

– Olivier, como vai? – perguntou ela

O garçom se aproximou e lhes estendeu o menu.

Vou querer um Cappuccino com um Croissant de frutas vermelhas.

– Para mim café preto e o Croissant de mussarela de búfala.

O rapaz anotou o pedido, pediu licença e se retirou.

– Vou bem. E os negócios como estão?

– Estão todos controlados. – disse ela forrando o guardanapo nas pernas. – Pensou no que lhe propus?

– Pensei sim. Caso minha Charlotte com seu filho, só me resta saber como faremos para fazer com que eles venham a se conhecer e aceitar essa proposta.

– Essa parte fica por minha conta…

O pedido chegou e eles levantaram as xícaras.

– Um brinde á nossa nova sociedade. Que seja duradoura e que nos traga muitos herdeiros – disse Olivier

– Que assim seja. – respondeu Nhara sorrindo e saboreando seu Croissant…

Continua…

¹ Tears don’t Fall – Banda Bullet for my Valentine

² Dead but Rising – Banda Volbeat

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