Maysee, Um Toque do Mar [Parte 1] – Visões na Tempestade

Leviathan_by_MercurialXen

Maysee – Um Toque do Mar 

Escrito por Gabi Waleska

A Chuva

“Chove lá fora e eu não tenho mais você

Quanta vontade de te ver

Saudade é a tempestade que fecha o verão […]

Vou vivendo com a minha solidão.”

                                 -Tudo Passa, Marjorie Estiano.

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A manhã estava escura, o céu cinzento, nublado, pesado. Não havia vento, apenas uma fraca brisa. O clima era abafado. Tudo indicava uma tempestade se formando. O chalé médio inclinava-se para o lado, como se uma força invisível o puxasse.

Ele era quase redondo, uma construção singela e semicircular, feita de tijolos, conchas uma varanda de bambus. Telhas, palha e madeira formavam o teto. Era pitoresco. Pensaram em chamá-lo de Casa da Beira-Mar ou Inclinação das Ondas, mas o melhor nome que lhe caiu foi Chalé das Areias. Era antigo, com uns 150 ou 200 anos, suas paredes impregnavam-se de conchas, maresia e história. Histórias de todos que lá habitaram, mas sobrepondo-se à frente das coisas antigas, havia a história dos atuais moradores.

Na parte superior, haviam três quartos pequenos e apertados, era no quarto de frente para o mar que Lore dormia; Loreena era a pessoa que mais amava o tempo frio, desde que fora confinada no litoral toda a sua alegria realizava-se quando chovia. E este seria o dia perfeito para ela. A chuva estava próxima e era isto que importava.

Ao abrir os olhos estava meio claro, eram 4h30 da manhã e ela sabia que esta era a hora do sol surgir, então devia estar muito nublado. Vagarosamente levantou-se enrolada pelo lençol de cama e olhou pela janela. “Era assim que deveria ser todos os dias. Amanhecer nublado e chover”, pensou satisfeita com sua visão.

Arrastou-se para o armário e vasculhou suas roupas até encontrar uma capa de chuva. Sim, hoje era dia de loucura, de andar na tempestade. Caçou suas botas emborrachadas e as calçou, só trocou a blusa do pijama por uma camiseta branca de listras azuis horizontais. Ela adorava esta, parecia com aquelas roupas antigas estilo marinheiro.

Na lateral do guarda roupas encontrou seu guarda chuva transparente, sorriu. Era tentador tomar um banho de chuva, mas o pegou também, e aquele era seu favorito, pois dava para ver a chuva de todos os ângulos. Pôs seu colar, um potinho contendo sal verde, e seus anéis de pedras – um de turmalina negra, das serras brasileiras, um de esmeralda e um de granada. Ela adorava pedras. E sempre os usava.

Desceu furtivamente a escada em espiral, sem querer acordar sua família. Sua família agora, e desde dois anos atrás era apenas sua irmã mais nova, Jane e sua tia avó de 72 anos, Emilly, as ocupantes dos outros quartos. Nenhuma das duas aprovava estas saídas de Loreena, mas era sua única passagem para sua vida antiga.

Passou pela cozinha e saiu, tentando não fazer barulho algum ao puxar a porta. E virou-se para o mar. “Hoje seguirei para leste”, pensou. O oeste era muito habitado, haviam muitas casas e pessoas a cada 50 metros. O leste não tinha nenhuma habitação. O ar era tão denso que podia ser cortado, como uma parede que podia ser atravessada. “Está perto”, concluiu. E pôs-se a caminhar.

Andou por quinze ou vinte minutos, não foi muito, mas estava longe o bastante para não ser vista através do nevoeiro. A casa era um pontinho distante e acinzentado. De onde estava podia avistar algumas pedras ao longe, era para lá que iria. O sol era sempre um empecilho, quente demais para que ela pudesse ir em dias normais.

Lore caminhou em direção ao rochedo, o vento estava começando a soprar com aquela nuance fria em um meio abafado. A água do mar estava violenta, adivinhando a tempestade.

Já bem depois de andar, era pelo menos cinco e meia, a chuva começou a precipitar-se, com pingos grandes, pesados e frios. O vento assanhava os longos cabelos de Loreena, que puxou o capuz para cima da cabeça. Já estava perto das pedras.

_X_

Os seixos macios, moldados pelo mar brilhavam acinzentados, refletindo a cor das nuvens de tempestade adiante. Este momento era único para sua vida. Lentamente subiu as rochas arredondadas, marcadas por milênios de ondas e maresia. Era uma escalada simples, mas as pedras estavam um pouco escorregadias. Loreena sentou-se numa parte semi coberta por uma pedra mais alta e observou a vastidão do mar.

– Ah, seria possível que houvesse maior perfeição? – falou alto para si mesma.

A chuva começou a engrossar de verdade e ela abriu seu guarda-chuva. O mar estava ficando agitado, mas a maré estava baixa, não havia riscos das ondas violentas chegarem até ela, não até as 9h da manhã e a esta hora Loreena já estaria em casa, seca e presa pelas paredes do Chalé. O cheiro do mar estava tão forte, carregado de sal, de plantas, de vida. Ela fechou os olhos e deixou uma lágrima escorrer. O vento soprou-lhe aos ouvidos, um som surgiu em sua mente “MAH-YH-SHHHH-EEEHH”, era algo parecido com baleias ou golfinhos, ou o som da espuma das ondas, não era algo pronunciável, mas era tão melodioso. De onde viera essa palavra? Uma nostalgia tão intensa a tomou que ela começou a soluçar.

– Isso está errado! Eu deveria estar feliz, está chovendo! De onde vem essa tristeza? Essa… essa saudade? – soluçou espantando-se ao descobrir o sentimento que lhe tomou.

Ergueu o rosto para que o vento frio a refrescasse e olhou para o mar revolto. Uma vontade inexplicável de nadar naquelas águas a tomou, não era um desejo suicida, ela de alguma forma sabia que não iria morrer se entrasse naquelas ondas fortes. Ela se pegou ficando de pé e inclinando-se para calcular se daria certo o mergulho, mas impediu-se.

– Deixe de loucura! – falou alto – Inclusive de falar sozinha – deu um muxoxo e ia dar a volta quando seus olhos arregalaram-se.

Algo estava no meio daquelas ondas, algo grande e poderoso nadava. Não, não nadava. Lutava! E não era apenas uma coisa. Eram duas figuras que emergiam e pulavam da água vez ou outra se chocavam. Seriam baleias?

O vento, a chuva e a altura das ondas impediam-na de ver melhor. O vento dessa vez veio de trás. A acertou em cheio e levou a chuva em direção ao oceano. Isso foi assustador porque o vento geralmente vem do mar ou do leste, não é normal vir do noroeste. Um medo súbito a tomou, ela precisava voltar para casa, o que quer que estivesse no ar não era coisa boa.

Loreena tomou esta decisão e olhou para as criaturas que ainda lutavam quando uma delas, a maior, virou-se em direção à praia, estava a uma distância enorme, pelo menos quinze quilômetros da areia, mas este ser ergueu-se acima das ondas, tanto que àquela distância parecia um prédio no meio do mar, um pescoço imenso ligado a uma cabeça imensa, e ela percebeu que não era só um pescoço, mas também um corpo com barbatanas e brilhava esverdeado em meio a água e este nadou em direção à praia, em direção a ela.

Ela não esperou para ver o que era. Simplesmente correu em direção a sua casa, o medo e a incompreensão a dominando, o que era aquilo? Uma serpente marinha mitológica? Um leviatã? Isto não deveria existir, então ela estaria alucinando? Será que um raio a atingiu sem que percebesse?

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Olá, queridos leitores! Espero que tenham gostado deste novo conto, será diferente de Amy, mas abordará temas fantásticos. Não se preocupem, logo logo Amy também voltará para vocês com uma surpresinha! Enfim, não esqueçam de curtir, compartilhar e comentar! Semana que vem tem mais! ❤

13 comentários em “Maysee, Um Toque do Mar [Parte 1] – Visões na Tempestade

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