Galamadriel – Pt.7 – A Dor de uma Lágrima

Iridish

O lugar era frio, mas ainda sim o som que dele emanava era caloroso e agradável.

Clarins e violinos acompanhavam o mestre de forma simples e complexa ao mesmo tempo. Os seres etéreos que ali se apresentavam usavam as próprias almas para embalar a sinfonia suave.

O ritmo e a cadencia eram perfeitos e solo do piano se fazia ouvir cada vez mais alto, enquanto nas grandes janelas e brisa soprava leve, empurrando com delicadeza as cortinas de uma seda turquesa que de tão compridas tocavam o chão, iluminando com a luz pálida da Lua, cada centímetro da parede de cristal e da orquestra sobrenatural.

O piano soava urgente enquanto o jovem rapaz de cabelos acobreados e cheio de pequenos anéis dava o que parecia ser o seu melhor, reforçando cada nova nota como se talvez aquela fosse a bem amada ou a última de sua existência.

– Lord Gabriel?

A voz era melancólica e ainda sim parecia ser saudosa. A canção chegava ao fim quando o mesmo alcançou a última nota e debruçou – se sobre o piano, causando um barulho seco e desafinado, seu rosto, agora, estampava a máscara da tristeza e da agonia, implorando para que um sonho ruim acabasse.

– Atrapalho? – ela perguntou preocupada, estática onde estava torcendo as mãos frias.

– O que você veio fazer aqui? Já lhe disse para não vir.

Ele deu um soco nas teclas do instrumento, fazendo com que todas as almas que ali se encontravam sumissem de imediato como se fossem apenas fumaça.

– Me castigas á milênios, mi Lord. Sua canção chega aos ouvidos do pobre Caronte, que para somente para ouvi – lo calando as amarguras deste pobre barqueiro. Eu ouço a canção e tenho anseios de fugir para teus braços, os mortais o ouvem e tentam copiar cada doce melodia que de tua casa emana…

– Cale – se! Vá embora e me deixe só.

– Esqueceu – me? – perguntou a moça olhando por uma das janelas que o vento insistia em não tocar e por onde ela havia saído. – Se sim, por que manténs essa janela aberta? Para ferir – me ou para punir – se?

Ele se levantou do piano e caminhou na direção da moça, parando ao seu lado enquanto olhava para o caminho que se estendia por trás da moça.

– Lady Lilith, acredito que seu senhor a espera. – ele inalou o perfume dela e fechou os olhos partindo em seguida e lançando as longas asas, saindo assim da Torre de Pedra, a morada de Gabriel.

Morada essa que guardava muitos caminhos para lugares que somente ele podia seguir.

A moça pareceu ofendida e deixou que duas grossas lágrimas caíssem de seus olhos, segurando a longa cortina e passando pela janela recordando o passado ao lado do ser amado e lembrando – se do erro que a fez perdê – lo.

– De que me vale o Poder agora? – perguntou a si mesma.

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

– Zaurur? Zaurur? Abre essa maldita porta ou a boto abaixo! – gritava Qüerinemer enfurecida

– Você pode derrubar como quiser, ele não vai mais abrir. – respondeu Iridish com a mão na maçaneta forçando um pouco a porta que cedeu ao seu toque.

– Pare de falar asneira Mercador maldito. Volta pro seu mundinho de sombras e me deixa em paz. – Ela nem notara de onde ele havia aparecido

Qüerinemer já temia o pior e respondia o outro com raiva e lágrimas lhe ardendo os olhos.

Ela adentrou a casa perfeitamente clara e arrumada e caminhou com o se pisasse em um campo inimigo, com medo de ser descoberta ou de descobrir algo pior.

Iridish sentou – sem em uma poltrona e ficou aguardando com os dedos entrelaçados que Qüerinemer voltasse.

Próximo a varanda havia uma pena multicolorida que a deixou perdida, segurando a pena sem ao menos piscar, foi quando seu foco se voltou para o corpo que estava além dela fazendo com que Qüerinemer largasse o detalhe peculiar de lado.

Qüerinemer colocou as mãos na boca, dando livre curso as lágrimas, horrorizada com a cena que via.

Zaurur jazia morto de olhos abertos, totalmente opacos e vazios, as asas estendidas no chão como se fossem um pedaço de pano velho mostravam que horas haviam se passado para tanto e que em breve tudo o que sobraria seria um punhado de cinzas, de cheiro agradável que seria carregado pelo vento, sem deixar vestígios da existência de qualquer um naquela casa.

Qüerinemer sentiu seu peito doer e teve vontade de gritar, mas sua voz não saia, sentou – se em um canto da varanda e encolheu- se segurando os próprios joelhos, chorando como as crianças.

Iridish ouvia o soluçar longe e ainda sim, não se moveu de seu lugar na poltrona, ele lidava com a morte á tempo demais para ter qualquer sentimento maior do que a espera.

O silêncio começou a fazer morada enquanto a noite começava a cair fria, como se estivesse no Inverno. Ele ficaria ali quantas horas fossem necessárias, afinal aquela era sua missão, estar ao lado dela e convencê- lá a cumprir aquilo que lhe havia ser destinado, embora em sua ordem ele soubesse que talvez nada mudasse, á não ser por um detalhe, mas parecia ser impossível que isso acontecesse, anjos eram previsíveis demais.

– Quem foi que fez isso? – perguntou ela caminhando nas sombras da casa tendo a pena em mãos.

– Não sei. – respondeu Iridish na frieza costumeira, mas o olhar em brasa de Qüerinemer pareceu incomoda – lo.

– É mentira, você é um Mercador, tem que saber. – ela dizia de forma mecânica como se alguém a movimentasse como um fantoche.

– Nem sempre nossa classe sabe o trabalho que os outros fazem, mas ao que tudo indica não foi um Mercador que veio buscar seu amigo.

Ela ficou nervosa e partiu para cima de Iridish, disposta á acerta – lo, mas ele puxou seu Bluss bunder do coldre preso a coxa e mirou em seu rosto.

– Eu disse que se você encostar um dedo em mim, eu mesmo te mando para o Inferno sem escala, anja maldita. – disse ele entre dentes, engatilhando a arma.

– Dane – se não tenho medo de morrer e já estou de saco cheio dessa droga de lugar. Ela não pensou duas vezes quando desferiu o primeiro soco no rosto de Iridish que cambaleou e perdeu o equilíbrio se enfurecendo com a ousadia da anja.

– Isso não vai ficar assim, não vou ser injusto, mas não levo esse soco de graça.

Iridish chutou a costela de Qüerinemer com força suficiente para parti boa parte da cintura da moça, se de fato ela fosse uma moça comum.

Ela caiu sentada e foi arrastada pelo cabelo, que agora havia ganhado a tonalidade azul – marinho, para fora da casa.

– Seu amigo está morto, você está furiosa, tudo bem eu entendo. Mas você não vai me ferrar e sair ilesa. Você quer brigar? Ok vamos brigar.

Ele a jogou para fora da casa, que caiu rolando a escada e arremessou a arma longe, tirou o sobretudo.

– Levanta e luta maldita.

A voz de Iridish saia sibilante e carregada de raiva, Qüerinemer se levantou e não pensou duas vezes para ataca – lo.

Rodopiou no chão de cabeça para baixou, deixando que as pernas em um giro rápido acertassem sucessivamente vários golpes no oponente que se limitava á se defender. Ela então pulou e lançou asas ao céu, que trovejava violentamente, trazendo uma nova chuva.

– A briga agora é voando? – ele deu um impulso do chão onde um buraco se formou imediatamente.

Eram socos, chutes e joelhadas, mas nem um dos dois estava disposto a baixar a guarda, embora Qüerinemer estivesse com a cintura sangrando do lado esquerdo e olho inchado e Iridish com o supercílio cortado e o braço direito ferido.

Ela voou mais alto para ataca- lo novamente, mas ele foi mais rápido e a prendeu segurando pelas costas.

– Maldito! Me solta, seu cretino, desgraçado.

– São muitas palavras ofensivas para alguém como você. – ele disse irônico, mas não teve tempo de terminar a sentença.

Qüerinemer lhe deu uma cabeçada, que teria lhe quebrado o nariz se fosse mortal.

– Filha da…

Ele a virou de frente e a encarou possesso de raiva, enquanto ela se debatia para que ele a soltasse.

– Você está atrapalhando meu serviço.

– Então me solta pra acabar de vez com você e eu poder viver minha vidinha patética sem ser vigiada, seu grande idiota.

Iridish á arremessou no solo com toda a sua força e voou na mesma direção. Quando ela alcançou o solo, ele ficou por cima dela e segurou – lhe os punhos, imobilizando – a.

– Olha bem pros meus olhos.

Ela então cuspiu na cara dele.

– Mercador nojento, vai fazer o que agora me matar? Isso me mata logo e me livra desse inferno.

Iridish aproximou seu rosto do dela e a beijou, ao mesmo tempo em que a chuva decidia cair sobre eles.

Um beijo demorado, rancoroso e violento, era como se ambos competissem para ver, até naquele instante, quem era o mais forte.

– Eu detesto isso tanto quanto você. Eu não gosto de você. Tenta não ferrar a minha missão que eu te deixo em paz e depois que tudo isso acabar, eu juro que nunca mais vou querer ver a sua carinha angelical nem nos meus piores pesadelos.

Ele abriu os olhos e eles estavam límpidos como um lago de águas translucidas, se levantou, pegou a arma e o sobretudo e partiu.

Qüerinemer ficou ali, deitada, imóvel, tentando entender o que havia acontecido, suas asas pareceram voltar para dentro de seu corpo, enquanto ela ainda olhava o céu tempestuoso perguntando o por que de tudo aquilo. Mas não notou quando a presença de outra pessoa se aproximou.

– Não é o melhor lugar para se ficar com um tempo desses. – o rapaz sorria estendendo a mão em direção á Qüerinemer.

– Eu acabei caindo. – disse ela pegando a mão estendida.

– Nunca é bom uma moça andar a noite e principalmente na chuva, você não acha?

O rapaz tinha o rosto coberto por um capuz e segurava um guarda chuva.

– Vem, eu te pago um café pra espantar o frio do corpo. Ah, meu nome é Paul. – ele tirou o capuz e imediatamente ela o reconheceu e sorriu.

– Não parece uma má idéia.

Ela aceitou a gentileza, mesmo com o corpo totalmente destruído por dentro, mas totalmente refeita por fora.

– Você ainda toma café na Starbucks? – o rapaz sorria reconhecendo também a moça que virá algumas vezes no bar e que o deixará tão pensativo algumas vezes.

– Você é um bom observador. – ela sorriu, tentando limpar um pouco da sujeira que tinha na roupa, mas desistindo no instante seguinte por que seria impossível conseguir tal façanha. – Tomo sim, ainda acho que eles servem o melhor café de Nova York.

– Seu cabelo. Está mais azul do que da última vez que á vi. – ele tirou o casaco e cobriu os ombros da moça que estava encharcada pela chuva.

– Pois é, achei melhor mudar um pouco. – ela respondeu disfarçando, sem recuar o gesto de delicadeza que o rapaz acabará de fazer.

– E você, o que tem feito? É Paul né?

– Tenho andado por aí, sabe como é. Trabalhando, cuidando da minha vidinha desinteressante como sempre.

Ele deu uma longa gargalhada se divertindo da situação e recordando como sua vida andava bagunçada desde a última vez que fora a Galamadriel.

Parecia ser um sinal enviado sabe – se lá de onde, quando ele encontrou a moça caída naquele buraco, mas ele jurava que havia sentido o cheiro de um Mercador, afinal o perfume que eles emanavam, o cheiro da Morte, era inconfundível.

Será que a moça, Qüerinemer, estava marcada para morrer ou ele teria interferido na sua hora final?

Na verdade não importava agora ele esqueceria, pelo menos até passar pela soleira da porta de sua casa, aquela maluquice da qual ela fazia parte.

– Você faz o que nas horas vagas? – ele perguntou meio sem jeito enquanto afastava os pensamentos sombrios de sua cabeça.

– Eu? Hã… Escrevo, trabalho um pouco com Publicidade e Marketing. Sou meio que “um faz tudo”, não fico muito tempo fazendo a mesma coisa. Gosto da liberdade e então faço o que quero, quando quero.

– Legal sua perspectiva de vida, eu queria ter essa mesma coragem de inovar. E sua família, como é?

Qüerinemer se lembrou de Zaurur e de como ele era a coisa mais próxima de família que ela possuía.

– Infelizmente, agora sou só eu. – ela deu um meio sorriso forçado como se despedisse dessa idéia tão fraca, mas tão arraigada dentro de si.

– Eu sinto muito. Eu não queria remexer em velhas feridas. Eu não…

– Tudo bem, já passou e você o que faz?

– Sou sozinho no mundo também, se for contar o cretino mais próximo que tenho de família sempre faz algo para me ferrar, então sou só. – ele deu risada da própria piada pensando em Tyrone. – E trabalho numa fabrica, que por muitas vezes penso honestamente em abandonar, mas você sabe como é né, preciso me manter e por isso continuo lá.

A conversa continuou animada até a cafeteria distraindo ambos de suas vidas duplas.

Dyell que a tudo acompanhava, parecia descobrir o ciúme dentro de si.

– Como podem ser tão cegos e não se enxergarem do outro lado?

– É simples, eles são o que devem ser. Por isso não se notam. Estão destinados a cumprir a profecia de Hiavenithy, meus queridos irmãos queiram ou não.

– Rafael. – ela rosnou para o homem que surgia das sombras.

– Dyell, sem animosidade, estou sem tempo para brigas e discussões. E acredito que foi você que enviaram para fazer as coisas acontecerem diferentes, mas acho que você se tomou de encantos por seu protegido.

Só tome cuidado, quando amamos muito algo, nossa querida família, mata para se preservar. Assim como fizeram com sua mãe.

– Você não sabe do que está falando…

– Então você deve saber que quem condenou sua mãe a morte assim que você nascesse foi seu tão amado Gabriel.

Dyell arregalou seus olhos como se as palavras de Rafael fossem um tapa.

– Você mente. – e virou – lhe as costas com os olhos marejados. – Gabriel jamais faria isso.

– Veja você. Somos da mesma família e lutamos de lados diferentes.

– Às vezes acho que você é o doente e não Lúcifer.

– Vocês não vão conseguir, eles estão se unindo, mas não pelos laços que vocês tanto almejam e nem eu. Estou disposto a fazer um acordo. Chame Miguel e diga que preciso falar. Isso me interessa tanto quanto interessa á vocês.

– O que você ganha?

– Mais uma chance de fazer dar certo e você ganha a oportunidade de matar uma rival e levar o grande prêmio. O que você me diz? Pense primeiro, e me dê a resposta amanhã, nesse mesmo local.

– Minha resposta é NÃO.

– Fale por você, faça o que você quiser. Deixei esse pequeno vermezinho se arrastar dentro de você ganhando força e tamanho, quando você perceber, ele será um monstro e então veremos se a filha de Miguel não será capaz de matar uma rival para ter aquilo que almeja.

Olhe bem para o casal de pombinhos, minha cara. Se tudo acontecer como aconteceu com seus pais, em breve termo outro igual á você.

Eu só me pergunto quando eles vão perceber o que estão fazendo.

Rafael saiu sorrindo, colocando as mãos no bolso e arquitetando o próximo passo.

Dyell sentia o misto de sentimentos que lhe invadiam a mente e pensava no que Rafael acabará de lhe dizer, ela puxou o celular do bolso falso da jaqueta e discou o número que discará tantas vezes.

– Mi Lord?

– Dyell? Aconteceu algo? – perguntou Gabriel do outro lado da linha.

– Está chovendo a cântaros por aqui, e ainda sim estou precisando de ajuda para atravessar, você poderia abrir sua casa?

– Minha. Casa? – perguntou ele surpreso

Gabriel era o único que usava as entradas da Torre de Pedra para transitar entre os mundos. Ele e alguém que ele queria sempre manter por perto.

– Sim, pode ser? – perguntou Dyell ansiosa.

– É claro.

Ele não podia dizer não á ela, era a única família que ele ainda possuía quando a união dos quatro irmãos já não existia mais e parecia que jamais voltaria a se restabelecer.

– Obrigado. – respondeu Dyell desligando o telefone.

Na noite escura e chuvosa que se estendia diante de seus olhos Dyell notou o balançar suave de uma cortina que partia das sombras. Era primeira que entraria na casa de Gabriel, e não se lembrava de algum dia alguém ter comentado de ter ido até lá.

Tudo era muito claro, e no corredor em que ela saiu diversas janelas se estendiam ao longe, Dyell sentiu curiosidade em perguntar o que havia atrás das cortinas, mas não podia perder o foco do que fora ali, para fazer.

– O que houve Dyell?

– Precisamos conversar mi Lord. – ela curvou- se em reverência.

– Desde quando se curva diante de mim Dyell?  O que está acontecendo? – perguntou Gabriel preocupado.

– Estive com Rafael hoje. E nós precisamos conversar, seriamente.

Uma lágrima insistente decidiu cair de seus olhos.

A semente da dúvida estava plantada e Rafael olhava o céu ao longe como se soubesse que seu trabalho ali havia terminado.

Agora era tudo uma questão de tempo…

Continua…

3 comentários em “Galamadriel – Pt.7 – A Dor de uma Lágrima

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s