O Dilema de um Rei

 

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Escrito por Naiane Nara

 

Muitos dos meus súditos acreditam que estou assim, tão miserável e entristecido, devido a perda de minha amada esposa, a Rainha Jane. Não sabem, porém, que muito mais aflige minha consciência e me faz sentir o mais vazio dos homens. Sou Henrique VIII e sempre atravessei as diversidades como um grande e poderoso dragão, conseguindo o que desejava em todas as ocasiões. Sempre sagrado vitorioso, amado pelo povo mesmo quando me tornei um tirano, não é de meu feitio demonstrar medo de nada e nem de ninguém.

 

Mas agora, depois de enterrar minha terceira esposa, me sinto tão só como jamais me senti em toda a minha vida. Sinto medo por que estou a envelhecer, estou a me tornar muito gordo e irritável, a juventude foi embora de uma vez por todas, e mulher nenhuma, por mais viçosa que seja, trará isso de volta. Se tiver que voltar a me casar, e sei que terei, será uma aliança de Estado para trazer paz ao meu Reino, não mais alguém que eu ame. Já me desgastei e levei sofrimento demais aos outros. Minhas três primeiras esposas morreram diretamente por minha responsabilidade. Matei – sim, esta é a palavra correta, matei – minha primeira mulher de desgosto, a segunda decapitada e a terceira ao lhe dar minha semente. Não quero mais sofrer. Não quero mais lembrar. Por que, afinal, os anos não foram gentis comigo?

Mas tudo que eu posso fazer agora é me lembrar, por que estou de luto, doente e sozinho. Lembro como se fosse hoje daquela linda jovem, a princesa da Espanha, que chegou a Inglaterra para fazer parte de minha família. Meu pai ficara radiante: a filha dos Reis Católicos seria sua nora e lhe daria os netos que precisava para fortalecer a recém nascida dinastia Tudor, além de representar a aceitação da Europa ao seu reinado. Nada poderia ficar mais perfeito. Todos estavam felizes. Eu ganhara muitos presentes e em segredo, rezei para um dia ter uma esposa tão linda e educada como a princesa que seria minha cunhada. Escoltei a filha mais nova de Fernando de Aragão e Isabel de Castela no dia de seu casamento e ela foi gentil e amorosa o tempo todo. Catarina, seu nome soava como música, por que tinha que ser do meu irmão?

 

Logo depois que se casaram, meu irmão e a beldade espanhola, agora príncipe e a princesa de Gales, partiram em uma longa viagem. Arthur tinha que aprender a governar, e que lugar melhor que o Principado?

 

Nunca mais vi meu irmão mais velho. Em alguns meses a família real foi informada que o príncipe e a princesa encontravam-se severamente doentes. Arthur morreu e Catarina sobreviveu. Fiquei feliz por ela estar livre, e de minha ingenuidade, pensei que a vida seria melhor e mais colorida agora que eu era o príncipe herdeiro. Quem sabe me deixassem sair, praticar esportes e justas. Quem sabe me deixassem brincar. Tinha apenas dez anos.   Não foi nada daquilo, claro. Vivi ainda mais recluso. Ouvi meus pais e minha avó conversando. Diziam que eu era precioso demais, que não podiam arriscar.

 

Foi difícil ver Catarina nos anos seguintes. Quando finalmente conseguia encontrá-la estava sempre pálida como uma doente, mas parecia linda a mim, mesmo na dor, mesmo vestida pobremente. Comportava-se com tal orgulho que sempre parecia resplandecer na corte e me envergonhava o fato de não poder ainda protegê-la, por ser novo demais. Faria isso, protegeria a princesa assim que fosse rei, e isso foi uma jura.

 

Quando meu pai morreu, antes mesmo de ser coroado, providenciei o necessário para que Catarina se tornasse minha esposa. Ela disse graciosamente que nunca havia sido mulher do meu irmão, que eram como duas crianças morando juntas. Uma princesa tão nobre e honrada como aquela não mentiria. Eu, Henrique VIII, casei-me com Catarina de Aragão, renovando a aliança espanhola e cumprindo a jura que fiz a mim mesmo quando ainda era uma criança. Tinha a bula emitida pelo Papa em mãos para que isso se tornasse possível, e a bênção dele para nossa união.

 

Os anos se passaram e além de me divertir como nunca antes, descobri o fardo de governar um reino, de ser o segundo de uma nova dinastia, o fardo de precisar de um sucessor. Minha rainha perdeu nosso primeiro filho, mas ambos éramos muito jovens, tínhamos todo o tempo do mundo. Meu segundo filho era um menino, então pude me sentir aliviado. Os Tudor tinham um futuro. O trabalho do meu pai não tinha sido em vão; não envergonhei a minha casa. Não havia por que me preocupar: minha mãe, Elizabeth de York, tivera muitos filhos, a mãe de minha rainha, a grande Isabel de Castela, também.  Minha rainha seria tão fértil como elas, pensara. Mas logo tive motivos para me entristecer e temer o contrário. Meu filho morreu, tendo apenas 56 dias, nos braços de minha esposa espanhola. O filho a seguir a ele também, e o outro, e mais outro. O que poderíamos ter feito para incorrer no desagrado de Deus, para que todos os nossos filhos morressem, como que mostrando ao mundo que a dinastia Tudor não merecia o trono conquistado na guerra?   Então, fiz novamente uma jura. Não deixaria que o trabalho do meu pai tivesse sido em vão. Não deixaria, não importa o que tivesse que fazer.

 

A seguir tive uma filha bonita e saudável, como a resposta de Deus as minhas orações, mostrando que nem tudo estava perdido. Pensei que teria pelo menos mais dois filhos para assegurar herdeiros, ou mesmo um que fosse um menino, mas minha rainha estava esgotada. Ela envelheceu muito mais do que eu nestes anos de perdas e preocupações. Entendi finalmente; não importava o quanto eu visitasse o quarto da rainha Catarina, não teria mais filhos. Então cessei de todo as minhas visitas, que já se tornavam raras. Tentei não pensar no grande problema de ter que passar a coroa a uma filha, tentei apenas me divertir por um tempo, conhecer novas mulheres, compor músicas, lutar em justas, presidir a lautos banquetes. Mas não consegui esquecer. A História Inglesa estava cheia de exemplos sangrentos de reis que tentaram passar sua coroa a uma filha. Catarina defendia que podia ser diferente. Era filha de uma rainha reinante, irmã de uma rainha reinante, nunca quis entender que tal coisa na Inglaterra é impraticável, principalmente em uma dinastia fundada recentemente. Eu sou o segundo Tudor a reinar, pelo amor de Deus! Uma filha, por mais inteligente que seja, não conseguirá suportar tamanho fardo e sucumbirá, afundando a Inglaterra novamente na guerra civil! Se eu casar Maria com meu filho bastardo, o Duque, ainda será melhor do que torná-la minha única herdeira.

 

Então uma suspeita se insinuou em minha mente. Por que Catarina insistia em me contrariar, como uma boa esposa não deve fazer? Ela sempre foi um modelo de rainha cristã, por que então se recusava a aceitar que eu não podia declarar minha filha Maria herdeira do trono da Inglaterra?

 

Na verdade, era tudo muito simples. Catarina sabia que não teríamos filhos homens e por que os que nasceram de nós não sobreviveram. Sabia por que era culpada. Ela havia consumado o casamento com meu irmão. Casei-me com a mulher do meu irmão, e Deus me puniu por isso.

 

As palavras do Levítico me assombravam. Estudando com afinco a bula emitida pelo Papa, encontrei um adendo declarando meu casamento válido Catarina sendo ou não virgem. Fiquei mais tranqüilo, para em seguida me desesperar de novo: iria conseguir viver com essa dúvida? Se Catarina era uma mentirosa, como poderia confiar nela de novo? E se eu estiver enganado? Tinha apenas dezessete anos quando estivemos juntos pela primeira vez. Ela se comportou como seria de se esperar, mas eu era inexperiente, não sabia o que procurar.

 

Fui criado sobre estreita vigilância, sempre junto de minha família. Não tive os passatempos que normalmente um jovem príncipe tem, não conheci outras mulheres antes de Catarina. Não conseguia suportar a idéia de que eu não tenha sido o primeiro homem dela, tendo sido ela a minha primeira mulher.  E o pior de tudo, como posso me lembrar com todos os detalhes de uma noite que ocorreu a mais de vinte anos? Era capaz de jurar que nunca estive com uma virgem. As mulheres da minha corte, lindas e fogosas, apressavam-se a deitar-se com seu rei, a fim de ganhar jóias e presentes. Nunca me esquivei de tão sublime tarefa, mas não seria com toda a certeza o primeiro a estar com qualquer dama, tamanha desenvoltura apresentada por elas. Eu seria capaz de sacrificar meu casamento, uma boa esposa e rainha por filhos para minha dinastia? Foram dois anos vivendo no inferno por causa dessas dúvidas, me afastando cada vez mais da rainha, ao mesmo tempo não ousando perguntar, com medo de ouvir a verdade. Um dia, reparei uma jovem linda e petulante, aia de Catarina, irmã mais nova de uma amante a quem eu não procurava mais. Quando ela me devolveu o olhar negro de fera não inteiramente domesticada, soube que minha vida mudara para sempre. Era ela. Mademoiselle Boullan.

 

Ana Bolena entrou na minha vida como um furacão. Desejei-a como a muito não desejava uma mulher, suas recusas inflamavam ainda mais minha paixão. Decidi ser calmo no furor do meu desejo, para que entendesse que a queria mais do que tudo, mas ela me recusava com elegância e ardor, pois não seria chamada de prostituta como a irmã. Percebi que isso foi uma jura e admirei-a ainda mais por isso. Começamos um jogo de amor cortês que me enlouquecia sem dar nada em troca. Passou-se um ano. Dois. Ela raramente havia aceitado meus presentes e não consegui mais do que alguns beijos.

 

Então veio a notícia. Meus médicos confirmaram que Catarina não sangrava mais. Sei que foi irracional sentir o impacto com que senti a notícia, já que havia cessado minhas visitas ao seu quarto; mas não pude deixar de pensar que aquilo foi a absoluta certeza de que Deus havia me recusado Seu favor. Tinha apenas uma filha e um filho bastardo a quem legar a coroa, e não era tão jovem. Não poderia mais adiar minha decisão. Sim, eu trocaria minha esposa por filhos para minha dinastia. Ser o Rei da Inglaterra implicava em deveres além de direitos. Tudo que eu jurei havia de cumprir, tudo que eu queria havia de ser meu; Deus retirou meu irmão Arthur do trono por que me queria de forma especial. Estava apenas me testando, dando ocasiões para que mostrasse minha coragem. Eu não seria covarde.

 

Ordenei a Wolsey, meu chanceler, que conseguisse a anulação do meu casamento. Ele prometeu que conseguiria e fez um longo discurso sobre as vantagens de tomar uma esposa na França, pois o divórcio da tia atrairia a atenção do Imperador. Mas, se Catarina, a própria filha dos Reis Católicos, pode ter mentido, outras nobres devem fazer isso o tempo todo, se deitando com vários homens, algumas até levando um bastardo para o casamento. Eu não correria o risco de mandar embora uma boa Rainha, que já vestiu uma armadura para defender meu país, para dar seu título a uma mulher abaixo da dignidade dela. Afinal, se ela mentiu, deve ter sido ordenada pelos pais, que não queriam dar por perdida a metade do dote que já havia sido paga. É por isso que mulheres não podem reinar. São fracas demais e propensas a enganar, a mãe da humanidade era a maior prova disso.

 

Minha próxima esposa teria que ser alguém de virtude reconhecida, comprovadamente virgem e sem casos em corte alguma. Uma mulher com tanta força de vontade que teria sido capaz de resistir até a mim, coisa nunca antes vista em minha vida inteira. Ana Bolena se encaixava nesses padrões, além de ser filha de uma nobre Howard, família antiga e ilustre que remonta a uma dinastia que governou a Inglaterra antes dos Tudor. Houve, é claro, o pequeno problema com relação a Henry Percy, mas ele foi o culpado. A graciosa dama não tinha envolvimento algum. Como ela poderia ter culpa de um homem querer desposá-la? Até o rei da Inglaterra estava pensando seriamente nisto. Como disse Wyatt, lady Ana era tão linda que o dever de todo homem era amá-la e adorá-la. Henry Percy não se tornaria um problema, estava longe e casado. Minha adorada não cedia a mim, o Rei, era a maior comprovação que nunca cedeu a homem nenhum que não fosse seu marido. E eu faria questão de ser seu marido. Desposaria Ana, ela seria minha rainha e me daria uma creche de filhos para manter vivo o nome Tudor.

 

Passaram-se anos e Wolsey não conseguiu meu divórcio. Catarina endureceu seu coração contra mim e se recusava a aceitar minha decisão. Suscitei a ira de vários dos meus nobres e súditos, além do Imperador, sobrinho de Catarina. Ninguém poderia me fazer mudar de opinião. Fui sagrado Rei da Inglaterra, não recebo ordens de ninguém além de Deus Todo Poderoso. E desde que o Imperador rejeitou o compromisso com minha filha para se casar com Isabela de Portugal, não era meu aliado e não o respeitava mais.

 

Foi uma dura e longa caminhada. Assinei a sentença de morte de amigos queridos, como Thomas More, que inesperadamente se voltaram contra mim e não aceitaram minha decisão. Neste ínterim, minha lady me lembrou que eu ainda usava as camisas tecidas pela mão de Catarina. Ana não sabia… Mas quando eu era um jovem com menos de vinte anos, ao ver aquele ponto espanhol tão bonito, disse que nunca usaria mais camisas tecidas por nenhuma outra. Catarina sorriu adoravelmente e eu beijara seu ventre inchado. Esses acontecimentos e lembranças partiram meu coração, mas a medida que os anos se passavam, minha adorada florescia e eu me sentia jovem de novo. Toda essa dor seria esquecida e compensada. Tinha que ser.

 

O Papa não me dava o que eu precisava, a mim, seu Fidei Defensor. Catarina continuava com sua recusa. Minha lady chorava dizendo que sua juventude fora perdida a espera de um homem casado. E eu… Eu me aproximava dos quarenta anos, sem herdeiros.

 

Tomei minha decisão final. Ninguém, nem mesmo o Papa, daria ordens em meu país. Eu seria o chefe supremo da Igreja, seguindo os conselhos de minha adorada, para que usasse meu poder em plenitude. E assim o fiz. Roma ficou horrorizada e me mandou uma ameaça de excomunhão, mas não tive tempo de me preocupar com isso, pois minha lady finalmente cessara sua recusa. Ana Bolena, a quem sagrei marquesa de Pembroke, me prometeu solenemente um filho para reinar depois de mim. Em pouco tempo depois de compartilhar minha cama demonstrou um adorável desejo por maçãs; muito me alegrou a notícia da sua gravidez. Sempre soube que ela me daria uma creche de filhos, e nenhum deles seria um bastardo. Casei-me com Ana e a coroei com pompas e regalias que nem Catarina, a Princesa Viúva, tivera. Tudo pelo meu filho, que reinaria depois de mim.

 

A filha da rainha Ana nasceu bonita e saudável, com meus cabelos e olhos. Embora tenha sido um alívio que a criança tenha nascido viva e perfeita, me decepcionou profundamente o fato de ser uma menina, outra menina. Depois de toda dor que infringi a todas as pessoas que me eram caras, da promessa que me fez, ela tinha de me dar um filho.

 

Quando fui ver minha rainha e sua filha, encontrei-a chorando com a menina nos braços. Ana se desculpou intensamente e lamentou o fato de ter me decepcionado. Eu disse com brandura que preferia mendigar de porta em porta ao invés de deixá-la, para que se acalmasse e se sentisse segura. Aquela cena patética e constrangedora me lembrava das vezes que encontrei Catarina chorando pela morte de outra criança, e isso me desgostou profundamente pelo resto dos dias que se seguiram. Ao menos essa primeira filha sobreviveu e era forte, como eu. Não suportaria outra criança morta ao nascer.

 

Ana logo se recuperou para presidir a corte e compartilhar do meu leito, mas depois do nascimento de nossa filha, Elizabeth, nada mais foi como antes. É como se a chama que me consumiu durante os anos que esperei para ter aquela mulher tivesse se abrandado de tal forma que nada tinha o mesmo sabor. Se fosse anunciado a todas as cortes da Europa que Ana havia me traído com meros cortesãos não teria me feito passar tanta vergonha como a que senti por ter feito e sacrificado tanto apenas para ter outra menina. Sentia as risadas das pessoas pelas minhas costas.

 

Contudo, procurei me mostrar carinhoso com minha nova esposa. Eu precisava dela com excelente humor para iluminar minha corte e parir os meus filhos. Quando Ana estava de bom humor, ah! Não havia quem se comparasse tamanho esplendor, brilho e inteligência que destilava de si mesma. Voltei a procurar minhas amantes, mas ainda estava deslumbrado com minha nova rainha, tão culta e participativa, tempestuosa e sorridente.

 

No correr dos meses, outra decepção, a rainha teve um aborto logo no início de uma nova gestação. Fiquei verdadeiramente enraivecido! Que maldição era essa que não me permitia ter filhos homens? A esta altura, comecei a me irritar com Ana: seus modos franceses, sua risada alta e cristalina, suas crises de ciúmes e pedidos de atenção me exasperavam. Nunca mais fui ter com ela por prazer. Fui rude e agressivo em todas as vezes que nos deitamos juntos, a rainha cumpriria sua promessa, me daria meu filho, custasse o que custasse!

 

No segundo ano após o nascimento de minha filha Elizabeth, tive alguns problemas de saúde que me impossibilitavam de estar na cama com minha mulher. Ver Ana cada vez mais adorável presidindo minha corte, cercada de homens mais jovens e mais vigorosos prejudicou seriamente minha sanidade. Ela se mostrava solícita, mas distante, sempre querendo visitar a filha. Chegou a insistir aos prantos que queria amamentá-la! Uma rainha amamentando seus filhos, ora veja! ‘’Mostre-se digna da posição a que a ergui, agradeça por ser a consorte real e evite demonstrar que no fundo continua uma plebéia’’ respondi com raiva. Esse era o protocolo e seria seguido, mas às vezes ela fazia questão de se mostrar assim, distante. Seria mesmo por Elizabeth ou pelos homens mais jovens que não podiam cortejá-la? Será que sentia mesmo a falta da filha que mal conhecia e mal podia acompanhar, ou se sentia em uma gaiola de ouro, com correntes de prata a adornar-lhe o colo, presa a um homem mais velho e doente? Ana floresceu desde o primeiro ano em que chamou minha atenção, enquanto eu declinei. Como será que reagia aos elogios de meus nobres? Eu vi constantemente em seu olhar, como que gravado em ferro em brasa: Noli me tangere, não me toque, por que de César eu sou, palavras de Wyatt, o poeta, seu grande admirador. Enquanto isso, ela ridicularizava meus sonetos e minhas canções.

 

Em nosso terceiro ano de casamento, já discutíamos muito. Ana nunca abaixava a cabeça, sempre se mostrava uma forte opositora, ousando me contrariar e abertamente demonstrar seu poder sobre mim. Sim, ainda assim aquela mulher me dominava tão intensamente que comecei a odiá-la e tratá-la mais rudemente por isso. Em público passei a evitar sua presença, mas em privado a procurava com maior freqüência para possuí-la de forma violenta e castigá-la por ainda não ter me dado o meu filho. Nunca conseguia passar muito tempo sem procurar Ana, como um viciado em sua carne, me sentia mais vivo ao tratá-la tão cruelmente.

 

Então, com lágrimas nos olhos, Ana me disse que estava grávida novamente. Dei graças aos Céus, mas resolvi não levar isso a público enquanto a gravidez não estivesse bem avançada; recentemente ela sofrera um aborto e não queria que tivesse sequer lembrança disso para não prejudicar meu filho em seu ventre. Abençoado ventre, o da rainha Ana, que carregava o herdeiro Tudor. Fizemos as pazes de forma memorável e delicada. Voltei a ser gentil e não só permiti, mas encorajei seu temperamento por si só violento e arrebatador; minha adorada não podia guardar para si nenhuma mágoa ou raiva, meu filho era forte e queria ser ouvido.

 

Chegou até nós uma triste notícia em meio a essa felicidade: a princesa viúva, Catarina, outrora rainha da Inglaterra, morrera desgostosa e esquecida. Sua última carta enviada a mim de seu leito de morte foi deveras comovente. Como pude fazer isso com aquela mulher, afastá-la de mim e da filha da forma que fiz? Senti renascer a antiga raiva de Ana, pois demonstrou uma alegria feroz ao ser comunicada da morte da princesa, sua rival.  No dia do enterro, como se de uma vingança se tratasse, sofri uma queda abrupta enquanto andava a cavalo, ao mesmo tempo em que Ana abortava meu outro filho! Sobrevivi a queda, com o agravante de uma grande ferida em minha perna que nunca cicatrizaria completamente.   Meus médicos examinaram o corpo da criança que Ana expelira de si mesma e me disseram que era um menino.

 

Depois de tudo que enfrentei para erguer aquela plebéia a condição de minha esposa e Rainha da Inglaterra, Ana matara meu filho, o que reinaria depois de mim. Eu amava aquela mulher pelo seu encanto e magnetismo do qual não conseguia me livrar, na mesma proporção em que a odiava por não conseguir cumprir sua promessa.  Ordenei a Cromwell, como um dia ordenei a Wolsey, que conseguisse meu divórcio. Mas não semelhante ao processo que estabeleci contra Catarina, longe disso. Depois de tantas contradições a respeito da legalidade do meu segundo casamento, não passaria por isso outra vez. Ana seria mais ferrenha do que Catarina fora e isso eu não podia arriscar.

 

A morte acabara de me tornar um viúvo. Assim que me livrasse dessa segunda união poderia casar novamente e ter meu filho tão esperado. E também… Tive medo de ser vítima do encanto daquela mulher novamente. De conseguir construir uma família e de novo abrir mão de tudo por ela. Esse era outro risco que eu não estava disposto a correr. Não dormiria em paz enquanto Ana ainda vivesse.

 

Cromwell se saiu muito bem: em seu processo, Ana Bolena era uma bruxa, lascivamente me traíra com o próprio irmão e vários cortesãos, além de planejar meu assassinato. Esta seria minha vingança pessoal por ter me ridicularizado, zombado de meu crescente peso e por falar em público sobre a minha impotência nos meses em que estive doente. O processo foi rápido, uma vez que muito tempo já fora perdido: Ana foi condenada e ordenei que fosse decapitada pelo melhor carrasco da França, país que adorava. Não houve tempo para que atendesse o último pedido de Catarina, mas atendi o de Ana, que solicitara um carrasco francês.

 

Na Inglaterra o carrasco usa o machado; um golpe nunca é o suficiente para separar a cabeça do corpo. Na França o carrasco faz uso da melhor espada disponível, e o condenado pode morrer de cabeça erguida. Quando o pedido de Ana chegou até mim, quase voltei atrás. Ela pedira o carrasco francês apenas pela condição a que fora erguida; uma Rainha da Inglaterra não deveria abaixar a cabeça a nada e nem a ninguém, foi o que ela disse ao seu carcereiro ao pedir que ele viesse me trazer a mensagem. Podia imaginar Ana sorrindo enquanto dizia essas palavras. Com certeza ela sorrira enquanto as lágrimas desciam por seu rosto, como quando em Greenwich, pouco antes der presa, implorava com Elizabeth nos braços para que eu lhe desse mais uma chance; ela sempre foi uma tempestade de emoções juntas.

 

E agora, só eu e Deus. Já havia sacrificado uma boa esposa e relegado uma filha a bastardia. Sacrificaria mais uma esposa e uma filha para ter meu precioso filho? Talvez, se eu lhe desse mais uma chance… Mas Ana ousou ir contra mim em público, aceitou gracejos de outros homens, me fez de tolo ao dizer uma promessa solene que não cumpriria. Ousou me negar o meu filho!

 

Mas não foi por isso que a amei em primeiro lugar? Ousar é uma palavra que a define bem. Não amei eu esse furacão em forma de mulher, sabendo que em todo lugar que vai provoca tempestade? Ana e Catarina sempre foram opostas. Catarina foi incondicional, serena; Ana foi a própria paixão arrebatada. Poderia condená-la por seguir sua própria natureza?

 

O semblante austero de meu pai, a face delicada de minha mãe, a expressão rígida de minha avó que dirigia tudo com mão de ferro e nunca sorria não saíam da minha cabeça. Eles fizeram tudo para que o nome Tudor tivesse lugar entre reis; conquistaram a coroa da Inglaterra em meio a lama no campo de batalha, vencedores pela vontade de Deus. Minha avó, Margareth, arquitetara tudo; meu pai, Henrique VII, lutou e arriscou a vida; minha mãe, Elizabeth, trouxe a paz ao aceitar a aliança entre York e Lancaster. Quando meu irmão morreu, minha mãe engravidou novamente e morreu ao dar a luz a minha irmãzinha, que logo a seguiu ao túmulo. Todos lutaram pelo trono onde hoje estou sentado, de uma forma ou de outra, ofertando suas vidas. Tenho o direito de fazer menos do que isso? O que pensariam eles de mim? O que Deus pensaria de mim? Não agüentava mais! Tudo que eu queria era ter Catarina de volta, minha beldade espanhola, submissa e graciosa, jovem e fértil, e então nada disso teria acontecido!

 

Não podia ser covarde. Jane Seymor, aia de Ana, podia ser minha Catarina jovem e fértil. Não havia nada nela, porém, que lembrasse a brilhante Catarina de Aragão, nem a fulgurante Ana Bolena. Não era bela nem incrível como elas foram. Jane era simples, não gostava de ler, dançava apenas razoavelmente e nem sabia manter uma conversa adequada. Mas sua família era uma das mais férteis da Inglaterra, só seus pais tiveram dez filhos vivos, e era disso que eu precisava.

 

Com uma assinatura, matei Ana, a jovem viçosa por quem quase dividi a Inglaterra ao meio, a mãe da minha segunda filha. Já tinha ido muito longe para voltar atrás.

 

Desposei Jane com rapidez e a possuí todas as vezes me lembrava que precisava de um filho. Mostrou-se uma boa esposa: casta, calma, tão modesta que chegava a ser quase desinteressante. O Conselho Privado me cobrava a coroação da nova Rainha para que o povo inglês a conhecesse e tudo ficasse em paz novamente, mas eu não cometeria o mesmo erro. Jane só seria coroada depois de ter o meu filho e nunca antes.

 

Vários meses se passaram até que finalmente anunciasse a sua gravidez. Uma excelente ocasião, depois de minha vitória contra os rebeldes da peregrinação da graça. Prometi que seria coroada no Norte, para recompensar os que se mantiveram fiéis a mim, mas só depois que tivesse meu filho; eu não arriscaria sequer mudar de palácio enquanto ela estivesse grávida. Creio que isso nos aproximou, mas ainda assim tive medo de amar aquela mulher e me decepcionar novamente. Jane sorria triste, mas não dizia nada. Tinha muitos desejos por causa da gravidez e ordenei que tudo lhe fosse atendido. Ainda assim, não consegui me aproximar dela, especialmente depois que ensaiou demonstrar opiniões. Minha Rainha não se intrometeria mais em assuntos de Estado, já bastava o estrago que Ana havia feito.

 

Quando finalmente as aias de Jane vieram anunciar que ela entrara em trabalho de parto, não consegui ficar contente, apenas apreensivo. Se viesse outra menina, eu seria capaz de matá-la com minhas próprias mãos! Ajoelhei-me e pedi, implorei a Deus que me concedesse meu filho. O parto foi demorado e me mantive a espera, parado, sem conseguir dormir ou manter uma conversa coerente. Pela primeira vez temi que ela não suportasse e morresse.  Estava demorando demais e Jane era dona de uma compleição frágil, a pele pálida como alabastro, feições muito delicadas. Temi por ela. E rezei ainda mais desesperadamente, mesmo sabendo que Deus não me ouviria.

 

Trouxeram-me a maravilhosa notícia de que a Rainha teve o meu filho e estava viva. Não posso mensurar em palavras o meu alívio. Todas as comemorações que planejei durante anos para o herdeiro do Coroa puderam ser realizadas e foram grandiosas. Ainda assim, não conseguia me livrar daquele sentimento de inquietação que me assaltara e logo soube o motivo. Jane estava doente, terrivelmente doente, desde o dia do nascimento do meu filho, Eduardo. Ela se esforçara para poder participar das comemorações do batizado. Ninguém desconfiou. Nem eu. Estava tão perdido em minha felicidade que não pude reparar, e agora ela estava morrendo, sem que os médicos descobrissem a causa. Aqueles incompetentes estavam perdendo a única mulher que cumpriu sua promessa e me deu um filho. Então fui vê-la, ainda com esperanças de encontrá-la consciente e de curá-la, nem que eu mesmo tivesse de preparar os remédios para que isso acontecesse.

 

Não tive a sorte de poder me despedir, nem de tentar salvá-la. Quando coloquei os olhos na Rainha, ela já ardia em febre e não dava mais acordo de si. Estava mais pálida que a morte, tendo calafrios e com a barriga intensamente distendida. Seus longos cabelos louros se espalhavam pela cama de forma lúgubre. Disseram-me que ela tivera uma dor de cabeça terrível e que gritara delírios antes de adormecer. Reconheci os sintomas: era a febre puerperal, a mesma maldita doença que levou a minha mãe deste mundo. Curvei-me e prometi a ela que lhe seriam prestadas todas as homenagens e eu lhe daria todo amor que não recebeu em vida, que todos os quadros oficiais a teriam como Rainha e minha única esposa dali por diante. Pareceu-me que seu semblante se tranquilizara após essa promessa. Assim que saí de seus aposentos, a Rainha Jane deixou esse mundo.

 

Nada traria nenhuma das minhas três Rainhas de volta. Morreram diretamente por minha culpa e sem que eu pudesse me despedir. Bani Catarina injustamente, decapitei Ana sob acusações infundadas e agora Deus levou-me Jane. Deus levou-me Jane, a única que não me causou problemas e que carregou meu filho… Não quero mais me casar. Nunca. Mas preciso. Meu Reino precisa de uma Rainha, meu filho de uma mãe e eu de uma mulher a aquecer este corpo obeso no leito real. Quem sabe até ter filhos, mais herdeiros da Casa Tudor que possam se casar com os herdeiros das demais Casas reais da Europa que me ridicularizaram por apenas ter filhas mulheres. Meu filho Eduardo será primorosamente educado e um dia será Rei, disso tenho certeza.

 

Preciso erguer a cabeça e continuar. Sou o Rei da Inglaterra e Líder da Igreja Anglicana. Vou fazer uma aliança política neste próximo casamento. Nada de sentimentos agora. O que ocorreu foi minha vontade e a vontade de Deus. Elas são uma só. Sou o arauto dos Céus, o Libertador da Inglaterra, por isso eu e meu filho sobrevivemos. Guiarei meu país a glória até que meu filho possa assumir a Coroa. Nada de sentimentos. As pessoas morrem o tempo todo. Aliás, Cromwell me falou sobre uma princesa do ducado de Cleves…

*****

Fim (Será?)

5 comentários em “O Dilema de um Rei

  1. Sabia que simplesmente amop a história elizabetana? (pré, durante e pós)! Amei sua descrição, envolvendo o leitor nos sentimentos da história, nada daquela secura observadora, aquela descrição sem graça e sem sal. Por que toda a história dessa família foi movida a isso: fulgor!

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  2. Sabia que simplesmente amo a história elizabetana? (pré, durante e pós)! Amei sua descrição, envolvendo o leitor nos sentimentos da história, nada daquela secura observadora, aquela descrição sem graça e sem sal. Por que toda a história dessa família foi movida a isso: fulgor!

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