Galamadriel (Pt.4): Irmãos

Galamadriel (Pt.4): Irmãos

Escrito por Lillithy Orleander

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– Você acha que ela vai conseguir? – perguntou Miguel para o outro que estava olhando para porta, sentado no chão e guardando o celular de volta na jaqueta.

– A filha é sua, você que deveria me responder essa pergunta. – respondeu Gabriel dando um meio sorriso, virando – se.

– Ela é nova, mas é experiente, só temo que ela possa querer tirar  proveito da situação e não acredito que essa seja a hora certa para essas coisas.

– Ora Miguel, nós já estivemos em situações piores e em uma delas o resultado foi a própria Dyell, se bem me lembro, metade do Céu estava caindo na Terra e você estava enroscado numa cama no Caribe ou sei lá onde com a mãe dela. – respondeu Gabriel, dando uma longa risada.

– Já chega. Primeiro: não era no Caribe, nem tinha esse nome naquela época e Segundo: não fale de Megara. – disse o outro totalmente sem emoção na voz e virando o rosto como se algo o atormentasse.

– Ainda dói tanto assim? – perguntou o outro parando de rir.

– Não quero falar disso.

Miguel colocou as mãos no bolso e caminhou em direção á sua cadeira, abrindo a longa asa carmesim, sumindo de imediato…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

3.000 A.C

– Você acha realmente que pode vir até mim e dizer que está amando um ser tão desprezível quanto aquele? Ora Megara quando nosso senhor Lúcifer descobrir que você se tomou de amores por seu irmão mais velho, eu vou ter pena de você, o Tártaro será pequeno para o que lhe aguarda.

A moça fechou os olhos e respirou fundo enquanto a outra saia de sua presença sem nada mais dizer, a não ser balançar a cabeça em sinal de reprovação. Ela teria que fugir, mas para onde? E Miguel? E a criança que agora carregava?

Não, sobre ela ninguém poderia saber, era inadmissível uma súcubo ter um filho de um anjo, ainda mais quando este estava entre aqueles que preenchiam a classe superior da ordem angelical.

Ela saiu e foi ao encontro dele, seria a última vez. Vestiu seu mais belo vestido rendado na cor azul marinho que ele tanto gostava e partiu, sem saber que era vigiada.

O lugar estava calmo e não havia civis passeando pelos jardins á meia noite, ela sentou – se embaixo de uma laranjeira de onde lindas flores brancas pendiam e fechou os olhos.

– Elas são tão lindas quanto você, Megara! – o farfalhar de asas á tirou de seus devaneios e á fez colocar – se de pé.

– Miguel! – ela sorriu enquanto correu para seus braços beijando- o demoradamente.

– Está tudo bem? – ele perguntou franzindo o cenho.

– Está sim. – ela mentiu. – Por que não estaria? – ela forçava um sorriso enquanto desviava seus olhos dos de Miguel.

Ele suspeitou que ela mentisse, e a sentou novamente embaixo da arvore aninhando – a em seus braços, enrolando os longos cachos em seus dedos.

– Megara, eu te conheço. Tem algo que queira me dizer? – ele perguntou novamente.

Uma lagrima correu dos olhos dela sem que ele percebesse, e sua respiração tornou – se mais difícil de esconder.

Ele levantou seu rosto de encontro ao dela e tentou decifrar o que acontecia.

Ela então se aproximou do rosto dele e com as costas da mão o acariciou, puxando – o mais para perto e beijando – o.

Miguel abraçou – a forte e a deitou no berço de flores que se estendiam sob seus corpos, suas mãos passeavam pelo corpo que tanto ele amava, e inalava o perfume doce que dele se desprendia, descendo com delicadeza as alças do vestido, enquanto a outra mão subia a barra do mesmo, traçando leves círculos sob a pele morena de Megara.

Ela sussurrava seu nome entre lágrimas em seus ouvidos, enquanto arranhava suas costas, com as unhas. O prazer dela o deleitava e saciava suas vontades mundanas de forma sublime.

Ele era apenas um homem carinhoso naquele momento de delírio e ela apenas uma mulher desejosa em sua paixão tresloucada.

O clímax chegou de forma suave, com a luz da Lua observando tudo e servindo de cúmplice para o casal de amantes.

Ela deitou – se no peito nu de Miguel e ali ficou calada, tentando absorver cada pequeno detalhe daquele momento, pois este seria o ultimo.

– O que lhe preocupa Megara? – perguntou ele angustiado. – Você parece tensa e cada toque seu parece uma despedida.

– Terei que partir. Em breve.

Ele levantou – se desesperado, passando a mão nos longos cabelos. Ela mentirá quando disse que ficaria pra sempre ao seu lado.

– O que houve? – ele perguntou com voz fria.

– Um filho. – foi tudo o que ela disse.

Ele parou por um instante atônito, entre zangado e surpreso. A principio ele sorriu, mas depois vendo o que aconteceria, ele se apavorou.

– Não. Não pode ser o que irei fazer. – ele pensava em voz alta, andando de um lado a outro. – Temos que partir o mais rápido possível, você pode se tornar mortal e renegar, você teria a criança e tudo iria ser mais fácil para ela e para mim.

– Você ouviu o que acabou de dizer? Tornar-me mortal? Você não pensou no que eu terei que passar e nem nas dores que eu terei que sentir? A criança não resistiria. Torne – se você mortal, será mais fácil.

– Não posso e você sabe por que. – ele abaixou a cabeça como se arrependesse do que acabará de sugerir.

– Não pode por quê? Por que seu pai deu a você e seus irmãos esse lugarzinho medíocre, que vocês tratam como parque de diversões para dividir e nem isso vocês conseguem fazer?

– Você não entende, é muito arriscado… – ele tentava convencê – lá, enquanto os olhos de Megara se enchiam de lágrimas.

– Interrompo o casal? – um rapaz de cabelos avermelhados como o fogo e vestindo uma túnica preta se aproximou de ambos.

– Rafael, o que faz aqui? – Miguel perguntou assustando – se.

– Nada apenas vislumbrando a noite e acabei ouvindo o que vocês diziam você sabe que não poderá passar impune tal afronta não é mesmo?

– Rafael, não ouse…

– Eles já estão a caminho. – respondeu o rapaz pálido que parecia estar cansado.

– Por que você fez isso?

Miguel com os olhos encolerizados deu o primeiro soco na face de Rafael e foi como se mil trovões descessem a Terra para castiga – lá. A Lua se tingiu de vermelho sangue e Miguel estendeu suas asas gritando como louco.

– Eu mato você. Eu juro que mato. Como você pode?

Ele voou até seu irmão e ambos lutavam como se defendessem algo maior.

– Você não entende o que fez? – perguntava Rafael. – Você nos condena a caminhar ao lado dele outra vez, ao lado de um egoísta inescrupuloso e vil. Vocês brigaram uma vez e metade de nossa orda, de nossos irmãos também caiu e ainda está a cair  com ele por causa de suas vontades sórdidas.

E agora você decide se juntar a uma criatura, feita por ele? Você não percebe que é isso que ele quer?

Rafael tentava evitar cada golpe de Miguel, mas este estava surdo ao que o outro dizia.

– Eu a amo, assim como você também amou um dia.

Rafael então parou simplesmente para dirigir ao irmão um olhar de ódio, e desferir – lhe o primeiro ataque.

– Você é tão vil quanto Lúcifer, tão egoísta e baixo quanto ele. Quando as coisas acontecem com vocês, eu e Gabriel temos que aceitar. Mas quando se trata de mim, vocês simplesmente jogam na minha cara que ela era humana e me convencem a mata – lá. Você tem noção da dor que senti, quando arranquei cada parte de seu corpo?

– Você é infantil e burro. A decisão foi tomada por que você contou toda a verdade á ela, e o que ela fez? Te chamou de aberração, se afastou de você e preferiu um ferreiro imundo e bêbado.

Ela. Não. Te. Amava. Rafael. – disse Miguel cuspindo as palavras na cara do irmão. – Eu amo Megara. E Megara me ama. E isso você nunca vai saber como é, você é invejoso Rafael. Sempre foi.

– Cala boca! Cala essa sua boca imunda.

– Já chega os dois! – gritou o rapaz de cabelos anelados, e lindos olhos ambarados. Este era Gabriel que  chegava  ao exato momento em que Miguel procurava a própria espada para atacar Rafael.

– Eu só quero entender o que está acontecendo aqui, e falem um de cada vez, não quero gritos. Sejam pelo menos polidos um com o outro. – disse o rapaz que fechava os olhos e massageava a têmpora.

– Bravo Gabriel, como sempre a educação em pessoa ou em asas. – outro homem aparecia das sombras que se escondiam por detrás das arvores, sorrindo. Tinha os olhos verdes e a pele perolada e carregava uma harpa, que dedilhava suavemente com os dedos de unhas compridas.

Tinha o cabelo preso em longas tranças brancas e de sua cabeça surgiam chifres negros, como os de um bode.

Gabriel revirou os olhos, como se estivesse cansado das chacotas do irmão.

– Olá irmãos quanto tempo? Então temos uma reunião em família de ultima hora suponho? – disse Lúcifer olhando enraivecido para Megara.

– Não é uma reunião em família. Nós nunca fomos uma família seu imbecil.

– Ah, Rafael, meu caro irmão eu sempre considerei – nos uma família. Dessa forma você fere meus sentimentos. – ele piscava os olhos fingindo inocência.

– Sentimentos esses que você nunca possuiu. – respondeu Rafael.

– Eu disse já chega! – gritou Gabriel batendo o que parecia ser um cajado no chão.

– Eu odeio quando ele age dessa forma. Mandão. Nem parece que você é o irmão mais velho Miguel. – gargalhou Lúcifer.

– O que temos aqui é isso que vocês vêem. Miguel e Megara, juntos.

– Isso nós já sabíamos Rafael, e nem precisávamos que você dissesse. – disse Lúcifer revirando os olhos e debochando do outro que o olhou com raiva.

– Pode até ser, mas Megara espera um filho de Miguel. Disse Rafael sorrindo, como se a vingança contra seu irmão mais velho estivesse concluída.

– O que? – perguntaram Lúcifer e Gabriel em uníssono, olhando para o casal.

Megara chorava copiosamente, segurando o próprio ventre sem dizer palavra, enquanto Miguel a acolhia em seus braços, apertando – a de encontro ao peito.

– Você está louca, sua idiota? Como ousa ter um filho dele, se no Inferno inteiro você rejeita meus generais e meus asseclas? É por causa dele que você se acha a melhor súcubo? Eu próprio a mato, já está tomada a decisão, danem – se vocês todos, a reunião acabou.

Lúcifer caminhou decidido a tirar Megara dos braços do irmão, o ódio e a raiva reluziam em sua face e agora era possível ver o verdadeiro rosto do ser infernal. Os dentes trincavam – se num esgar formado nos lábios, onde era possível ver seu maxilar ranger contra o outro, tal era sua raiva naquele instante.

– Com meu irmão? – a voz soou mais grave, parecendo um rosnado. – Se fosse um mortal, ou vários eu perdoaria, eram as almas que me interessavam, e você poderia tê – las trago, mas você quis um arcanjo, mulher idiota.

Ele levantou a mão para desferir o primeiro tapa, mas foi impedido por Gabriel.

– Não! – ele disse complacente. – Sejamos justos, independente do que nasça, é uma vida. Nosso pai nos deu a Terra para ser governada com justiça. Falhamos miseravelmente, mas ainda sim é uma vida.

– Você vai defender essa coisa? – perguntou Rafael indignado, apontando para o ventre de Megara.

– Basta Rafael!  A criança vai viver, mas você Megara morrerá, e não há nada que eu possa fazer para mudar isso.  Nada.

Gabriel então colocou a mão no ventre de Megara e olhou triste para ela.

– Sua própria linhagem a matará!  Está é sua punição…

Uma luz clara saiu das mãos de Gabriel atravessando a barriga de Megara e se apagando.

– Está feito!

– O bom e justo Gabriel, sempre tomando as decisões difíceis. – debochou Lúcifer, virando as costas. – Maravilhoso, serei… Titio. – seus olhos brilharam de satisfação planejando o que a tal criança poderia representar para ele. Era claro que ele esperaria. Sua ira agora tornava – se prazer. – Será um ser excepcional. – e desapareceu em meio ás sombras.

– Por que com ela, você usou de compaixão? – perguntou Rafael de cabeça baixa quando Gabriel lhe virou as costas.

– Ela. Nunca. Te. Amou Rafael.

Rafael abriu as longas asas violetas e partiu, deixando que suas lágrimas caíssem sobre a Terra, a tempestade rugia céu acima, enquanto os silfos soltavam os ventos em todas as direções.

– Honestamente, eu já estou cansado de limpar a bagunça de vocês. Uma hora eu vou largar tudo e fazer por mim o que cada um de vocês faz por si.

Gabriel abriu as asas e partiu também, precisava pensar no próximo passo. Aquilo podia significar uma guerra de interesses e seus irmãos nunca poupavam esforços e nem outras coisas quando se tratava de brigas familiares.

E assim seguiu seu caminho, lembrando todas as vezes que uma guerra fora instaurada no céu, no inferno e na Terra, seus irmãos lembravam as crianças mortais. Mesquinhos.

– O que vai acontecer agora? – perguntou Megara ainda nos braços de Miguel.

– Esperar. É tudo o que podemos fazer. Esperar.

Passaram – se os meses e Megara vivia feliz ao lado de Miguel que agora não queria mais nada além da vidinha simples ao lado do ser que tanto amava.

Em uma noite de Lua Nova ou Lua Negra como diziam os magos daquela época, Megera sentiu as primeiras dores.

Um líquido viscoso e amarelado escorria por sua perna e a fazia curvar – se de dor, gritando e segurando o próprio ventre.

Miguel a segurou no colo, mas as dores somente aumentavam. Megara ardia em febre enquanto Miguel ficava fora do quarto esperando a noticia.

Parteiras vieram e não conseguiam tirar a criança temendo que matassem mãe e filho, a única maneira encontrada foi deixar a criança vir ao mundo sem ajuda, e assim foi feito.

Passaram – se três dias e Megara se esvaia em sangue quando a cabeça do novo ser começou a passar pela pequena entrada para nosso mundo.

Megara gritava e implorava para que a tirassem logo.

– Vejo que meu sobrinho esta vindo ao mundo! Que alegria!  – disse Lúcifer de braços cruzados, esperando cobiçoso pela criança, encostado no batente da porta.

– O que você faz aqui? Seu lugar é longe de meu filho. Longe de todos nós. Volte para o lugar de onde você veio. – disse Miguel irado.

Lúcifer se virou para a porta e antes de partir voltou o semblante se divertindo com a situação:

– A quem será que irá puxar? Será mais parecida com a mãe ou com o pai? – e evaporou no ar feito fumaça.

Megara deu a luz á uma menina de cabelos encaracolados, mas que pareciam transitar entre a cor que de fato ficaria.

Tinha a iris violeta e não chorou ao nascer, apenas abriu os pequenos olhos como quem estivesse assustada.

Megara a tomou nos braços e sorriu, pedindo para que chamasse Miguel depressa.

Miguel adentrou o quarto de forma urgente e olhou para a própria filha, enquanto notava o rosto muito pálido de Megara.

– Dyell, esse deve ser o nome dela. É seu dever de pai, ensina – lá a caminhar pelo melhor lado e mantê – lá longe dessa loucura toda que é sua família. Ela merece viver o que nunca podemos viver Miguel. Esse é meu único pedido. Cuide de nossa filha, ame – a tanto quanto me amou. E faça – a feliz tanto quanto me fez.

Megara estendeu os braços para entregar a criança de volta á uma parteira que olhava a cena e escutava a conversa sem nada entender. Seu ultimo suspiro levou embora duas vidas. A dela e a de Miguel, que não aceitava perder o ser que tanto amava.

Megara foi enterrada com os ritos fúnebres mortais, pois não era bem vinda no céu e por sua traição no inferno seu corpo também não poderia lá descansar.

Os anos passaram e Miguel se tornou frio, calculista e carrasco, e a pequena Dyell crescia seca como o pai.

Miguel ensinava a criança a lutar com um soldado e a tratava como á um combatente, ensinado a manusear a espada e a massa. Mas Dyell para contrariar o pai preferia as lanças.

– Menina teimosa essa. – ele dizia para si mesmo

Lúcifer vigiava cada passo que a garotinha dava e quando teve a oportunidade tentou o que Gabriel já esperava.

Dyell estava treinando no campo de batalha, em meio ao Sol escaldante do pátio inferior quando foi surpreendida pela voz grave e amistosa.

– Dyell é seu nome, não minha criança?

Dyell estendeu a própria espada parando – a no pescoço de Lúcifer.

– Quem é você e o que você quer? – perguntou a garota entre dentes, furiosa por ser interrompida

– O mesmo temperamento difícil de Miguel. – sorriu ele cheio de lisonjas para com a garota. – Acredito que seu pai não tenha lhe dito quem sou. E nem seus outros tios… – disse ele fazendo cara de ofendido.

– Diga logo a que veio ser desprezível, ou lhe corto a garganta e poupo a mim mesma de uma conversa que não me interessa nem um pouco.

– Eu sou Lúcifer, irmão de teu pai e criador de tua mãe, o que me torna no mínimo seu avô, olha que embaraçoso. – ele sorria como se não fizesse nada de mais ao contar tais fatos para Dyell. – Gostaria de saber um pouco mais de sua história, criança?

Dyell então abaixou a espada e pegou a mão que agora se estendia em sua direção levando – a de volta para as sombras de onde Lúcifer havia vindo.

Gabriel observava tudo as escondidas sem nada dizer e sorrindo como se sua missão estivesse cumprida, ou pelo menos parte dela…

Dyell se revoltou ao saber o que tinha acontecido á sua mãe e culpou Rafael, mas este se quer deu ouvidos ás ameaças da garota, até o dia em que esta tentou mata – lo.

Rafael passou a odia – lá ainda mais, Dyell representava o amor que, em sua cabeça, lhe fora roubado pelos irmãos, quando mandaram que ele matasse a moça que tanto amou.

– Você é somente um ser nojento. Cria do Inferno e é pra lá que você deve ir.

Rafael desferiu uma bofetada na face de Dyell, que não se fazendo de vitima e sendo filha de quem era, avançou sobre o tio entre chutes e socos, deixando uma cicatriz profunda em seu supercílio.

Gabriel chegou a tempo de separar os dois antes que se matassem o que estava bem próximo de acontecer.

– Vocês ficaram loucos? – ele gritava como quem perdesse a paciência. – Rafael não passa um século sem que você arrume confusão com alguém. O próximo adversário quem será? Lúcifer?

– Dyell. – ele foi seco. – seu pai sabe que você está aqui e o que está fazendo? – seu plano tinha fracassado miseravelmente, Lúcifer era mais persuasivo  do que ele imaginava e havia feito a cabeça da garota.

– Não senhor. – ela respondeu com o lábio cortado e a face inchada de tantos socos e tapas que havia levado do oponente.

– Vão os dois imediatamente para suas moradas. Vocês são anjos e deveriam se portar com mais civilidade.

– Gabriel, você vai me desculpar, mas ela nunca será um anjo. Essa garota só esta em nossa presença por que foi a aberração que Miguel criou.

– Já basta Rafael! Você não tem direito algum de falar dessa forma com minha filha.

– Ele tem razão. Eu não sou um anjo. Sou a filha das trevas e da luz que Rafael tanto inveja. – respondeu Dyell desafiando o tio com o mesmo olhar inquisitivo do pai.

– Isso não é um filho Miguel. É uma coisa. É criatura que você junto com aquela maldita infernal fizeram quando se deitaram. – disse Rafael amargo enquanto Lúcifer se deleitava na discórdia que havia causado.

– Você não tem o direito de falar de minha mãe assim.

Não precisou muito mais que isso para que Dyell voltasse a avançar em direção á Rafael, enfiando a lança no lado esquerdo dele, que cuspiu no chão, fazendo uma careta de dor.

– Garota infame. – Rafael arrancou a lança e jogou no chão, abrindo as longas asas e voando em direção á Dyell que o esperava de braços em riste para o combate corpo á corpo.

Gabriel gritava e os mandava parar, Lúcifer escondido em um canto divertia – se ao ver o duelo, enquanto Miguel observava a luta como se fosse seus soldados á brigar.

Rafael deu um soco na barriga de Dyell que se curvou, mas firmou os pés no chão para não cair. Colocou – se em postura de amazona e chamou novamente o tio para o combate.

Ela parecia dançar entre os socos rápidos de Rafael, desviando em fração de segundos. Sentindo somente a leve brisa que corria em sua face quando os socos não á acertavam.

Rafael se enfurecia ainda mais, e lançava as asas para o alto na intenção de fazer Dyell se distrair, mas essa nem se importava com os artifícios do tio.

A voz de Miguel ainda soava nos ouvidos de Dyell quando está iniciou sua  vida como soldado do próprio pai.

“ – Mantenha a respiração no ritmo da luta. Nunca deixe seu oponente te acertar quando estiver ofegante.”

Ela guardará quando ensinamento de seu pai, afinal ele queria seu melhor. E ela daria seu melhor.

– Você não vai fazer nada para evitar essa briguinha idiota, Miguel? – era Lúcifer que deleitava – se ao ver os movimentos de Dyell, desejando ardorosamente que a sobrinha se juntasse  á ele.

– Ela não será sua, caro irmão. Dyell só faz o que quer, na hora que quer e do modo como quer. Perdes teu tempo vindo até aqui para saber se sua fagulha de discórdia havia funcionado. Você sabe tão bem quanto eu e Gabriel, que dos quatro, Rafael é o mais fraco e tem o sangue quente, acredito que você só não contou que minha filha fosse tão boa quanto qualquer um de nós. – disse Miguel em tom de soberania.

– Ela já decidiu que vai ficar comigo, Miguel. Você pode aceitar da melhor forma ou brigar por ela… – disse Lúcifer com convicção e aprontando – se para a briga que viria a seguir.

Miguel deu uma longa risada como há muito não fazia e não era visto, roubando a atenção dos guerreiros, dando a oportunidade de Dyell, acertar o queixo angular de Rafael e derrubando – lo no chão.

Todos pararam e olharam para Miguel que com os olhos sombrios olhava de um lado á outro, para todos que estavam ali presentes.

– Lúcifer, Dyell caminha em seu reino desde sempre. Você acha mesmo que ela não conhece nitidamente bem o inferno?

Gabriel olhou estarrecido, então o irmão sabia de  seus planos.

– Eu sabia que sua vida de batalhas e reclusões ainda te levaria a loucura, pobre irmão, só não sabia que o dano seria tão grande. – disse Lúcifer sem entender ao que Miguel se referia.

– Dyell? – Miguel a chamou.

– Sim, mi Lord!- ela caminhava a passos largos, com determinação indo se prostrar diante do pai.

– Diga – me o que seu tio Gabriel tem lhe ensinado nos últimos anos?

Lúcifer olhou para Gabriel com raiva e Rafael se ergueu do chão sem entender. Gabriel continuava boquiaberto com a situação em que estava não era possível que Dyell tenha contado tudo á ele. E se contou para que brigava com Rafael?

– Gabriel, nada me ensina. – ela respondeu ainda de cabeça baixa.

– Pois bem, eu mesmo direi.

Meu caro irmão quando minha filha completou idade suficiente para entender certas… Coisas, por assim dizer, ela percebeu que Gabriel poderia ensinar – lhe o que eu não queria que ela soubesse.

Acredito que na melhor das intenções, nosso querido irmão contou – lhe toda sua origem e o que veio depois da morte de Megara, mas Dyell era insaciável, não é mesmo Gabriel? E quis mais. Um dia ela descobriu que poderia transitar, imagine você, do céu ao inferno sem muito esforço e sem ser notada. Ela conheceu toda sua corja podre e conheceu também do que era capaz com isso você se quer notou que alguém novo caminhava dentro de sua casa  e aprendia a conhecer aquilo que lhe tornaria um ser forte.

Gabriel então contou – lhe que você um dia viria para busca – lá e pediu – lhe que fingisse ignorância, ele só não contou que você fosse tão mais eloqüente com as palavras do que ele. Todos esses anos ele poupou a culpa de Rafael, mas você queria testar minha filha e sua força, e ora vivas, ela é tão forte quanto você achou que fosse.

Você pode ser uma víbora rasteira Lúcifer, mas Gabriel ainda é o estrategista. Quanto á você Rafael, agradeça seus hematomas á Lúcifer.

Rafael olhava irado para Lúcifer e levantou – se do chão recompondo – se com os olhos em brasa, fervilhando em ira.

– Irei aceitar seu conselho, Miguel. Muito em breve vocês terão noticias minhas. Muito em breve.

Rafael abriu as asas e partiu deixando uma lufada de ar para trás que derrubou cada espada e cada lança que se encontrava no recinto.

– Gabriel, tem algo a dizer? – perguntou Miguel retornando a sua face de pedra.

– Você sabia esse tempo todo e não fez nada para impedir? – perguntou ele incrédulo.

– Era o melhor para Dyell, agora ela sabe a que caminho escolher.

– Não mudei minha decisão meu pai. Parto com Lúcifer. – respondeu Dyell olhando fixamente nos olhos do pai, sorrindo vitoriosa, enquanto Gabriel olhava a cena sem entender.

– Seja bem vinda em definitivo ao meu reino! Querida sobrinha… – Lúcifer abriu os braços e recebeu a garota sorrindo para os irmãos como se tivesse vencido.

Gabriel caminhou na direção da garota para  tentar impedi – lá mas Miguel não deixou, colocou a mão no peito do irmão e balançou a cabeça em sinal negativo.

– Ela cresceu Gabriel e sabe o que é melhor para si.

– Isso mesmo Gabriel, nossa linda sobrinha sabe o que é melhor para si. Você pode ser um estrategista brilhante irmão, mas eu ainda tenho o dom da palavra.

E saiu de mãos dadas com a sobrinha para um canto escuro que se fechava em suas costas.

– Você é louco? Vai deixar Dyell aos cuidados de Lúcifer? Vai perder sua filha para um déspota? – dizia Gabriel esbravejando e sacudindo seu irmão mais velho.

– Basta Gabriel! Dyell sabe o que tem que fazer, ela será meus olhos onde não posso entrar. Agradeça-me como lhe agradeci caro irmão, de agora em diante saberemos cada passo que Lúcifer e sua orda der. É para isso que Dyell foi criada todos esse anos.

Miguel descia a escadaria e seguia para o canto escuro que acabará de levar sua filha como quem se despedisse e com o semblante carregado de quem recorda um passado dolorido.

– Ela lembra em tudo minha doce Megara.

– E qual será finalidade de tudo isso, Miguel? Matar também sua filha? – perguntou Gabriel ainda sem entender.

– Lúcifer tem planos para derrubar a ordem normal das coisas, uma profecia antiga que promete inverter tudo o que até então vivemos e o que ainda virá, a morte de um anjo e um demônio em especial, é do que ele precisa. Eu precisava de alguém que estivesse próximo e vigiasse cada passo de nosso irmão, Dyell era a melhor opção.

– E o que vamos fazer? Por que você não me disse nada antes?

– Você estava ocupado demais com sua ciência e com Dyell, decidi manter tudo oculto, assim como você próprio fez. Mas agora precisamos unir nossas forças para manter o equilíbrio.

– E Rafael?

– Ele terá que esperar com sua teimosia, afinal de contas ele não é nenhuma criança, sabe que temos sempre, problemas maiores.

Até lá, conto com sua ajuda.

– E quando vocês não fazem a bagunça e eu não estou aqui para limpar? – respondeu Gabriel

Miguel de costas sorriu e calou – se enquanto ouvia somente o farfalhar de asas ao longe alçando vôo, Gabriel partia.

– Eu ainda sinto sua falta minha amada…

Continua

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