A Dama de Fogo (Pt. 4) – Promessa de Sangue

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A Dama de Fogo

Capítulo 4 – Promessa de Sangue

Escrito por: Morgana Owl.

O silêncio tomara conta da sala durante alguns minutos. Todos se entreolhavam aflitos. Eileen era a única cujo semblante não era de total preocupação, pelo contrário, demonstrava certa alegria por de trás de uma falsa face de compaixão. Por fim, Sean, quebrou o silêncio mortal que estava naquela sala:

– Bom, meus caros… Sei que nesse momento vocês dois, Brigith e Arthur, só querem paz e poder desfrutar do seu mais recente matrimônio. Eu também queria isso para vocês. Brigith sabe o quanto almejo sua felicidade, mais ainda por estar esperando uma criança. Mas… – coçara a garganta dando uma breve pausa – não tenho boas notícias, infelizmente.

Brigith levantara do sofá e o interrompera, aos prantos, praticamente:

– Diga-nos logo! O que está acontecendo? Não aguento mais esse suspense todo! – fitara Sean furiosamente.

– Acalme-se, minha querida. Não pode se exaltar, está grávida! – dissera Arthur.

– Vamos logo ao ponto! Estou cansada dessa volta toda que estão dando. Não é todo mal assim… Arthur – Eileen olhara-o nos olhos enquanto falara – Você e todos os outros homens jovens de nosso vilarejo foram convidados, sutilmente dizendo, para a Guerra. Infelizmente os ingleses resolveram que querem tomar nosso território e fazer com que sejamos um único país. Porém nosso rei está furioso e não aceitará de jeito nenhum, de modo que, entraremos em guerra e precisarão de todo o exército possível. Inclusive os jovens dos pequenos vilarejos, já que nosso país não é lá grande coisa quando se diz respeito a exércitos.

– Não pode ser! Isso é quase suicídio! – Dissera Brigith, enquanto sentaram-se, colocando suas duas mãos no rosto, chorando desesperadamente.

– O exército dos ingleses não está em bom tamanho, vieram em paz. Nosso Rei que quer a guerra, Brigith. Ainda não está tendo conflitos, apenas convocaram alguns dos homens para ir até a Cidade Real, para que possam proteger o castelo de possíveis ataques. Alguns ficarão para proteger o vilarejo e, infelizmente, este não é o caso do nobre Arthur. – Dissera seu tio Sean, em um tom compassivo.

– Ora, o que será de meu filho? Está a poucos meses de nascer e eu não estarei aqui, é isso mesmo? – Arthur parecera um pouco desorientado.

– Por ora essas são as ordens, meu caro filho. – pronunciara-se o pai de Arthur.

– Disseram-nos que temos dois dias para preparar nossas coisas e os cavaleiros reais passarão de vilarejo em vilarejo para buscar-nos. Farão a chamada e se não estivermos no local, matarão os desertores. – Falara imensamente preocupado o irmão de Arthur, Eric.

– Que coisa mais horrível! Nosso rei está louco! – Dissera Brigith atônita.

– Provavelmente, minha cara, provavelmente! – suspirara Caitlin.

– Ora vamos! Não acontecerá nada de mal! Disseram-me que na Cidade Real está tudo em paz. Os ingleses fizeram um acampamento pacífico aos redores das muralhas. Apenas querem propor um acordo ao nosso rei. Sejamos mais positivos! – Eileen soara um pouco irônica, embora ninguém tenha percebido, devido a grande tensão que estivera naquela sala o tempo inteiro.

Após algumas horas de uma conversa cansativa, Brigith e Arthur recolheram-se para seu quarto. Brigith apesar de todo o susto parecera estar mais positiva. Os deuses não poderiam fazer isso com ela neste exato momento de sua vida. Já acontecera mal de mais, será que não poderiam ter mais compaixão? Era o que eles, recém-casados, almejavam naquele momento. Queriam apenas viver seu casamento, suas vidas a dois em paz, sem nenhum rei louco causando guerras supostamente de graça, por puro orgulho de ser contrariado.

Ao menos os amigos de Eric – irmão de Arthur – soldados reais, disseram-no que na Cidade Real não havia nenhum conflito até aquele momento, e que está suposta guerra estava mais para “guerra de um homem só”. Apenas foram recrutados todos os homens para que o rei não fosse atacado e tivesse que recrutá-los às pressas. Como o vosso rei dissera: “Melhor prevenir do que remediar! Com ingleses não se brinca. Ora são amigos, ora são seus piores inimigos.”.

-x-

Nesses dois dias, Brigith e Arthur os viveram intensamente, como se não houvesse o amanhã e muito menos a tal guerra. Fizeram muitos planos para a chegada do bebê, faltavam apenas alguns meses… Notaram também que a barriga de Brigith começara a tomar forma. Ela agora estava parecendo grávida e estava mais linda! Seus longos cabelos negros estavam mais brilhosos e volumosos, esbanjavam vitalidade. Arthur continuava o mesmo rapaz de sempre, esbelto e com a pele bronzeada, porém com um sorriso que não saia mais do rosto.

Infelizmente não tiveram muito tempo para organizarem suas novas vidas a dois. Chegara o tal “grande dia”, o dia da despedida, o dia da dor. Arthur não levara muita coisa, pegara apenas algumas mudas de roupa, alguns objetos pessoais e uma pequena rosa que seria para lembrar-se de Brigith. Sua mãe e Brigith fizeram junto um grande lanche para que ele e seu irmão Eric pudessem levar durante a viagem: alguns pães, geleia de morango e de damasco, frutas frescas, água e uma enorme jarra de suco. Duraria um dia, talvez dois. Depende do tempo que levariam para chegar à Cidade Real.

Fora uma despedida breve. Brigith prometera a si mesma que não choraria para não desencorajar Arthur. Rezara a noite inteira para que os Deuses protegessem-no. Sentira uma enorme força após suas orações. Sentira, enfim, que a Grande mãe olhara por eles.

– Promete que voltará em breve são e salvo, a tempo de ver nosso bebê nascer? – Brigith segurara as mãos de Arthur enquanto falara. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela fizera de tudo para não chorar.

– Sim, minha amada. Voltarei mais rápido do que pensas. Nosso rei têm ótimos conselheiros, alguém há de fazê-lo cair em si. Prometo que em breve estarei aqui para ver nosso menininho nascer. Tenho certeza que será um menino! – fizera todo o esforço que pudera para sorrir naquele triste momento.

– Ah! Se for lindo como o pai, estarei muito feliz, meu querido. – Brigith sorrira, enfim.

– Eu te amo pequena. Seus olhos, sua boca, seu corpo… Você é perfeita para mim, não queria deixa-la, sou obrigado. Farei o possível, lutarei contra mil exércitos, se for o caso, só para tê-la de novo em meus braços e poder olhar nos teus olhos cor de tempestade para todo o sempre. – Tomara Brigith em seus braços, abraçara-a tão forte, que Brigith não segurara a emoção ao ouvir a trombeta soar, para que os novos soldados pudessem partir.

– Nunca esqueça Arthur, eu te amo, muito. Serei eternamente sua. Nessa vida, ou em outra. Estaremos esperando por você, para sempre, onde quer que seja, se este for o caso. – Beijara-o brevemente, para que pudesse ir rumo a um caminho desconhecido.

-xx-

Apesar de toda a tristeza que assolara Brigith nos primeiros dias, sua irmã Eileen, por incrível que pareça, estivera ao seu lado o tempo inteiro. Brigith animara-se mais com a chegada de uma carta de Arthur:

‘’ Minha pequena Brigith,

Sei que são tempos difíceis para nós dois. Jamais pensei em minha vida passar dias longe de você e do nosso menininho. Mas os deuses quiseram assim, talvez nosso amor aumente mais depois dessa provação – se é que é possível. Cheguei aqui bem, comi todo o lanche que prepararam ao longo da viagem, revi antigos amigos… E o ar aqui da Cidade Real cheira a peixe estragado! Prefiro ficar no nosso Vilarejo mesmo e ser um “caipira” para sempre. Enfim minha amada, não tenho muito tempo para escrever, tenho que me apresentar ao rei junto com meus camaradas. Não se preocupe! Está tudo em paz por ora. Ouvi boatos – assim que cheguei – que estão para fazer um acordo em breve, fique em paz! Estou vivo! E espero que você esteja bem. Eu te amo para sempre! Cuide do nosso bebê!

Para sempre seu,

Arthur. “

Cada semana que passava, Brigith recebia uma carta de Arthur. Sempre contando uma novidade. Ele parecia feliz, apesar de tudo. Ela também estava mais positiva, e esforçava-se para parecer feliz. Os tais boatos que Arthur ouvira ao chegar à Cidade Real, parecia que nunca se realizara. Passavam semanas e mais semanas, mas nada do tal acordo tornar-se realidade e Brigith ter seu amado de volta para poder ficar ao seu lado no momento em que o bebê nascesse.

Sua barriga estava enorme, após algumas semanas. A cada hora que passava, Brigith pensava que o bebê nasceria tal era o desconforto. Os chutes ficavam mais intensos. Ela escrevera cada detalhe da gravidez para Arthur, e ele ficara feliz em poder partilhar deste momento mesmo que fosse através de carta. Eles estavam dando um jeito de serem felizes juntos, mesmo com toda aquela distância. O que deixava Eileen furiosa, porque não era bem o que planejara para sua querida e amada irmã. Mas isso não a afetava mais, até porque seu xeque-mate estava prestes a acontecer, bastava o bebê de ouro nascer. Brigith se quer lembrava mais da tal promessa, mas Eileen lembrava-se, como se fosse ontem. E queria-a cumprida! Se não…

-xxx-

Após alguns meses, o médico da família Dr Calvin dissera à Brigith que faltavam apenas poucos dias para o bebê nascer, que provavelmente ela estaria com oito meses e três semanas de gestação, o que a deixou mais aflita ainda. Pois Arthur nem dera sinal de vida naquela semana… O que acontecera com Arthur? Será que começara a guerra de fato? Preocupações demais para a cabeça de uma jovem grávida. Mas atendendo aos pedidos – quase imploração – de sua tia Cat, Brigith resolvera não pensar em mais nada naquela última semana… Queria tirar um tempo apenas para ela e concentrar-se no seu momento único de ser mulher: tornar-se mãe.

Por isso, Brigith recorrera à deusa… Ela estava muito afastada da arte devido os últimos acontecimentos em sua vida. Mas este era o momento propício para ela pedir conselhos à Grande Mãe, com toda a certeza Ela saberia acalmar o seu coração e fazer com que ela tivesse toda a sorte e proteção durante a tão esperada hora. Depois de algum tempo refletindo acerca disso em seu quarto, Brigith resolvera ir às margens do Lago de Cristal e orar para a Deusa. Vestira-se com seu vestido mais bonito, colocara seu manto negro e saíra até o lago… Junto de si levou alguns objetos sacros, os quais estavam dentro de uma bolsa de couro escuro.

Ao chegar às margens, notara que fazia uma noite linda! Fazia tempos que ela não soubera o que é olhar para o céu, agradecer e não pensar mais em nada, apenas sentir as energias vindas da Lua. Naquele momento, só de olhar para a Lua, já sentia suas energias voltando… Aos poucos… Lindamente. Tirara seu manto negro e ficara só com o seu vestido branco e esvoaçante. Seus cabelos negros ficavam mais evidentes com roupas claras, estava ainda maior e mais brilhoso do que nunca. Parecia uma pintura: uma mulher grávida, à beira do lago, sob a luz do luar. Estendera suas mãos para pegar a sua bolsa e tirara lá de dentro alguns cristais e velas… Arrumara-os no formato de um círculo um pouco afastado da margem, e com cuidado acendera todas as velas. Por incrível que pareça, nenhuma vela se apagou! A Grande Mãe estava lá, graciosamente ajudando-a, como sempre. Após terminar de acender todas as velas do círculo, entoara uma linda oração em alto e bom som:

“Bondosa Deusa
Que és Virgem, Mãe e Anciã
Bendito seja o teu nome,
Ajuda-me a viver em paz
Sobre a terra que é tua,
E dá-me a proteção do teu abraço
Guia-me ao longo do caminho que escolhi,
E revela-me o teu grande amor eterno
Enquanto tento olhar com bondade
Aqueles que não entendem a tua essência,
E leva-me em segurança
Ao teu caldeirão do Renascimento
Pois é o teu espírito que vive em mim, e me protege
Para todo o sempre.
Assim seja.”

Assim que terminara de recitar a oração, sentira uma enorme energia correndo por todo o seu corpo… Uma voz quente e suave dissera-lhe como uma linda canção em seus ouvidos:

Minha pequena, acalme-se! Sei que são tempos difíceis para você, mas eu sempre estou contigo! Sei que se afastara de mim por um período prolongado de tempo, porém eu não me afasto de meus filhos. Assim que fizera o juramento para comigo, eu fiz um juramento para com você. Proteger-te-ei por toda sua existência… pois sei que é uma guerreira e nunca se desviou de sua missão e seu propósito. Acalme seu coração, a Grande Mãe, a SUA Grande Mãe, sempre estará com você. Esteja onde estiver. Em toda sua existência terrena e além dela… Fique em paz, eu amo você, minha pequena Brigith!

Brigith não conseguira controlar suas lágrimas… Aquela fora a prova mais linda que ela pudera ter da real existência da sua Grande Mãe, sua grande protetora. Ela nunca duvidara, mas aquilo fora demais para seu coração! Chorara e agradecera durante um tempo, até perder sua voz, tamanha emoção. Acabara que adormecera ali mesmo, não hesitou nenhum momento em ir embora, ela só quisera ficar ali mais um tempo, e sentir aquela energia, que parecera abraça-la e mantê-la aquecida durante toda a noite, como sua mãe fazia quando era viva.

Assim que amanheceu sentira o toque do sol em seu rosto, logo levantara totalmente energizada. Parecera que dormira durante um século, no lugar mais confortável do mundo: nos braços da Deusa.

-xxxx-

Eileen passara a noite toda acordada, maquinando qual seria o próximo passo. Já não aguentava mais esperar pela hora do nascimento do seu amado sobrinho/a. Aquele momento seria o SEU momento de triunfo e não o de Brigith. As ideias começaram a fluir… Sentira um formigamento estranho no seu ser, uma estranha animação. Logo um sorriso maligno brotou em seu rosto… Ela soubera quem acabara de chegar, seu melhor amigo. Olhara-se no espelho e viu, Ele estava atrás dela, como sempre. Olhando-a com olhar de desanimação e reprovação, e ela sabia do que ele sentia falta:

– Tá, tá… Já sei o que o senhor quer! – pegara sua athame e fizera um enorme rasgo em seu pulso, no qual começou a jorrar sangue. Logo ela pegara um cálice e colocara seu pulso ali, deixando escorrer… Assim que o cálice ficara praticamente cheio, ela entregara a Ele. Com um único gole, Ele tomara todo o sangue de Eileen, e dera um sorriso de satisfação mais medonho do mundo. E estranhamente o ferimento onde Eileen drenara seu próprio sangue, cicatrizara-se como num passe de mágica. – Agora me diga, quando poderei ter o que é meu por direito? – o fitara esperançosa.

Uma voz fantasmagórica disse quase como um sussurro, mas um sussurro daqueles que jamais esqueceríamos:

– Acalme-se, pequena besta, faltam apenas alguns dias. Você terá o que quer… Mas se tudo der errado, será apenas por sua culpa. E digo-lhe, peste, tu sofrerás das mais temíveis consequências. – dera de ombros

– Óbvio que tenho planos, meu caro. E tudo dará certo. Minha alma será sua só quando eu morrer de velhice e tiver gosto de mofo. – Rira

– Veja lá como fala comigo, idiota. Esqueceu-se que sou poderoso e acabo com sua insignificante existência num piscar de olhos? – falara furioso, tamanha audácia de Eileen para com ele.

– Ora, desculpe-me, senhor todo poderoso! – Ironizou-o

Ao terminar de falar, Ele sentiu que Eileen debochara dele. Ele não gostara nenhum segundo e tinha que mostrar à ela quem estava no comando e que ela era apenas uma serva de suas vontades. Lançara sobre ela um olhar, terrivelmente maligno. Eileen sentiu suas entranhas pegarem fogo, e viu seu sangue escorrer por entre suas pernas. De suas entranhas começaram a sair pequenas bestas… Eileen ficara desesperada e começara a gritar tamanha a dor que estava sentindo naquele momento. Enquanto Ele rira, rira muito.

– Me desculpe me perdoe! POR FAVOR! NÃO AGUENTO MAIS! FAÇA PARAR! FAÇA PARAR, POR FAVOR! – chorara desesperadamente.

– Pobre criança… Não sabes o poder de caos e dor que tenho e ficas a debochar de mim? – Puxara-a pelos cabelos e olhara-a nos olhos, furioso.

– Perdoe-me meu mestre, nunca mais faço isso! Apenas faça parar, por favor! – soluçara

– Hmmmm… Deixe-me ver… HAHHAHAHAHAHAHA – rira ainda mais, ao ver as lágrimas rolarem, mas num piscar de olhos, fizera todo o drama e inferno de Eileen parar. Com isso sumiram todas as bestas que estavam pelo quarto e todo o sangue. Parecera que nada tivesse acontecido naquele quarto.

Eileen deitara-se no chão, exausta, tremendo. Aquele fora definitivamente o pior momento de sua vida, ela nunca mais ousaria desafiar ou se quer dizer algo que desagradasse Ele! Pois Ele, o senhor do caos, o senhor da dor e da desolação, não tinha pena de ninguém. Muito menos de um ser que, como ele, gostara de ferir pessoas. O sangue dos humanos impuros parecia ter um gosto mais adocicado. Ele sumira do quarto, da mesma forma como aparecera do nada… Mas sua risada fora ouvida por todos do Vilarejo, que logo correram para suas casas, totalmente assustados.

Continua

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