Amigos de Outrora (Pt.1) – A Visão

O corredor

Amigos de Outrora (Pt.1)

A visão

Escrito por: Zuleika Juliene

   Há tempos tive uma visão.

  Foi em sonho, mas ainda assim foi uma visão.Oi? Como eu sabia que não era apenas sonho? É, realmente na época eu não sabia. Nunca fui perita em sonhos, o meu conhecimento sempre foi o de senso comum, quer dizer, o senso comum da minha avó que sempre disse que sonhar com dente era morte, com lama doença, entre outras significações, eu particularmente com o passar do tempo concluí que o significado dos sonhos iria variar de pessoa para pessoa, se você acreditar que sonhar com borboleta significa algo ruim creio que quando algo de ruim estiver para acontecer com você lá estará ela dando piruetas e  rodopios em seus sonhos, mas se você achar que o alerta para isso seja sonhar com tempo nublado…enfim o que posso dizer é que de imediato percebi que algo estava errado, talvez diferente definisse melhor, parecia real, ou melhor era real, eu estava lá, minha consciência estava lá como se eu tivesse apenas sido transportada a outro plano, apenas não sabia como havia chegado lá.

  Lara, me chamo Lara, às vezes me perco nesta recordação e acabo me esquecendo de coisas importantes como me apresentar, no momento estou com vinte e quatro anos,mas quando isso ocorreu estava com quinze e morava com minha avó. Quando contei a ela sobre o suposto sonho ela nada disse, abaixou os óculos sobre o nariz e me olhou com seu semblante sereno e um esboço de sorriso no canto da boca, naquela época interpretei sua expressão como sendo uma advertência para eu não me preocupar com coisas tolas, que sim seria só a minha imaginação me pregando uma peça, mas agora entendo que não era nada disso, que na verdade ela também sempre soube que era real, acho que ela só queria que eu descobrisse isso sozinha, sabia que a experiência seria mais enriquecedora.

  Nesta época tinha poucos amigos, mas verdadeiros, era bastante caseira e muitíssimo tímida, talvez por esta razão muitas pessoas da vizinhança apenas me cumprimentavam sem maiores intimidades, ah havia um cara que todas as minhas amigas achavam um deus, o Olavo, sinceramente… a falta de afinidade era recíproca, apenas nos cumprimentávamos por educação. Por que mencionei o Olavo? Porque ele estava na minha visão!

  Como dito anteriormente Olavo e eu não tínhamos afinidade alguma e esta foi uma das razões que me causou estranhamento quando o encontrei em minha visão; ele estava com uma aura diferente, sua simpatia atingia minha alma, fazia com que eu me sentisse próxima a ele, dava-me a impressão de que éramos velhos amigos, que podia confiar nele.

  Na visão eu estava em um prédio alto em um corredor imenso totalmente branco que se assemelhava muito a um hospital, estava parada junto a uma janela observando fixamente algo lá embaixo, sentia-me calma, serena, em paz, não havia barulho algum,eu sentia que várias pessoas transitavam atrás de mim em vestimentas também brancas, mas nem o ruído de seus passos ou de suas respirações era possível ouvir, então senti alguém se aproximar e quando me virei era o Olavo com um sorriso estampado no rosto, sorriso este que nunca havia percebido, um sorriso que te envolvia em outra vibração, uma vibração de amor genuíno. Não, não amor entre um homem e uma mulher, um amor fraternal, como se enquanto olhasse aquele sorriso nada de ruim pudesse me acontecer, então ele olhou dentro dos meus olhos e me agradeceu por eu estar ali, disse que tinha uma pessoa que queria me apresentar e que era importantíssimo nos conhecermos. Ele me conduziu por aquele extenso corredor até chegarmos a uma sala, adentramos o ambiente, uma salinha em estilo bem romântico com cortinas estampadas de florzinhas miúdas, uma mesinha redonda ao centro coberta com uma toalha de mesma estampa, sobre a mesa havia um vaso de cristal com lindas rosas azuis, mas de um azul tão intenso e tão vivo que posso jurar que nunca vi antes aquele tom de azul e apesar de haverem outros móveis na sala como talvez uma estante de livros branca em um canto, eu não consegui mais tirar os olhos das rosa; meu primeiro impulso foi me aproximar delas e tocá-las para verificar se eram verdadeiras, mas de fato foi por impulso, pois o perfume que delas exalavam preenchiam todo o local.

  De repente notei que Olavo ria da minha reação, explicou me que onde estávamos não só as flores como outras coisas poderiam variar sua aparência e suas cores, que ali tínhamos os sentidos mais apurados e quando me preparava para lhe perguntar onde estávamos um rapaz alto, com belos e grandes cachos negros entrou na sala interrompendo a fala de Olavo, seu rosto era dócil e adornado por uma barba bastante espessa, no momento em que o avistei senti um certo tremor, nada de ruim, mas senti como se aquilo traduzisse o que Olavo havia dito sobre a importância de nos conhecermos.

  Antes mesmo que qualquer palavra fosse trocada senti algo muito especial, como se naquele momento eu tivesse sido terminada, estivesse completa.

  Eu era pouco mais que uma menina que desde os sete anos de idade devido a um acidente de carro havia sido criada e muito mimada por minha avó e devido ao fato de ser tímida nunca havia conhecido o amor, tive sim alguns namoricos de escola, mas nada que significasse muito para mim, talvez pelo fato de saber que na vida éramos apenas nós duas nunca levei nenhum relacionamento muito a sério, mas naquele instante me senti mais viva que nunca, uma sensação nunca antes experimentada percorreu por todo o meu ser.

  Olavo sentiu de imediato a nossa conexão, não que para ele isto fosse alguma novidade, disfarçou o riso e nos apresentou com as devidas formalidades dizendo o nome de um e de outro. Glauco, um nome forte que representava perfeitamente o seu dono e este dirigiu-se a mim com a mão estendida para um cumprimento formal e respeitoso e no momento em que nossas mãos se tocaram…Ok, não gosto de clichês, mas este é um momento totalmente clichê e a falta do uso deste não conseguiria transmitir com precisão todos os sentimentos e sensações, então recapitulando, no momento em que nossas mãos se tocaram senti o chão abrir e uma vertigem tomar conta de mim, nas mãos um leve formigamento, me vi indo ao chão, mas ainda pude sentir suas mãos em torno da minha cintura. Acordei ainda com um pouco destas mesmas sensações, olhei o redor constatando que o cenário era um antigo conhecido meu e agora meu quarto parecia incompleto, minha vida parecia vazia, tive medo de nunca mais encontrar Glauco ainda que em sonho.

  Por acaso você já sentiu saudade de algo que não viveu ou de alguém que não conheceu? Um aperto forte quase sufocante no peito, a sensação de estar em outra atmosfera, em outro lugar paralelo ao seu sem poder vê-lo, tocá-lo, apenas sentindo?

  Levantei e fui até a cozinha, pois o cheiro de café e de bolinhos de chuva me trouxeram de volta a realidade, estava mais faminta que de costume, como se eu tivesse gastado toda energia do meu corpo. Enquanto tomava café fui relatando o ocorrido para a minha a minha avó, mas como aparentemente esta não deu bola me arrumei e fui a casa de uma amiga muito querida, pois precisava dividir minha angustia com alguém que talvez me compreendesse, ou não, sabe as amigas têm destas coisas às vezes não nos compreendem, mas afirmam o contrário só para nos dar força, então decidi procurar por uma destas amigas mais para desabafar e aliviar o peito do que para escutar sua opinião que no fundo eu sabia não seria muito esclarecedora.

  Quando estava quase chegando avistei Dona Stela, a mãe da minha amiga Dani, com outras vizinhas conversando agitadas no portão. Acelerei o passo pressentindo que algo ruim pudesse estar acontecendo, ao me aproximar comecei a escutar alguns buchichos de que algo tão absurdo não poderia ter sido escondido, ou que era um absurdo esconder tal coisa, confesso que na ocasião não escutei direito e o nervosismo colaborou bastante para isso.

  A questão ali discutida era o fato de alguém ter omitido o falecimento de outro alguém, tive muita vontade de perguntar, mas fiquei envergonhada, então pedi licença à Dona Stela e fui entrando e chamando pela Dani; achei estranho o fato de haver uma agitação como aquela na frente da casa da Daniela e ela não estar presente bisbilhotando,pois a curiosidade era um de seus pontos mais fortes.

  Encontrei a Dani debruçada em sua cama acometida de soluços que eram audíveis desde a sala, imaginei que o falecimento a que se referiam no portão deveria ser de algum parente muito querido uma vez que não a via chorando assim desde o falecimento de sua calopsita quando estávamos na quarta série.

Continua

8 comentários em “Amigos de Outrora (Pt.1) – A Visão

  1. ‘-‘ Quem morreu? ‘-‘
    Eu achei que tinha sido a Dani, e que Lara estivesse tendo contato com o espírito dela… sabe, como uma médium… tô curioso! Gostei, Zuleika! Meus parabéns!!!

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