A Garota Má (Pt.10): Devoradora de pecados

 A Garota Má (Pt.10): Devoradora de pecados

Escrito por Natasha Morgan

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8 horas antes

Aquela, sem dúvida, era uma tarde agradável na mansão Von Kern.

Willa acompanhava Fridda pelo jardim, ajudando-a a plantar seus lindos e bem cuidados tomates enquanto os meninos se divertiam assando um cordeiro e Alline se banhava, distante, na piscina.

Klaus cuidava da churrasqueira importada, preocupado em degustar sua cerveja preferida. Sander o ajudava, embalado no som relaxante que saia das caixas espalhadas por toda a mansão, dando um ar alegre á pequena festança.

Willa sorriu, bailando sua música favorita do Creedence Clearwater. Seu vestido folgado balançava conforme ela se movia, sorrindo. Engraçado como podia estar tão feliz depois de tanto tempo… Aquela família era esquisita, mas lhe fazia bem. De longe, captou o olhar persistente que Sander lhe lançava a cada cinco minutos. Ela o ignorou, voltando sua atenção à simpática Bestemor da família – de quem tanto gostara.

Fridda trajava um vestido florido naquela tarde, mas aquela vestimenta não a fazia se parecer com uma velhinha adorável. Sua expressão severa deixava bem claro que aquela era uma mulher com quem não se podia brincar. Ela cavoucava o pequeno canteiro, abrindo buracos na terra macia e cheirosa, onde depositava seus vasinhos de tomates e acompanhava a música num tom baixinho.

Willa se ofereceu para ajudar e Fridda se limitou a sorrir-lhe, sempre com serenidade. Apenas Willa era digna daquela gentileza.

– Você é adorável, minha querida. – a velhinha disse, contente por ter companhia.

– É um prazer poder ajuda-la, senhora Fridda.

– Nada disso. Chame-me de Bestemor, como todo mundo. Já conversamos sobre isso.

Willa sorriu.

– Tudo bem, Bestemor.

Fridda assentiu, contente.

– Acredito que Barnebarnet mitt gosta de você.

– Ah, não…

– Não minta para uma velha senhora! Posso ver na forma como ele a fita. – aqueles olhos azuis se focaram na menina. – Você gosta dele também?

Willa retribuiu o olhar daquela mulher, perdendo-se no meio daquela intensidade. Impossível não notar a franqueza na expressão de Fridda.

– Eu gosto. – confessou Willa.

– Mas é claro que gosta! – a velhinha parecia maravilhada.

– É complicado.

– O que é complicado, minha querida?

– Toda essa situação.

– Uma coisa eu aprendi com minha mãe: Onde há amor, todas as complicações são facilmente solúveis.

– Sua mãe era uma mulher sábia.

– Oh, sim. Ela amou profundamente meu pai. – Fridda deu um sorrisinho amistoso. – Assim como eu amei o pai de Klaus… E continuo amando mesmo depois de sua morte.

– Sinto muito. – Willa baixou os olhos.

– Eu também. Mas tive a oportunidade de pegar o cretino que o matou. Isso me serve de consolo nas noites frias.

Fridda fez uma pequena pausa, equilibrando um dos vasinhos de tomate.

– Só acho que se você ama meu neto, deveria vivenciar esse sentimento.

– A senhora sabe que eu…

– Que você foi escravizada pelo búlgaro? – Fridda encontrou o olhar da menina. – Klaus me contou tudo. Sinto muito por você, pequenina. Ninguém merece um destino como esse. E é exatamente por isso que lhe digo que você deve viver a vida. Já passou por coisas ruins demais. E, se por acaso, está preocupada que não a aceitem nesta família, serei obrigada a lhe dar uma boa bofetada pela audácia de nos considerar tão cretinos a ponto de julgá-la por um passado que não escolheu.

Willa sorriu, contra sua vontade.

– Acho que não pensaria isso de você, Bestemor Fridda.

A velhinha deu um sorrisinho de aprovação.

– Boa menina. Agora vá apanhar um pedaço de bolo para mim. Estou faminta!

Willa se afastou, sorrindo com as palavras e carinho daquela senhora. Aproximou-se da churrasqueira com certa cautela. Klaus sempre a intimidava. Mesmo que estivesse relaxado naquela roupa causal e com a garrafa de cerveja na mão. Ele lhe ofereceu uma bandeja com carne assada quando ela se aproximou, a expressão tranquila.

Willa tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi um mero repuxar de lábios.

– Os doces estão na mesa de carvalho. Mor gosta dos de chocolate. – disse Klaus.

– Obrigada. – ela disse, baixinho.

– O que foi que conversamos sobre essa esquiva e submissão? – ele olhou feio para ela.

Willa congelou no meio do caminho.

– Pegue leve com ela, pai. – Sander disse em sua habitual despreocupação.

– Não, ele tem razão. – Willa disse. – Sinto muito, senhor. Tenho que trabalhar um pouco mais nisso. Eu não quero faltar ao respeito.

– Não se atreveria a tanto, não é? – Klaus relaxou novamente, assumindo um ar divertido. – Espero que esteja se divertindo com um pouco de normalidade por aqui.

– Estou sim. Vocês parecem… Legais.

Klaus gargalhou e Sander o acompanhou na risada.

– Somos mafiosos, mas sabemos aproveitar uma tarde tranquila com a família. – disse Sander.

– Quando os negócios permitem, é claro. – Klaus completou.

– Gosto de normalidade.

– Mor também. – os olhos do nórdico se demoraram na garota. – E ao que parece, ela também gosta de você. Considere-se sortuda. Minha mãe não gosta de muita gente.

– Sua mãe é adorável.

– Não acredito que disse isso. – Sander fingiu espanto. – Ninguém acha minha Bestemor adorável.

– Você quer dizer isso porque ela é durona e tudo mais? – Willa riu. – Bom, eu gosto disso. Ultimamente passei a apreciar muito isso em uma mulher.

– Você está começando a crescer, Willa. – Klaus disse e sua voz trazia aprovação. – Vejo que nosso trabalho está dando certo.

Willa assentiu uma vez, agradecendo a consideração.

– Lembre-se, não precisa ter medo de mim, menina. Não enquanto pertencer a esta família.

O mafioso desviou os olhos, voltando à sua habitual expressão fechada e se concentrou na bebida importada em suas mãos.

Sander puxou Willa para longe, divertido como sempre. A mesa de carvalho estava forrada de doces, salgados e assados. Um banquete farto que o garoto não se importou em atacar. Ele atirou um pedaço de bolo inteiro na boca e mastigou, todo contente. Parecia uma criança!

– Não se esqueça de levar estes para Bestemor. Ela os adora!

Willa riu, limitando-se a apanhar dois pedaços de bolo.

– Meu pai está certo. Bestemor gostou de você. – Sander a fitou com mais atenção. – Mas acho que isso não é uma grande surpresa, não é?

– O que quer dizer com isso?

– Você parece ter um talento nato para conquistar as pessoas.

– Isso não é verdade. – seus olhos passaram, distraídos, pela piscina onde Alline se refrescava.

– Ah, não ligue para ela. – Sander torceu o nariz. – Ela não passa de uma invejosa.

Willa ignorou o comentário, voltando-se para o jardim.

Sander a alcançou com alguns passos.

– Ainda está zangada? – ele perguntou.

– Pelo beijo roubado? Não mais.

– E você se zangaria se eu tentasse novamente?

Willa se interrompeu no meio do caminho.

– Está tentando ser engraçadinho?

– Na verdade não. Estou lhe pedindo um beijo.

Ela sorriu, sem jeito.

– Você fica incrivelmente bonita quando sorri dessa forma. Quase podemos retratar a alegria contida em seu sorriso… –Sander divagou, olhando-a com ar apaixonado.

– Não tente jogar seu charme nórdico para cima de mim. Não vai funcionar.

– Achei que já houvesse funcionado. – ele deu aquele sorrisinho metidinho.

– Não seja tão presunçoso…

Sander a calou com um beijo roubado. Apenas mais um para sua coleção. Os lábios gentis colando-se aos dela numa suavidade palpável. Willa sentiu-se flutuar naquela sensação agradável.

– Ah, os apaixonados! – Fridda exclamou, maravilhada com aquele momento.

Sander sorriu, os lábios ainda colados nos de Willa. Aquele seu sorrisinho presunçoso foi sua perdição. Com apenas um movimento, Willa o derrubou no chão usando um dos golpes que aprendera com o mestre.

O garoto caiu pesadamente no meio da grama macia, rindo.

Willa olhou diretamente para Klaus, esperando algum tipo de aprovação. E o que teve em resposta foi uma longa gargalhada.

– Ah, Sander… – Klaus balançou a cabeça. – A menina está aprendendo a ser uma leoa. Não devia jogar charme barato para lhe conquistar. – e riu novamente.

Willa sorriu para ele, ajudando-o a se levantar antes de beijá-lo mais uma vez, docemente.

Desta vez, Sander lhe beijou com um pouco mais de intensidade, deixando-a envolve-lo completamente enquanto Fridda e Klaus riam sem parar, divertindo-se com aquele momento tranquilo e normal.

Willa sentiu-se encher de alegria e transbordar. Por um momento ela não pôde deixar de pensar quando fora a última vez que se sentira tão feliz.

Mas a visão de Alline saindo da piscina com uma expressão aborrecida quase desfez seu momento puro de felicidade. No entanto, escolheu se entregar àquele momento e esquecer da hostilidade e inveja que aquela mulher estranha sentia por ela.

Sander lhe chamou a atenção, dando uma leve cutucada em seu braço e oferecendo uma flor recém-colhida do jardim – o que a fez sorrir, sem graça. Willa apanhou a flor com delicadeza e a colocou nos cabelos. O contraste do amarelo com o cor-de-rosa a deixou parecida com uma fada da floresta.

– Você é extremamente graciosa, meu bem.  – Fridda falou, amistosamente. – Agora faça um favor para esta velha e busque-me alguns pequenos vasinhos que deixei no hall da casa.

– Ah, agora a senhora é uma velha? – Sander lançou um olhar de censura para a avó. – Quando tentei ajuda-la com as malas você atirou em mim, no entanto, pede ajuda à Willa agora.

Fridda olhou feio para o neto.

– Não seja egoísta, menino! Só vou pegá-la emprestada por alguns minutos. Você se importa, Willa querida?

Willa riu.

– De jeito nenhum. – ela se livrou dos braços de Sander. – Já volto.

Ela saiu correndo, como uma menina, pelo jardim.

A entrada da mansão estava vazia. A princípio isso a assustou, não era comum os seguranças se afastarem de seus postos. Mas Willa deu de ombros e adentrou o hall, procurando pelos vasinhos que Fridda mencionara. A matriarca da família estava empolgada com a jardinagem àquela tarde – o que era contagiante, de certa forma. Era legal passar o tempo com aquela senhora durona.

Willa estava rindo consigo mesmo dos modos da Bestemor Fridda quando foi agarrada bruscamente por trás, a boca tapada com mãos de aço enquanto era suspensa no ar por uma força descomunal.

Ela se debateu, chutando e empurrando, na tentativa de se soltar com as manobras de auto defesa que aprendera. Mas não foi eficaz. Seu captor a prensou com violência contra a parede de vidro e a fez encarar seus olhos frios como um iceberg.

Willa congelou. Conhecia aquele rosto e toda aquela crueldade imposta dentro daquele homem. Mas como diabos eles a encontraram? Aquela casa devia ser segura!

A resposta apareceu em poucos minutos, ostentando uma expressão tão fria quanto a do outro homem. Alline vestia um robe de seda púrpura, os cabelos negros estavam molhados de seu banho de piscina. O olhar duro encarou Willa como se fosse apenas um bichinho intruso em sua propriedade. Parecia uma víbora!

– Podem levá-la. – disse. – Tenho certeza que Bóris apreciará o presente.

Willa arregalou os olhos, esperneando ainda mais.

Para o inferno! Não voltaria para as mãos do búlgaro nem ferrando! E o que aquela cretina estava fazendo?

Uma pena que não tivesse tempo para deduzir o que aquilo parecia. Depois da coronhada que um dos capangas do búlgaro lhe deu, Willa não enxergou ou sentiu mais nada. Apenas caiu na inconsciência, lembrando-se do rosto frio e cruel da senhora Von Kern.

 

Atualmente

Alline estava sentada na elegante poltrona do marido em seu escritório particular, saboreando um delicioso cappuccino quando Cherry apareceu na porta. A assassina tinha uma expressão estranha no rosto… Quase indecifrável.

A tia sorriu para ela tão logo se deu conta de sua presença, como sempre fazia. Com delicadeza e excesso de simpatia. Alheia à tempestade que ocorria dentro daquela jovem, Alline a convidou a entrar num gesto simples e despreocupado.

– Ah, aí está você. Estávamos nos perguntando quando apareceria por aqui. Tivemos uma tarde tão agradável!

Cherry caminhou a passos lentos, felinos. E se postou diante da mulher. Seus olhos eram instáveis, mas se olhasse muito tempo dentro deles perceber-se-ia facilmente o quanto ferviam como um vulcão em erupção, espiralando lava por todos os lados. A chama ardente do ódio espreitava pelas íris cinzentas numa promessa fria de morte.

– Onde estão os outros?

– Ainda lá fora, desfrutando do que sobrou do cordeiro.

– Ótimo. – Cherry deu um meio sorriso desprovido de humor.

– Está tudo bem?

– Ah, você não imagina o quanto tudo está bem agora.

Alline franziu o cenho e aquele seu desentendimento falso irritou Cherry profundamente.

– Eu lhe trouxe um presente. – disse a assassina, retirando uma caixinha de madeira de seu casaco.

Alline apanhou o bauzinho com cuidado, lançando um sorriso de agradecimento à sobrinha. Ela o abriu… E deu de cara com os olhos verdes maravilhosos de seu amante.

Seu grito ecoou pelo escritório, apavorado, e ela lançou a pequena caixinha para longe, horrorizada. Seu olhar indignado se voltou para Cherry e imediatamente sua máscara se rompeu, revelando a mulher impiedosa que vivia dentro dela.

– Sua maldita! – Alline gritou, enfurecida e se lançou contra a sobrinha.

Cherry a interceptou no meio do caminho, agarrando a traidora pelo pescoço num aperto de tira o fôlego. A raiva e a exigência de vingança quase não a deixavam pensar direito, mas isso não era problema. Não queria pensar. Queria apenas destroçar aquela desgraçada! Seu punho se fechou com vontade e ela o desceu sobre o rosto da mulher.

Alline apanhou o soco no ar, impedindo-o de arruinar sua bela face.

– Ah, Cherry. O seu problema é que é arrogante demais. Isso vai acabar sendo sua perdição. – ela se desvencilhou do aperto da assassina e lhe deu um chute certeiro, arremessando a garota contra a estante de madeira do outro lado do escritório.

Cherry se chocou com tudo no meio dos documentos, derrubando a estante no chão. Furiosa, levantou-se depressa, empurrando a madeira para o canto. O escritório sempre arrumado tornou-se um caos naquele momento. E aquela situação só estava para piorar.

– Acha que não sei lutar como você, menina? – Alline disse, rondando-a naquela pose ofensiva. – Posso lutar até melhor do que seus truques babacas. Eu sou uma Borsahy[1]!

– Achei que tivesse sido expulsa. – Cherry a provocou.

– Eu escolhi sair. – Alline deu um sorrisinho. – Agora, cadela, temos algumas contas a acertar…

-… Ah, sim, nós temos.

-… E você vai desejar nunca ter saído de dentro da vadia da sua mãe.

Com um grito ensandecido, Cherry avançou contra Alline. Elas se atracaram com selvageria, esbarrando nos móveis e fazendo cair os objetos tão meticulosamente organizados. Alline se provou muito boa lutadora, afinal, dando vários golpes contra a assassina. Num movimento digno de um Borsahy, ela agarrou o pescoço da sobrinha por trás.

– O que fez à ele? O que fez com Lucien! – exigiu saber, cega em sua fúria e desespero.

– Eu o privei de visão lamentável de vê-la morrer sob a mira da minha pistola. – Cherry disse, rindo insanamente.

– Você o matou, sua cadela?!

– Não. Injetei Sílica em suas veias.

A assassina jogou a cabeça para trás, atingindo a tia com violência.

– Vadia miserável!

Alline cambaleou, mas soube se desvencilhar dos outros empurrões. Atingiu a sobrinha novamente, desta vez na costela. Cherry quase cedeu à dor, mas soube manter a postura letal, atacando quase instantaneamente. Seu chute jogou Alline no chão com violência e se jogou para cima dela, prensando-a no carpete cor de creme e lhe surrando o rosto com vontade.

Ah, a doce e efusiva adrenalina preenchia-lhe as veias, impulsionando-a a liberar aquele ódio lascivo. Suas mãos afundaram no pescoço delgado da mulher e apertaram-lhe a garganta com gana de esganá-la.

Alline não se mexeu, encarando aqueles olhos cinzentos tomados pelo ódio, enfrentando a assassina com impetuosidade. Em seus lábios comprimidos se espalhou um riso maldoso. Sem que Cherry percebesse, ela esticou o braço, apanhando um objeto pesado no chão e estourando o vidro do espelho da parede. Quando os cacos se espalharam pelo carpete, ela apanhou um e o cravou na coxa da sobrinha.

Cherry gritou, pega de surpresa e afrouxou o aperto. Foi o que bastou para Alline se livrar de vez. A sérvia a empurrou com violência, usando os pés. O impacto foi forte o suficiente para mandar a assassina para o outro lado do escritório. O que amorteceu sua queda foi a elegante e antiga mesa de carvalho do tio, mas seu peso a partiu ao meio.

Cherry rolou para o chão, no meio da bagunça e lascas de madeira. Ela gemeu, sentindo a dor latejar em sua coxa onde o caco de vidro ainda estava cravado á carne. Num movimento rápido, ela o puxou. Teve que morder os lábios para não gemer novamente.

– Espero que isso tenha doído tanto quanto Lucien sofreu quando você lhe arrancou os olhos. – Alline disse, aproximando-se como uma caçadora.

– Você não imagina a dor insuportável que ele sentiu. – Cherry deu um sorrisinho. – Mas talvez eu possa te mostrar exatamente a intensidade do quanto ele sofreu. – ela se levantou com um salto e atingiu a tia com força no rosto, fazendo-a cambalear.

Sem lhe dar oportunidades de se recuperar, Cherry a grudou pelos lindos cabelos escuros e arremessou o rosto no que restou do espelho da parede, terminando de estilhaçar o vidro. O sangue brotou da testa de Alline, espesso e vermelho.

– Você sequer parece uma mulher forte e de fibra como dizem dos Borsahy – disse Cherry, agarrando a rival pelo rosto, as unhas se cravando na pele macia. – Não passa de uma desgraçada amaldiçoada, prestes a pagar por seus crimes. Eu sou a devoradora de pecados e estou prestes a me alimentar da sua alma, vadia! É você quem vai lamentar ter saído de dentro da sua mãe.

Alline gargalhou, com vontade, e chutou sua oponente. Mais uma vez se mostrou poderosa em sua esquiva, livrando-se das garras famintas da assassina. Ela fez surgir um estilete, crescendo a lâmina perigosamente. Seus olhos assumiram um brilho perigoso e nos lábios o sorriso se tornou insano.

– Isso começou a ficar divertido. Vamos ver se posso lhe ensinar do que uma Borsahy é feita.

Elas começaram a se rondar, como um leão rondando a presa esperando o momento certo para atacar. A dança da morte, como uns chamavam. Dois felinos num combate mortal onde o vencedor devoraria a carne do outro num banquete de honra e vitória.

– Certamente gostaria de saber por que eu matei os seus tão preciosos papais. – Alline disse, provocando-a. – Ah, sim. Não duvide disso, querida Mona. Eu os matei.

Para provar que estava dizendo a verdade, ela balançou a mão que segurava o estilete, revelando as marcas quase invisíveis da pólvora.

– Devo dizer o quão inconveniente foi quando descobri o truque daquela belezinha de arma. Uma pena para minhas mãos naquela época. Mas quase não dei importância para isso. – ela riu. – Só a satisfação de ter fora do jogo aqueles cretinos intrometidos me bastava. Seus pais, eles estavam me dando um trabalho árduo! Não imagina o quão espertos eram dentro dos negócios da família. Com todo aquele papo pacifista de se manter longe do tráfico, eles quase me renderam uma perda enorme de dinheiro. Não imagina o quanto a paz pode ser ruim para os negócios. Seus pais prejudicaram por demais a família. Eu não podia deixar minha mina de outro ser soterrada, então simplesmente me livrei da areia movediça.

Cherry a mirou com ódio.

– Confesso que foi divertido. – Alline prosseguiu, deliciando-se com a visão da fúria corroendo a outra. – Foi minha morte mais audaciosa. Eu nunca havia matado alguém importante antes e estava ansiosa por cumprir minha tarefa corretamente. No fim, fui ainda melhor do que planejei. Um infortúnio que você tenha me escapado. Mas consegui corrigir o erro a tempo, não é mesmo? Assim como fiz com a doce e bela Willa, entregando-a para seu verdadeiro dono.

Cherry olhou para os lados, confusa e então compreendeu. O ódio que a dominou em nada se parecia com o que a consumia antes, este era muito mais intenso, corroendo qualquer sanidade que ainda lhe restasse. Ela avançou contra Alline, jogando-as de encontro à parede.

Alline usou o estilete para se defender e conseguiu provocar um corte fundo no ombro da rival. A força de seu golpe não apenas lhe retalhou a carne, como mandou a assassina para longe.

– Não tão fácil, Cherry. – ela se gabou. – Não está lindando com um de seus bandidos otários. Desta vez tem uma rival de sua altura. Ou devo dizer melhor?

Alline a golpeou novamente, desta vez com o punho fechado.

Cherry recuou, tropeçando nos livros caídos e lutando para se equilibrar. O corte em seu braço doía como o inferno, ela o apertou uma vez na tentativa de estancar o sangue. O toque ardeu um pouco e ela praguejou.

– Eu devo admitir que quase me atrevi a temer você. Mas no fundo não passa de uma garotinha atormentada pelas sombras do passado. – Alline debochou.

– Onde está Willa, sua puta?!

– Onde é o lugar dela. E em breve você se juntará a ela. Quem você acha que te vendeu ao búlgaro quando não passava de uma garotinha frágil e assustada? Ah, Cherry, como você é inocente. Acha mesmo que foi por acaso que foi parar nas garras de Bóris Petrov? Fui eu quem a vendi. Bóris é um grande e antigo amigo. É sempre um prazer negociar com ele. Uma pena que Klaus tenha conseguido pegá-la de volta, admito que não me fez nenhuma falta. Pelo contrário, você se tornou um pé no saco, como imaginei que seria!

– Filha-da-puta!

Alline gargalhou, transbordando crueldade apenas no sorriso sórdido.

– Você sequer imagina o poço de sombras que existe dentro de mim, menina. Uma pena para aqueles que cruzam meu caminho. Já comi o pão que o diabo amassou nesta vida e jurei a mim mesma jamais passar por isso novamente. Agora sou eu quem oferece as migalhas amaldiçoadas aos outros! – ela avançou mais uma vez e a lâmina afiada do estilete dançou no ar, perigosamente.

Cherry recuou com habilidade, escapando do ataque. Alline insistiu e elas acabaram atracadas novamente, os punhos travando uma batalha silenciosa para ver quem cederia primeiro, a lâmina, ansiosa por mais sangue, muito próxima ao rosto de Cherry. Alline a empurrou para frente com o quadril, fazendo-a perder o equilíbrio por apenas um segundo. Foi o suficiente para tê-la sob seus domínios mais uma vez. A tia lhe deu uma joelhada forte o suficiente para quebrar uma costela – o que fez Cherry cair no chão.

Alline a chutou com força no estômago.

– Isso foi por ter ferido meu Lucien. Vai sentir na pele o que ele sentiu, sua cadela! Pense só, uma vida inteira procurando os responsáveis pela morte de seus pais quando ele dormia sob o mesmo teto em que você dormiu por anos. Eu sou sua tão desejada vingança. Mas você não vai me ter. Ao invés disso voltará para os braços assombrosos de seu captor para passar os próximos vinte anos servindo-o nos mais repulsivos desejos. Você será usada da pior maneira que uma mulher pode ser usada e todas as vezes que ele te submeter a isso vai se arrepender de ter saído da barriga da sua mãe! Eu poderia mata-la agora mesmo, mas não me privarei de vê-la sofrer pela eternidade.

Alline a juntou pelos cabelos e a levantou do chão, fitando-a nos olhos.

– Ah, a poderosa Cherry Vicious finalmente derrotada. A vingança será minha. Eu sou a devoradora de pecados e vou me alimentar de minhas próprias ambições sórdidas.

– Você não é nada. – Cherry cuspiu e encaixou o aro de prata em um dos dedos da mulher, apertando o alicate.

Alline gritou, recuando com a mão sangrenta. No chão, repousava o dedo médio ainda com a aliança de ouro que Klaus lhe dera.

Cherry fez força para se levantar do chão, sorrindo como uma diaba.

– Ah, é só um dedo, Alline. Apenas um pedaço insignificante perto dos outros que vou lhe arrancar. – sua expressão se tornou sombria.

Alline a mirou com ódio.

– Mudei de ideia. Não vou entrega-la ao búlgaro. Eu vou mata-la com minhas próprias mãos!

Ela avançou novamente, o estilete nas mãos cada vez mais ameaçador. Num giro rápido, Cherry lhe chutou a mão, quebrando o osso e fazendo voar a arma afiada. Alline quase não se importou com a dor aguda, jogou-se com selvageria contra a adversária.

Elas rolaram no meio dos cacos de vidro e se chocaram contra a parede dos fundos, derrubando outra estante de mogno. Os livros se espalharam pelo chão numa bagunça desastrosa e elas foram golpeadas várias vezes pelos objetos mais pesados.

Cherry rolou para fora daquela desordem, arrastando o corpo ferido e cansado. Mas foi agarrada pelo pé e puxada com violência. Chutou uma vez, atingindo a outra no rosto, mas Alline não desistiu. Grudou a sobrinha pela bota de couro a arrastou pelos livros, documentos  e cacos de vidro.

Alline recuperou o estilete e o apontou para o rosto de Cherry, deslizando a lâmina numa carícia hostil.

– E é aqui que termina a sua caça, Vicious.

– Não, é aqui que ela começa! – Cherry agarrou a lâmina do estilete e a forçou contra Alline, ferindo sua própria mão no processo. A arma envergou e acabou cravada no quadril da bela mulher de cabelos escuros.

Cherry a empurrou para longe, tomando fôlego.

Alline arrancou o estilete de sua carne e se preparou para avançar novamente contra a oponente, mas foi atingida por um tiro no joelho, curvando-se com um grito. Ela olhou para a direção de onde a arma foi disparada e encontrou o olhar frio de Fridda. A maldita velha estava parada na porta do escritório, empunhando uma garrucha.

Sander, Halle e Klaus adentraram junto, fitando a sala destruída.

O rapaz mais jovem correu para perto da prima enquanto o pai voltava a força abrasadora de seu olhar para a esposa.

– Você. – foi tudo o que disse e sua voz trazia toda acusação presente em seus olhos.

Alline ainda ousou tentar se bater contra ele, mas apenas uma cotovelada do nórdico foi o suficiente para jogá-la no chão com violência. Klaus puxou uma pistola ornamentada em prata e apontou o cano para ela.

Cherry se levantou do chão depressa, apanhando sua pistola e avançando contra a mulher, mas Sander a conteve.

– Deixe que eu assuma. – disse Klaus – Esse é um problema de família, permita-me que eu recupere a minha honra matando essa cadela.

– Ela matou meus pais. Esta vingança é minha!

– Nossa. – Klaus corrigiu. – Frédéric era meu irmão.

– Não se atreva a tirar isso de mim! – Cherry o enfrentou.

– Saia daqui, Cherry. Eu quero a oportunidade de honrar minha família. Esta mulher foi longe demais.

– Não me obrigue a atirar em você, tio. – Cherry ameaçou, engatilhando sua Sig Sauer.

– Levante sua arma para mim e lhe dou uma surra, menina insubordinada!

– Eu disse para sair da frente!

Alline se aproveitou daquela pequena discussão para tentar se levantar e fugir, mas outro disparo foi dado e seu outro joelho foi atingido, fazendo-a se estelar, impotente, no carpete manchado de vermelho.

Fridda baixou a garrucha.

– Calem-se! – disse a Bestemor.

– Velha maldita! – Alline gritou, furiosa, e começou a praguejar em sua língua materna.

Fridda se aproximou a passos firmes e lhe deu um tapa com as costas das mãos.

– Não ouse se dirigir a mim, sua cretina traidora!

Alline ergueu seu olhar afrontador, cuspindo seu ódio na cara da mulher.

Fridda lhe deu um chute impiedoso no joelho, fazendo-a se dobrar de dor.

– Vai mesmo querer se meter com esta velha? – ela deu uma risadinha maldosa e então voltou seus olhos firmes para os outros. – A carcaça não ficara nas mãos de nenhum de vocês. Eu mesma me divertirei despedaçando-a. A traidora não vai morrer. Ela apenas começará sua descida ao inferno.

Fridda se virou para Cherry.

– Minha pequena Mona, traga Willa de volta para nós.

Cherry baixou a arma. Simplesmente desistiu de tentar discutir. Uma sessão com Fridda era pior que a morte, afinal. Alline teria sua lição!

– Sei que vai atrás de Willa, mas não vai sozinha. Vou com você. – Sander se apressou em dizer e aquele fogo vivo que queimava em seu olhar não aceitaria uma recusa.

– Todos vamos. – Klaus disse. – A menina faz parte da família. E nós protegemos a família!

– Mexe com um, mexe com todos. – Fridda concordou.

– Nem pense em me deixar de fora desta aventura. – disse Halle, postando-se ao lado de Cherry.

Cherry caminhou até o pequeno arsenal de vidro – a única coisa não destruída naquela sala – e apanhou uma das armas mais potentes que repousava no forro de veludo. Ela destravou a Shotgun com apenas um puxão.

– Vamos botar pra foder!

Todos destravaram suas armas.

Fridda deu um pequeno sorrisinho de satisfação e se aproximou da traidora caída no chão. Apanhou Alline pelos cabelos e a arrastou pela sala destruída enquanto ouvia seus gritos de súplica.

Aquele som impiedoso foi música para os ouvidos de Cherry.

Ah, doce vingança… Ela estava a caminho.

– Vão cuidar da pequena Willa. Eu tomo conta desta daqui. – foi a última coisa que Bestemor Fridda disse, antes de deixar o escritório destruído para trás. Sua risada ecoou pelo corredor numa promessa assombrosa…

Pobre Alline.

Sua descida ao inferno estava apenas começando.

Continua

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[1] Membro da Ordem Borsahy.

10 comentários em “A Garota Má (Pt.10): Devoradora de pecados

  1. Que capítulo sensacional! Mal posso esperar pra o desenrolar com o búlgaro.
    E essa cena da vovó Fridda de vestido florido e garrucha arrastando a Alline foi demais.
    Parabéns! 🙂

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