Sociedade das Sombras – Beijo Eterno (Pt.5): Convivendo com o inimigo

Por Mille Meiffield

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Acordei em um quarto lúgubre, porém belo. Era claro e obscuro ao mesmo tempo. Não parecia ter uma definição correta para ele. As sensações esquisitas que comecei a sentir quando cheguei à North Conway, sumiram. Pela primeira vez em muito tempo, eu realmente me sentia bem.

Minha mente ainda estava um pouco confusa, mas quando consegui ordenar meus pensamentos, percebi que estava no quarto de Addam.

Me levantei cambaleante e fui olhar pela janela. Vi um dia incomumente ensolarado, o que me fez sorrir.

– Vejo que está melhor. – disse Lykke entrando no quarto. Sua expressão era serena e amigável.

– Estou sim obrigada. – respondi

– Trouxe algo para você comer. – Lykke deixou uma bandeja com pão, biscoito, leite, suco e outras coisas numa mesa ao lado da cama. – Como eu não sabia do que você gostava, trouxe um pouco de tudo.

– Obrigada de novo Lykke, mas eu preciso ir.

– Porque? – perguntou. – Você realmente acha que foi Addam quem matou seus pais e seus amigos?

– Eu o vi Lykke. – disse eu com a voz embargada, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto ao lembrar de Addam me salvando no meu quarto. – Eu vi quando Addam matou Sam.

– Não Litza. – disse Lykke carinhosamente – Você viu outra pessoa. Adam realmente estava lá, assim como Petter e eu. Foi Addam quem cuidou de você no deserto, naquele acidente e foi ali que ele se apaixonou por você.

– Então porque ele matou meus pais e meus amigos? – perguntei entre lágrimas. – E o que ele fez com a Wendy? Onde está minha irmã?

Eu não aguentava mais. A dor em meu peito estava me sufocando. Não podia acreditar no que eu mesma acabara de dizer. Meu corpo desabou sobre a cama e minhas lagrimas se confundiam com meus soluços. Lykke sentou-se ao meu lado e colocou seu braço sobre meu ombro, me abraçando carinhosamente.

– Litza, quando Addam chegou a sua casa, já não havia ninguém lá. – Lykke parecia outra pessoa, como se gostasse de mim agora. – Eu sei disso porque eu estava com ele.

– Mas eu o vi. – disse eu num sopro de voz. Tudo ficava cada vez mais confuso.

– Alguém poderia estar vestindo um sobretudo parecido, isso não quer dizer que tenha sido ele.

– Lykke, eu o amo. No fundo eu sei que você está dizendo a verdade, mas não posso ficar aqui. De qualquer jeito, Mark vai me procurar e não quero que ele, ou melhor, vocês se machuquem.

– Você vai voltar pra casa do Mark? – perguntou incrédula

– Claro que não. Principalmente com o Chris lá. – disse eu – Eu vou a cidade procurar um hotel ou uma pensão.

– Litza, você é muito bem vinda aqui. – disse ela sincera – Me desculpa por tudo o que eu fiz com você. Eu realmente achava que você estava ao lado do Mark.

– Posso confiar uma coisa a você? – perguntei. – Eu nunca senti que Mark fosse sincero comigo. Ele vivia me escondendo tudo, inclusive o motivo de meus pais terem se mudado para um lugar tão distante.

Addam entrou no quarto. Ele vestia uma calça preta e uma blusa social azul céu, que deixava seus olhos ainda mais bonitos.

– Se sente melhor? – Perguntou Addam.

– Sim. Obrigada por ter me tirado de lá.

Lykke interrompeu nossa conversa.

– Bom, estou indo. Petter e eu vamos almoçar com a Rachel e o Matt. Tem comida pronta para vocês na cozinha. – Lykke estava sorridente. Ela parecia muito feliz.

Addam e eu nos sentamos em sua cama. Meus olhos estavam voltados para o chão, mas eu sabia que ele me olhava. Eu podia sentir isso.

O aroma que exalava de seu corpo, tornava o ambiente agradável e constrangedor. Uma corrente elétrica atravessou meu corpo quando seus dedos passearam pelo meu rosto num carinho suave.

– Liz, eu sei que você pensa que eu…

Eu o beijei. Sem pensar duas vezes, o beijei. Depois do erro que cometi indo atrás do Chris e dormindo com ele, precisava reacender a chama do que Addam e eu sentíamos um pelo outro.

Meus lábios soltaram os dele e uma onda de dor atravessou meu peito como uma lança e desabei em lágrimas novamente. Chorava como se fosse uma criança. Estava cansada de ser tão frágil. Eu precisava ser forte para encontrar minha irmã.

Addam me abraçou e secou minhas lágrimas com seus beijos, como Sam fizera comigo antes de ser assassinado.

– Me desculpa. – disse eu envergonhada.

– Litza, eu te amo. – disse Addam

– Eu dormi com o Chris, Addam. – eu não conseguia mais aguentar essa dor em meu peito. Ele precisava saber disso.

– Eu sei Litza. – disse Addam entristecido.

– Mas eu amo você, e….

– Liz, não me importa. O que me importa é que você está aqui agora, segura e comigo, nada mais me importa.

Nos deitamos e ficamos um bom tempo abraçados. Addam acariciava meu rosto e eu mal conseguia olhá-lo ainda envergonhada do que tinha feito. Depois de algum tempo em total silencio, apenas ouvindo nossas respirações, adormecemos.

***

LYKKE

 

– O que estamos fazendo no Maker’s Dinner? – Perguntou Petter. – Você detesta esse lugar.

– Eu marquei de encontrar Rachel e Matt aqui. – disse eu.

Rachel e Matt ainda não haviam chegado. Petter e eu saímos do carro, entramos na lanchonete e nos acomodamos em uma mesa no canto.

– Lykke, eu estou preocupado. – disse Petter em seu tom sério. – Os Welch são muito perigosos e você sabe que a vida humana para eles não significa nada. Eles podem tentar machucar nossos amigos.

– Petter, amor, os Welch temem a Sociedade das Sombras. Nós ao contrário, temos créditos com o Conselho. Eles ficarão do nosso lado. – disse eu.

– Mas nós sequestramos uma Zamerov.

– Amor, calma. Eu sei que a Litza é menor e Mark ainda responde judicialmente por ela, mas basta Litza dizer que não houve nada, que ela está conosco por vontade própria. Vai dar tudo certo Petter.

– É que… Eu gosto daqui. Não quero ir embora por enquanto. Você sabe que ninguém pode saber sobre a gente. A lei da Sociedade das Sombras deve ser seguida rigorosamente.

– O que deve ser seguido? – Perguntou Matt se juntado a nós.

– oi Matt, cadê a Rachel? – Perguntei desviando o assunto.

– Ela vai se atrasar um pouco, Sarah James está com ela no shopping e você sabe como essas duas são quando estão juntas. – disse Matt enojado.

– Eu pensei que você estivesse namorando a Sarah. – Petter adorava irritar Matt, ainda mais sabendo que ele gostava de Sarah James.

Continuamos conversando por um bom tempo. A noite caiu morna e agradável.

***

LITZA

– Meu amor, acorda. – chamou Addam. – Nós dormimos o dia todo.

– Eu ainda me sinto tão cansada. – Reclamei

– Não está com fome? – Perguntou gentilmente.

– Um pouco. – respondi – Mas antes de mais nada, nós precisamos conversar sobre o que aconteceu entre mim e Chris.

– Liz. – disse Addam sentando-se. – Eu vi e ouvi tudo o que aconteceu naquele quarto. Eu vi tudo que aquele canalha fez com você, mas eu não podia fazer nada.

Me senti em choque, Addam viu Chris me violentar e não me ajudou.

– Como assim você não podia fazer nada? – perguntei exaltada levantando da cama. – Você deixou aquele idiota me violentar, e diz que não podia fazer nada?

– Eu não podia entrar na casa, alguma coisa me paralisou e eu não pude me mexer, tive medo que você estivesse hipnotizada. – disse Addam cabisbaixo. – Tive medo que você não aceitasse ajuda.

– O que? – indaguei incrédula – Como assim hipnotizada?

– Vampiros muito antigos, tem certos poderes. – explicou-se Addam. – Brian praticamente transformou você em um boneco. Você sentia e reagia a tudo o que estava acontecendo, mas Chris podia fazer com você o que quisesse, só não entendi como você quebrou o feitiço sozinha.

– Eu não fiz nada, nem sabia direito o que estava acontecendo. – nesse momento pensei que minha cabeça fosse explodir de tanta dor. – Addam – gritei. – Addam me ajuda.

– Liz, o que foi?

– Minha cabeça, tá explodindo.

– Litza, fala alguma coisa. – Addam me segurava junto a seu peito.

Num repente, toda a dor desapareceu e um gosto horrível e amargo se instalou em minha boca.

– Eu já estou melhor. – disse acalmando Addam

– O que aconteceu? – perguntou

– Não sei, é a mesma dor que eu senti quando sofri aquele acidente de carro com meus pais.

– Litza, isso não é normal. O que os médicos disseram na época do acidente?

– Que a dor que eu senti foi causada pela força do impacto, mas depois que saí do hospital, voltei ao normal, então não me preocupei mais com isso.

– Essa dor não é normal Litza. – disse Addam preocupado – Eu acho que os Welch ou seu tio estão envolvidos nisso. Brian pode hipnotizar pessoas, mas Mark é muito velho e muito mais poderoso.

– Addam, Mark não aparenta ter mais que trinta anos. – disse eu

– Não meu amor, não estou falando de aparência e sim de idade. – retrucou Addam – Mark tem aproximadamente mil e quinhentos anos. A rixa com a minha família, surgiu por volta do ano mil duzentos e quinze, com meus pais Alek e Akira Greene. Seu tio queria que meus pais se juntassem a ele para dominar North Conway. Ele queria escravos de sangue, mas meus pais nunca concordaram com isso. Naquela noite, os Greene e os Zamerov travaram uma batalha quase mortal. Meus pais pensaram que Mark havia morrido e após alguns anos baixaram a guarda.

Depois de alguns séculos, no ano mil setecentos e quarenta e oito, Mark voltou a North Conway e matou minha mãe, Akira Greene. Meu pai só conseguia pensar em vingança. Lykke ficou praticamente um mês trancada no quarto, definhando a cada dia, pois não queria mais beber sangue. Petter e eu tomamos a frente de tudo. Meu pai então foi atrás de Mark em Orange County, aonde ele vivia com Yeva Zamerov uma de suas antepassadas.

Quando Yeva descobriu o que Mark era através do meu pai, ela pegou apenas sua filha Anya e fugiu de casa. Mark e meu pai travaram uma batalha até a morte. Infelizmente, meu pai perdeu. Mark então revirou cada canto do país atrás de Yeva e Anya e as encontrou numa hospedaria em Chesterfield no Missouri.

– E o que aconteceu com elas quando ele as encontrou? – perguntei

– Como já era de se esperar, Mark matou Yeva e criou Anya sozinho. Estranhamente, depois disso, todas as mulheres Zamerov foram morrendo, uma a uma após terem suas filhas. Peter e eu vigiamos sua família desde o nascimento de Wendy.

– Então vocês sabiam que Mark queria matar meus pais? – indaguei

– Nós tentamos segui-lo, mas ele nos enganou. – disse Addam. – Quando nos demos conta de que Mark não estava mais em North Conway, fomos o mais rápido possível para Annandalle, mas chegamos tarde demais. Ele já havia causado o acidente que matou seus pais e você já estava praticamente morta. Quando eu vi que você ainda respirava, dei um pouco do meu sangue para você beber…

– Eu não lembro disso – Eu não conseguia pensar em mais nada. Queria sumir dali. Aquilo era loucura. Não podia ser real.

– Liz, não sabemos porque ele transformou a Wendy, ele nunca fez isso. Quando uma Zamerov tinha duas filhas mulheres, ele sempre matava a mãe e a filha mais velha para ficar com a mais nova aos seus cuidados.  Mary nos conhecia, ela sabia o que éramos e uma vez me pediu que eu cuidássemos de você e de sua irmã caso algo acontecesse a ela e ao John.

– Como você conheceu minha mãe? – meu estômago roncou alto e reclamante.

– Liz, vamos comer alguma coisa. – disse Addam. – Não quero que você morra por inanição. – Addam sorriu pra mim.

– Me diz, como você a conheceu? Prometo que depois faço o que você quiser.

– John e Petter eram ótimos amigos. Há uns dezoito anos, quando John e Mary se conheceram, Petter contou à John tudo sobre a família Zamerov, temendo o que Mark poderia fazer com ele.

– Eu não fazia ideia de como Mark era.

– Petter sempre levava seus pais para a floresta, para que eles se encontrassem, então quando Mary descobriu que estava grávida, eles foram morar na casa do Petter em Annandalle.

– Casa do Petter? – perguntei curiosa e confusa ao mesmo tempo – Quer dizer que aquela casa é do Petter?

– Não mais. Petter deu aquela casa para seu pai. Desde que a Wendy nasceu, como eu já te disse, meus irmãos e eu sempre vigiamos vocês e o Mark. Petter tentou evitar que acontecesse à seus pais o que aconteceu às suas ancestrais, mas com a ajuda dos Welch, Mark conseguiu causar aquele acidente. Ele não queria que eu te contasse, mas foi Petter quem te salvou aquele dia. E era eu quem estava no deserto.

– Como o Petter me salvou? Você disse que chegaram tarde demais. – indaguei confusa.

– Petter te tirou do fogo, ele levou você para debaixo daquela árvore e eu fiquei com você até os paramédicos chegarem, quando vi que sua respiração diminuía a cada segundo, não tive outra escolha a não ser dar um pouco do meu sangue para você beber, eu não podia deixa-la morrer.

– Eu estou mais confusa a cada minuto, são muitas coisas para assimilar.  Eu não tenho mais ninguém. Minha família, meus amigos, o Mark me tirou tudo.

– Você tem a mim, eu te amo Liz sempre vou te amar, não importa o que aconteça.

– Eu tenho medo. – eu disse mordiscando o lábio.

– Não vou deixar nada te acontecer, enquanto você confiar em mim, eu estarei aqui para você.

– Não tenho medo de que me aconteça alguma coisa Addam, tenho medo de dizer eu te amo. Eu vivia dizendo isso a meus pais, a Wendy e eu disse isso ao Sam, e nenhum deles está aqui comigo. Eu não quero te perder Addam, eu… Eu te amo.

As lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto, meu peito doía numa intensidade tão cruel que dificultava a entrada de ar em meus pulmões. Os braços de Adam me envolveram, sua mão percorreu meus cabelos e os segurou firme me puxando para perto dele. Ele me envolveu em seu corpo num abraço quente e confortável. Nos deitamos em sua cama e começamos um intenso beijo carinhoso e urgente. Seus lábios eram doce, suaves como o toque de brisas frescas numa noite primaveril.

 ***

Continua

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