Estranha Realidade

Escrito por Saul Guterres & A. Kendra

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“Sexta-feira é um dia mágico.

Vênus inspira mil amores

Quando é 13, dizem trágico!

Dia de muitos terrores”.

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O que Valkíria mais queria era chegar em casa logo, pois o tempo estava feio, fazia muito frio e uma chuva forte começara a cair.

A noite começou a parecer perigosa. A cada rua que ficava para trás, a sensação que algo ruim iria acontecer aumentava. Era uma sexta-feira 13, sim, mas e daí? Ela não dava a mínima para isso, ou quaisquer outras superstições, mas naquela sexta-feira tudo estava fora do normal.

Ela havia acordado com uma ótima sensação de bem-estar e que seu dia seria maravilhoso, diferente… que era o seu dia! Aliás, toda sexta-feira ela se sentia dessa forma – em “seu dia” – e nada tinha que ver com o trabalho ou algo do gênero. Afinal, ela era sócia em um negócio de arte moderna e decoração, e sua agenda era um pouco maluca, mas ela adorava o seu trabalho e se fosse para ir para lá em um domingo ou no Natal, ela iria. O dia estava ótimo, até que pouco depois do almoço por volta da uma hora da tarde, tudo mudou.

Começou com as vozes que ela escutava vindo do corredor em frente à sua sala, ainda que não houvesse ninguém por ali. A parede da sala era de vidro de cima a baixo, assim como a porta também era. Ela gostava assim, dava uma visão de tudo o que estava acontecendo. As vozes vinham, como conversas e discussões… Ninguém.

Passado um momento, ela teve a impressão de que alguém a observava lá do corredor, mas ao olhar: Nada! Era uma sensação tão incômoda, que ela se arrepiava toda. Chegou a se levantar e ir até o corredor – só para checar – mas se deparou apenas com alguns de seus subordinados espalhados, cada um em suas mesas e sem efetuar qualquer barulho. Atribuindo isso ao cansaço mental que ela estava, qual ela atribuía ao trabalho e os trovões que se intensificavam, resolveu ir embora.

Foi até a garagem, pegou seu carro e partiu um pouco antes do costumeiro, para escapar da chuva forte que se aproximava, mas sem sucesso. Ela adorava a chuva, mas odiava ter de dirigir nela. A casa de Valkíria ficava em um lugar distante – isolado para dizer a verdade – e os “vizinhos” mais próximos dela estavam a quase 5 km de distância de sua residência. Nunca na vida ela havia reclamado disso, porém, daria tudo para ter um vizinho por perto agora. Ao se aproximar da estrada de sua casa, um relâmpago clareou toda a sua frente, e ela pensou ter visto alguém na estrada. Quase brecou com tudo, mas não havia ninguém lá. Ela passou as mãos na cabeça, como que tentando apagar aquela imagem e seguiu em frente.

A chuva não dava trégua, logo ninguém passaria por ali. Com muita calma Valkíria conseguiu chegar até sua casa. Estacionou seu carro e saiu correndo para dentro dela. Tomou um banho e deitou em sua cama tentando descansar, porém o barulho dos raios e trovões não deixava. Decidiu então ver um pouco de televisão, mas nenhuma imagem apareceu na tela quando ela a ligou. Apenas estática. Pegou seu celular, mas além de não ter sinal, ela não conseguia de jeito algum ter acesso à internet. Ela respirou fundo e resolveu descer até a sala para ver se conseguia algum sinal no celular por lá.

Descia as escadas, quando a televisão da sala ligou com o volume no máximo. Ela se assustou, correu até a TV e a desligou. Foi até a cozinha e ouviu novamente o barulho da TV. Não tinha imagem nela, nem a famosa “tela chiando”, era apenas a tela azul, sem sinal… mas já a havia deixado assustada. Ela arrancou o fio da TV da tomada, só para garantir. Suspirou fundo, foi até à cozinha, e pegou uma maçã na fruteira em cima do balcão, voltando então para o quarto. Teve a sensação de que alguém puxou seu cabelo na escada, olhou para trás, mas não havia ninguém ali. Com o coração disparado, ela correu para o quarto e fechou a porta. De repente seu celular tocou, levou outro susto, mas uma sensação de alívio ao mesmo tempo, na certa seria seu chefe perguntando se ela estava bem. Pegou o celular e leu “número desconhecido”. Não atendeu. Ela não atendia esse tipo de chamada, fosse quem fosse. Mal havia deixado o celular no criado-mudo ao lado de sua cama, quando novamente ele tocou. Decidiu ignorar. Então o telefone da sala começou a tocar.

Com passos curtos e silenciosos, ela foi até lá. Criou coragem e pegou o telefone, mas nesse momento um raio estourou no céu e com o susto do estrondo, ela deixou cair telefone no chão. Pegou-o e o devolveu ao lugar. Se virou então para sair, mas ele voltou a tocar. Ela pegou o gancho de supetão, querendo surpreender logo quem quer que estivesse ligando para ela, porém ninguém falava uma só palavra. Estava mudo. Então uma sensação estranha e peculiar subiu por sua coluna, fazendo-a tremer. Outro raio, muito forte e muito perto, fez com que todas as luzes se apagassem, deixando-a no desespero, afinal não havia ninguém a quem ela pudesse pedir ajuda. Preciso de ajuda?

Ela tateou até seu quarto e decidiu ficar trancada ali até a luz voltar. Ela guardava algumas velas na última gaveta de sua cômoda, e conseguiu pegá-las. Então pegou também o isqueiro que estava na gaveta pequena do seu criado mudo. Acendeu as velas, espalhando-as pelo quarto. Abriu bem as cortinas, e colocou duas velas no batente da janela, uma de cada lado, dela. Deixou uma sobre cada criado mudo, e mais três velas restantes ela distribuiu no chão do quarto. À luz de velas, ficou ali por mais ou menos uma hora, observando a torrente que se lançava contra a janela.

A chuva era um calmante, e observá-la jorrar no vidro em meio à luz trêmula das velas chegava a ser belo. Uma música começou a tocar então, vinda da sala. Era dançante e juntamente com ela vieram as vozes, os risos e as falações. A chuva ainda estava forte, mas mesmo assim a música e as vozes eram nítidas como se estivessem ali, dentro de seu quarto. Ela abriu a porta devagar e do corredor, viu que a luz da sala parecia estar ligada. Ela foi descendo as escadas e se assustou com a cena que viu.

Várias pessoas estavam dançando em sua sala – quer dizer o que era a sua sala. Tudo parecia modificado, as decorações pareciam ser do século XVIII, as roupas e as pessoas também. Valkíria desceu cautelosa e pausadamente, mas logo percebeu que ninguém parecia notar sua presença, enquanto ela escutava a tudo e a todos. Observou então que se tratava de uma família de nobres e que estavam comemorando o casamento da filha mais nova. Valkíria prestava atenção em tudo, mesmo que sem entender o que estava acontecendo ela se sentiu como se já houvesse estado ali junto daquelas pessoas. Ela viu o noivo então, sentado perto de uma mulher morena de olhos castanhos, mas não era a noiva. Era a irmã dela… Onde estava a noiva?

Foi assim que o pior aconteceu. Um grupo de homens armados e vestidos de preto invadiram a festa e começaram a atirar em todas as pessoas. A correria foi geral. Valkíria horrorizada, se agachou perto de um menino que estava ao seu lado, imóvel. Aqueles que estavam próximo a porta, tiveram suas cabeças arrancadas e seus membros decepados. O sangue se espalhou rapidamente pelo salão. Mas então eles pararam com a carnificina. Um outro homem, jovem, alto, de feição séria e olhar frio surgiu então do meio deles. Tinha uma espada desembainhada em suas mãos. Ele foi até o noivo, que estarrecido nem havia se movido, mas seu olhar, nesse momento encontrava o de Valkíria. O homem colocou então a espada logo abaixo de seu queixo, tocando o pescoço do noivo. Ele disse alguma coisa em uma língua que ela não entendeu de imediato, mas então como se seu corpo houvesse entendido o que o homem havia falado, ela gritou desesperada: “NÃO!”. Tarde demais.

A espada atravessou o pescoço do homem e voltou, que sangrando, caiu ao chão, morto. O olhar dele tão sereno, ainda a acompanhava, ainda que no chão, ainda que morto. Ela não conseguia entender, mas lágrimas saíam de seus olhos fortemente, como a chuva lá fora. Então viu que todos olhavam para ela. Eles olhavam para ela!

O líder deles voltou-se então para Valkíria e gritou: “Althea!” Sua voz fez com que tudo ali vibrasse. Ela correu em direção a cozinha, desesperada, com ele em seu encalço. Enquanto isso, os outros continuavam a espancar e dilacerar todos os demais presentes. A ordem era: “Ninguém sobrevive”. Valkíria conseguiu trancar a porta, mas o homem a atravessou de uma maneira que ela não soube explicar. Ele a pegou pelo braço e a jogou no chão fortemente, chamando-a de traidora, de meretriz entre outras barbaridades. Valkíria, sem entender como aquilo era possível, ainda tentou lutar contra o homem.

Ela atirou nele algumas louças que estavam sobre a mesa, mas nada que ela jogava o atingia. O homem a agarrou e começou a bater nela com tanta força que ela quase desmaiou. Ainda consciente, viu quando ele rasgou e arrancou o vestido que ela usava. Uma ira percorreu então seu corpo, e nesse momento de raiva, ela o empurrou e correu à porta, mas esta estava trancada e apesar de sua rapidez em tentar abri-la, o homem a puxou novamente, jogando-a contra o balcão, ficando em entre ela e a porta. Ela olhou em seus olhos então, e alguma coisa queimou dentro de si. Ela se ergueu, e encarou-o firmemente. Como que o calor próximo ao fogo, assim estava próximo à ela. Ele se afastou então, temendo aquela chama forte que emanava da garota, do corpo de Valkíria.

Ela, percebendo que ele aparentemente estava com medo dela, tentou escapar, porém ao sair para o salão, em direção à porta, foi emboscada pelos capangas que haviam ficado lá. Eles a atiraram no chão fortemente e a cercaram. Ela até tentou se reerguer, porém ao ver o sangue sobre o qual ela estava, os corpos (ou o que sobrara deles) espalhados por ali, sentiu uma ânsia profunda, e cedeu. Uma cabeça estava perto dela, a morena que conversava com o noivo jazia golpeada por todo o lado. A chama que a havia alimentado, já não queimava mais dentro de si.

O homem veio então da cozinha, e arrancou suas roupas íntimas. Ela tentou pará-lo, mas ele a segurou pelos cabelos e puxando-os com força para cima, a violentou ali mesmo. Lágrimas escorreram de seu rosto, não de tristeza ou medo, porém de ódio. A chama se reacendeu dentro de si, algo profundo, sua própria essência, ela abriu então os olhos e encarou-o, ele o homem, com a espada na mão, cuspiu-lhe ódio e desceu sua mão sobre ela, decapitando-a. Aquilo era um filme de terror, ela podia jurar que era, então morreu…

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Valkíria acordou desesperada em um quarto de hospital, tocando sua garganta e vendo se ainda havia marcas em seu corpo da violência que sofreu. Uma enfermeira, vendo que ela havia acordado, chamou o médico que a atendeu. Abismada, ela perguntou a ele como ainda poderia estar viva, sendo que havia visto quando lhe cortaram a cabeça. O médico explicou então que ela estava apenas sobre um forte estresse, e que um casal de vizinhos que passeavam com o cachorro, havia escutado gritos vindo de sua casa, e que ao entrarem lá a encontraram jogada no chão delirando em meio a gritos de socorro. Eles haviam chamado a emergência para socorrê-la, e ela apenas estava com um “surto psicótico” devido ao estresse.

Ele prescreveu alguns comprimidos para ela, e também repouso de seu trabalho. Valkíria ainda desconfiada, concordou com o médico apenas para receber logo a alta e dar o fora dali. Já em casa respirou fundo, e se perguntou se tudo aquilo havia sido sua imaginação. Não! Ela tinha certeza que não. Sua cabeça estava ótima e aquela sensação de já ter vivido aquilo, não saía de sua cabeça. Passeando com o cachorro? E a chuva?

Ela foi pro seu quarto, colocou a sacola com o remédio e a bolsa no criado mudo ao seu lado, e deitou pensando nessas perguntas… O vento soprou gelado então, esvoaçando as cortinas azuis da janela de seu quarto. Ela se levantou, e foi até ela para fechá-la, mas ao olhar para fora, viu na rua uma mulher, em frente à casa, parada. A mulher começou a caminhar em direção à ela, a passos lentos e disformes. Sua aparência era cadavérica e ela tinha algo em sua mão. Foi aí que ela percebeu que era ela mesma segurando sua própria cabeça. Então acordou assustada sem saber o que fazer… Era um sonho. Teria tudo sido um sonho? Um delírio de sua mente? Mas então ela virou sua cabeça para o lado e viu sobre seu criado a sacola com o remédio e a bolsa. Um calafrio a arrepiou, pouco antes de um trovão soar nos céus, como que lhe dizendo que isso era apenas o começo.

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* Este conto é baseado na personagem de A. Kendra *

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13 comentários em “Estranha Realidade

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