A semente maligna

 Semente Maligna 1

Escrito por Zuleika Juliene

  Há coisas que são difíceis para a mente humana assimilar. Assuntos não resolvidos, pendências de outra vida podem transcender o tempo e o espaço fazendo-nos expiar nossos erros passados.

   Sônia nascera em uma família comum, humilde, com toda sorte de privações, mas isso não é o mais importante e sim o fato de Sônia ter nascido com uma anomalia, algo a mais, algo que não faria falta, que até seria melhor se ela não possuísse.

   Mas estava lá, era como um nódulo maligno, como algo que a forçasse a ser alguma coisa que não era.

   Desde pequena Sônia colecionava fatos, aborrecimentos, nada de bom lhe acontecia e não era por acaso que coisas e fatos ruins somavam-se a ela, desde que a conheci nunca consegui perceber algo de realmente bom que tenha acontecido a ela, Sônia realmente tinha um imã, como um chamamento, sempre o péssimo, o catastrófico a acompanhava.

   Teve uma infância e uma adolescência difícil, ninguém pode contestar, talvez uma mocidade traumática, então ela decidiu que poderia mudar, poderia esquecer o passado e construir um belo futuro, mas mais forte que seu desejo de mudança, estava aquilo, incrustado em sua alma, uma semente ruim que a cada dia ia sendo germinada por seus pensamentos, aquilo que a fazia rebater para bem longe qualquer positividade que pretensiosamente tentasse se aproximar; mas ela não percebia, aquilo já fazia parte dela, como perceber? Então seguiu sua vida, conheceu um rapaz, se apaixonou e gerou uma criança, achou que fosse a manifestação do verdadeiro amor, esperança e reconciliação com a vida, mas estava enganada, amargou muito mais do que pudesse suportar.

 Sua maldição, aquele algo a mais que possuía havia crescido consideravelmente, aliás, crescia a cada sofrimento seu. Abandonada e com uma criança em seus braços ela sofria desesperadamente, a ela parecia uma dor insuperável, mortal, enlouquecedora. Não morreu, nem enlouqueceu, então considerou-se guerreira, suportou seus fantasmas, seus conflitos e na medida do possível, tropeçando, apanhando, em meio a gritos, necessidades, humilhações e praticamente imersa em lama ela conheceu outra pessoa e casou-se.

  Todos observavam imaginando que as portas daquele inferno se fechassem, todos emanavam vibrações positivas e votos de infinita felicidade, mas a revelia da vontade de todos aquelas portas se arreganharam, o ápice da loucura a dominou e desde então as tormentas jamais cessaram.

  Do casamento teve outra filha, nunca soube o que era a paz. Decidiu que criaria esta segunda filha a sua imagem e semelhança, uma vez que não se sentia semelhante a ninguém. Fez dela sua cópia, pensamentos, angustias e sofrimentos; ainda assim não conseguiu partilhar sua dor e nem a ver refletida na menina, sua dor era única, sentia-se sozinha e isto alimentava aquela energia maligna que ia expandindo dentro dela e ela a alimentava cada vez mais com comentários maldosos, previsões ruins, maldições, pragas que adentravam a mente e o espírito de entes queridos.

  Todos, por amor, compaixão, benevolência ou qualquer que fosse a razão tentavam ignorar,não sentir os impactos de seus olhares invejosos, de seus maldizeres, mas era impossível não ser contaminado, arrebatado por tamanha negatividade e assim aos poucos cada familiar próximo de Sônia foi adoecendo, enfraquecendo, como se a única forma de aliviar a sua dor fosse plantando uma semente do mal em quem se aproximasse dela, alguns chegaram até a falecer, pois não tinham tanto equilíbrio para suportar tais impactos fortes e arrebatadores.

  A essa altura Sônia começou a perceber a grande gerador de males que ela era, queria destruir a si mesma, pois não tinha forças para lutar, falhou.

   Foi destes seres presenteados com uma longevidade espantosa, em sua vida restou apenas recordações, pois daqueles que ainda restaram entre amigos e parentes aos poucos foram todos se afastando para não adoecerem, não se contaminarem. Então ela se viu sozinha e pode refletir que o mal que a acometia fora designado para este fim, deixá-la sozinha, imersa na reflexão de seus atos desta e talvez de outras vidas.

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