Amigos de Outrora (Pt.2) – Despedidas

Despedida

Amigos de Outrora (Pt.2)

Despedidas

Escrito por: Zuleika Juliene

 Tentei acalmá-la sem sucesso no primeiro momento, mas após um abraço bem apertado senti os soluços irem diminuindo, lembrei que quando éramos mais novas este abraço sempre solucionava as crises de choro convulsivas que a Dani tinha após Dona Stela ter lhe dado uns tapinhas, ou por todos darem mais atenção a sua prima do que para ela, no fundo ela sempre deu muita importância a tudo, sempre foi muito sensível, sempre chorou demais.

  Afastei-me dela quando não mais a ouvia chorar e ela numa afobação quase histérica me contou que o Olavo havia morrido em um assalto no México. Sabe aqueles momentos em que tudo para, eu via a boca da Dani se mexer, mas tudo que eu escutava era um zumbido no ouvido, percebi que ela havia voltado a chorar, mas não conseguia ter reação, então desmaiei.

  Quando acordei imaginei que na verdade eu havia morrido, pois havia tanta gente ao meu redor que pensei estar no meu velório, mas esta sensação se desfez tão logo ouvi os gritos da Daniela sinalizando que eu havia acordado; após verificarem que eu estava em perfeito estado físico e mental me explicaram tudo timtim por timtim.

  Olavo como eu, havia sido criado pela avó, não pelos mesmos motivos. Seu pai há muito tempo havia recebido uma proposta de emprego muito boa no México, mas como não sabia se daria certo foram apenas ele e a esposa deixando o Olavo com Dona Hortência, sua avó; com o passar do tempo ficaram com medo de tirar o menino de Dona Hortência e ela adoecer, desta maneira vinham passar todas as férias com eles, mas este ano Olavo havia completado dezoito anos e decidiram que era o momento oportuno para que ele fosse passar as férias no país em que seus pais estavam instalados há anos, justamente nesta ocasião Dona Hortência não estava sentindo-se muito bem devido à pressão alta que fazia tratamento, mas nos últimos dias estava difícil de controlar, então decidiu ficar.

  Passadas duas semanas de estada do Olavo no México, ele já estava familiarizado com os lugares e resolveu sair sozinho para se divertir, mas foi abordado por dois assaltantes armados e resolveu reagir resultando em um tiro fatal.

  Este fato havia ocorrido há uma semana e mesmo tendo que trazer o corpo de volta para enterrar, os pais de Olavo haviam escondido a fatalidade de Dona Hortência temendo que a mesma tivesse um infarto. A confusão toda na frente da casa da Dani se dava justamente pela indignação dos vizinhos ao saberem que algo assim tivesse sido escondido de Dona Hortência, pois julgavam que fosse como fosse era direito seu saber e velar a morte do neto.

  Naquele momento não conseguia ter senso crítico, aliás, não conseguia raciocinar, o que eu havia ido buscar ali me parecia não fazer mais sentido e todas aquelas pessoas falando ao meu redor estavam me deixando atordoada.

  Agradeci à Dona Stela, me despedi da Dani, dei uma desculpa e sai de fininho. Fui para casa tentar organizar meus pensamentos, minha avó havia ido a uma consulta médica de rotina e isso me possibilitou ficar imergida em meus pensamentos durante um longo tempo, não demorou muito até eu concluir que aquilo tivera sido mesmo um sonho, talvez até um aviso da morte de Olavo, então levantei e segui minha rotina.

  Alguns meses se passaram até que um exame da minha avó nos abalou, pois o mesmo a diagnosticava em estado avançado de câncer contestei o fato dela estar sempre em acompanhamento médico e não ter sido diagnosticada antes, quando ainda dava tempo de fazer alguma coisa, mas logo percebi que havia tempo que ela sabia quem não sabia era eu. Há tempos minha avó vinha apresentando um comportamento diferente, sempre me mimou e fazia questão de fazer todas as coisas para mim, desde fazer a comida até arrumar a minha cama quando eu acordava atrasada e há um tempo considerável ela vinha se dedicando a me ensinar todos os deveres domésticos.

  Tivemos uma conversa demasiadamente triste em que ela expos a minha situação futura, disse que tinha uma reserva em dinheiro para todos os tramites do enterro e que ainda sobraria o bastante para eu viver confortavelmente durante uns dois anos, que a casa estava em meu nome e que não gostaria que eu me desfizesse dela, alugar talvez fosse o ideal, que iria adorar saber de onde quer que ela estivesse, que eu terminei o Ensino Médio e entrei em alguma faculdade, mas para tanto uma menina na minha idade não poderia viver sozinha e que ela já havia entrado em contato com um tio que morava no interior e o colocado a par da situação, o avisou que era questão de meses para que eu fosse morar com ele, pois mesmo ele tendo se distanciado e não quisesse mais contato com as pessoas da família, não havia mais ninguém.

  Nunca fui desobediente, nem rebelde ou revoltada, mas naquele momento tive vontade de gritar, de bater em alguém, de sair correndo, me senti como um ser preso dentro de uma garrafa, minúscula, inaudível, sem escapatória.

  Chorei como se o dia de me despedir da minha adorada avozinha tivesse chegado, estava com medo, não sabia o que o futuro me reservava, não conhecia as pessoas que iriam me acolher, estava inundada de pensamentos, de incertezas, de angustias.

  Como previsto o dia fatídico não demorou a chegar, alguns dias antes Seu Roberto e Dona Marisa, meus tios recém apresentados, vieram para me ajudar. Foi tudo muito triste, a gente sabe que este dia chega para todos, mas nos reservamos o direito de nunca pensarmos nisso e quando acontece é sempre como uma surpresa, como algo inesperado; acho que deveríamos mudar isso em nossa cultura, deveríamos criar nossos filhos e netos lembrando-os que a morte faz parte do ciclo da vida, que como dizia a minha avó “para morrer basta estar vivo”, que em algumas vezes a morte é anunciada, mas que ela não precisa se pronunciar para agir.

  O velório estava repleto de amigos e vizinhos, alguns colegas da escola também apareceram por lá, a Dani permaneceu o tempo todo ao meu lado, desnecessário dizer que ela não parou de chorar um só minuto, muitos eram os olhares piedosos pousados sobre mim como a dizer “pobre menina de destino infeliz”, alguns vinham prestar condolências, outros se dirigiam até o caixão fazendo a última oração ou apenas se despedindo, eu tinha a sensação de estar em transe, de estar em um velório de alguém desconhecido, Dona Stela disse que certamente eu estava em choque, pois mediante tudo aquilo não era normal uma pessoa não esboçar reação nenhuma.

  Tudo transcorreu na mais perfeita ordem, após o enterro fomos para casa, pois eu ainda tinha que arrumar as minhas coisas, em relação à casa pedi um tempo aos meus tios para poder processar melhor os acontecimentos, então decidimos apenas fechá-la e pedir à Dona Stela que desse uma olhada quando possível, me despedir da Dani foi muito doloroso, mas ainda assim não conseguia expelir uma só lágrima ao contrário dela que já estava deformada de tanto chorar.

  Dona Marisa me ajudou com as malas e enquanto retirava as roupas do armário ia pensando o quanto eram estranhas aquelas pessoas para mim, ou melhor, o quanto tudo aquilo era estranho, em alguns instantes pensava se não seria melhor desistir de tudo e ir morar com a Dona Stela, pelo menos eles eu conhecia, mas voltava à realidade ao imaginar que minha avó que tanto me amava sabia o que seria melhor para mim, mesmo que eu não achasse.

  Enquanto colocávamos as roupas dentro das malas Dona Marisa, ok esse Dona Marisa o tempo todo está chato, mas a verdade é que não fui com a cara daquela mulher desde o primeiro instante em que a vi e chamá-la de tia estava fora de cogitação, então “Dona Marisa” tentou puxar conversa comigo perguntando sobre a escola, sobre meus hábitos, sobre meus amigos, se eu tinha algum namoradinho, eu não tinha a mínima vontade de responder, não a conhecia, não queria ser amiga dela e além do mais, sua voz, sua expressão me soavam falsas, minhas respostas eram sempre curtas, sim, não, é, e sempre em resposta eu ouvia algo como “coitadinha, deve estar sendo muito duro pra você”.

  Enfim terminamos, comigo deixando para trás quase dezesseis anos de história, minha história.

Continua

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