O Último Dia

 

deusa

 

Escrito por Naiane Nara

 

Um dia lindo e quente de Sol, e me derreto em lágrimas, além de suor. Acho que estou solteiro, não sei. Só consigo correr descontroladamente com os olhos embaçados de tanto chorar, sem enxergar nada.

Pode-se medir o amor? E quando exatamente a pessoa deixa de se importar? Como um coração pode parar de doer? O meu está severamente quebrado e não sinto esperança alguma de reconstruí-lo.

Mais rápido do que eu poderia processar, uma buzina e um baque. Ouço um som de quebrado e só consigo cair no chão, inerte. Minha visão se embaça ainda mais…

E caio sem volta na escuridão.

Escuridão quente, desesperadora. Estou caindo, a água cai comigo e meu peito dói.

– Por que ninguém chamou o resgate antes? – Uma voz feminina, preocupada.

– E-Eu estava com medo.- A voz é masculina e irritante. Sinto nojo.

– Seu irresponsável! Ia deixá-lo aqui, não? – Grita a voz feminina de volta.

Água. Tem água aqui, tenho certeza. Ela cai… Como eu.

Oh meu Deus, quanto sangue!

– Os ossos dele estão, estão…

– Jesus Cristo!

Agora são várias pessoas que gritam, que sussurram. Uma massa de vozes indistintas, falando juntas, sem parar. Por favor, minha cabeça dói, como se fosse explodir.

Depois de algum tempo, só o barulho da água. Finalmente.

Então vem o silêncio, tão absoluto que desejo ouvir as vozes de novo. Já não sinto mais dor. Na verdade, não sinto mais nada. Tenho certeza de que abri os olhos, mas é tão escuro!

– Que bom que recobrou a consciência.

Me assustei tanto que não consegui abrir a boca para responder. Não me mexi, nem respirei.

– Medo, agora? Estive aqui esse tempo todo. Sou a água, a vida, estou em todo lugar. Gerei você e agora, em seus momentos derradeiros, volta para mim. Está preparado, mortal, para ver-me?

Uma luz fraca surge no rosto da mulher que falava comigo. Sua voz é imponente e mais do que isso, está para além de toda a beleza possível. Usa uma tiara prateada com o crescente, a cheia e a minguante; o manto que envolve seu rosto e corpo é tecido com estrelas e galáxias que explodem a todo momento, um tom de azul escuro e brilhante que eu jamais havia visto.

– Eu morri?

Ei, não me julgue, foi a única coisa que consegui balbuciar.Ela me encarou por alguns momentos antes de responder:

– Ainda não. Quer ver seu corpo?

Um pequeno movimento da graciosa mão esquerda e tudo clareou de repente. O local era extremamente branco assim, ou eu estava sob o efeito da prolongada escuridão, imaginando coisas?

– Não zombe de meu poder, mortal. Não imagina, vê.

E vi. Um quarto branco, asséptico, cheio de tubos e remédios.  Eu estava deitado, pálido além do aceitável, com ossos em estranhos ângulos e muito magro, como se houvessem sugado a minha vitalidade. Um médico sisudo conversava com minha… ex namorada, mais bonita e incrível do que eu me lembrava, a um canto, enquanto uma enfermeira gostosa me examinava.

– Anabelle, infelizmente vai precisar escolher.

Annie estava confusa e com medo, eu a conhecia melhor que ninguém. Quando estava tensa tinha a mania de enrolar as pontas dos cabelos com as mãos. E era isso que estava fazendo agora. Eu sempre amei seus cabelos, bastos, furiosos, cacheados e longos. Mas não estavam em sua cintura. Não podem ter crescido tanto em pouco tempo assim!

– A mãe dele já concordou, não suporta mais a dor de ver seu filho dessa maneira. Disse mesmo que prefere que ele morra em paz de uma vez.

Mas que médico filho da puta! Annie estremeceu.

– Porém, sua opinião é muito importante para ela. Pessoalmente aconselho mesmo a eutanásia. Faz 10 anos e nenhuma melhora, absolutamente.

Anabelle virou-se de costas e suspirou longamente antes de responder:

– Sabe, no dia em que aconteceu nós brigamos muito feio. Eu o expulsei da minha vida com palavras duras. Uma mulher que estava presente quando o resgate chegou relatou a polícia e eu ouvi, que ele chorava intensamente antes de… Antes do carro atingi-lo.

– Doutor, – interrompeu bruscamente a enfermeira – terminei por aqui. Nenhuma alteração.

– Tudo bem. Obrigado, pode ir.

A enfermeira gostosa saiu do quarto e o médico irritante puxou uma cadeira para Anabelle, que aceitou e sentou-se.

– Continue, por favor.

– Desde esse dia, eu espero ansiosamente para dizer que o amo e pedir que esqueça tudo, para que a gente recomece do zero. Eu o amo. Não posso deixá-lo partir sem que ele saiba que eu o amo.

O médico ficou com pena, pude ver em seu olhar, mas não se deixou abrandar:

– Olha, eu trabalho nisso a muito tempo. Vejo jovens como ele estragarem a vida todos os dias. A maioria tem a chance de voltar, outros morrem. Luca está em entre os dois mundos, e sem retornar da mesma maneira. Se o ama, como pode permitir que ele viva dessa forma?

Annie desatou em um choro longo e desesperador e eu quis socar aquele homem até quebrar seu nariz imenso!

– São 10 anos da vida dele indo pelo ralo. 10 anos que ele nunca vai recuperar, 10 anos de desgaste emocional a você e a família. Pense com cuidado. Tenho que ver outros pacientes agora. Vai ficar bem?

Minha menina soluçava, mas acenou que sim com a cabeça.

Que vontade de gritar! Aquele homem teria todos os dentes quebrados assim que eu voltasse ao meu corpo, juro. Espera… Será que ainda dá tempo de voltar?

A mulher me encarava com seus olhos insondáveis e estalou os dedos. A imagem do quarto se enfraquecia, mas pude ver o médico dizer a enfermeira no corredor:

– Que a família concorde logo com isso. O plano de saúde não vai mais querer pagar depois que receber meus próximos laudos.

– Tão jovem… – Respondeu a enfermeira gostosa com pena.

– É, mas jovens morrem todos os dias, mais até do que os velhos.

A escuridão me abraçou e eu caí de joelhos.

– Isso, ajoelhe-se diante de mim, mortal. Implore.

Mortal, ela estava repetindo essa palavra de propósito. Queria me diminuir, me humilhar.

– O que tenho que fazer?

– A pergunta certa, mortal, é o que deve fazer. O fio de vida que te liga ao corpo está cada vez mais fraco.

Assenti, entre o desespero e a humildade. O fio prateado que estava no peito e ia até meu corpo esquálido naquela maca de hospital estava realmente finíssimo.

–  O que devo fazer, deusa?

Ela sorriu levemente, com ironia:

– Ah, finalmente compreende…

Dissemos juntos:

– A diferença entre nós.

A deusa tocou o manto e pegou uma estrela.

– Vá até Unthor, o mundo das carnificinas, e traga-me um artefato, um colar com o Crescente.  – Pegou outra estrela e mais outra, antes de continuar – Depois siga para Akthor, o mundo da paz e Sekthor, o mundo dos prazeres. Encontrará os colares com a Cheia e a Minguante. Traga-os, e pode ser que viva de novo.

Eu. Só. Queria. Socar. Alguém.

– Guarde essa energia para a viagem, vai precisar. Estes mundos não são pacíficos.

O sorriso dela havia se alargado intensamente, gozava de sua superioridade.  O olhar queimava como brasa até tocar a minha mão e me dar as estrelas.

– Mostre a coragem dos mortais!

Tudo explodiu e fique sozinho. Mas as estrelas estavam em minha cabeça e me guiariam, eu podia sentir. Respirei fundo, tentando conter as lágrimas. Só o que me restava era caminhar.

Andei por um período muito longo. E nada, somente eu e o brilho das estrelas.

Será que a deusa disse a verdade ou realmente o médico está certo e ela está apenas se divertindo com minha dor?

Ouvi risadas e urros insanos, antes do vermelho tomar conta de tudo. O caminho estava cheio de trepadeiras e espinhos, e o cheiro era inegavelmente sangue.

Senti um choque de dor no rosto, um golpe poderoso dado tão depressa que não tive tempo de gritar. Uma criatura imensa com uma armadura completa de batalha quase arrancara minha cabeça apenas com as mãos.

– Humanos não entram em Unthor! Morra e depois volte. Quem sabe assim consegue?

Passei a mão no maxilar e cuspi:

– Desculpe, não posso voltar depois.

Aquela monstruosidade me empurrou e chutou-me seguidamente. Uma, duas, três vezes. Riu insanamente enquanto eu gemia, respirando com dificuldade.

– Ora, ainda retruca?

Só tive tempo de tremer ao perceber que havia apenas irritado aquele monstro. Vieram os socos, tão potentes que o chão tremia. O primeiro foi em meu olho direito. O segundo, no queixo. E o terceiro, no nariz, me fez vomitar de dor. Ainda sem se cansar, começou a usar as unhas para estraçalhar minha carne. Nunca imaginei sentir tanta dor no mundo físico, que dirá fora dele. Mas ali estava completamente indefeso.

Ainda assim, não podia desistir. Anabelle estava a minha espera.

Abri os olhos, ou tentei, pois estavam inchados de tanto apanhar. Toquei minha testa, onde estavam as estrelas, e me senti inteiro para começar a revidar.

Alguém me disse uma vez, que quando o inimigo é insanamente alto, não adianta se concentrar em nada além das pernas. Foi o que eu fiz.

Me sentindo mais forte, fui com tudo para as pernas do monstro  e soquei, com energia renovada, até que ele urrasse de dor.

Mas não adiantava nada. Ele sequer se mexia. O monstro fechou apenas uma mão ao redor do meu pescoço e apertou com prazer.

Tudo girava e eu não tinha mais opção alguma, nem armas.

É assim que termina? Minha vida, meus sonhos, meus planos? Não vou deixar!

A pressão da mão descomunal era insuportável, mas me esforcei para acalmar minha mente. Contra aquele gigante de 3 metros de altura, como eu poderia revidar?

Annie chorou por mim; suas lágrimas não foram derramadas em vão. Ainda quero ver de novo seu sorriso, preciso.

Da melhor forma que pude – que não foi a mais magistral, admito – joguei minhas pernas, com todo meu peso, em um chute no peitoral imenso do monstro. Funcionou; surpreso com minha audácia, abriu a poderosa mão e me deixou cair.

Foi um alívio poder respirar, mas saí correndo feito louco. Não podia perder tempo ali, em uma luta que não venceria nem se estivesse armado.

Se você já tentou correr após passar minutos sendo sufocado, sabe que essa não foi uma boa idéia. Corri pela minha vida, mas débil como estava não foi o suficiente. Tropecei em minhas próprias pernas e meu nariz terminou de ser quebrado nesse encontro amoroso com o chão.

O monstro me alcançou.

– Pensou que fugiria, animalzinho? Sou o guardião desse lugar!

Dito isto, juntou as duas mãos para me esmagar. O alerta vermelho soou.  Quase me matou com apenas uma mão, não posso esperar para ver o que vai fazer com as duas.

Girei para o lado, me esquivando por questão de segundos. Levantei ainda tonto e corri novamente até chegar a uma cidade inóspita e deserta.

Percebi que ele não me alcançou de propósito. Estava se divertindo com a minha debilidade, me perseguindo devagar, rindo insanamente. Ao adentrar a cidade deserta, ele levantou o braço para mim de novo e enquanto tremia esperando pela dor, vi o colar com o Crescente, brilhando, em meio a armadura.

Pensa rápido, o punho dele está descendo.

Tentei me firmar em ambos os pés. Me apoiando nas brechas da armadura, escalei aquele gigante com rapidez, mesmo naquele estado.  Me apoiei nos ombros descomunais da fera e enfiei os dedos nos olhos dele até que gritasse e implorasse feito um menininho.

Assim que caímos, tirei o peitoral da armadura – com dificuldade, pois era pesadíssimo – e lá estava o maldito colar. Arranquei-o e enquanto corria pela cidade vazia, dei 3 voltas com a corrente no meu pulso.

Não havia nada, apenas vestígios de um lugar que certamente um dia foi glorioso. E sangue, é claro. Muito sangue. Cascatas, poças, riachos. Podia nadar nele se quisesse.

Senti vários olhos a me encarar e ouvi uma respiração bem forte do meu lado. Contra mais daqueles monstros eu não teria chance. Pulei imediatamente no sangue para tentar passar despercebido, morrendo de medo de me machucar mais, porém a poça era bem mais funda do que aparentava.

Havia sussurros em torno de mim, vozes masculinas e femininas, mas falavam ao mesmo tempo e eu não conseguia entender. Coloquei a mão para fora do sangue e consegui me puxar de volta.

Sentia que aquilo que as vozes tentavam dizer era importante, mas não queria voltar lá. Afundei com tanta facilidade que temi nunca mais ver a superfície de novo.

Decidi não me distrair mais, fiquei de pé e continuei correndo. Enquanto o caminho ainda estava vermelho, corri sem olhar para trás, certo de que coisas hediondas me observavam e me devorariam se eu parasse.

Só parei com a neve. Caí, adormecendo de exaustão, enquanto o fio da minha vida ficava ainda mais fino.

Acordei com uma mulher a me encarar com curiosidade. Ela tinha a aparência muito jovem e o cabelo tão negro que brilhava. Seus olhos inocentes me contemplavam com receio, com razão, pelo meu estado.

Tentei abrir a boca para pedir ajuda, mas não consegui de imediato. Uma dor de cabeça insana me assaltou e o sangue manchou a neve tão pura de forma odiosa.

Respirei fundo, e tudo doía.

– Onde estamos? – perguntei, sem jeito.

– Akthor. – Ela respondeu, temerosa. Era mesmo muito jovem, não devia ter mais que quinze anos. – Como ficou assim?

Sorri, mesmo que só um pouquinho, com a respiração entrecortada.

– Uma visitinha ao mundo anterior.

O olhar dela de repente se tornou compreensivo.

– Ah.

Me levantei mais rápido do que poderia e fiquei tonto, ao que a menina prontamente me amparou. Conferi o pulso, e o crescente brilhava enroscado nele. Caminhamos por muito tempo. O branco da neve ofuscava tudo.

Chegamos a um vilarejo muito simples, com casas iguais, feitas de gelo. E no meio uma grande torre branca e azul, com a Cheia emitindo uma luz intensa e maravilhosa.

Ao notar meu espanto, a menina disse:

– É a bênção dos deuses para esta terra. Oramos, cuidamos dos peregrinos e mantemos a paz.

– O colar mantém vocês, é isso?

Ela sorriu adoravelmente.

– Sim, o colar mantém nosso mundo em harmonia.

Um senhor se aproximou depressa:

– Hidjab, querida, achou um peregrino?

A menina deu de ombros e parou de me apoiar.

– Vou buscar água para lavá-lo.

O senhor de cabelos alvos se parecia muito o médico que vi falando de mal jeito com Anabelle, mas não tive tempo de prestar atenção, ele pegou minha mão e me conduziu delicadamente a entrada da sua casa. Lavou-me e me deu uma sopa deliciosa e reconfortante.

Todos foram tão gentis que acabei ficando mais tempo do que podia. Me sentia bem ali, o ar era fresco e reconfortante, sentia-me revigorado!

Três vezes ao dia, as pessoas simples daquele vilarejo se reuniam em frente a torre para meditar por alguns momentos. Eu nunca consegui, mas gostava de olhar as expressões tranquilas e em paz que exibiam. Além de que a luz que emanava da Cheia era um espetáculo a parte. Um show de luzes em prata e azul. Toda vez parecia a primeira.

Assim que estive melhor, passei a ajudar. Fazia um pouco de tudo, servir as refeições, efetuar limpezas, auxiliar nas construções de novas casas. Não havia nada de novo, mas o trabalho físico mantinha minha cabeça ocupada e me proporcionava tranquilidade. Ao deitar, estava morto de cansado, mas adormeci sempre sorrindo.

Passei a sonhar com minha vida da Terra, sem conseguir tirar Anabelle da minha cabeça.  A vida era boa ali, queria apenas esquecer e ficar com aquelas pessoas: Hidjab, que cozinhava maravilhosamente e desabrochava em uma mulher belíssima; Krestor, o senhor que me acolheu; Luist, a senhorinha que me designava as tarefas; Qleith, a formosa dançarina. Aquelas pessoas faziam parte da minha vida agora.

Mas não conseguia esquecer que Annie me esperava, se sentindo culpada por eu estar daquela maneira.

Uma noite, decidi finalmente. Esperei que todos dormissem, escalei a torre com cuidado e peguei o colar com a Cheia. Era quente, e emanava um imenso poder. Amarrei no pulso com a crescente e desci com cuidado.

Hidjab me esperava lá embaixo, com uma adaga nas mãos e os olhos cheios de lágrimas.

– Como pôde? Eu disse a você!

Ela mirou e ia me acertar no abdômen, mas a puxei e beijei antes disso. Hidjab hesitou, perdeu a chance de me atacar e assim tomei a adaga de suas mãos. Foi difícil me desvencilhar do seu beijo, mas não podia mais demorar. Com o coração doendo, passei a adaga rapidamente pelo seu pescoço. Ela tentou me agarrar, mas era tarde. O sangue jorrava. E eu traí quem me acolheu.

Corri mais uma vez, até ficar sem fôlego. A adaga queimava em minhas mãos, precisava ir embora depressa. Agora era caçado em dois mundos.

Tudo ficou vermelho de novo, e o som inebriante de gemidos me tomou. Eu estava enfraquecido… Precisava correr.

Mas não consegui sair do lugar. Caí de joelhos e me senti preso de um torpor intenso. Um homem com asas negras surgiu e ficou a me olhar, descaradamente, quase com desprezo.

– Cheguei em… Sekthor?

Ele assentiu.

– Me liberte, preciso ir.

O homem gargalhou intensamente:

– Não sou eu quem o mantém preso, é você mesmo. Este é o mundo dos prazeres, do desejo. Está tão dominado pela materialidade, cego pelas paixões, que não consegue sequer se mover.

Várias pessoas passaram por mim caminhando sem rumo. Alguns transavam em alguns cantos, outros gemiam a olhar objetos perdidos que flutuavam. E o homem me observava com desdém.

– Hidjab, me perdoe…

O homem planou e ficou parado a minha frente, com o colar da minguante nas mãos e os longos cabelos negros balançando ao vento.

– Agora é tarde, Luca. É assim que se chama em seu mundo? Aqui os nomes são muito agradáveis, ao contrário do seu.

Eu tentava desesperadamente me levantar e não conseguia. Senti o fio da minha vida ficar ainda mais fino e caí de cara no chão, como um boneco.

O homem continuou, implacável:

– Quero que desista. Só desistindo de seus desejos e sonhos é que poderá ficar de pé e levar o colar.

Como eu poderia desistir? Matei dois seres desde que estou aqui e matarei o terceiro assim que tiver a chance. Tudo para voltar e abraçar minha Annie de novo. Eu a amo… Não vou deixá-la. Não posso me dar ao luxo de desistir. A voz da deusa queimava em minha mente: ‘’ Mostre a coragem dos mortais!’’

Eu mostraria.

Fazendo um esforço descomunal, me coloquei de pé, e tonto ainda, saboreando a surpresa do homem, fiz a adaga prateada de Hidjab se encravar no maxilar daquele maldito com uma mão, e com a outra, puxei a minguante.

Tudo explodiu de novo e ficou escuro, e o som de pessoas sendo torturadas gritando, gemendo e urrando tomava todo o lugar. Antes que caísse de novo, pois havia usado tudo que restava de mim, joguei os 3 colares no chão a minha frente. Sabia que a presença da deusa é que tornava tudo escuro daquele jeito.

Mas senti falta do barulho da água, que me acompanhou sempre.

A deusa surgiu, com seu manto de estrelas.  Fez os colares flutuarem, tornarem-se um só e colocou-o no pescoço de cisne.

– Venha, – disse ela em um tom absolutamente tentador – te levarei até seu corpo.

Vomitei ao viajar de novo por aqueles espaços interdimensionais, gastei toda a minha energia, não aguentava mais.

Voltamos ao quarto de hospital e Annie chorava copiosamente.

O fio da vida estava falhando. Eu estava voltando devagar demais, mas era o melhor que podia fazer naquele momento.

Anabelle chorava, soluçando:

– Não aguento mais viver nessa angústia! O que vivemos foi maravilhoso, Luca. Mas acabou. Não voltará nunca mais.

A centímetros do meu corpo físico, prestes a voltar, Annie puxou todos os fios e tubos que me mantinham vivo. O fio da vida sumiu.

NÃO!

– Agora terá de voltar comigo – disse a deusa sombriamente. – Existem pessoas que vão adorar fatiar cada pedaço do seu corpo para se vingar.

Ela me puxou de volta ao seu mundo de escuridão.

NÃO!

 

*****

Fim 

Será?

12 comentários em “O Último Dia

  1. Cara!

    Mórbido! Rsrsrs!
    Eu senti falta de um pouco mais de descrição na luta contra o cara de armadura completa e o povinho que ele roubou, mas em compensação o final!

    Essa deusa, era uma deusa da morte? Ou nem deusa era? Ou era só um teste pra ver se ele merecia a vida?
    Gostei! Muito!
    Estava sentindo falta de algo assim!

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    1. Eu reescrevi essas cenas várias vezes, na dúvida.Acabei deixando assim para mostrar um pouco da personalidade dele, egoísta, que não presta atenção nas coisas a sua volta, alguém cujo fim justificam os meios.
      hahaha que bom que gostou!
      E sim, era um teste, e ele falhou!

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  2. Adorei o modo como vc escreve! Vocabulário rico e cheio de palavras lindas. hahahaha
    O conto é super intenso desde o começo. Adoro cenas curtas de lutas, e que possamos entender o significado daquela batalha.
    O final achei maravilhoso! Por favor, continueeee! çç

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