A Dama de Fogo (Pt.1): Depois da Tempestade…

A Dama de Fogo (Pt.1): Depois da Tempestade…

Escrito por Morgana Owl

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Eram tempos difíceis. Brigith se tornara uma mulher franzina e com a pele pálida, embora ainda tivesse um olhar doce e caloroso. Fora obrigada a viver afastada de seu Vilarejo em uma caverna na Floresta Escura. Acusada de praticar bruxaria e causar mal a todas as pessoas a sua volta. Impedida de se defender e muito menos de despedir-se de seu filho, Edward. Há cinco longos anos atrás.

Brigith não entendia o porquê de tanto ódio para com ela. Não entendia mesmo. Tudo que fizera, tudo que praticara, era apenas voltado para o bem. Tudo feito com muito amor. Eileen – sua irmã mais velha – a ensinara tudo. Dizia-lhe que sua mãe havia deixado esse legado para elas. E que deviam usar como quisessem, fosse para o bem ou para o mal, porém com muita sabedoria, pois de todas suas escolhas haveria uma consequência. Brigith nunca fizera mal para ninguém. Ao contrário de Eileen.

Eileen era incrivelmente bonita, cabelos longos e ruivos. Chamava a atenção de qualquer rapaz. Mas seu coração não era tão puro e verdadeiro. Por de trás de um sorriso encantador, morava uma jovem dissimulada e cruel, que ninguém jamais vira. Ela tinha todos os rapazes do Vilarejo Celeste aos seus pés. Dos mais ricos aos mais pobres. Infelizmente o único que chamou sua atenção fora Arthur, um jovem corajoso domador de cavalos, que arrancava suspiro das mocinhas pela sua enorme beleza e simpatia.

O encantador de cavalos – assim chamavam Arthur, não demonstrava nenhum interesse em Eileen. Contrariando todos seus amigos, nunca cedera a nenhuma investida da dama de fogo. Pelo contrário, seus incríveis olhos azuis brilhavam quando via a pequena Brigith passar. Seus longos cabelos negros e brilhantes, seu olhar doce e encantador, sua boca rosa e pele cor de cera, o atraiam demasiadamente… Ah! Aquela sim era a mulher dos seus sonhos. Apesar de Brigith não demonstrar nenhum interesse de puxar assunto com Arthur, mesmo quando ele dirigia-lhe a palavra, ela falava pouco e parecia muito triste.

Arthur não sabia o que fazer ou dizer, ela sempre reagia da mesma forma quando cruzava seus olhos cor de tempestade com os dele. E ele, por sua vez, sentia-se infeliz, pois nunca conseguira falar com a mulher dos seus sonhos mais íntimos e felizes.

Um belo dia, Arthur saíra para levar seus cavalos para pastar num campo verde e ensolarado. Fazia um dia de sol, um dia muito bonito. O encantador de cavalos soltou as rédeas dos seus tão amados cavalos (Luna e Owen) e deixou-os livres para pastar e passear um pouco. Confiava plenamente nos seus animais, sabia que voltariam assim que assobiasse. Sentou-se próximo a uma mangueira para olhá-los e de relance avistou a pequena Brigith. Seu coração pulou da boca… Ela estava simplesmente radiante, como ele nunca vira. Parecia dançar entre as flores enquanto colhia. Arthur ficou ali, sentado, observando tamanha beleza. Brigith parecia não notar, pois continuava a dançar e cantar, feliz!

Arthur, enfim, depois de passar alguns minutos observando com admiração a cena, levantou-se da sua sombra predileta e aproximou-se de Brigith, que por tamanha surpresa tomou um grande susto.

– Ahh! – gritou Brigith – Você me assustou! – Ficara corada em seguida.

– D-desculpe-me, senhorita Brigith, não foi minha intenção! Estava observando-a, de longe, nunca vi a senhorita tão feliz assim. – Passara as mãos pelos seus sedosos cabelos cor de mel, envergonhado.

– Como assim observando, senhor…? – Sorrira docemente.

– Arthur, perdoe-me, esqueci-me de me apresentar. Sou o domador de cavalos da fazenda dos seus tios. Já nos vimos algumas vezes, não sei se a senhorita lembra. – Estendera a mão para cumprimentá-la.

– Lembro sim, desculpe-me. Sou muito distraída. – Disse Brigith enquanto sorrira alegremente, coisa que Arthur nunca a vira fazer. E em seguida dera-lhe a mão em forma de cumprimento.

Assim começara uma amizade pura e verdadeira entre Arthur e Brigith. Sempre se encontravam no mesmo lugar, todos os dias no começo da tarde. Liam, cantavam, faziam picnics à beira do Lago Diamante. Aos poucos ficavam cada vez mais amigos. Compartilhavam segredos, conversavam sobre o futuro… Brigith sentia-se cada vez menos triste e muito mais feliz. Pela primeira vez na vida sentira que tinha um amigo de verdade.

A razão da tristeza que assolara Brigith e a família van Bommel fora o assassinato de seus pais. Os dois foram mortos por causas desconhecidas. Brigith os encontrou deitados em sua cama, como se estivessem dormindo. Tudo isso aconteceu depois de um enorme escândalo em sua família. Melvina e Floyd eram ótimos pais, ótimas pessoas. Nunca fizeram mal algum a ninguém, pelo contrário, Floyd era médico e ajudava as pessoas menos favorecidas no pronto socorro do Vilarejo Celeste, e Melvina era professora de línguas na única escola do Vilarejo. O tal segredo? Bom, ainda não se sabe. A família van Bommel o escondera durante longos anos.

Enquanto Brigith sofrera com a depressão de perder seus maiores tesouros, Eileen, por outro lado, agira como se nada houvesse acontecido. Ficou triste – ou fingira estar – um ou dois dias e depois voltara a ser a jovem cheia de energia e simpatia que sempre fora.

Depois de todo o caos, as duas jovens não puderam mais morar sozinhas. E nem quiseram mais ficar na mesma casa onde tudo havia acontecido. Foram então morar na fazenda de seus tios. A fazenda ficava também no Vilarejo Celeste. Porém a casa era muito mais luxuosa do que a casa de seus pais. Seu tio Sean – irmão de seu pai – era um rico banqueiro. Alto, com meia idade e de cabelos negros já ficando grisalhos. Tinha um porte atlético devido a sua intensa rotina de cavalgadas e corridas pela manhã. Poderia morar em qualquer lugar do mundo, mas escolhera morar no Vilarejo Celeste por causa de sua esposa Caitlin, que era uma jovem loira, olhos cor de jade e muito esbelta. Apesar de sua aparência intimidadora, era muito amigável e adorava as duas irmãs, principalmente Eileen. Que por sua vez, amava ser paparicada pela sua mais nova amiga e confidente.

Eileen confessara à Caitlin sua paixão secreta por Arthur. O conselho que recebera fora que ela deveria divertir-se apenas com o rapaz. Pois ele não teria como dar uma vida luxuosa a qual Eileen estava acostumada caso resolvessem casar-se um dia. Mas Eileen não se contentara apenas com isso… Queria mais! Queria ele só para ela, a vida inteira. E ela estivera disposta a fazer qualquer coisa para realizar este desejo.

-x-

Arthur e Brigith começaram a se ver todos os dias, praticamente o dia inteiro. Tanto ele, quanto ela estava feliz com a companhia um do outro.

Em um belo dia de domingo, estavam caminhando a beira do lago. Era um final de tarde típico de final de primavera… O sol estava quase se pondo. Brigith estava descalça, sentindo a grama quentinha sob seus pés. Adorava estar em contato direto com a natureza, assim como sua mãe. Lado a lado caminhava cada um segurando as rédeas de um cavalo. Arthur estava com Owen. Um cavalo preto, com a crina lisa e negra. Brigith estava com Luna, era uma égua dócil e branca, suas crinas brancas voavam com a brisa leve do fim da tarde de primavera. Riam e divertiam-se com histórias que Arthur contara sobre sua infância em outra cidade. Até que o silêncio tomara conta dos dois… Então Arthur sugerira que parassem para tomarem um pouco de água e descansar. Brigith consentira com a cabeça. Próximo a eles tinham umas árvores com uma ótima sobra e uma linda vista do pôr do sol. Ali mesmo que amarraram os cavalos e sentaram-se sobre um tronco deitado que servira de banco.

Brigith resolvera quebrar o silêncio, enquanto seu nobre amigo Arthur fitara o próprio pé, como se quisera dizer algo, mas não tinha coragem:

– O que houve Arthur? Está tão calado desde que chegamos aqui. – falara olhando fixamente para os olhos de Arthur, que agora a encarara.

– É que… Você já parou pra pensar? Em quantas pessoas tem a sorte de encontrar alguém que o faça tão feliz e se sentir único no mundo. Como se só restassem os dois, como se fossem um só. Sei lá. Ando pensando muito nisso ultimamente. Estou meio bobo, não é? – ficara corado depois que percebera que Brigith sorrira.

– Já pensei nisso sim. Tenho 18 anos e nunca encontrei alguém assim, chega a ser triste. Minha irmã, pelo contrário, tem um milhão de rapazes aos seus pés… Enquanto eu fico sozinha, sem ninguém se interessar nem um pouco por mim. – Brigith ficara séria e com a voz embargada.

Arthur aproximara-se de Brigith, colocara uma de suas mãos no rosto dela e acariciou a sua face. Sua pele era macia, como a de um bebê. Era ainda mais linda de perto. Os dois ficaram se encarando. Envergonhados, sem saber o que dizer ou fazer. Até que Arthur pousara sua mão entre os cabelos de Brigith e levara seus lábios até os dela. Beijaram-se, enfim. Aquele beijo durara uns minutos, mas parecia uma eternidade. Suas almas interligaram-se, tudo ficara infinito. O que Arthur dissera se tornara realidade. Os dois estavam ali, sozinhos no mundo. Sentiram-se assim.

Depois que a névoa da paixão passara, os dois ficaram abraçados durante alguns minutos – ou horas – até que perceberam que já era de noite e Brigith deveria estar em casa para jantar, como sempre fora ordenada pelo seu tio Sean.

– Meus deuses, Arthur! Meu tio vai me matar! Estou atrasada para o jantar. – Brigith dera um pulo do tronco em que estava sentada.

– Calma, minha querida Brigith. Seu tio é tão compreensivo que entenderá. – Segurara suas mãos enquanto sorrira gentilmente.

– Não! Não! Ele não é tão compreensivo assim… Vamos logo.  – apressara-se e tirara Luna de onde estava amarrada, calçara suas botas rapidamente e montara-a.

Ao chegar à fazenda, avistaram Eileen olhando furiosamente para os dois. Brigith descera de Luna, com a ajuda de Arthur, e caminhara em direção à varanda.

– Ora, ora, ora… Se não são os pombinhos. Isso são horas, Brigith? – Fitara-a furiosamente.

– Eu sei que é tarde, mas acabamos nos perdendo no caminho… Fomos muito longe. Não diga nada ao titio, por favor, Eileen! – Brigith estava com o coração acelerado, parecia que sairia pela boca. Foram muitas emoções em um dia só.

– Muito longe, minha cara irmã? Perderam-se? Arthur perdeu-se? ha-ha-ha. Não aches que sou idiota, minha querida irmã. – Seus olhos pareciam sair faíscas de ódio.

– Não sei muito bem o caminho daqui ainda, senhorita Eileen, sou novo aqui, esqueceu-se? – Disse Arthur, enquanto a olhara seriamente.

– Não perguntei nada a você. A propósito, sei de tudo. T-u-d-o. Tenho informantes por aí. E meus tios não vão gostar nada do que aconteceu.

– Eileen, por favor, não conte nada. Somos amigas, lembra? Irmãs! – Olhara Brigith, extremamente corada.

– Pode deixar minha queridíssima irmã. Não conto absolutamente nada a ninguém. Vamos entrar que estão nos esperando para o jantar. – Sorrira. Mas a falsidade daquele sorriso foi aterrorizante.

Após a entrada de Brigith, Eileen olhara fixamente para Arthur, que estava ali parado e disse-lhe:

– Você poderia ter escolhido a mim. A mais linda de todo o Vilarejo, quiçá de toda a cidade. Mas escolheu-a… A sem graça e idiota da minha irmã. Vais pagar caro!

Batera a porta, sem ao menos dar-lhe direito de resposta. Arthur ficara ali parado durante alguns minutos, pensativo. Além de todo o estresse do final do dia, valera a pena cada segundo ao lado de sua amada Brigith, que agora acenara para ele da janela da sala, rapidamente, pois sua irmã Eileen puxara-a para o lado.

Aquele dia fora especial e marcante para os três. Brigith e Arthur iniciaram naquele momento sua vida juntos e Eileen, bom, acabara de colocar seu plano de vingança contra sua irmã e seu amado em prática.

-xx-

Eileen entrara furiosa em seu quarto no terceiro andar da casa grande. O quarto era extremamente bem decorado e todos os móveis eram brancos, de madeira maciça. A cor predominante era rosa. Era tudo feito para uma princesa… Como Eileen realmente sentira-se durante muito tempo.

Deitara-se em sua cama aos prantos, como se alguém tivesse morrido… Jogara todas as almofadas contra a parede, dizendo-se mentalmente: “Você me pagará caro, Brigith! Vou tirar tudo que é seu. Você nunca, nunca será feliz! Você tomou posse do que era meu, MEU!”. Planejara tudo o que faria mentalmente, não faria nada no momento, apenas deixaria a irmã se enforcar aos poucos, sofrer lentamente… Perder o que tivesse de mais precioso na vida. Após todo o drama que fizera, dissera a sua tia que não estava sentindo-se bem, e que não estava disposta a ir às aulas de francês no dia seguinte. Sua tia, Caitlin, consentira. Mas isso era apenas desculpa para Eileen começar seu plano diabólico contra sua ‘’amada’’ irmã.

Eileen esperou que todos fossem dormir, e dirigira-se ao porão da casa. Ninguém usava aquele cômodo. Era vazio e sombrio, nele encontrava-se apenas a caldeira da casa, que jogava o calor para os outros cômodos. Era ali o lugar perfeito para tudo o que planejara.

Avistara uma enorme mesa de madeira, estava cheia de poeira, parecia que nunca fora usada antes. O móvel perfeito para começar a leitura de um livro antigo que Eileen havia encontrado nas coisas de sua falecida mãe. Ela sabia o poder das palavras ali contidas, já havia lido-o antes… Usara-o antes. Seria ainda mais fácil naquele momento.

Pegara umas coisas em uma caixa que estivera escondendo durante algum tempo no porão, e colocara em cima da mesa ao lado do livro antigo. Abrira e tirara uns objetos lá de dentro: um athame, umas velas, uns potes e uma toalha grande e preta. Havia também uma bolsinha dentro da caixa, com uns ingredientes nada normais para uma jovem de 20 anos.

Forrara a toalha na mesa, acendera as velas e começara a leitura do livro antigo. Procurando a vingança perfeita. Mesmo que levassem anos, ela vingar-se-ia. Nunca e em hipótese alguma ninguém passaria por cima dos desejos dela e sairia ileso, nem mesmo sua irmã. Absolutamente ninguém na face da Terra era mais importante que ela.

O que ela não imaginava era que sua irmã observara tudo da janela do porão… Pois ela sairá àquela noite para fazer quase à mesma coisa as margens do lago Diamante. Mas ao contrário de Eileen, ela só queria agradecer à grande Deusa.

Brigith pisara num galho e assustara Eileen, mesmo sabendo que estivera sendo observada, continuou a sua leitura… Ora, não estava fazendo nada demais – ainda – pensara.

Eileen fechara o livro e apagara a vela, e com uma enorme gargalhada fitara a irmã. Fora tudo tão aterrorizante que Brigith não reconhecera mais Eileen. O que será que ela planejara naquele porão sombrio?!

Continua

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