A Garota Má (Pt.12): Um Banquete para Felinos

A Garota Má (Pt.12): Um Banquete para Felinos

Escrito por Natasha Morgan

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O tiro brutal da calibre 7.62 fez Lucien voar da confortável poltrona em que se encontrava. Seu rosto foi esmagado no chão devido ao impacto e, transtornado, ele tateou em volta às cegas. O tapete era macio sob seus dedos – o que lhe proporcionava um leve momento de conforto para seu cérebro perturbado e atormentado por demônios malévolos.

Engraçado. Mesmo torpe e cego, ele conseguia agarrar aquela antiga inteligência que sempre fez parte de sua vida. Num esforço rápido, conseguiu apanhar um bastão de madeira. Ao menos foi o que lhe pareceu nas mãos.

Os passos de seu agressor o alertaram e imediatamente Lucien se pôs de barriga para cima.

Mas Klaus não chegou a se aproximar nem alguns passos. Bóris surgiu de um dos corredores adornados de arte e correu em direção ao francês, apontando uma pistola para o Von Kern. O Magnata mediu a situação com seus olhos astutos e chegou a praguejar.

– Maldição! Se eu não o ajudar, sua mulher me corta da garganta à virilha. – disse ele, ajudando Lucien a se erguer.

Klaus estreitou os olhos, lançando ao búlgaro seu olhar mais ameaçador. Seu dedo tremeu no gatilho, ansioso por disparar a pistola de ouro. A raiva nórdica tingiu seu sangue, quase o levando à loucura. Aquele maldito havia feito mal à sua Mona. Ele pagaria em breve!

Bóris percebeu a luta interna que se passava dentro do Von Kern, o ódio beirando aqueles olhos cinzentos e tempestivos. E se permitiu sorrir com apreço, provocando-o ainda mais. Tinha sua pistola empunhada e achava que tinha total segurança. Aqueles loucos selvagens invadiram e destruíram sua casa, mas não eram páreo para uma pistola como aquela. Disso o búlgaro tinha certeza.

– Se eu fosse você, não me mexia. – aconselhou o selvagem.

– Isso não me surpreende. É um covarde. – Klaus se moveu a passos lentos, contrariando as ordens dadas. Seu andar era sempre elegante e leonino.

Mas aquela exibição pouco durou, logo a atenção do búlgaro se fixou em algo muito mais sensual do que os passos elegantes de um nórdico grandalhão. Sua vingadora adentrou a sala acompanhada de um menino ruivo que mal os observou, sumindo pelos corredores da mansão.

Sua amada leoazinha captou a presença dele tão logo adentrou a sala, os olhos misteriosos aquecendo-se com a raiva que a dominava todas as vezes que o fitava. Ah, como aquilo o excitou. Como amava aquele fogo vivo que a mantinha viva! O medo era irrelevante em momentos como aquele.

Lucien se apressou, ansioso, agarrando a manga do terno de Bóris.

– Mate logo o cretino!

– Aquiete-se, homem. – o búlgaro olhou com desgosto para o francês. – Não têm respeito pelo que temos aqui?

– Quem está aí?

– Solina. Minha adorável Solina. Veja como se move! – sua voz tornou-se desejosa, assim como seu olhar cobiçoso ao ver a mulher se aproximar com a Shotgun apoiada preguiçosamente nos ombros. Uma pose ousadamente sensual, é claro.

– Mas é claro que não estou vendo, grandessíssimo idiota! Ela arrancou meus olhos! – Lucien parecia cada vez mais irritado. – Mate-os logo!

Cherry deu um sorrisinho.

– Vou deixar meu tio cuidar de você, francês. – disse ela. E então seus olhos se voltaram para o búlgaro. – E de você eu cuido depois. Tenho assuntos mais urgentes para resolver no momento.

A caçadora deixou a sala a passos vagos, deixando para trás apenas uma promessa do que estava por vir.

Bóris deixou seus olhos seguirem-na, apaixonados.

– Mate-os! – Lucien gritou, estremecendo os pensamentos do búlgaro e o irritando profundamente.

– Você é muito impaciente, Fournier. Não é à toa que está em estado tão lamentável. – resmungou.

Lucien fez uma cara feia para o outro, apanhando sua própria pistola escondida na cintura. Seguindo apenas os sons da sala, ele mirou e atirou. Foi tão rápido que todos se chocaram com o que aconteceu. Num minuto estavam todos atordoados com a saída despreocupada de Cherry e no outro o francês sacou sua arma, apontou e atirou em Klaus.

O Von Kern caiu no chão num baque surdo.

Bóris olhou atônito para Lucien e, pressentindo o olhar surpreso, o francês deu um sorrisinho.

– Ainda não estou totalmente derrotado, seu imbecil. Agora vá checar se o miserável está morto.

Bóris riu mais uma vez e se aproximou do corpo estatelado no chão.

*-* *-*

Alline sentiu seu sangue gelar no exato instante em que ouviu o som dos tiros penetrando a mansão e fazendo os muros tremerem. A promessa impiedosa que veio com aquele som fez o medo surgir pela primeira vez em anos.

Mas. Que. Merda.

Logo agora que ela estava começando a se divertir?

Seus olhos se voltaram para Willa e a frase impertinente que a menina soltou fez a chama da raiva voltar a aquecer seu corpo num calor insuportável. O medo gélido se misturou àquela fervência que a ira despertava e se fundiram num sentimento totalmente conhecido por aquela mulher.

Quando o som crescente da música do Black Sabbath penetrou o corredor, a sérvia tomou sua decisão. Optou por preservar sua vida mais uma vez. Teria tempo para se vingar mais tarde, afinal de contas, uma Borsahy jamais se rende.

Com um golpe rápido e brusco, Alline socou Willa, fazendo a menina se chocar com força bruta na parede de mármore e desmaiar. Ela saiu correndo pelo corredor, carregando a única faca que lhe restou como arma.

Em seu encalço, uma sombra ameaçadora surgiu, seguindo-a a passos lentos.

Alline não olhou para trás quando ouviu passos em sua direção, continuou correndo por um dos corredores mais longos daquela maldita casa, sentindo as batidas frenéticas de seu coração ecoar naquele vazio silencioso. Ah, o medo congelante!

Foi quando a voz cantada a atingiu, suave como pluma.

 

It’s been so long

Long hard days

They don’t say

Gods change my ways

Change my ways

These evil ways…[1]

 

Seu sangue se agitou naquela mistura tão conhecida e Alline só teve tempo de pensar: Fudeu.

Fridda surgiu pelo corredor, interceptando seu caminho. A velhinha ainda usava aquele maldito vestido florido manchado com o sangue da vadia traidora e carregava sua arma favorita em uma das mãos. Os sapatinhos confortáveis e bem polidos bem podiam fazê-la se parecer com uma bonequinha de porcelana idosa se não fosse aquele olhar terrível de velhinha vingadora que se apoderava de sua face naquele momento.

A anciã dos Von Kern cantava em alto e bom tom a música mais agradável de Blues Saraceno. Mas se interrompeu assim que se deparou com sua presa no meio do caminho. Seu olhar penetrante se ergueu, fixando-se na mulher sérvia, e um sorriso malicioso se formou nos lábios enrugados.

Alline interrompeu seus passos no mesmo instante.

– Eu disse que iria encontra-la, fujona.

*-* *-*

O rosto inexpressivo de Klaus fez Bóris sorrir com empolgação. Com a ponta do sapato de couro de jacaré, o búlgaro cutucou o corpo do Von Kern, vendo-o se mexer inerte.

Bóris ergueu os olhos para Lucien.

– É, parece que você o acertou, meu amigo idiota. – ele riu mais uma vez e se abaixou para saquear o morto.

Foi seu erro mais estúpido.

Klaus abriu os olhos de repente, o olhar cinzento recaindo sobre o búlgaro com uma força dominadora. Bóris só teve tempo de soltar um grito surpreso antes de ser jogado para fora do caminho do nórdico.

Klaus apanhou sua pistola do chão e a mirou diretamente em Lucien, cravando-lhe uma bala de cobre bem no meio da testa.

– Colete Kevlar, seu idiota!

O francês tombou no chão, finalmente silenciado de seus lamentos infernais.

Bóris fitou a cena ao seu redor com pavor mal disfarçado e na primeira oportunidade que teve, saiu correndo por um de seus corredores misteriosos.

Klaus sorriu com satisfação, deixando o cretino fugir. Logo teria seu encontro marcado com a leoa vingadora.

Ah, sim. Aquele era um banquete para todos se servirem.

*-* *-*

Alline lamentou terrivelmente seu encontro com aquela velha, especialmente quando viu o brilho maléfico por trás daquele olhar apavorante.

Para o inferno com aquilo! Será que nunca se livraria daquela maldita? Ah, mas ela sabia que Fridda a caçaria, não é mesmo? Aquela era uma maldita família de felinos selvagens e caçadores. Mexa com um e todos virão atrás de você.

Ela suspirou, teatralmente.

– Sim, você disse que viria, velha. – seu revirar de olhos foi extremamente petulante. – Suponho que iremos lutar novamente.

– Não, minha querida. Eu vou lutar. Você vai apenas servir de esfregão para este chão imundo.

Seu tapa com as costas da mão foi forte o suficiente para jogar a rival no chão. Alline se estatelou no piso poroso, ralando a parte esquerda do rosto. Quando levantou o olhar para a anciã, seus olhos estavam comicamente surpresos.

– Acabou-se a brincadeira, criança. Está na hora de você pagar por seus crimes.

Aquele olhar de espanto se intensificou, tornando-se duro como o mármore. E então ódio se apoderou de suas feições novamente, substituindo o medo e mascarando qualquer beleza que havia ali. É como as pessoas iluminadas com algum tipo de espiritualidade costumam dizer: o ódio torna as pessoas horripilantes.

A Borsahy se levantou com apenas um impulso de mãos, encarando a velha com seus instintos selvagens.

Uma pena que a paciência de Fridda houvesse se esgotado para tanto drama teatral. Ela não usou armas, preferiu deixar sua garrucha quieta onde estava, ao invés disso usou seus próprios punhos cerrados, suas pernas ágeis e todo o aprendizado que adquirira com a Família. Seus golpes limpos e eficazes foram o suficiente para fazer Alline cair mais uma vez – o que pareceu apenas aumentar seu ódio pela mulher.

A sérvia cuspiu no chão o sangue que se acumulou em sua boca, lançando um olhar tenebroso para a velha atrevida. Com um grito de guerra digno de uma lunática, ela avançou contra a outra aplicando um chute no peito da rival. Seu golpe não surtiu maior efeito a não ser fazer Fridda recuar um passo.

A matriarca franziu ainda mais seus lábios finos, olhando a outra com impaciência. Empurrou-a como se fosse uma garotinha chata, vendo-a avançar novamente com os mesmos movimentos desenfreados. Fridda permitiu que ela continuasse com aquilo, aplicando seus golpes patéticos até se cansar.

Alline bufou, ofegante.

– Pare de brincar comigo, sua puta! Lute!

– E quem é que está brincando aqui, garotinha? – Fridda a atingiu com força no rosto.

Alline mordeu os lábios para não deixar as lágrimas caírem diante da dor daquele golpe. Seu maxilar latejou. Ela avançou contra a velha de unha em riste, pronta para retalha-la. Uma pena que se esquecesse de que não passava de uma ratazana diante de uma felina de grande porte como Fridda Von Kern.

De fato, a escandinava a lembrou de seu devido lugar quando apanhou suas mãos no ar e, com apenas um movimento despretensioso, quebrou-lhe os dedos crispados. Fridda não deu tempo para que a rival se lamentasse, apanhou-lhe os cabelos sedosos e os enrolou no punho, certificando-se de imobilizá-la. Seus lábios finos e rígidos pousaram no ouvido da linda mulher e a velha sussurrou:

– Você acha mesmo que eu a deixei fugir para lhe proporcionar uma morte rápida? Eu quero me divertir com você, como uma pantera estrategista que persegue sua presa até deixa-la louca de medo. Posso sentir o fedor do seu medo daqui e isso me deixa excitada.

Fridda a soltou, empurrando-a com a ponta do sapato elegante como se não passasse de um animal sarnento.

– Vamos. Mostre-me do que uma Borsahy é feita!

Alline a mirou com uma raiva latente, todos os nervos de seu corpo entrando em colapso. Em seus lábios surgiu um amargor revoltante. Ela rosnou, como um animal selvagem e então correu para o outro lado, tentando escapar. A dor aguda de seus joelhos baleados quase a fez vomitar, assim como seus dedos quebrados. Mas a sobrevivente dentro dela gritou mais alto, dando-lhe forças para continuar.

Fridda gargalhou, como uma garotinha contente, e iniciou sua corrida atrás da presa. Como um leopardo esperto, ela perseguiu a rival pelos corredores estreitos, reiniciando sua canção malévola e, enquanto a música ecoava pelas paredes decoradas numa promessa impiedosa, Alline soube que se não lutasse com todas as suas forças aquele seria seu fim.

*-* *-*

Cherry se apressou nos corredores ornamentados, seguindo pela coleção de quadros até onde sabia que Bóris mantinha suas meninas cativas. O grande, silencioso e apavorante cofre de marfim. Aquela porcaria ficava bem no meio de uma cadeia de corredores longos e estreitos, feito exclusivamente para confundir qualquer um que tentasse fugir de sua prisão miserável. Aquele porco era também um excelente estrategista.

Logo atrás, Halle a acompanhava em silêncio.

Ela já ficara presa naquele lugar uma vez onde o único som era o de seus lamentos insuportáveis. Pobre Willa, seu coração se apertou ao imaginar a menina trancada lá dentro, sozinha e sem esperanças. Só de imaginar isso tinha gana de enfiar as mãos naquele búlgaro e o estraçalhar até que não lhe restasse nem o pó dos ossos! Ah, ele teria seu fim merecido. E não seria nada rápido. Sangue ia jorrar e ela ia se lambuzar fartamente naquele sangue pútrido até que estivesse encharcada!

Seus pés pararam no meio do caminho.

A porta do cofre jazia aberta, a tranca estourada.

Cherry se precipitou, entrando dentro do espaço sujo, a arma em punho. Mas não havia o que temer. Não tinha ninguém ali dentro. Nada além do silêncio assombroso e o cheiro de sangue. Ela olhou para baixo, descobrindo de onde vinha aquele cheiro ácido que lhe instigava a matar. O corpo sem vida de Besnik Hoxha jazia estendido pelo chão poroso, o crânio afundado.

Por um momento ela sorriu, aquele seu sorriso malvado de canto de lábio.

Willa havia feito aquilo. Podia sentir no fundo de seu coração.

Garota esperta – Cherry aprovou, sentindo-se orgulhosa.

Mas então aquele sorriso evaporou, assim como qualquer sentimento de alegria.

Eles a haviam levado. Levado sua Willa.

Ela se aproximou da parede porosa, encarando as manchas de sangue impressas ali e imaginando o que diabos haviam feito com ela, que horrores ela passara naquela sala. Podia bem imaginar. Cherry sabia exatamente que tipo de horrores Bóris era capaz de fazer, especialmente dentro daquele maldito cofre.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela permitiu que apenas uma lhe escapasse, descendo pelo rosto frio num lamento silencioso. Aquele maldito pagaria caro por ter pegado sua Willa, ela se certificaria disso. Não era mais uma vingança baseada no que o búlgaro lhe fizera. Agora sua vingança era muito mais ampla. Bóris havia pego a única coisa viva em seu mundo, a única coisa que ainda lhe importava.

Foi o grito surpreso de Halle e não o barulho do tiro que a tirou de seu devaneio. Cherry virou-se rapidamente para trás, a tempo de ver seu Caçador cair ferido no chão, baleado no peito. Ela ergueu sua Sig Sauer e puxou a outra que trazia no coldre da cintura, apontando para a porta aberta do cofre.

Bóris estava prostrado ali, segurando uma Barretta gravada a cobre. A pistola parecia ameaçadora, como uma assassina profissional usada já há muitos anos. E, de fato, aquela era a favorita do búlgaro, sua eterna companheira de guerra. Aquela pistola era sua mais fiel amante. E ele não hesitaria nem um minuto em usá-la.

Cherry o encarou por apenas alguns segundos antes que seu corpo se movesse por vontade própria e se lançasse contra o ordinário com força total. Ela o atingiu no queixo com uma coronhada, pegando-o um tanto desprevenido. Mas ao invés de provocar dor ou uma reação negativa, seu golpe o fez sorrir.

Bóris se deleitou em vê-la tão furiosa e letal. Aquela raiva em seu olhar só a tornava ainda mais sensual e desejável. Ah, ele era um miserável! Um tolo seduzido pela fera selvagem que estava poucos segundos de devorá-lo.

Seu medo estava a poucos centímetros, esperando-o na beira do precipício do qual ele logo cairia. No entanto, ele preferiu abraçar aquele deleite antes que pudesse começar a temê-la de verdade. Não era um completo idiota, sabia que deveria ter cuidado com aquela leoa selvagem ou acabaria sob suas garras ferozes.

Uma pena que seus demônios insanos desejassem isso tão ardentemente.

O búlgaro deixou que ela se apossasse de seu pescoço, mantendo-o sob suas mãos ferinas enquanto ela apertava brutalmente ameaçando destruir sua traqueia. Aquele olhar cinzento estava totalmente tingido de preto, o breu turvo como o céu numa tempestade.

– Onde ela está! Onde está Willa? – Cherry gritou.

Bóris se limitou a sorrir, extasiado com a proximidade perigosa entre eles. O perfume ácido da raiva dela o embriagava.

Cherry lhe deu um soco no nariz, fazendo jorrar sangue em seu lindo terno Gucci.

– Maldito, diga-me onde ela está! – ela o apertou com mais força, vendo os olhos se arregalarem e o rosto ficar roxo. As lágrimas rolaram pela face rude, mas aquele maldito sorriso estúpido continuava impresso em seus lábios.

Ela o largou, chutando-o com força no estômago.

Bóris se encolheu, perdendo o fôlego. Ele se recuperou rapidamente enquanto a ouvia praguejar a plenos pulmões dizendo palavras sórdidas que nenhuma dama jamais ousaria proferir.

Ele riu, erguendo-se do chão com dificuldade.

– Eu não tenho nenhuma intenção de fugir de você, Solina. Na verdade, eu vim atrás de você, minha bela. – o sorriso dele era asqueroso por demais. Tanto que quase a fez vomitar. – Você não imagina o quanto anseio por seu toque, por mais rude que ele possa ser. Você sempre me trouxe prazeres, pequenina. Até mesmo quando queria me ver chorar.

Cherry rugiu, avançando contra ele numa fúria insana.

– Seu filho da puta!

Ela o atingiu no rosto novamente com a pistola.

Bóris gargalhou mais uma vez, recuando poucos passos enquanto segurava o nariz ferido.

– Como senti saudades dessa época! Eles a levaram, Solina. Levaram seu pequeno bichinho de estimação. E você só a verá novamente se concordar em vir comigo. – ele lhe estendeu a mão num convite pernicioso.

– Você é um tolo se pensa que vou com você a lugar algum. E um tolo maior ainda por desejar ficar. Eu vou retalhar você, Bóris Petrov. Pedaço por pedaço. Até que me diga exatamente o que quero saber. Só então começarei o processo lento e doloroso de matar você. Não faz ideia do que te espera. A dor que causou aos outros será apenas uma vaga amostra do que minhas garras farão com seu corpo e alma. Em poucas horas você estará no inferno… E vai desejar jamais ter encontrado os portões para lá.

Cherry avançou contra ele, dando-lhe uma cotovelada. No momento em que ele cambaleou para trás com o pouco de ossos que sobrara de seu nariz, ela o chutou duas vezes num giro rápido e o fez ir para o chão com um soco final.

O búlgaro desabou como um saco de batatas. E a dor miserável que sentiu foi refletida em seus olhos – o que resultou num olhar vitorioso por parte de Cherry. A garota se aproximou com um andar elegante.

– Eu nunca disse que tinha a intenção de levá-la pacificamente. – Bóris disse, com um sorrisinho, e então lhe deu uma rasteira.

Cherry caiu, usando as mãos para defender seu rosto do chão poroso. No momento em que seu corpo atingiu o piso duro, ela lamentou as costelas quebradas, o ferimento à bala no quadril e a porra dos hematomas na barriga. Aquilo doeu como o inferno e a dor só serviu para aumentar proporcionalmente sua raiva. Preparando-se para chutar seu agressor com toda sua força, ela tentou se erguer. Mas foi lenta demais para os impulsos daquele búlgaro doente.

Em apenas alguns segundos, ele a dominou no chão, imobilizando-a em seus braços fortes. O peso dele a prendeu ao chão enquanto as mãos firmes prendiam seus braços no alto da cabeça. Bóris sorriu para ela, aproveitando-se daquele momento para roçar seu corpo ousadamente ao dela.

– Eu estava ansioso por esse momento. – ele sorriu e seu hálito quente lhe provocou uma vertigem.

Cherry se mexeu freneticamente, tentando se livrar dele. As lembranças do passado surgiram à tona, ameaçando enlouquece-la. Seus olhos varreram o lugar, encontrando Halle desmaiado a poucos metros e ela lamentou que ele estivesse apagado, ao mesmo tempo em que rezava com todas as suas forças para aquele miserável não ter batido as botas.

Inferno! Ela tinha que parar de dar uma de princesinha. Meninas más salvam seus próprios traseiros – ela fez questão de lembrar a si mesma em seus devaneios internos. Aquele cretino da Bulgária não ia machuca-la mais uma vez. Nem fodendo!

Bóris sorriu para ela, enxergando o medo que espreitava no fundo daqueles olhos tempestivos. Ele sempre amara aquele terror no olhar das mulheres, isso sempre o instigava a querê-las mais. Mas com sua Solina era diferente. Qualquer reação dela lhe era por demais preciosa. Ele a amava insuportavelmente. Era sua favorita entre todas as outras.

Seu olhar apaixonado serviu apenas para causar asco à mulher, mas ele não se importou com a demonstração de repulsa dela. Todas o repudiavam, não é mesmo? Até as que ele pagava para ir para a cama com ele. Aquilo não era um problema, na verdade ele até preferia que elas não gostassem.

– Shhhh – ele sussurrou, tentando acalmá-la. Uma de suas mãos deslizou suavemente pelo rosto dela, acariciando a pele clara.

Cherry cuspiu seu nojo na cara dele.

Bóris riu, paciente com a desobediência dela. Como castigo ele se apossou de sua boca, forçando-a corresponder àquele beijo pútrido. Cherry teve que ter muita força de vontade para ignorar o asco que a acometeu, respirando fundo pelo nariz, ela lutou para se controlar.

A língua dele lhe forçou uma resposta, exigindo que ela abrisse a boca e a aceitasse. E foi o que Cherry fez, abriu a boca e permitiu aquela invasão. Mas apenas para se apossar do lábio inferior de seu captor, prendendo-o nos dentes com uma força desgraçada e fazendo menção de arrancá-lo fora.

Bóris soltou um gemido estrangulado. E para se livrar daquela mordida agressiva apertou o quadril ferido onde sabia que estava uma bandagem. Cherry o largou na hora, soltando um grito de dor.

Ele riu como um insano, lambendo o beiço que ela feriu com seus dentes de leoa. Seu olhar continuava insanamente apaixonado ao olhar para sua felina selvagem.

– Você sempre apreciou uma relação agressiva, não é?

– Você não pode imaginar o quanto. – Cherry disse e acertou uma joelhada no meio das pernas dele, nocauteando-o da pior forma.

Bóris não estava preparado para aquilo, então, quando a dor explodiu em suas partes íntimas, ele foi obrigado a rolar para o lado, curvando-se em agonia. Cherry aproveitou aquele momento para escapar, recuou bruscamente para o outro lado do cofre e tomou posse de uma das suas Sig Sauer que estavam no chão.

Quando apontou o cano da pistola para o porco encolhido, ela considerou seriamente atirar e acabar logo com aquela merda. Mas a ânsia a pegou desprevenida e ela acabou se distraindo enquanto vomitava toda a Vodka que havia consumido minutos atrás. Maldição!

Bóris se ergueu do chão, sorrindo como um idiota.

– Contente por estar em meus braços novamente. – ele compreendeu.

– Você não faz ideia do nojo que sinto por você, búlgaro maldito. – cuspiu ela entre as convulsões causadas pela ânsia. A pistola ainda em riste.

Ele fez menção de se aproximar.

– Fique onde está, filho da puta. Ou estouro seus miolos! –Cherry sibilou.

Bóris parou elegantemente. Cruzou os braços e esperou com paciência ela terminar seus espasmos.

Cherry o mirou com ódio.

– Você vai me dizer onde ela está!

– Ela me pertence. – Bóris disse, muito sério. – Assim como você. E, por mais que eu esteja me divertindo perversamente com a nossa brincadeira… – ele consultou seu relógio importado. – Temo que não tenha mais tempo para isso, minha pequena selvagem.

– Com pressa de morrer? – Cherry ergueu as sobrancelhas.

– Com pressa de tê-la de volta em meus braços.

Bóris avançou novamente, rápido demais, e sua mão interceptou a Sig Sauer no ar, desarmando a assassina com uma facilidade surpreendente. Afrontada, Cherry o chutou com força no estômago. Mas o búlgaro pareceu não ligar, continuou tentando dominá-la com seu baixo treinamento militar. Cherry era esperta e ágil, escapando por entre seus dedos e aplicando-lhe golpes doloridos aos quais ele fazia questão de sorrir em aprovação.

Em qualquer circunstância, ela teria se divertido perversamente da surra que estava dando no maldito, mas sua raiva e medo por Willa a impeliam a ser séria. Acabando com a palhaçada, ela o prendeu contra a parede, torcendo-lhe os braços para trás. Segurando a cabeça dele contra a parede porosa, Cherry o feriu profundamente no rosto ao esfrega-lo com força nas pedras. Ela o grudou com violência pelos cabelos.

– Diga-me, seu maldito, para onde a levou?!

Bóris gargalhou.

– Eu a farei pagar por destruir meu rosto, sua vadia.

Cherry forçou a cabeça dele contra a parede novamente.

– Para. Onde. Você. A. Levou.

– Para o mesmo lugar para onde levarei você. – a voz dele soou assombrosa.

Bóris só precisou se virar com agilidade. Em poucos segundo a tinha em seus braços novamente, imobilizada contra seu corpo robusto, presa pelos cabelos numa posição pouco confortável.

– Eu disse que estava sem tempo. – ele disse e perfurou o pescoço dela com uma seringa ameaçadora, apertando o embolo.

Quando o líquido cintilante e desconhecido invadiu seu sistema, Cherry soltou um único grito aterrorizado que ecoou por todo corredor silencioso:

– Não!

Ela perdeu a consciência quase que instantaneamente, deixando seu corpo escorrer inerte.

Bóris a recolheu gentilmente, jogando-a contra seu ombro. Na face rude reinava um sorriso sombrio capaz de congelar a alma.

Ah, sim… Finalmente tinha sua leoa sob controle.

 

*-* *-*

O portão de ferro no fim daquela cadeia de corredores era a esperança de Alline, poderia sair por ali e encontrar refúgio na garagem subterrânea da mansão onde poderia pegar um carro e dar o fora dali. Era exatamente para onde corria, desviando das obras de arte espalhadas pelos cantos dos corredores e quadros famosos. A música maldita que a velha cantarolava parecia fazer seu coração bater mais rápido, impelindo-a a correr mais depressa. O silêncio daquelas paredes era ainda mais opressivo, o som de sua respiração ecoando alto pelas pedras antigas nas quais aquela casa fora construída.

Quando avistou as grades escurecidas ao longe, ela não pôde deixar de sentir alívio. Seu lado arrogante deu um sorrisinho presunçoso. No entanto, a felicidade nunca favorecia os arrogantes. No momento em que alcançou a tranca maleável do portão sua mão foi atingida por um tiro.

Ela gritou, praguejando alto.

Fridda surgiu das sombras tranquilamente, empunhando a garrucha que soltava fumaça pelo cano. Como nos antigos filmes de faroeste, ela soprou o cano e guardou a pistola. Seus olhos desprovidos de pena fixaram-se na mulher ferida à sua frente.

– Devo confessar que estou decepcionada. – começou a velha. – Esperava mais de você.

Um estampido se fez ouvir, atraindo o olhar das duas para o portão de ferro. Bóris acabara de sair por um dos túneis espalhados pela mansão, ele carregava Cherry no ombro e uma pistola erguida e ameaçadora numa das mãos. Seus olhos se iluminaram quando olhou aquela cena nos confins de sua fortaleza.

– Barnebarn mitt – o sussurro desesperado de Fridda ecoou, distraindo-a de Alline enquanto ela olhava a garota nos ombros do búlgaro. Seus olhos se tornaram ferinos, como os de uma pantera confrontada diante de sua cria.

A velha ergueu sua garrucha, apontando-a para o homem rude.

– Talvez você devesse esperar muito mais, velha. – Alline disse, muito suavemente e então se moveu, impedindo a rival de atirar em seu salvador. Apanhando um pouco de areia do chão, a traidora atirou-a nos olhos da velha, fazendo-a perder a mira e errar o tiro.

Alline se aproveitou disso para correr até o portão de ferro e se juntar ao búlgaro do outro lado da grade.

Fridda forçou sua visão contra os grãos de areia em seus olhos, erguendo a garrucha de novo e mirando aqueles dois com um ódio miserável.

Bóris enfrentou aquele olhar com pompa, dando um sorrisinho perverso. E, antes que a velha atirasse, ele apertou o botão vermelho de um pequeno aparelho em suas mãos, acionando um mecanismo invisível.

A parede ao redor do portão de ferro explodiu, fazendo voar escombros para todos os lados. As pedras antigas com que a casa havia sido construída cederam, acumulando-se sobre as grades do portão de ferro e soterrando quem estivesse dentro daqueles túneis.

Bóris assistiu a cena com satisfação, apertando a aliada ferida nos braços num instinto protetor. Alline permitiu aquele gesto, também satisfeita com o destino de Fridda. Em seu peito, a alegria reinava, perversa. Seus lábios magníficos se abriram num sorriso extraordinário.

– Adeus, velha maldita!

Continua

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[1] Trecho da música Evil Ways – Blues Saraceno.

5 comentários em “A Garota Má (Pt.12): Um Banquete para Felinos

  1. Nooooooooooooooooooooooooooo! Hale, levante já daí! Vovó Fridda! (Sim, eu a chamo de vovó Fridda na minha cabeça.) A cada capítulo, o ódio pela Vedrana e Bóris só aumentam… Pelo menos Lucien já pagou, saciou um pouco minha sede de sangue.

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