Uma Garota À Espera

 

 

 

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Escrito por Naiane Nara

 

E mais uma vez, estou aqui a espera.

No início, não era nada demais. Conheci aquele árabe bonito e incrivelmente charmoso em um bar com os amigos – lugar estranho para estar no dia do seu casamento, ainda mais vestida de noiva, mas eu estava.

Quando ele me olhou pareceu que tudo estava justificado, o mundo, os céus, as maravilhas, meu dia terrível e aquele sorriso. Tinha acabado de sair de uma decepção horrenda e só queria colo, aconchego, e foi tudo que ele me deu.

Desde aquela noite, estivemos juntos, e apesar de Adeel ser um homem muito ocupado, sempre fomos muito felizes.

– Apenas seja sincero comigo. – Sabia que meus olhos estavam suplicantes, mas tentei ignorar. – Não pedirei nada mais, é tudo que eu preciso.

– Serei. – Respondeu ele antes de me beijar e de novo correr as mãos pelo meu corpo.

Os meses correram depressa, e vieram os anos. Adeel e eu nunca planejamos nada, apenas vivemos o hoje e talvez por isso tenha sido tudo tão intenso. Antes de sair em uma de suas viagens, me abraçou mais forte do que de costume:

– Vou te trazer uma surpresa quando voltar, amor.

Corei inadvertidamente ao responder:

– Não preciso de nada.

– Nem de doces?

Quando tentava compor aquela expressão séria, ele ficava muito engraçado, nunca consegui conter o riso.

– Lisieux!

– Está bem, doce pode.

Adeel  me abraçou e me levantou no ar:

– Trarei bem mais que doces. Tenho certeza de que vai gostar.

Esperei 3 meses ansiosa, como sempre ficava quando ele estava fora. Mas voltou estava diferente: sério, distante e de fato, havia trazido uma surpresa.

Saímos para jantar e ver um espetáculo de dança, mas nada foi agradável. Adeel praticamente não havia tocado nos pratos e nem nas bebidas; no espetáculo, ficou apenas no celular. Quando voltamos para o carro, me tratou com rispidez pela primeira vez em anos.

Enquanto ele lutava com as chaves, resmungava alguma coisa. Cheguei mais perto para entender, e ouvi algo como: ‘’ Vadias são muito apressadas’’. Virei-me e caminhei até o primeiro táxi. Me sentia péssima, mas ainda assim pedi que o taxista me levasse a um hotel, não queria voltar para casa daquele jeito. E não voltei.

Aquela noite foi difícil para nós; nunca ficamos longe do outro a não ser que  Adeel estivesse viajando.  Vi o raiar do dia, incólume, sem dormir, preocupada até o extremo. Então cheguei a conclusão de que estava nos fazendo sofrer por bobagem. Algo havia acontecido para que ele agisse daquele jeito, com certeza. Tomei um banho, me arrumei e liguei para a recepção para encerrar a conta.

Quando cheguei em casa, Adeel estava com uma péssima aparência, barba por fazer, olhos inchados e sangrando.

– Mas o que houve?

Ele me olhou com desespero contido:

– Você me pergunta isso? Quem foi que passou a noite fora, Lisieux? Fiquei com tanto medo… Pensei que estava morta!

Nos abraçamos e ficamos alguns momentos assim, unidos, como se nada mais importasse.

– Mas que diabos aconteceu ontem, Adeel?

Ele articulou uma frase, mas não saiu som que fosse inteligível. O cheiro de álcool era forte e fiquei ainda mais preocupada. Ele bebia muito raramente.

– Vou chamar uma ambulância.

– Não! – Ele gritou, de repente. – Vou ficar bem. Só me perdoe. Tive uma reunião de família péssima. Quero apenas seu colo.

Dei banho nele, e ajudei a trocar suas roupas. Ele me agarrou com intensidade e caímos juntos na cama.

– Você me pediu que fosse sempre sincero.

– Sim. – Respondi apreensiva. A essa altura já estava muitíssimo preocupada. Só conseguia pensar que ele era casado e havia escondido isso por anos.

– Lisieux, minha família quer que eu me case.

Não aguentei e dei um suspiro de alívio. Ele estava com medo de pedir a minha mão, pensei. Sabia de minha aversão ao casamento pelo modo como nos conhecemos. Pigarreei ao continuar:

– E por que todo esse drama, meu bem?

– Em minha tribo, um homem que chega a minha idade sem se unir a uma esposa é considerado amaldiçoado. Eu sou o mais velho, preciso continuar a linhagem.

Permaneci em silêncio. Estava decidida a apenas ouvir, aproveitar a oportunidade, já que ele falava muito raramente sobre si.

– Preciso casar e dar filhos a minha tribo, e só então estarei livre para fazer o que bem quiser. É a Lei. E pela Lei, minha primeira esposa tem que ser da tribo. Minha família escolheu, meu casamento está marcado.

Meu mundo caiu, aquelas palavras batendo em mim com violência.

– Mesmo estando tão longe de seu país, em outro continente, precisa fazer isso?

Ele olhou-me com desprezo e respondeu com raiva:

– É a minha terra, minha gente. Jamais fugiria de minhas obrigações. Sou o mais velho.

Senti tanta raiva que comecei a bater nele enquanto as lágrimas desciam pelo meu rosto, abundantes. Como Adeel não se defendia, fiquei ainda mais furiosa. Bati tanto que me desequilibrei e caí sobre o criado mudo. Uma caixa preta aveludada caiu, deixando um caríssimo conjunto de brilhantes escorregar para o chão.

– Seu presente… – Disse Adeel, sem graça.

– Lute, fuja comigo. – Disse, dócil de repente.

– Você não entende, Lisieux? Eu não quero fugir!

Fiquei paralisada, sem sequer respirar. Ele se levantou da cama, cheio de hematomas e sangramentos, as roupas que deixei em pedaços. Me puxou e fez amor comigo como nunca antes, com paixão e rudeza. Suas mãos em meu corpo, me faziam sentir dor e prazer em doses iguais. Como fugir, se nos braços dele é que sempre me senti em casa?

Então, decidi, ao menos temporariamente, que não me importava. Nunca liguei para tradições, abandonei minha própria festa de casamento e não queria compromissos. Mas ele acreditava. Adeel acreditava e levava muito a sério, eu não poderia convertê-lo a minha falta de crenças.

Depois do casamento, continuamos nos vendo, embora com menor frequência. Mas meu amado sempre teve as chaves da minha casa, para chegar independente da hora, e para mim estava tudo bem.

Foi assim que fiquei aqui, a espera. Mais anos passaram. Ao todo, desde que nos conhecemos, quase dez. Aquele arroubo de juventude desvaneceu, mas o sentimento só ficou mais forte.

Adeel ficava cada vez mais triste quando me deixava e cada vez mais feliz quando chegava. Ainda não tinha dado filhos a sua tribo, como considerava seu dever. De nada adiantara o sacrifício. Um dia, saiu de minha boca sem que pudesse controlar:

– Eu posso.

Ele me olhou com estranheza:

– O quê, minha flor?

– Eu posso ter os filhos que sua esposa não deu.

Adeel ficou boquiaberto, mas era verdade. Apesar de já ter passado dos trinta, eu sentia o meu útero palpitando de vida, pronto para ter filhos. Sonhava sempre com três crianças lindas, dois meninos e uma menina; meu coração doía de saudade deles, mesmo sem conhecê-los.

Suspirei, ruborizada:

– Não pode se divorciar dela…

– Não posso. Para uma mulher da tribo o divórcio é a desonra. Destruiria a vida dela, nem mesmo a família a receberia. Não a amo, mas não posso condená-la a isso.

Meu coração se despedaçou com essas palavras, mas ainda assim pensei na menina que seria desamparada. Eu também não a condenaria a isso. Disse baixinho:

– Mas pode ter mais de uma esposa.

Os olhos dele brilharam:

– Sim, posso.

Jamais imaginei que a vida fosse tomar esse rumo, mas já não podia mais viver sem o Adeel. Para ficar com ele, viver com ele, seria capaz de qualquer coisa.

– Nunca pensei que aceitaria, Lisieux.

– Também nunca perguntou.

Nos beijamos com delicadeza. Ele pegou meu rosto com infinito cuidado e disse que me amava muito. Eu sabia que estava fazendo o certo. Não seria como eu sonhara, mas pelo menos estaríamos juntos. Quando estivermos juntos, realmente juntos, tudo iria ficar bem.

Quando nos despedimos, Adeel estava radiante. Iria direto ao conselho dos anciões de sua família pedir a permissão para que casássemos ainda naquele semestre.

Estávamos felizes.

E isso me traz de volta a essa noite maravilhosa, em que estou esperando meu amado. É a nossa noite, em que seremos oficialmente noivos. Eu estou pronta. Meu amor pelo Adeel é tão grande que posso estendê-lo a outra pessoa. Essa menina não será desamparada, será parte da família e a tratarei como irmã.

Finalmente sei onde é o meu lugar. É nesta família, ao lado de Adeel.

Ouço a chave girando na fechadura e meu coração palpita de felicidade: meu amor entra com suas malas, eu estouro o champagne e sirvo a nós dois.

– Bem vindo de volta, querido!

– É bom finalmente estar em casa.

Adeel está com a fisionomia estranha, como naquela noite, a tantos anos, quando também retornou de uma viagem. Tento esquecer, mas ainda não consigo tirar da cabeça a semelhança. Pergunto, receosa:

– Deu tudo certo?

Ele me olhou desconcertado.

– Claro que deu tudo certo. Somos noivos agora! Estou apenas cansado da viagem.

Me sinto aliviada e só consigo beijá-lo loucamente e me livrar de suas roupas.  O olhar dele muda e me possui com violência em cima da mesa de jantar, sem paixão ou um pingo de sentimento que seja. Apenas desejo e dor. Próximo do êxtase, Adeel me encara com frieza e vi nitidamente seus olhos mudarem de cor. Ficaram vermelhos. Eu, chorando, só quis que acabasse logo pois não suportava mais a dor.

Ele puxou meus cabelos, jogando minha cabeça para trás ao dizer sem emoção alguma:

– Lembra daquela noite em que você sumiu? Eu fiquei desesperado. Tive a certeza que algo de ruim tinha te acontecido. Enquanto você brincava de garotinha mimada passando a noite em um hotel cinco estrelas, eu invoquei um Djin do deserto, usando meu próprio sangue.

Tentei me desvencilhar, apavorada:

– Por favor, diga que está brincando.

– Não estou brincando. Fiz um pacto para que ficasse bem, para que voltasse sã e salva. Por isso fiquei estéril e trouxe desonra a minha família. Agora você vai pagar.

– D-Do que está falando, meu amor? Sou eu, Lisieux, sua amada por todos esses anos. Pare com isso, por favor. Está me assustando.

– Sim, foi mesmo minha amada. Mas paguei caro por você, vadia. E agora não adianta mais. Estudei durante muito tempo para descobrir como desfazer um pacto. – Adeel fez um esgar com a boca que dificilmente poderia ser chamado de sorriso, antes de continuar- O Djin quer seu sangue. E eu darei.

A outra mão que não segura meu cabelo se transforma em uma garra de monstro de pesadelo, as unhas imensas, curvadas, com pedaços de pele morta, verrugas e outras coisas. Escorre um líquido fétido e isso provoca um som apavorante. A coisa que um dia foi Adeel encolhe essa mão em formato de garra e enterra repetidamente em minha barriga, peito, pescoço, enquanto grito insanamente até perder a voz.

Em minha mente, continuo gritando. Mas a inconsciência que vai me livrar da dor não chega nunca.

Você, por favor, SOCORRO!

 

*****

     Fim (Será?)

9 comentários em “Uma Garota À Espera

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