Galamadriel (Pt. 5): Um Lugar Chamado Nova Iorque

Galamadriel (Pt. 5): Um Lugar Chamado Nova Iorque

Escrito por Lillithy Orleander

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O som tocava alto e era assim que eu e Sonya ficaríamos na festa.

A light that never comes¹, era minha música e Nova Iorque era minha cidade. Eu realmente adorava ficar por aqui, os homens faziam cara de ocupados enquanto a maioria das garotas fazia cara de esnobe, mas era só lançar a fagulha e todos ficavam ensandecidos. O som alto inebriava cada célula dos corpos que na pista de dança desejavam morrer naquele instante, o bartender jogava os drinks que preparava para cima enquanto outro assoprava um fogo azul sobre as taças extremamente congeladas e multicoloridas que começavam a fumaçar de imediato.

No ambiente com apenas luzes vermelhas, verdes, azuis e roxas, casais se escondiam nos cantos para amassos mais assanhados, garotas perdiam os próprios saltos e transpiravam lúxuria, os homens ficavam cada vez mais vorazes e queriam sorver qualquer tipo de pecado.

E então é aí que eu entro. Meu dever é carregar alguns para titio algumas vezes, preciso manter as aparências e o disfarce embora eu me divirta muito com essa parte, o dia amanhecia sempre esperando pela noite. A luz da Lua era minha companheira além de Sonya, ela era uma garota legal, mas muito medrosa. Também pudera, era humana e não sabia da missa metade.

– Como você consegue prendê – los desse jeito? Você pode ter o homem que quiser e os dispensa no dia seguinte, garota. – dizia Sonya um tanto “alta” por assim dizer, dando altas risadas enquanto eu a colocava em um táxi e dava as direções ao motorista. – Você ainda vai me ensinar a fazer isso ou vai arrumar um cara que faça o mesmo com você.

Eu despedi o taxista em meio á risadas, homem nenhum representava algo pra mim, na grande maioria das vezes não misturo trabalho e prazer.

Peguei o celular no bolso e li a mensagem que me aguardava para começar o dia:

“Precisamos Conversar.

Gabriel.”

Ele tinha que ser sempre tão direto?

Esbocei um leve sorriso, enfiei as mãos no bolso peguei meu fone de ouvido e liguei o som na playlist Radio, em modo aleatório para ver o que me aguardava.

A escolhida foi The Ballad of Mona Lisa², coloquei o capacete e peguei minha Harley Davidson preta, correr pelas ruas de Nova Iorque logo cedo era revigorante.

Destino?  Galamadriel, o parquinho de diversões de titio ou como eu costumo chamar, o concerto da merda que Rafael havia feito.

Sabe aquele cara que disse: “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia”?

Pois é ele tinha razão, ele só esqueceu-se de acrescentar o inferno na tal frase. Meus tios e pai são a única família que tenho, mas resumindo somos todos uns grandes pé no saco.

Rafael é o grande imbecil, pobre de espírito demais para ser um anjo não sei qual é o problema daquele cara.

Gabriel é o grande gênio, certinho demais, inteligente demais, bom demais. (sinto muito a falta dele em alguns momentos, acho que de todos foi único que um dia me deu algum tipo de afeto que não fosse o interesse)

Lúcifer, ou titio mercenário como prefiro chama – lo só me pede que faça as coisas para ele e não o interrompa quando as coisas parecem esquentar, ele não liga de mandar no inferno, só faz isso por que não quer ser um santinho cheio de frescuras e sem diversão, nisso ele tem toda razão. O mundo sem algumas regalias é muito sem graça.

Miguel, meu pai. O que falar dele? Simples ele viveu todos esses anos chorando a morte de minha mãe escondido e indo me ver dormir. Cansei de escuta – lo pedir perdão pelo o que ele fazia me tornando um de seus soldados, de escuta – lo dizer que me ama, mas a mascara que ele coloca me assusta. Existem duas pessoas lá e só eu sei disso…

Enfim, eu sou Dyell e claro estou aqui para bagunçar um pouco as coisas e ajeitar outras. É eu jogo nos dois times, como eu me sinto com isso? Eu amo essa vida dupla…

Afinal de contas alguém sempre tem que se arriscar e a adrenalina é sempre um ótimo energético para o corpo.

– Dyell!

Droga ele não podia usar a porcaria do telefone como qualquer outro?

– mi Lord? – hora de parar a moto, papai no modo telepatia, eu odiava aquilo.

– Precisamos conversar.

– Gabriel me avisou, estou á caminho.

– Então responda que vem quando for assim.

Ele era um grande filho da puta, ou sei lá filho de quem, ninguém nunca me apresentou meu pai muitas vezes era irritante e mesmo vivendo numa era tecnológica hiper avançada para os humanos e, ele preferia mostrar que éramos superiores. Ele se negava a usar qualquer atributo deles.

– Sim, mi Lord.

Não, antes que você pergunte, nunca o chamo de pai, ele sempre me impediu que eu agisse dessa forma.

Se Lúcifer sabia das minhas escapadinhas para o lado claro da coisa? Não.

Nesse caso ele era o cego da história toda, eu tentava viver em harmonia com os dois mundos e tinha uma vida entre os humanos também, assim como cada anjo e cada demônio que aqui foi deixado.

Você deve querer saber o que aconteceu, então vou ser a dedo – duro.

“Quando Lúcifer veio atrás de mim e eu dei uma surra em Rafael, ele meio que bancou a moça ofendida. Odeio homens fracos, ainda mais quando eles não são homens de fato.

Rafael desapareceu por um longo período, e embora Gabriel dissesse  que ele em breve apareceria com uma nova briguinha para nos colocar uns contra os outros, eu entrei na turma que duvidou das palavras dele. E para variar estávamos todos errados, e Gabriel certo novamente, chegava a ser irritante vê – lo sempre certo, mas alguém precisava pensar com lógica entre nós.

Quando Rafael apareceu novamente, ele havia mudado completamente, podia – se notar que agora não era só mais um de nós, mas também um combatente como nunca tínhamos visto.

Não vestia mais a túnica negra, e nem tinha mais a face apática e dolorosa de sempre.

Seus olhos emanavam um a eletricidade que me causou arrepios de satisfação, agora sim eu podia respeita – lá como á um igual.

Eu sorri vislumbrando a cena e me sentia de fato interessada no que ele parecia demonstrar.

A voz grave como a de meu pai, me fez tomar um susto, o cabelo agora curto esvoaçava na brisa e o deixava até certo ponto atraente e por mais que eu o odiasse piamente era impossível resistir.

– Irmãos, quanto tempo. – ele sorriu amistoso, mas eu fui criada por Gabriel em grande parte e eu sabia que cada gesto era falso. Eu devia temer o golpe, e Gabriel também notará.

– Como vai caro irmão? – disse Miguel com aquela frieza de sempre que me irritava profundamente, respondendo ao outro como se fizesse um favor.

– Estou… Bem. Como anda suas feridas, Miguel?

Ele disse isso trincando os dentes, eu me levantei de onde estava esperando unicamente para ataca – lo.

Miguel me impediu.

– Diferente de você, eu esqueço com facilidade o passado, já você como posso ver, mudou somente na aparência.

Miguel era o aço cortante em pessoa ou em asas. Ele não demonstrou nenhuma reação ao que parecia ser a fagulha para uma briga, mas Rafael nunca deixou por  menos.

– Vejo que sua  filha ainda passeia por seus domínios, acredito que vocês conseguiram uma forma de ludibriar Lúcifer.

Ele afirmou seguro.

– Você voltou para que Rafael? Seja breve.

– Gabriel, o diplomata. Ou devo dizer o cachorrinho mandado de Miguel? Às vezes me pergunto o que Miguel sabe sobre você para que você o siga tão cegamente.

Gabriel estreitou os olhos e sua face transformou – se prontamente em algo diferente de tudo o que eu já havia visto.

A pele empalideceu, e seus olhos ganharam a cor do fogo, enquanto os lindos cabelos anelados pareciam ganhar a cor da areia, suas mãos avançaram para uma adaga que estava presa em seu cinto, ele então arremessou na direção de Rafael, mas parou antes de lhe acertar os olhos.

– O que você disse Rafael? – Miguel enraivecido esperava a afirmativa do irmão de mãos abertas e controlando a adaga parada no ar. – Repita moleque mimado se você tiver coragem! – ele gritou.

– Gabriel? – era Miguel que havia se levantado de sua cadeira.

– Calado, Miguel. – foi tudo o que ele disse arremessando o outro de volta na cadeira, que assustado arregalou os olhos.

– Espero sua resposta caro irmão.

Era a primeira vez que via Gabriel daquela forma, mas pelo o que parecia, eu não me envolveria naquela conversa, nem que minha cabeça dependesse daquilo.

Rafael passou a dar curtos passos para trás, mas a adaga movia – se em sua direção a cada passo que ele dava.

– Você não me mataria você é um covarde que se esconde atrás de sua ciência…

Rafael terminou somente a sentença e adaga desceu feito uma bala, atravessando seu quadril e entrando profundamente,  indo parar do outro lado da sala e voltando pelo mesmo caminho que havia passado.

– Você disse o que mesmo, irmãozinho? – Gabriel, preparava – se segurando uma lança e alisando sua ponta. – Eu ainda não ouvi.

Ele era tão frio quanto Miguel, só que bem pior.

A lança traçou seu caminho até a perna esquerda, ficando ali, enquanto Rafael urrava de dor. Sim, anjos sentiam dor e era bem pior. Afinal tudo em seres como nós era mais intenso.

Gabriel puxou a lança e caminhou na direção de Rafael segurando no ar a adaga e a lança, passando pelo meio delas, como se estivesse em um filme da atualidade, em câmera lenta.

– Eu não lhe faltei com respeito, eu limpo as burradas que vocês fazem, e tudo o que eu peço é que me deixem em paz. Mas você se acha melhor do que os outros e procura ser sempre o impertinente.

Rafael estava caído no chão segurando seus ferimentos, eu o olhava com um misto de pena e prazer.

– Agora levante – se e me diga o que você veio fazer aqui. – Gabriel, aproximou- se dele e ficou bem próximo de seu rosto de modo que ele não precisasse gritar, e seu sussurro tornou- se uma ameaça diante de nossos olhos. – Mas estou lhe avisando, solte qualquer uma de suas piadinhas inescrupulosas, que eu mesmo lhe arranco as asas e te coloco pra viver na Terra como um inseto, o qual eu mesmo tratarei de torturar.

Ele voltou para o lugar onde estava á principio e sentou – se em um degrau. A lança e adaga o acompanharam, enquanto ele abaixava a cabeça e coçava a têmpora.

– Gabriel, mas o que…

– Miguel cale – se e ouça o que Rafael tem a dizer, não é comigo que você tem que se preocupar no momento. – Gabriel não o deixou terminar de falar.

Rafael então começou a rir histericamente, e ficamos os três sem  entender o que acontecia com ele.

Se eu o achava um louco, agora eu tinha certeza disso.

Hiavenithy, foi um o livro deixado por nosso pai, como se fosse uma manual ao contrário. E há alguns anos eu me interessei pela linda história que ele conta sobre como mudar algumas coisas.

Então pensei e se eu mudasse as coisas e transforma – se essa ordem bagunçada em algo melhor para todos, será que nós teríamos mais chances de fazer dar certo?

Pense comigo Miguel, eu teria Claire de volta e você, Megara. Seriamos felizes e nada nos impediria de concerta os erros que causamos ao presente que nosso pai nos deu.

Gabriel se levantou á passos firmes e agarrou Rafael pelo pescoço o erguendo do chão, gritando.

– Você ficou maluco? Você percebeu que isso pode matar todos nós de uma só vez, ou você só se importa consigo mesmo, a tal ponto que sua raça é menos importante do que uma mortal que te rejeitou?

Rafael cuspiu na cara de Gabriel, e Miguel não conseguia esboçar reação ou palavra.

Meu pai estava de fato cogitando a idéia.

– Gabriel…

– Nem pense Miguel.

– Eu sou o mais velho, eu posso…

– Não, você não pode e nem vai.

Gabriel soltou Rafael no chão e saiu, deixando – nos de boca aberta.

– Lúcifer já me deu o que preciso e Miguel aceitando ou não, o relógio já está correndo.

– Lúcifer, o que você acha do que Rafael acabou de nos contar?

Ele saiu das sombras mais rápido do que um cometa e começou a socar Rafael de todas as formas possíveis, enquanto eu dava um jeito de me esconder para ver o final da briga.

– Desgraçado, você me prometeu poder, você me prometeu força e glória. Agora eu simplesmente descubro que é tudo mentira e que minha cabeça está a prêmio nessa zona, para quem quiser levar? – ele estava furioso e seus dentes pareciam todos caninos se trincavam e batiam conforme ele falava no rosto de Rafael.

– Gabriel, me responda qual a chance de continuarmos vivos com tudo isso? – ele perguntava rosnando, enquanto segurava os dois braços de Rafael virados para trás prestes á arrancar os dois.

– Não vamos, para que qualquer um de nós sobrevivesse teríamos que abrir mão de ser celestial, o que tornaria o trono livre para qualquer um que se lembrasse. Tudo recomeçaria do zero.

– De qualquer forma morremos, é isso? – perguntava Miguel, voltando a razão

– De qualquer forma morreríamos. O que você deu a Rafael, Lúcifer?

– Meus melhores demônios.

– Você lhes disse o que eles teriam que fazer? – perguntou Gabriel ainda de costas.

– Não.

– Conte – me realmente o que Rafael lhe disse.

– Este inútil, me disse que havia uma forma de conseguir o poder absoluto e claro que eu não poderia recusar. Afinal de contas é o que mais almejo ter, e com uma oferta tão de bom grado, eu não diria não.

Ele me disse que tudo que eu precisava fazer era ceder de alguns prestimosos guerreiros, os melhores em suas respectivas ordas. E com isso ele cederia os melhores em seu domínio.

Convencer todos foi fácil, era a chance de dominar á tudo e todos, eles só tinham que se matar e foi o que fizeram, mas parece que nenhum deles conseguiu descobrir qual era a forma correta de fazer isso.

Então foi decidido manda – los á Terra sem saber ao certo quem eles eram entre si. Mas os anjos de Rafael enxergavam nitidamente as auras de meus demônios e estes já não queriam saber de missão nenhuma além de se divertir, ou seja, anjos mantinham – se afastados e demônios não estavam nem aí.

A mentira que contamos foi que eles deveriam vigiar os mestiços e mantê – los sob controle por um determinado tempo e depois voltariam para seus lugares de origem. Mas parece que Rafael só estava interessado em uma coisa, idiota.

Lúcifer o jogou de encontro à parede e arrancou um de seus braços, eu mesmo te mato.

A carnificina era enorme, Lúcifer arrancava nacos das pernas de Rafael sem se preocupar com a dor que o outro sentia.

Miguel estava estarrecido e agora o que ele faria? Estava tudo acabado.

Gabriel andava de um lado a outro, pensando nas possibilidades com um livro entre as mãos que eu nem sabia de onde ele havia tirado.

Rafael era destroçado á alguns metros e clamava por ajuda, mas ninguém parecia enxergar, Lúcifer arrancava pena por pena e elas cresciam novamente manchadas com um liquido que até então eu não sabia ser o sangue deles.

Tinha o cheiro extremamente doce e enjoativo, de cor esbranquiçada, expelia um brilho fraco, diferente do que eu via nos anjos de escalão menor, o deles parecia com o dos humanos.

Lúcifer então começou a forçar para que os pedaços que tinha arrancado se grudassem a pele de Rafael, esse ainda caído gritava no meio do processo.

– Isso dói, seu grande cretino? Vai doer mais.

Assim que a pele parecia se curar e aceitar os membros arrancados novamente em seu todo, Lúcifer arrancava novamente, só para ver o outro sofrer, até que Rafael percebendo a distração de Lúcifer se levantou.

– Minha vez.

E desembainhou a espada da cintura do outro, enfiando – a em seu peito.

– Ora Rafael, de tantos lugares para acertar, você tenta acerta- me o coração que não possuo?

Lúcifer gargalhou e puxou a espada de seu peito como quem tira uma farpa dos dedos.

Eles arrancavam as penas das asas, se cortavam, e enfiavam todas as armas pontiagudas que encontravam  nos corpos um do outro. Lúcifer resistia bravamente aos ferimentos e gargalhava quando Rafael caia este também não deixava o oponente por muitas horas em pé.

Estava muito ferido é claro, pelos golpes que levou antes sem se defender, mas agora batia de frente á altura

– Já chega! – gritou Gabriel no momento em que os dois iam enfiar as espadas um no pescoço do outro.

– Maldito Gabriel sempre me atrapalhando. Pelo menos pensou em algo que impeça nossa extinção? – disse Lúcifer olhando com raiva para Rafael.

– Vamos abandonar os nossos na Terra.

– Você ficou doido?

– Não podemos trazê – los de volta.

– E como vai ser deixar que se matem?

– Não, há um meio de transitarem por aqui e é isso que irei fazer. Até lá,  parem de fazer merda, estou cansado de limpar.

Gabriel abriu as longas asas e partiu, meses depois, ele criou Galamadriel, não dava acesso ao Céu ou ao Inferno, mas chegava bem próximo do que os condenados a vagar conheciam.

Alguns chamavam aquilo de A Farsa de Gabriel, mas ele nem se importava, afinal de contas ninguém além dos que estavam presentes naquela reunião fatídica sabia de fato o porquê da existência de Galamadriel.”

 

Eram 9hs da manhã e as nuvens negras já invadiam o céu. Uma tempestade se aproximava nitidamente violenta, pois era possível ouvir o som dos silfos batalhando, trovões e relâmpagos ribombavam no céu.

Parei em um semáforo ao lado de um taxista corpulento que fumava um charuto barato e mal  cheiroso.

– Parece que vem tempestade cedo, moça bonita. E você nessa moto vai ficar toda molhadinha. – disse ele em tom de malicia.

Eu tirei o capacete e sorri em direção ao homem que de imediato deixou o charuto cair.

– Me parece que o senhor não se enxerga não é mesmo. Sabe de onde eu venho homens iguais ao senhor, são fervidos em caldeirões de pixe sem jamais morrer, enquanto eu e meus amiguinhos assistimos sua pele dissolver como borracha, e seus gritos soarem como música aos nossos ouvidos, enquanto você a dor lancinante dessa pequena delicia.

O taxista olhava amedontrado e então gritou assustando – se com a pequena chama que subia do meio de suas pernas, onde o charuto havia caído.  Eu coloquei o capacete e acenei com a mão, quando o semáforo abriu, eu acelerei o máximo que podia e corri em direção ao meu destino, sentido as primeiras gotas de chuva cair.

A névoa subia do chão e próximo á alguns postes encontravam – se algumas prostitutas de luxo que se faziam de damas e ao lado cortinas tênues e imperceptíveis aos olhos humanos começavam a se materializar.

Galamadriel abria – me suas portas. Á mim e á tantos outros.

A conversa com Gabriel seria longa e até certo ponto eu já sabia o assunto, um demônio que eu deveria convencer á fazer o que era necessário.

Era um jogo complicado e muitas vezes confuso, mas não se engane nem sempre o santo é o correto e nem sempre os planos vis partem da pior classe.

Nossa história está longe de terminar e isso me perturbava profundamente, queria meus prazeres e divertimentos momentâneos de volta, mas os grandes idiotas de minha família não conseguiam manter nessa essa porcaria de civilização em ordem.

Quando todos deveriam ser iguais, não em raça, ou cor, ou gênero, ou sexo, quem tinha mais sempre que podia subjugava quem tinha menos e passar milênios observando isso era o fim da paciência.

Era gente jogando comida fora e outro comendo barro, e a mentira que meus queridos parentes contavam para si mesmos era a de que todos precisavam evoluir, por isso passavam por isso.

Era essa a mentira que eles contavam para si mesmos, para não admitir que tinham errado profundamente na administração desse planeta pobre.

Minha mente vagava nesses pensamentos procurando a entrada correta para chegar ao meu destino, mas fui interrompida na metade do caminho.

A chuva agora estava torrencial e formava de fato uma vasta cortina espessa de água que parecia ser intransponível, o que para mim não era obstáculo e parecia que para aquele cara também não.

Eu senti uma energia mais forte emanar em direção ao mesmo portal que eu havia escolhido e não a quem pertencia ao meu redor, então olhei para cima e lá estava, o que parecia ser um homem prestes a saltar de um prédio.

E claro foi o que ele fez, nem me assustei não era humano, mas também não era demônio. Aquilo só podia ser…

A pessoa em questão caiu em minha frente como um gato, em pé. Uma coisa meio Underworld só que totalmente sem classe e sem os fios que mantinham a Selena em uma queda e felina perfeita.

Ele jogou a franja comprida para o lado e me fuzilou com olhos da cor do ônix. A pele extremamente pálida o deixaria passar por um vampiro muito sensual se não fosse a cor da roupa.

O suéter preto e a calça jeans de mesma cor me mostravam que não passava de uma entidade ainda jovem, ou que pelos menos usasse aquele trunfo para conseguir mais rápido o que queria. O All Star desbotado só deixava claro que eu estava certa.

– Acredito que você escolheu a passagem errada, forasteiro. – eu disse querendo marcar meu território, não aceitava muito bem um  invasor.

– Eu sei que estou no lugar que me foi designado. – ele abriu o portal e estendeu um cajado me mostrando o caminho. – Primeiro as damas, acho que esse ainda é o costume aqui embaixo.

A voz parecia uma melodia que me deixaria com sono em qualquer outro lugar mas ali era diferente esses tipo de artifício não funcionava em Galamadriel.

– Não antes de você. Alias o que você faz aqui? – perguntei um tanto irritada com a petulância daquela coisa, que fingia ser cordial.

– Desculpe não me apresentei formalmente. Chamo-me Iridish, sou um…

– Eu sei bem o que você é. Quero saber o que você veio fazer aqui.

– Gabriel e Miguel, mandaram que viesse o melhor de minha classe, meu senhor foi ordenado e meu senhor obedece.

– Sei…

Passei a sua frente, por que agora já tinha certeza de que não seria morta e nem atacada, era um aliado. O perfume de gerânios que emanava dele me deixava entorpecida e aquilo estava pior do que as drogas que eu via os humanos usarem nas muitas baladas em que estive. Eles facilitavam tanto sua ida ao Inferno que nem se davam conta.

Fomos recebidos em uma sala azul – turquesa era a sala de Miguel, onde ele fazia seus acordos.

– Bem Vindos! – disse Gabriel efusivo como sempre, era quase impossível descobrir o tamanho da encrenca que eu me meteria por causas dele, olhando em seus olhos.

– Gabriel, seja direto em me conta logo o que estava acontecendo, detesto essas conversinhas que começam animadas e terminam em problemas.

– Mi Lord, sou Iridish. – o cara fez uma reverencia, curvando – se em respeito.

– Então você é o melhor no que faz? – Miguel virava sua cadeira para olhar o nosso visitante.

– Suponho que o melhor não, mas cumpro com meus deveres, mi Lord. – ele era frio como Miguel e falava como Miguel, aquilo começou a me incomodar.

Gabriel olhou em minha direção e ficou com o rosto de mármore, frio, duro e pálido.

– Vocês estão aqui por que trabalharão juntos. Existe um plano que deve ser seguido, e só quero aqueles que tenham a capacidade de acertar nisso. Não pode haver erros.

Preciso que você Iridish, convença um ser que habita esse plano a fazer algo que depende da existência de muitos. Seu nome é Qüerinemer e ela dentre tantos outros que se mantiveram firmes foi escolhida para cumprir a profecia de Hiavenithy.

– Dyell sua parte é convencer aquele que veio dos Infernos e está sob a vigilância de um  tal de nome Tyrone. Seu nome é Pauline ou Paul como preferir. É um pária, mas precisamos dele.

Droga, aquele grande filha da puta já tinha me enfiado em altas roubadas e eu teria que conseguir tirar algo dele.

– Como você acha que vou conseguir algo dele? – perguntei de forma irônica.

– No lugar onde ele habita, todos têm um preço. Ache o Tyrone, convença- o a lhe dar o que quer, mas não conte a verdade sob hipótese nenhuma.

– Mi Lord, onde encontro – a?

– De momento, quero apenas que a vigie de longe, até lá acredito que Dyell fará a pior parte.

– Sim, mi Lord.

Ele saiu por onde havia entrado e nem se quer se despediu. Merda ia ter que trabalhar com um cara que era invisível aos meus olhos e ainda serviria de empecilho para o que eu decidisse fazer.

– Dyell?

– Sim mi Lord. Você deve convencer o ser infernal, temos pouco tempo, use todos os artifícios que você conheceu e aprendeu todo esse tempo no Inferno.

– Então é isso aí, quem gosta de festa?

Saí deixando a pergunta no ar eu já tinha em mente o que fazer, estava chovendo e choveria o dia todo.

Nova Iorque estava ficando desequilibrada assim como muitas partes de mundo, minha cidade padecia, sem que seu povo pudesse notar.

Peguei minha moto e voltei para o que era uma pequena casinha de portão laranja, onde minhas coisas ficavam guardadas. Aquele cachorro desgraçado e sacana insistia em latir quando eu chegava, mas hoje eu estava ocupada, tinha um compromisso.

Subi a curta escada e peguei a chave que estava presa em meu pescoço para abrir a porta, entrei jogando o sapato no canto atrás da porta e fui direto para o banho.

Deixei que a água caísse  na banheira enquanto eu jogava sais de banhos e me despia, liguei o radio e fiquei ouvindo Mozart, a sonolência tomou conta de cada célula do meu corpo e eu almejei ficar ali, na  água quente aproveitando aquele pequeno prazer inútil aos olhos de muitos. Mas só eu sabia quanto tempo levaria para que eu pudesse fazer tudo àquilo novamente.

Eram 20hs da noite,escolhi um vestido de tango que a muito não vestia, quer convencer um homem seja ele, anjo, ou demônio, ou mortal, dance. A sensualidade é chave que prende qualquer coisa, era hora de partir, mas antes precisava levantar um presente para titio.

Liguei para o serviço de táxis e pedi um. Poucos minutos depois a homem negro buzinava em  minha porta.

Vesti um, sobretudo e entrei no taxi, muito bem maquiada, eu precisava ganhar um demônio para os anjos e agora começava o tudo ou nada.

– Para onde vamos, linda beldade? – perguntou o taxista cobiçoso.

– Gostaria de ir comigo, para algum lugar, senhor – sorri maliciosa, mordendo o canto da boca e lhe prometendo com olhar uma infinidade de prazeres inestimáveis.

– Para onde a senhorita, quiser. Até para o Inferno.

– Que ótimo! – respondi. – Pois é para lá que nós vamos.

Daí para a hipnose não precisei muito. O parceiro de dança eu já tinha, este não voltaria mais ao mundo mortal que conhecia.

Coincidência ou azar? Sei lá, mas ele pagaria por seus pecados essa noite.

Nos braços de uma bela dama, que beberia seu sangue e convenceria uma platéia, afinal  eu era ou não a filha de Miguel?

 

Continua

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NA: A light that never comes – Linkin Park¹

       The Ballad of Mona Lisa – Panic at! The Disco ²

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