A Garota Má (Pt.8) – O Tango da Assassina

A Garota Má (Pt.8) – O Tango da Assassina

por Natasha Morgan

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O restaurante Illustrare era um lugar extremamente agradável.

Iluminado por vários candelabros acobreados, o espaço amplo e rústico fazia qualquer outro restaurante naquela região parecer desleixado. A decoração era impecável, as mesas de cristal adornadas com toalhas de cetim e um arranjo de flores azuis.

Os garçons vestiam-se de vermelho e preto, o uniforme elegante e igualmente impecável. Traziam sempre uma badeja de prata e seu bloquinho de anotações, comportando-se como verdadeiros fidalgos.

A recepcionista era muito bonita, ruiva, pele levemente sardenta e os olhos amendoados. Usava um vestido negro de gala e parecia tratar todos os clientes de forma simpática e polida. Seu sorriso era extremamente afetuoso.

Cherry chegou um pouco mais cedo, na esperança de sondar o território. Para aquela noite especial optou por um vestido de corpete negro que sustentava seu busto com ousadia. A saia do vestido era vermelha e de um tecido leve, uma pequena abertura até a coxa, onde mantinha uma adaga de rubi presa pela cinta liga. Seus cabelos claros estavam presos num coque bem elaborado, expondo a tatuagem tribal no pescoço. Mas ninguém pareceu notar suas tatuagens quando entrou – o que era ótimo! Lugares luxuosos como aquele costumavam espalhar uma política de preconceito.

Ela sorriu para a recepcionista, reservando uma mesa no térreo. Uma mesa afastada lhe conferiria uma boa visão do restaurante e seus clientes. A bela ruiva lhe acompanhou até a mesa desejada e a deixou ali, com um sorriso elegante.

Cherry se sentou, apreciando a decoração e a vista. O térreo era um espaço amplo e aberto, decorado com flores, candelabros e cristais. Dava para ver a lua dali de cima, uma paisagem e tanto! Havia poucas pessoas, uns dois casais e alguns executivos espalhados pelas várias mesinhas.

Ah, mas a mesa 86 estava vazia. Por enquanto.

Cherry deu um sorrisinho, apoiando sua bolsinha de lantejoulas em cima da mesa. Ela apanhou um celular descartável e digitou alguma coisa.

 – Onde você está? – a voz de Halle lhe chegou apreensiva.

 – No térreo. – ela respondeu, sossegada.

 – Eu estou no prédio da esquina, num dos quartos. Dá para enxergar tudo daqui de cima.

– Ótimo. Fique atento. Ele pode chegar a qualquer momento.

 – Tem certeza de que quer fazer isso?

 – Está mesmo me perguntando isso? – Cherry ergueu a sobrancelhas em direção à janela do prédio onde Halle se encontrava. Sabia que ele podia vê-la.

Ele deu uma risadinha.

 – Tome cuidado, sua louca. Qualquer coisa estou a posto.

 – Me bipe quando o avistar. – ela disse e desligou.

Cherry guardou o celular na bolsa e se limitou a pedir um vinho.

Halle havia insistido para ir junto, convencendo-a de que seria útil. Aquela definitivamente não era uma grande ideia, mas ela acabou cedendo. Só esperava que o idiota não ferrasse seus planos. Havia aguardado por aquela noite ansiosamente. E que Deus a ajudasse, se Halle fodesse tudo, enfiaria uma bala no saco dele!

Cinco minutos depois, uma garçonete voltou com sua bebida, depositando a taça com elegância na mesa. Cherry bebericou o vinho, apreciando o sabor doce e observando o movimento ao seu redor com maestria. Seus olhos eram atentos como os de um predador e logo focaram um grupo renomado que entrava no restaurante naquele exato momento.

Eram quatro homens elegantemente vestidos, os ternos caros davam a entender que tinham dinheiro para esbanjar à vontade. Três deles estavam armados, portando pistolas com silenciadores no coldre discreto do terno. Uma caçadora notava isso sem grandes dificuldades. O único naquele grupo que parecia além de suspeitas era o homem robusto usando o casaco de pele no centro daquele pequeno grupo. Com as feições rústicas, cavanhaque escuro e cabelos arrumados a base de gel, aquele homem era um perfeito cavalheiro sofisticado.

Bóris Petrov.

Cherry não conteve o sorriso diabólico que se espalhou por seu rosto.

Do outro lado do restaurante, Halle ajustou o rifle, apoiando-o no espaço amplo da janela e mirando naquela direção. Seu dedo deslizou até o gatilho, pronto para puxá-lo caso precisasse. Os olhos atentos à visão exata que a lente da arma lhe proporcionava. Nenhuma parte de seu belo rosto era amistoso.

Cherry cruzou as pernas sensualmente e voltou à degustar sua bebida. Sempre atenta ao movimento naquela mesa um tanto afastada, estudando os homens ao redor de sua presa. Não seria tão difícil chegar nele, afinal de contas. Se aqueles capangas fossem tão babacas quanto os que Bóris mandara matar Halle, ela estava feita.

Mais um sorrisinho presunçoso escapou.

Uma música elegante começou a tocar na intenção de alegrar o ambiente clássico e lá estavam as dançarinas, trajando belos vestidos de gala e bailando no espaço amplo entre as mesas.

Bóris gostava delas, não é mesmo? A julgar pela forma como o búlgaro se aprumou na cadeira e passou a observar as belas mulheres jovens, ele ainda apreciava a dança clássica. Aquele sorriso babaca em seu rosto irritava a caçadora profundamente.

Ah, mas nada com que ela não pudesse lidar. A adrenalina corria solta em suas veias, instigando-a a um momento raro de euforia. Estava ansiosa por começar seus planos para aquela noite.

O búlgaro desviou os olhos das dançarinas, comentando alguma coisa com seus amigos. Seu olhar passou para o relógio de bolso que ele carregava e seu cenho se franziu, aparentando preocupação.

Ele estava à espera de alguém.

Bom, talvez Cherry pudesse ajuda-lo quanto àquilo.

Ela se levantou da mesa com elegância, deixando a taça de vinho para trás. Seu caminhar era sensual, os quadris remexendo-se numa dança tentadora. Passou pelas mesas no meio do restaurante, ignorando todas elas, até chegar á 86.

Os capangas ergueram o olhar quando ela se aproximou, não contendo o deslumbramento. Ah, com certeza eles não faziam ideia de quem era a dama vestida de vermelho ou certamente já teria pulado dos assentos e apontado as armas para ela. Cherry se aproveitou daquela ignorância, invadiu o espaço privado dos colegas e colocou-se sob o campo de visão de Bóris. Seus olhos se encontraram numa fração de segundos e o búlgaro congelou.

Cherry sorriu.

– Procurando por alguém?

Bóris recuou, arrastando a cadeira num barulho deselegante. Ele apontou uma pistola diretamente para o pescoço dela, mantendo a arma discreta aos olhos dos clientes no restaurante.

Isso pareceu alertar seus capangas, pois eles fizeram o mesmo.

A resposta de Cherry foi apenas outro sorriso diabólico de arrepiar os cabelos. Ela pousou a mão na pistola que pressionava seu pescoço, abaixando-a.

– Não há motivos para ser selvagem, búlgaro.

Ela lançou um olhar significativo aos capangas. Eles abaixaram as armas.

Inabalável, a assassina voltou seus olhos para sua presa. Ah, como fora delicioso ver aquele olhar perplexo no rosto do búlgaro! Ele parecia petrificado, como se houvesse chegado à beira de um precipício e não tivesse outra saída a não ser saltar. Oh, sim, ela era o anjo da morte que viera leva-lo para o inferno!

– Agora que a selvageria foi mascarada, por que não dançamos? Soube que você aprecia as dançarinas. – ela caminhou com sensualidade até o meio do térreo, atraindo-o com seus quadris. – Por que não uma música mais apropriada? Uma dança mais envolvente. – ela riu. – Tango, talvez? – seu olhar passou à uma garçonete que desfilava com uma bandeja.

Embaraçada, a moça fez um pequeno gesto para a orquestra e então a música sensual preencheu o térreo, aquecendo o coração das pessoas numa promessa devassa.

Cherry deu um giro gracioso e uma pequena rebolada, expondo sua perna através da abertura lateral do vestido num convite irrecusável. Seus olhos encontraram os do búlgaro com intensidade e ela fez um gesto com os dedos, chamando-o.

A expressão perplexa de Bóris Petrov se alterou, dando lugar à malícia. Ele pareceu indeciso por apenas alguns minutos antes que seu lado presunçoso tomasse conta de suas ações. Seu peito inflou e ele caminhou até ela, cego ao perigo que espreitava por trás daquele vestido elegante.

Ele a envolveu com habilidade, puxando o corpo dela de encontro ao seu, como pedia os movimentos daquela dança caliente. Cherry permitiu que ele a manuseasse nas mãos, acompanhando os passos sensuais. Era uma atração para a plateia, que os observava com adoração.

Bóris a girou uma vez, empurrando-a e a agarrando de volta no meio do caminho. Seus corpos próximos o fez lembrar de épocas mais doces. Ele sorriu. Cherry o empurrou, dando-lhe um tapa na cara, e então voltou para seus braços, seguindo os passos do tango da morte.

– O que quer aqui, minha pequena flor selvagem das neves? – ele perguntou, bailando com ela. – Sentiu saudades?

– Ouvi dizer que você gosta deste restaurante, então vim confraternizar. Você anda fugindo de mim. Isso é ruim para a amizade.

– Não seja tola de tentar algo por aqui, minha bela. Seria um erro fatal. Eu sempre ando com meus seguranças e muito bem armado.

– Ah, não se preocupe. Eu não vou matá-lo agora. – Cherry garantiu. – Sem ninguém para vê-lo cair quase não tem graça. Vou deixá-lo voltar para casa, tomar um agradável banho de espumas e foder uma de suas putas. Quando o amanhã chegar, eu estarei à sua caça. E desta vez vou encontrar seu império… E vou fazê-lo ruir.

Bóris gargalhou, achando-a adorável.

– Você se tornou deliciosamente má. Eu gosto disso! É muito mais interessante do que a garota amedrontada que tive que domar. E por falar em éguas, você roubou algo de mim.  Minha garota. Eu a quero de volta.

– Você nunca mais tocará num só fio do cabelo dela. –Cherry disse num giro e lhe deu uma cotovelada dolorida no estômago.

Bóris a apanhou novamente, puxando-a de encontro a seu corpo num movimento brusco. Seus lábios asquerosos pousaram na orelha dela.

– Ah, minha adorável Solina!

Cherry se esquivou com graciosidade.

– Não mais Solina. Meu nome é Cherry… Cherry Vicious. – ela deu um sorrisinho perigoso, voltando a bailar.

– Vicious. – o búlgaro sorriu. – Eu já fui viciado em você uma vez, menina.

– Oh, sim. Eu me lembro. Mas não se trata de viciá-lo. – Cherry o fitou nos olhos e o que quer que houvesse naquele olhar foi capaz de congelar a alma dele. – Eu não vou apenas viciá-lo, vou intoxicá-lo como um veneno doce, cruel e impiedoso. Eu vou matá-lo tão lentamente que você vai implorar ao demônio para te salvar. Só que ele não vai atender suas preces. Porque eu sou o demônio. O demônio que você criou.

Bóris interrompeu seus passos, perturbado. Oh, sim! Lá estava aquele olhar novamente. Mas é claro que ele sabia que estava brincando com fogo. Não é à toa que vivia fugindo dela.

Lá atrás, os seguranças se ergueram da mesa, agitados.

Mas Cherry apenas se limitou a sorrir, terminando sua dança com um pequeno floreio elegante.

– Adeus, Bóris. Nos vemos em breve na trilha da morte. – ela acenou uma vez, antes de desaparecer no meio das pessoas.

O búlgaro ficou para trás, observando, estático, o rastro de sua caçadora.

 

 

Cherry desceu os degraus do restaurante com rapidez, encontrando Halle do outro lado da rua. O caçador de recompensas parecia atento e empunhava uma pistola, seus olhos continham um brilho perigoso.

– Você o deixou ir! – ele rosnou.

– Esperava que eu o matasse na frente de todas as pessoas lá dentro? –ela ergueu as sobrancelhas.

– Eu esperava sim. – Halle voltou seus olhos para as portas duplas do Illustrare, os lábios se contraindo numa careta. Estava na cara que ele queria entrar e terminar o serviço por si só.

– Nem pense nisso. – disse Cherry. – Eu concordei em você vir comigo contanto que não se metesse nesse assunto.

– Eu não entendo! Você passa anos da sua vida procurando esse filho da puta e quando tem a chance de enfiar as unhas nele, simplesmente o deixa ir embora!

– Nada como a doce ilusão da liberdade. – ela deu um risinho. – Além do que, ele não vai a lugar nenhum sem que eu saiba.

Halle franziu o cenho.

– Ah, não achou mesmo que eu viria até aqui, dançaria com ele e o deixaria escapar mais uma vez, não é? – ela remexeu em sua bolsinha de lantejoulas, retirando um pequeno aparelho preto. – Saberei exatamente onde ele está.

– Isso é um GPS?

– Mais ou menos. Apenas um dos brinquedinhos que minha família possui. Funciona como um rastreador de alta tecnologia, implantado na pele. É imperceptível.

– E aposto como implantou isso no búlgaro quando dançavam.

– Garoto esperto. É claro que eu não dancei com ele apenas para instigar sua imaginação.

Halle abaixou a Sig Sauer, guardando-a na jaqueta. Sua expressão se suavizou apenas um pouco, ainda estava apreensivo.

– E você não considerou tirar nem um pedacinho dele?

Cherry riu, divertindo-se com a reação do caçador.

– Acredite, eu estava louca para retalhá-lo.

– Não posso crer que não o fez!

– Uma assassina profissional sabe a hora de hesitar e a hora de atacar. O tempo da caçadora apenas começou.

Halle fez uma pausa, deixando o silêncio se estender. Ele a analisou com cuidado.

– Como se sente?

Cherry ergueu as sobrancelhas.

– Não me venha com essa de mulher durona agora. – Halle a olhou feio. – Como se sente? Não deve ter sido fácil reencontrar aquele porco! Ficar tão perto dele e não poder matá-lo.

– Vou ter essa chance quando o momento certo chegar. Agora, vamos sair daqui. Não quero ter surpresas. Não se esqueça de que ele ainda está caçando você.

Halle franziu o cenho, mas concordou em sair dali. Estavam de carro desta vez, um Audi R8 da coleção particular da assassina. O carro deslizou pelas ruas iluminadas e seguiu seu caminho até o elegante edifício Orn.

Cherry estacionou na garagem subterrânea e eles subiram de elevador, sem dizer absolutamente nada. Sua expressão era indecifrável, embora algumas vezes se pudesse ver o medo espreitando seus olhos cinzentos. Ela não conseguiria disfarçar por muito tempo. Ninguém saia de um encontro desses numa boa. Não quando seu passado se remexia insistentemente por dento, ameaçando iniciar um conflito de emoções.

Ela se serviu de uma dose dupla de tequila assim que adentrou o apartamento, virando tudo de uma vez e deixando a ardência afogar suas mágoas mais sombrias. Halle a observava em silêncio do outro lado do balcão.

– Tem certeza de que está bem?

– Vou ficar.

O caçador de recompensas se aproximou.

– Pode falar comigo, se quiser.

– Ah, tá!

– Ainda está zangada comigo?

– Pode apostar.

– Mesmo eu tendo segurado a onda e não apertado o gatilho quando ele estava com você nos braços?

Cherry voltou seus olhos para ele.

– Eu teria arrancado sua pele se tivesse feito isso.

– Teria valido a pena.

A sombra de raiva se apossou dos olhos de Halle novamente.

– Essa guerra não é sua, caçador. Não precisa se envolver.

– É aí que você se engana. Essa guerra é tão minha quanto sua.

– Não foi Bóris quem feriu sua irmã.

Halle se afastou, fechando a cara. A raiva o ferveu por dentro.

– Não entendo como pôde deixa-lo ir!

– Eu já disse! Tenho minhas estratégias para acabar com o búlgaro. Não se meta nisso! Não é da sua conta.

– Para o inferno que não é! Ele feriu você!

– Você não precisa vingar minha honra. Não somos um casal e eu não preciso do seu heroísmo!

Halle a fitou, furioso.

– Pare de ser tão teimosa! Pelo menos uma vez na vida aceite ajuda de quem se importa com você! Não precisa afastar as pessoas assim.

– Fui ensinada a ser assim. Não quero sua pena!

– Isso não é pena, Cherry.

Ela desviou os olhos, zangada.

– Ao invés de descontar suas frustrações em cima de mim, você podia simplesmente aceitar um abraço e me dizer como se sente.

– Não preciso de todo esse sentimentalismo. Estou bem.

– Não está não.

– Como pode dizer como eu me sinto?! – ela o encarou com raiva.

Halle se aproximou, encarando-a nos olhos com toda sua intensidade.

– Porque eu me senti exatamente como você naquele maldito prédio abandonado. Eu tinha o rifle nas mãos, a mira perfeita. Tudo o que precisava fazer era puxar o gatilho. E, acredite, eu o teria feito se não respeitasse a sua vingança. Minha irmã caiu nos braços de um cretino como Boris, sofreu tudo o que você sofreu, exceto que o sofrimento dela durou poucas horas antes que o ordinário a matasse. Se eu estivesse frente á frente com o desgraçado que a matou, eu o teria matado. Então sei muito bem como se sente!

– Ele é um porco! – Cherry cuspiu, ignorando as lágrimas que ameaçaram irromper de seus olhos furiosos. – E é exatamente por isso que ele tem que morrer! Por sua irmã, por Willa e por tantas outras que tiveram o azar de cruzar o caminho de porcos como ele!

Cherry respirou fundo, tomando fôlego. A raiva, o nojo e a amargura ameaçaram irromper das profundezas de sua alma.

– Maldito! – ela gritou, jogando longe a garrafa de tequila e a fazendo se espatifar no azulejo claro da cozinha. – Vou fazê-lo sofrer! Fazê-lo implorar para morrer. Ele pagará por cada pedacinho de pele que ousou profanar!

– Eu sei que vai. – Halle disse, mantendo a serenidade diante da cólera dela.

– Essa vingança é minha! – Cherry olhou bem nos olhos dele.

– Não vou me meter. Eu prometo. – ele se aproximou ainda mais, invadindo o espaço dela. -Você não precisa se consumir nisso, não agora. O que posso fazer para diluir seu ódio?

Cherry o encarou numa mistura de raiva, mágoa e desejo. Mas não demorou muito para a fome abrasadora dominar suas ações, despertando aquela paixão insana que a queimava por dentro sempre que estava perto daquele homem.

– Beije-me. – ela disse. – Beije-me até que eu não pense em mais nada além de nossos corpos juntos.

E Halle beijou.

Tomou-lhe a boca numa explosão ardente, devorando os lábios com sofreguidão.

Eles foram parar no balcão da cozinha, agarrados um ao outro num desespero tresloucado. Halle lutou contra o botão da própria calça enquanto Cherry se livrava da calcinha e puxava a saia do vestido até o meio das coxas. Com apenas um puxão, ela se livrou do jeans dele, libertando a ereção pronunciada.

Halle a puxou com força de encontro a seu corpo e a penetrou, estocando-a cada vez mais rápido enquanto ela se segurava na banqueta da cozinha.

Cherry precisava daquela liberação. E ele também.

*-* *-*

Willa chegou à mansão Von Kern no horário certo desta vez. Não queria nenhuma desculpa para chamarem sua atenção, já bastou as acusações de Alline na última vez. Não queria problemas ou qualquer tipo de desentendimento com aquela família, então se esforçaria para seguir as regras.

Estacionou o Escalade no pequeno estacionamento de pedriscos do jardim. Os seguranças que guardavam a entrada da casa a olharam com atenção, checando quem era. Aquele olhar frio lhe congelava a alma. Nunca suportou capangas, eles lembravam o búlgaro e sua segurança reforçada.

Willa se empertigou e seguiu pelo caminho de cascalho até o arco enfeitado da entrada da mansão. Ela aguardou pacientemente do lado de fora até Klaus ou Sander aparecerem. De jeito nenhum entraria naquela casa. Não mais.

Sander a encontrou ali fora. Vinha caminhando pelo jardim, usando apenas uma calça de náilon. O peitoral musculoso estava exposto num convite aberto, dando um ar ainda mais charmoso ao jovem nórdico.

Willa mordeu os lábios, desviando os olhos daquela visão. Ele sorriu tão logo a viu, aproximando-se de um jeito moleque.

– Ah, chegou cedo hoje, baixinha. – o sorriso dele era animado.

– Prometi ao senhor Von Kern que seria mais pontual.

– Senhor Von Kern? – Sander riu.

Willa se manteve séria.

– Meu pai vai assumir o treino mais tarde. Vou me trocar e podemos iniciar o aquecimento.

– Parece bom.

Sander a fitou, analisando a expressão séria demais naquele rosto infantil.

– Você pode entrar. Vou tomar uma chuveirada, pode demorar um pouco.

– Tudo bem. Vou espera-lo aqui fora.

O rapaz ergueu as sobrancelhas.

– O sol está agradável. – Willa deu um sorrisinho, incentivando-o.

– Tudo bem. – Sander desapareceu pelas portas altas.

Mais uma vez sozinha, Willa se mexeu inquieta. Se o treinamento não fosse realmente importante, ela não voltaria àquela casa. Algumas situações eram complicadas de lidar. E ela já tinha uma quota alta demais de humilhação.

O aroma doce que chegou a seu nariz a impeliu a sair dali imediatamente. Uma pena que não tivesse essa opção. Alline apareceu poucos segundos depois, usando um robe púrpura de ceda. Os cabelos negros estavam soltos, mas não desgrenhados. Ela era tão bonita!

Suas feições simpáticas não se alteraram quando viu a jovem de cabelos coloridos ali parada, apenas franziu o cenho.

– Ah, aí está você. – Alline sorriu. – Pensei ter ouvido sua voz.

– Estou apenas esperando por Sander. É ele quem vai assumir o treino pela manhã.

– Mas que conveniente.

Willa lançou um olhar aborrecido à outra.

– Ah, sinto muito. Sem provocações hoje. – Alline se desculpou. – Sinto muito tê-la aborrecido na outra noite. Vamos nos esquecer disso.

– O que quer?

– Apenas me desculpar pelo ocorrido. Como eu disse à Cherry, não me senti bem com a pequena discussão entre nós…

– O que foi que disse à Cherry? – Willa se empertigou.

– Nada sobre o que conversamos noite passada. – Alline garantiu. – Eu apenas mencionei que a aborreci. Ela relatou minhas desculpas?

– Não se preocupe com isso, Senhora Von Kern. Esse assunto morre aqui.

– Nada de Senhora para mim. – Alline riu. – A Senhora desta casa não está presente por enquanto, mas receio que terá o prazer de conhecê-la esta tarde. – seus lábios se curvaram em desagrado ao qual ela não soube ignorar.

Willa a ignorou, fitando o jardim ao longe.

– Vamos, não seja tão difícil! – Alline insistiu. – Não quero que haja qualquer mal entendido entre nós.

– Pelo contrário, Alline. Não há qualquer tipo de mal entendido. Você foi extremamente clara. – Willa devolveu o olhar, enfrentando-a com altivez.

Sander surgiu naquele instante, usando uma nova calça de náilon e camiseta branca. Ele as fitou com confusão.

– O que está havendo aqui?

– Ah, a bela Willa está chateada comigo. – Alline se apressou em dizer, abraçando o enteado com afeto.

– Por quê? – Sander pareceu achar graça.

– Sua madrasta está enganada. – Willa forçou um sorriso. – Vamos? Estou pronta para te dar uma surra!

Sander riu, animando-se com a empolgação da garota.

– É assim que se fala, baixinha!

– Divirtam-se. – Alline disse, por sua vez, vendo-os correr em direção à academia. Seu sorriso amistoso não conseguiu ocultar totalmente a ironia que espreitava seus lábios.

 

Sander preparou uma série de movimentos e golpes simples para que Willa aprendesse. Ela se esforçou bastante para compreendê-los e os aplicou com agilidade, surpreendendo o treinador.

Ele bateu palmas, sorrindo e aprovando o desempenho dela.

Willa não se deixou relaxar, encarou o treinamento com seriedade e deu seu melhor naquele aprendizado. Sua concentração estava totalmente empenhada em aprender os golpes e saber se esquivar deles.

– Você está diferente hoje. – Sander observou.

– Estou concentrada.

– Não é isso. Há alguma coisa diferente em você.

– Não sei do que você está falando.

– Está distante.

Willa o encarou.

– Sou a mesma de sempre.

– Não é, não. Você quase não sorri mais. Está com essa expressão séria desde que chegou, como se estivesse na defensiva. Em geral isso é muito bom dentro do treinamento, mas não há inimigos reais aqui. E você também não me olha mais nos olhos. O que houve com a nossa camaradagem?

– Estou concentrada no treino.

– Isso nunca a impediu antes.

– Mas o que você quer de mim? Que eu aja como uma garota comum, dando risada de banalidades e me distraindo quando na verdade eu deveria estar dando o melhor de mim num treinamento que decidirá minha vida? – ela explodiu, jogando suas frustrações em cima dele.

Sander pareceu chateado.

– Achei que aquele beijo não iria interferir em nossa amizade. Pelo menos, foi o que você prometeu.

Willa fechou a cara.

– Somos amigos.

– Não é o que está parecendo.

– Sander, eu preciso me concentrar! Preciso me dedicar a isso, como já lhe disse. Não tenho tempo para ficar brincando.

Sander abandonou sua posição ofensiva de combate e se aproximou, encarando-a nos olhos.

– Mentirosa.

Willa recuou, perturbada com aquela invasão em seu espaço pessoal.

– O que aconteceu entre você e Alline? – ele perguntou. – O que ela disse a você?

– Por que acha que ela disse alguma coisa?

– Porque está na cara que há algo errado entre vocês duas.

– Impressão sua.

– Willa… – ele tocou seu rosto, numa tentativa suave de atrair seu olhar.

– Não toque em mim. – ela recuou. – É melhor não fazer isso.

Sander endureceu as feições.

– Ótimo!

– Sinto muito.

Ele se afastou, deixando transparecer sua frustração.

– Vamos continuar com o treino.

– Sander…

– Mantenha a posição que lhe ensinei. – ele a cortou. – Vamos tentar novos golpes.

– Desculpe. Eu fui rude com você, não deveria ter feito isso. É só…

– Você não precisa se explicar. Já entendi seu ponto de vista.

– Não entendeu não. – ela o encarou com firmeza.

– Vou deixa-la em paz, Willa. Não faço parte do grupo de homens insistentes que não aceitam um não como resposta. Sei respeitar os limites dos outros.

Willa não pôde evitar o sorriso triste que se espalhou em seu rosto.

– Justo quando eu penso que você não pode mais me impressionar…

Sander se manteve impassível, apenas observando-a.

– Sinto muito. – Willa repetiu. – Você está entendendo as coisas de forma errada. E que idiota eu por não deixa-lo pensar exatamente como está pensando. Mas a verdade é que eu não sou assim. Gosto de deixar as coisas muito clara às pessoas.

Ela fez uma pausa.

– Acho melhor que tenhamos uma relação estritamente profissional porque fui avisada que qualquer outro tipo de comportamento seria inapropriado.

Sander franziu o cenho.

– O que está dizendo?

– Sua madrasta viu nosso beijo.

– E daí?

– E daí que ela me instruiu a me manter afastada da sua cama.

Sander estreitou os olhos.

– Está de brincadeira!

Mas os olhos de Willa não demonstravam qualquer traço de brincadeira.

– Alline disse isso a você?

– Sim.

– Eu não acredito! No que ela estava pensando?

– Estava pensando na mesma coisa que eu. Não é uma boa ideia ficarmos tão próximos, acredite, pertencemos a um mundo diferente.

– Ah, não me venha com essa! Me surpreende que você tenha se afastado de mim só porque Alline mandou. Por acaso tem medo dela?

– Ela é a mulher do seu pai! Vocês pertencem a uma família mafiosa bastante respeitada por aqui. O que seu pai diria se soubesse que eu tenho algum tipo de interesse no filho dele?

– Não sei. Vamos perguntar! – ele a puxou na direção da porta.

Willa se soltou.

– Está louco?

– Nunca estive tão lúcido. Deixe de besteiras, Willa. Acaso acha que somos aqueles esnobes da alta sociedade? Somos mafiosos! Esse clichê de achar que não pode ter qualquer envolvimento comigo porque sou rico e você pobre é a maior babaquice!

– Não se trata de ser pobre ou rico. Trata-se de você ser o herdeiro de um mafioso e eu uma ex- escrava sexual e prostituta!

Sander recuou com as palavras dela. O assombro em seus olhos era evidente.

– Acaso acha que eu me importo com isso? Acha que eu a categorizo como uma prostituta?

– Eu sei o que eu fui. E ao que parece sua madrasta não aprova tal fato, ela deixou isso muito claro noite passada.

– Maldição, Willa! Sei que não escolheu este destino para você, é uma vítima! E ainda que houvesse escolhido, se eu gostasse de você como gosto ainda assim gostaria de ficar com você. Não somos babacas trajando ternos elegantes. Deixe de acreditar nas mentiras venenosas de Alline. Maldição! Não acredito que ela disse essas coisas a você.

– Ela está apenas protegendo a honra da família.

– Isso nada tem a ver com honra. – Sander disse e marchou até a porta da academia.

– Aonde vai? – Willa correu atrás dele.

– Resolver essa pequena questão. – disse ele, de mau humor.

– Não seja idiota! Não vai fazer nada disso.

– Sabe qual é a onda dos mafiosos? A gente nunca deixa que nos digam o que fazer. – Sander deu um sorrisinho e se desvencilhou de Willa, seguindo em frente.

 

Alline se deliciava com o sol da tarde na beira da piscina quando Sander apareceu, marchando furiosamente.

– Será que você poderia me explicar o que a faz pensar que pode decidir sobre minha vida amorosa?

Alline se ergueu da espreguiçadeira, levantando os óculos de sol e encarando o enteado. Aquela sua expressão de surpresa só serviu para irritá-lo mais.

– Não ouse dizer que não sabe do que eu estou falando. – Sander alertou.

– Eu só posso supor que a jovem Willa tenha lhe contado sobre o que conversamos noite passada. Sinto muito se isso lhe irritou, querido enteado. Eu estava sendo apenas sensata.

– Não. Você está sendo intrometida, maldosa e inconveniente.

Alline ergueu as sobrancelhas.

– Ah, por favor! Não se faça de inocente ou desentendida. Se Cherry não suporta esses seus momentos falsos de inocência, eu muito menos!

– Você está sendo rude.

– Assim como você foi rude quando insinuou que Willa era uma prostituta.

Ela voltou seus olhos para a garota calada.

– O que foi que ela lhe disse?

– A verdade. – Willa se pronunciou, enfrentando o olhar da mulher.

– E que verdade seria essa, Willa?

– Você não tem o direito de dizer às pessoas para se manterem afastadas de mim! – disse Sander, encarando a madrasta com aborrecimento. – Não sou seu filho e a minha vida não lhe diz respeito.

– A sua vida me diz respeito uma vez que faço parte desta família. E a Família é importante! Não pode se envolver com qualquer pessoa. E pelo que eu soube Willa mesmo o dispensou. Não desconte sua frustração em cima de mim.

– Você não tinha o direito de fazer ameaças a ela.

– Eu não a ameacei. Apenas disse que o melhor era ela ficar no lugar dela.

– E que lugar seria esse? – o rapaz estreitou os olhos.

– O de visita. – Alline encarou a menina. – Você é uma visita. Apenas uma menina que foi hospedada por bondade do meu marido. Está aqui para treinar, não para confraternizar com os homens desta casa.

Willa avançou, ofendida. Mas Sander a conteve.

– Cadela!

– Viu só? É uma selvagem.

– Cale-se! – Sander rebateu, zangado. – Você não tem direito algum de tratar um hóspede desta forma! Quem acha que é?

– Sou a esposa do seu pai. Querendo ou não é meu dever cuidar de pequenos dissabores que possam aborrecê-lo. Sinto muito se isso não o agrada. E sinto muito que eu a tenha ofendido novamente, jovem Willa. Mas vamos deixar as coisas bem claras por aqui. Você é uma ex-prostituta. Não serviria para nada além de sexo para meu enteado. E não ouse dizer que isso é mentira, Sander Von Kern! – seu olhar o silenciou. – O que eu fiz foi a penas evitar maiores dissabores. A menina está aqui para treinar, não para servir aos seus caprichos. Acredite, ela não me parece o tipo que queira se envolver apenas para ser usada, não é como as outras prostitutas conformadas. Ela não escolheu isso. Para quê quer fazê-la se apaixonar por você? Seria crueldade. E todo esse capricho serviria para nada além de magoá-la e provocar seu pai.

– Não preciso que você me defenda. – Willa disse.

– Não, você não precisa. Mas faço isso por mim mesma. Se eu fosse você, gostaria que alguém ficasse do meu lado.

– Você não está do meu lado.

– É o que acha, menina.

– Alline, você é perturbada. – Sander disse. – Muita pretensão a sua achar que sabe de minhas intenções para com Willa ou qualquer outra pessoa.

– Eu sempre sei. – ela deu um sorrisinho triste.

– É aí que você se engana!

Tomado pelo impulso, Sander agarrou o rosto de Willa e lhe tascou um beijo ardente.

– O que acontece entre mim e ela não é da sua conta! – ele disse para Alline, um tanto sem fôlego.

Willa lhe virou um tapa com força.

– Não me use para provar seus argumentos! Se for me beijar que seja por vontade e não para afrontar sua madrasta! – ela disse, furiosa, e saiu correndo.

Alline deu uma risadinha.

– Eu lhe disse que essa é uma mulher diferente.

Sander a ignorou, indo atrás de Willa.

A menina estava tão distraída com sua irritação que acabou esbarrando com Klaus no jardim. Ele a ajudou se levantar com uma risadinha dura.

– Mais cuidado por aí, menina.

– Sinto muito. – ela se desculpou.

– Tentando fugir do treinamento? – o escandinavo ergueu as sobrancelhas.

– De jeito nenhum. Estava voltando para a academia agora mesmo.

– Onde está Sander?

E ele apareceu correndo naquela direção. A expressão ansiosa se desfez assim que viu o pai.

– Ah, aí está você. – disse Klaus, adiantando-se. – Não os encontrei na academia. Por acaso estavam fugindo dos deveres?

– Houve apenas uma situação pendente que tive que resolver. Posso falar com Willa um momento antes de continuarmos?

Willa se empertigou.

– Acho melhor voltar para o treinamento. Não quero perder nenhum minuto.

– Eu insisto. – Sander disse.

– Estarei esperando na academia, Senhor Von Kern. –ela saiu apressada.

Klaus voltou seu olhar para o filho.

– O que está acontecendo aqui?

– Talvez você deva perguntar para a sua mulher. E faça o favor de dizer a ela que se ela ousar se intrometer na minha vida novamente, eu a colocarei no lugar ao qual pertence!

Sander saiu marchando em direção ao galpão usado como academia.

Irritado, Klaus o seguiu.

– Sander! Não seja insolente, garoto! O que está havendo?

Sander encontrou Willa se alongando.

– Willa, eu sinto muito. Não quis passar a ideia errada…

– Deixa isso para lá, Sander. Vamos nos concentrar no treinamento…

– O que está acontecendo aqui! – a voz de Klaus trovejou, interrompendo-os.

O patriarca da família os encarou com dureza.

– Nada. – Willa se apressou em dizer.

– Sua mulher disse à Willa que se mantivesse afastada de mim porque você não lidaria bem com o fato de eu me envolver como uma ex-prostituta. – Sander disse, ainda muito zangado.

Klaus estreitou os olhos, encarando os dois. Coitada da jovem Willa, ela parecia pálida e assustada, como se tivesse visto um fantasma! Olhava ansiosa para ele, esperando uma reação negativa e até mesmo explosiva.

-Ora, este é o grande problema? – ele perguntou. E então explodiu em uma risada alta.

– Não vejo motivo para graça. – Sander fez cara feia. – Controle sua mulher!

– Acaso tenho cara de quem manda ou desmanda nas mulheres desta casa?

– Alline precisa entender qual é o lugar dela. Não tem o direito de se meter na minha vida.

– E você é um tonto por dar ouvidos às tolices daquela mulher.

Klaus voltou seus olhos para Willa. A menina se encolheu.

– Pela forma como está encolhida eu só posso supor que está esperando que eu a expulse. – ele disse.

– Eu não quis faltar com respeito…

– E como é que faria isso? Apaixonando-se por meu filho? – ele deu uma risada amistosa. – Ora, menina. Tenho mais o que fazer para me preocupar com sentimentos adolescentes. É maior de idade, assim como Sander. Ambos sabem o que fazem. Não dê atenção às asneiras que minha mulher espalha. Ela é um tanto territorialista demais. No mínimo deve estar com ciúmes por haver outra mulher disputando atenção nesta casa.

– Duvido muito que seja isso. – Sander murmurou.

– O que quer dizer? – Klaus lançou um olhar pétreo ao filho.

– Sua esposa é invejosa.

– E não foi o que eu acabei de dizer?

Sander deu um meio sorriso, obrigando-se a concordar com o pai.

– Vamos deixar esta situação para trás.

– Parece-me uma excelente ideia. – Willa disse, baixinho. – Eu realmente não quero confusão.

– Na verdade, jovem Willa, eu deveria me desculpar por minha mulher tê-la ofendido de alguma forma. – Klaus começou. – Mas não farei isso. Ela mesma pedirá desculpas. E vou entender se não as aceitar.

– Isso não é necessário.

– Isso é absolutamente necessário. – seu tom de voz encerrou o assunto. – Agora se recomponham os dois! Teremos visita. Terminemos logo a sessão de treino. Depois vocês continuam a discutir por banalidades.

Willa não contestou, voltou seu foco imediatamente para seu professor e viu Sander fazer o mesmo.

Ótimo! Era por isso que ela estava ali.

 

Klaus a liberou quando o céu já estava alaranjado. Willa sentia dores nas pernas e nas costas, estava exausta. Ora, aquelas vitaminas não estavam ajudando como deviam. Sem dizer uma palavra, ela saiu pelo jardim, alongando os músculos para ver se a dor diminuía.

Sander a alcançou em apenas alguns passos.

– Willa…

– Nem vem. – ela o alertou. – Seu pai está logo ali atrás.

– Achei que ele já tivesse deixado bem claro que não se opõe…

– Eu me oponho.

– Desculpe. Eu não queria dar a impressão errada lá na piscina.

– Quem sabe da próxima vez que me beijar seja por vontade e não para afrontar outra pessoa.

– Eu a beijei porque tive vontade.

– Não foi o que pareceu.

– Não seja tão inflexível…

– Já chega, Sander. Esse assunto acabou.

– Não até que você me desculpe de verdade.

Willa abriu a boca para argumentar quando foram interrompidos por uma pequena discussão que acontecia na frente da mansão. Sander correu até lá, seguido por Willa e acabou por se deparar com uma cena cômica.

Uma senhora de cabelos platinados repreendia veemente um dos seguranças, apontando o dedo na cara do sujeito. O homem de quase dois metros de altura encarava a velhinha com pavor, assentindo com efusão a cada nova bronca.

Sander começou a rir, atraindo a atenção da velha.

A senhorinha voltou os olhos claros naquela direção com uma carranca. Seu rosto, embora cheio de rugas não era nem um pouco amistoso.

Bestemor[1]. – Sander disse, com carinho, aproximando-se da velha.

A mulher suavizou a expressão com um sorriso duro e abriu os braços para o neto.

Sander a abraçou com força, comemorando a presença daquela de quem ele mais gostava. Parecia uma agressão seu abraço apertado numa velhinha tão frágil. Mas ela não tinha nada de frágil!

A Bestemor da família se afastou do neto, olhando bem para ele.

– Você está maior. – ela disse naquela vozinha aguda. –Mais musculoso.

Pappa não pega leve comigo.

– Acho muito bom. Não se pode descuidar do físico, Barnebarnet mitt[2]. – a senhorinha disse e seus olhos se voltaram para Willa. – Ah, quem é a jovem adorável?

– Esta é Willa, Bestemor. Ela está treinando conosco. Willa, esta é a grande matriarca da família, Vovó Fridda.

Willa se adiantou, estendendo a mão para a velhinha. Seu aperto era firme, como imaginou.

– É um prazer, menina Willa. – Fridda disse, tentando soar amistosa. – Você pertence aos negócios da família?

– Oh, não. – Sander riu. – Ela é uma amiga de Cherry.

Tal afirmação pareceu empolgar a senhora.

– Ah, é amiga da minha Mona?

Bestemor, sabe que ela não gosta que a chamem assim. – Sander alertou.

Fridda o ignorou, focando os olhos na jovem de cabelos cor-de-rosa.

– Minha pequena Mona tem poucas amigas. É um prazer conhecer uma delas.

– O prazer foi meu, senhora. – Willa respondeu com timidez.

– Veio passar o fim de semana conosco? – Sander perguntou, iniciando uma conversa descontraída com a avó.

– Vim resolver alguns problemas repentinos. – a velhinha respondeu, torcendo os lábios.

– Ah, sim. –Sander compreendeu. – Não imaginei que viria de tão longe por causa disso.

– Alguns infortúnios andam rondando as portas de nossa família. É meu dever como matriarca colocar ordem nisso tudo.

– Cherry vai gostar de vê-la.

– Onde está ela? Onde está minha Mona?

– Talvez ela apareça mais tarde.

– Ótimo, ótimo. – Fridda sorriu, empolgada.

– Essas são suas malas? – Sander apontou para as três maletas de couro amontoadas na grama. – Vamos leva-las para cima, vou instalá-la em seu quarto…

– Não se atreva. – a velhinha lançou um olhar mortal ao neto. – Acha que não sou capaz de levar minha bagagem para cima?

Bestemor, sabe como os homens desta família são cavalheiros. Não seja teimosa.

– Eu já lhe disse que sou capaz de levar isso para cima!

– É muito pesado… – Willa disse.

O olhar que Fridda lhe lançou a calou de imediato. Ela se lembraria de não discutir com aquela mulher. Nunca. Pelos céus, aquela família era esquisita.

– Vamos, deixe de besteiras, Bestemor. – Sander disse e agachou-se para apanhar as malas.

A velhinha puxou uma pistola antiga e atirou no chão, poucos centímetros do neto. Sander deu um pulo, soltando um palavrão em outra língua.

– Mas que criança boca suja. – a velhinha resmungou, olhando feio para ele.

– Ficou maluca? Podia ter atirado em mim! – Sander parecia indignado.

– Minha mira é perfeita. – Fridda disse com satisfação, guardando a pistola de volta no casaco. – Agora, se tocar nestas malas novamente vou lhe atirar no joelho. Garanto que dói pra caramba.

Willa deu uma risadinha, divertindo-se com aquilo.

Sander olhou feio para ela. Afastou-se das malas da avó e permitiu que ela mesmo as levasse até seus aposentos. Maldição, não se podia brigar com as mulheres Von Kern, ele sempre acabava perdendo… Ou com uma bala no traseiro.

Klaus os recebeu no hall, na companhia de Alline.

Fridda cumprimentou o filho numa mensura antiga e o abraçou, contente em revê-lo.

– Fez uma boa viagem, Mor[3]?

– Impossível não se divertir quando tenho um jatinho particular ao qual posso pilotar. – Fridda sorriu.

Ela lançou um olhar inexpressivo para Alline, acenando uma vez com respeito. E então voltou sua atenção novamente ao filho.

– Temos assuntos a tratar.

– Temos sim. – Klaus parecia preocupado. – Talvez queira ir descansar um pouco. Teremos tempo para resolver os problemas mais tarde.

– Acaso parece que preciso descansar? – ela ergueu as sobrancelhas platinadas.

Klaus não disfarçou a risada.

– Ora, Mor, você é uma mulher de fibra.

– Como todas as mulheres desta família.

– Talvez a senhora queira esperar pela ceia. – Alline começou, na tentativa de ser prestativa.

– Os negócios da família não devem esperar. – Fridda soou seca. – Não vim de tão longe para comer lagostas!

– Tudo bem. – Sander interferiu. – Vamos nos reunir na sala de lazer. Relaxem um pouco. Bestemor, a senhora me parece ávida por uma taça de licor.

– Seria uma maravilha, Barnebarnet mitt.

Eles se dirigiram às salas enormes da mansão, escolhendo uma de seu gosto.

Willa sentiu-se deixada para trás e optou por esperar Cherry ali mesmo no hall. Não importava quanto tempo tivesse que esperar.

– Venha, jovem Willa. – Fridda a chamou.

– Hã, eu não acho uma boa ideia… – Alline começou. – Trataremos de negócios da família. Não acho…

– Cale-se! – Fridda disse com rispidez. – A menina vem junto. Não há motivos para achar que é uma espiã, certo?

– Nem um pouco. – Sander disse.

– Então qual o problema de ela participar? – a senhora insistiu. – É uma amiga da minha Mona, então é bem vinda a esta família.

– Ah, tudo bem. – Willa se apressou em dizer. – Realmente não ligo de ficar esperando por aqui. Gosto de apreciar o jardim.

– Não se preocupe, querida, eu cuido de você. – Fridda deu uma piscadinha.

Sander riu.

– Minha avó gostou de você. – ele sussurrou á Willa conforme eles seguiam pela Sala.

 

*–* *–*

Cherry terminava de se armar quando Halle a abordou no hall do apartamento. Ele também estava armado, o cabo da Si Sauer aparecendo no coldre do casaco.

– Vamos mesmo fazer isso?

– Preciso falar com meu tio.

– E quer mesmo que eu vá junto? – Halle ergueu as sobrancelhas.

– Não era você quem queria fazer uma visita à mansão Von Kern?

– Eu estava brincando.

– Ah, então agora amarelou?

– Não seja boba. Só quero que tenha certeza do que está fazendo.

Cherry deu uma risadinha.

– Não se preocupe, Halle, não vou deixar ninguém te despedaçar.

– Agradeço por isso. – ele lançou um olhar engraçado à ela.

Cherry revirou os olhos e o puxou para o elevador.

 

A mansão estava silenciosa quando eles chegaram. Exceto pelos seguranças, não havia ninguém á vista. Cherry estacionou o Audi R8 ao lado do Escalade de Willa e desceu com Halle. Os seguranças lançaram um olhar retesado ao acompanhante de Cherry.

– Relaxa, Bob. Ele está comigo. – ela disse para tranquiliza-lo.

– A senhora me desculpe, mas não quero me envolver em problemas por deixa-lo entrar. – o segurança disse, o mais respeitosamente que pôde.

– Não terá problema algum. Halle está comigo. Viemos discutir um assunto importante, eu não o teria trazido se não fosse urgente.

Halle teve o bom senso de não fazer nenhuma piada, permaneceu calado apenas observando o olhar desconfiado e apreensivo do segurança.

– A senhora Fridda está aí. – o homem disse, sugestivamente.

– Merda! – Cherry deixou escapar.

– Não quero problemas, senhorita Vicious.

– E não terá, Bob. Pode deixar comigo. Assumo total responsabilidade pela presença dele.

O segurança não ousou contestá-la, abriu espaço para que pudessem passar.

– É… Acho bom você se preparar. – Cherry disse à Halle, quando atravessavam o hall elegante.

– Por quê?

– Digamos que a matriarca desta família está em casa hoje.

– Ah, ela não gosta e caçadores de recompensas. – Halle deu um sorrisinho.

– Ela não só não gosta como passou anos de sua vida caçando-os.

Halle congelou.

– Eu disse que não seria uma visita agradável.

– Você sabia que ela estaria aqui?

– Não. Uma falta de sorte. Mas vamos descobrir o que está acontecendo e vencer logo esse impasse.

Antes que Halle pudesse impedi-la, Cherry abriu as portas duplas da sala de lazer.

E foi aí que a confusão se fez.

 

Estavam todos reunidos no longo e confortável sofá felpudo que ocupava a maior parte daquela sala. Klaus e Alline se sentavam juntos, assim como Willa e Sander, deixando Fridda no meio para poderem ouvir o que ela tinha a dizer.

A velhinha se vestia com roupas pesadas, de couro rústico. A calça era clara, assim como a blusa de gola alta, mas o casaco de aviador era de um marrom escuro, dando um ar de faroeste à pobre senhora. Tão logo a porta se abriu, seus olhos astutos foram atraídos para os visitantes.

Ela deu um pulo do sofá, assim como Klaus, ultrajados.

– Mas o que significa isso? – gritou o tio.

– Klaus, eu não o traria se não fosse urgente… – Cherry começou, mas o som de uma arma sendo engatilhada a interrompeu.

Fridda tinha sua pistola antiga apontada diretamente para Halle e sua expressão dura dizia que ela não hesitaria em derramar sangue no carpete.

– É bom ter uma boa explicação para isso. – disse a velha.

Halle a fitava estupefato, mas não ousou dizer sequer uma palavra.

Bestemor, ele está aqui para ajudar. – Cherry disse.

– Um caçador de recompensas?

– Halle não está aqui para reunir informações.

– Duvido muito disso. – Klaus rosnou.

– Sabemos de informações importantes, por isso viemos. Ele veio para ajudar.

– Não vejo como um caçador de recompensas seria útil. – Fridda disse e seus lábios se retorceram em desagrado. – Odeio esses miseráveis.

– Ah, Cherry… Você foi longe demais desta vez. – Alline comentou, num aparte venenoso.

– Tudo bem, vamos nos acalmar! – Sander saiu de seu lugar confortável e se postou entre a garrucha e o caçador.

– Saia da frente, Barnebarnet mitt.

Bestemor, acha mesmo que Cherry traria um traidor á esta casa?

– Só se fosse uma louca. Não pense que me convencerá a deixa-lo respirando. É uma afronta ter um caçador de recompensas em minha casa!

– Não se atenha a títulos. Ele está com Cherry, não é imbecil de tentar traí-la, não é mesmo caçador? – Sander falou diretamente com ele.

Halle sustentou o olhar do rapaz.

– Pode ter certeza. Não estou aqui para tentar nenhuma gracinha. Na verdade, eu vim ajudar.

– Não preciso da ajuda de um caçador! – Fridda cuspiu.

Bestemor, seja flexível, por favor. – Sander pediu.

– Se ela for flexível, eu não serei. – Klaus ameaçou.

– Vocês não vão matar ninguém! – Cherry perdeu a paciência, encarando a todos ali com um olhar fulminante. – Podem não gostar do fato dele ser um caçador de recompensas, mas terão de aceitar que ele está trabalhando comigo. Se forem atirar terão que entrar na porrada comigo! E não pense que terei pena de você por ser uma velha. – ela disse, olhando para a avó.

Fridda sorriu, suavizando a expressão por apenas alguns minutos.

– Você é um orgulho para a família, Mona.

– Meu nome é Cherry.

– Você não vai privar uma velha de chamar a neta como quiser, não é mesmo?

– Considerando o fato de que você está prestes a atirar no namorado dela, eu acho que vai sim. – Willa disse, muito discretamente, e se postou ao lado de Halle no meio de toda aquela confusão.

Os olhos de Fridda se estreitaram.

– Está comprometida com este caçador? – o ceticismo estava presente em sua voz.

– Não estou não. – Cherry lançou um olhar zangado para Willa.

– Está sim. – a menina insistiu.

– Com quem Cherry dorme não é assunto nosso, não é mesmo? – Sander tentou mais uma vez amenizar a tensão. – Por que não abaixamos as armas e temos uma conversa civilizada? Cherry disse que tinha um assunto urgente para tratar…

– Eu tenho. – Cherry encarou o tio. – Precisamos conversar.

– Tire o caçador daqui. – Klaus ordenou.

– Halle fica. – Cherry o enfrentou.

Sander revirou os olhos, puxando a garrucha da mão da avó com agilidade. Ele deu um tiro para cima, calando a discussão.

– Chega! O caçador fica, Cherry fica e o resto da família também. Vamos nos sentar e conversar como pessoas e não ficar brigando como leões.

– Como se atreve? – Fridda lhe deu um puxão de orelha, tentando apanhar sua arma de volta.

– Depois que acalmar os ânimos eu a devolvo á senhora.

– Não me faça lhe dar uma surra, seu moleque!

– Vamos ouvir o que o caçador e Cherry têm a dizer. Depois, se quiser, pode matar ele. – Sander sugeriu.

– Parece muito bom para mim. – Halle disse, por sua vez.

– Uma ideia razoável. – Fridda concordou.

Com um suspiro, Sander devolveu-lhe a garrucha com a promessa de que ela não tornaria a mirar o caçador até que a reunião estivesse encerrada. Klaus não pareceu gostar da ideia, por ele matava aquele atrevido imediatamente. Mas acabou se sentando de volta ao lado da esposa indignada.

Cherry se sentou ao lado de Halle, mantendo-o o mais longe que pode dos outros.

– Temos um sério problema. – começou ela. – Parece estar havendo algum tipo de confraternização entre as máfias. Lucien Fournier ofereceu uma reunião bastante suspeita noite passada, convocou vários mafiosos e organizações poderosas, incluindo a Tríade. Achamos que estão planejando alguma coisa.

– Eu sei. – Klaus disse, com um suspiro. – Fui convidado a esta reunião.

– Você o quê? – Cherry o encarou.

– Sabemos dos planos do francês, minha querida. – Fridda disse. – Acha que vim apenas para transportar drogas?

– Você transportou drogas? – Willa engasgou.

As pessoas a ignoraram, focando a atenção no que era discutido.

– Você foi à reunião? – Cherry perguntou ao tio.

– Eu e Sander. – Klaus assentiu.

– Merda! Eu não o vi por entre a multidão.

– Acha que sou estúpido? Cheguei meia hora depois do início. Não confio naquele francês.

– O búlgaro esteve lá? – os olhos de Cherry dilataram.

– Ele não estaria vivo se eu houvesse cruzado com ele.

– Foi uma boa ideia você não ter atirado no albanês. – Halle comentou.

– Ah, foi você quem deu aquele trato em Besnik Hoxha? – Sander riu, aprovando.

– Poderia ter me avisado que estava na reunião. – Cherry disse ao tio, repreendendo-o.

– Eu sequer sabia que você estava atrás do francês!

– Tínhamos um assunto a tratar.

– Nós temos um assunto a tratar. – Fridda a corrigiu. – Seu tio me ligou informando do convite desta reunião alguns dias atrás. Eu sabia que Lucien estava aprontando alguma coisa. O que ele podia querer com os Von Kern? Sabe, a reputação dele é extensa na Europa. Fiquei desconfiada e pelo visto fiz muito bem em vir.

– O que ele quer? Qual o objetivo da reunião? – Cherry quis saber.

– Poder. – Klaus disse. – Lucien está atrás de mais poder do que já tem. Confesso que só fui a tal reunião porque achei interessante o convite. Esse francês está expandindo seu território faz tempo, chegou a interferir em meus negócios por algum tempo. Eu estava de olho nele. Nem por um momento me deixei convencer que era apenas um falsificador astuto. Lucien sempre foi esperto. E quando o convite chegou, tive certeza dos planos dele.

– Ainda não acredito na audácia daquele francês. – Sander murmurou.

– Que tipo de poder você se refere? – Cherry perguntou.

– Ele quer reunir forçar. Conquistar mais territórios através de uma proposta sedutora. Lucien se acha muito esperto por ter passado a perna em vários traficantes, ele acha que pode controlar a máfia.

– E o que a tríade acha disso? – Halle perguntou, interessado no rumo da história.

– Por que o interesse, caçador de recompensas? Pensa em passar as informações adiante? Entregar o plano de Fournier á polícia em troca de dinheiro? – Alline foi ácida.

Halle voltou seus olhos para ela.

– Depende. Que utilidade ele tem para vocês?

Fridda soltou uma risadinha diabólica.

– Ora, se não fosse um caçador eu até poderia gostar de você.

– Não devemos bater de frente com o francês. – Alline disse.

– E devemos deixar que ele tente dominar a máfia? – Cherry rebateu.

– Não acha que um falsificador barato teria esse poder. Mesmo que ele esteja conquistando poder, não seria fácil controlar ou dominar a máfia. Seja ela russa, albanesa ou escandinava.

– Lucien é um homem esperto. Se ele se atreveu a reunir todos os criminosos do poder para tentar uma abordagem como essa, não duvido que tenha bons argumentos e várias cartas na manga. – disse Halle.

– O caçador está certo. – Klaus falou. – Lucien não está de brincadeira. Certamente ele tem um plano para tentar conquistar mais espaço e território. O que ele propôs na reunião é um tanto insano. Imagine! Unir forças a um lunático em troca de poder e fama! Como se por si próprio, nós não tivéssemos poder e fama o suficiente.

– O que mais ele ofereceu? – o olhar de Cherry era astuto.

Klaus se mexeu, desconfortável.

– Digamos que a proposta dele consiste em um programa inovador bastante cobiçado por algumas organizações.

– Que tipo de programa?

Delta L I

– Puta merda! – Halle soltou.

– O que foi? Sabe alguma coisa a respeito disso? – Cherry perguntou.

Halle se empertigou.

– Tenho um amigo no exército russo. Há algum tempo atrás ele foi designado a cuidar da segurança de um campo cientista ao norte de Kiev. O nome da unidade era Delta L I. É a fabricação de medicamentos e testes confidenciais. Estavam tentando criar alguma coisa. E pelo visto conseguiram.

– O que é?

– O que resultou daquelas experiências foram armas bastante poderosas para destruir e degenerar pessoas. – Klaus disse. – Algumas dessas drogas são bastante cobiçadas, mas pouco encontradas. O exército russo fez de tudo para destruir aquele laboratório, mas algumas coisas foram roubadas internamente. Poucas pessoas sabem disso, o governo de Kiev abafou o caso e silenciou qualquer tipo de testemunha. Não queriam aterrorizar a população com possíveis ataques.

– Uma das drogas resultada das pesquisas consiste em um pequeno líquido esverdeado chamado Sílica. – Halle continuou. – Essa porcaria é capaz de deixar uma pessoa louca e fazê-la explodir seu cérebro com uma arma.

– Deus do céu! – Willa se assombrou.

– O que aquele imbecil pretende com isso? – Cherry disse, por sua vez.

– O que todos querem. Poder. – Klaus disse. – Imagine você ser capaz de eliminar pessoas ou viciá-las com drogas super mais potentes do que as que existem no mercado. É uma utopia. Não faltaria cliente para nenhuma organização e Lucien manteria o trono, por assim dizer. Ele seria o soberano, o que ostenta todo esse poder.

– Seriamos apenas seus empregados e distribuidores.

– E vocês acham mesmo que Lucien Fournier tem essas drogas em seu poder?

– Não, querida. – Fridda disse. – Ele tem o laboratório todo.

– Isso é loucura! Como ele conseguiria uma coisa desse porte?

– Lucien é um homem esperto. – Klaus disse.

– Todos somos homens espertos. – Cherry o corrigiu.

– Mas Lucien é mais.

– Meu palpite? Ele deve ter entrado em contato com algum grande traficante russo, nada relacionado á máfia. Juntos eles tramaram algum tipo de plano sórdido para roubar o laboratório antes que a equipe do exército fizesse a limpeza. Um grande golpe de sorte. – Halle falou.

– Eu me recuso a acreditar nessa babaquice! – Cherry olhou feio para as pessoas na sala.

– O próprio Lucien nos deu uma pequena amostra de seu poder. – Sander disse.

Cherry voltou seus olhos para ele.

– O que quer dizer com isso?

– Que ele nos mostrou do que a Sílica é capaz. Ao vivo. – Klaus disse. – Uma cena difícil de se esquecer.

– Merda! E o que acontece agora? – ela olhou diretamente para a avó.

A velhinha devolveu um sorriso diabólico.

– Nós o matamos.

– Não! – Alline se meteu. – De jeito nenhum. Não vamos nos voltar contra uma imensidão de mafiosos. O que acha que vai nos acontecer?

– Querida Alline, sua opinião se faz desnecessária.

– Fridda, pense bem. Não vai querer atrair os outros para nosso encalço! Somos poderosos e letais, mas não somos imortais. Uma organização como a que Lucien está reunindo poderia ser nossa ruína.

– Alline está certa. – Klaus se pronunciou. – Devemos pensar em outra abordagem.

– Quem aceitou a oferta. – Halle perguntou.

– Três ou quatro traficantes de área menor, os russos e os albaneses.

– Então a tríade ficou de fora.

– Assim como a Yakuza e outras organizações criminosas. – Sander assentiu.

– Por que está com esse olhar? Acha que a tríade viria em nosso favor? – Alline deu uma risadinha sarcástica. – O melhor a se fazer é aceitar a oferta e saber lidar com o francês. Observar o inimigo enquanto ele dispõe as peças no tabuleiro de xadrez.

– Não quero me envolver com esse tipo de coisa terrorista. – disse Klaus.

– Nossa família não é desse tipo. – Fridda concordou. – Não somos bonzinhos, mas não nos envolvemos nesse lixo!

– E o que vai fazer então, velha? – Alline a olhou nos olhos. – Entregar sua família ao massacre?

– Ah, isso não vai chegar a um massacre. E se houver guerra posso lhe garantir que o sangue derramado será do outro lado.

– Dê-me dois dias. – Halle pediu, encarando-os. – Posso buscar informações com esse meu amigo russo. Podemos arquitetar um plano plausível que não prejudicará sua família nem tampouco explodirá uma guerra.

– E o que vai fazer por nós, caçador? – Fridda o encarou.

Halle deu um sorrisinho.

– Sei que não confia em mim, mulher. – ele não se atreveu a chama-la de velha. – E não deve confiar mesmo. Sou o que sou, um caçador ardiloso e traiçoeiro. Mas a minha pele também está na reta. Digamos que o que eu fizer será para salvar meu próprio traseiro.

– Parece-me uma ideia a ser considerada. – Klaus admitiu.

– O que pretende? – Cherry perguntou á Halle.

– Vamos ver como podemos contornar toda essa situação. Se poucos aceitaram a oferta do francês isso significa que os que não aceitaram não vão se render ao domínio dele.

– Mas você não acha que Lucien pode ser perigoso com todo esse poder em mãos?

– Não se pegarmos esse poder antes dele.

– O que têm em mente, Caçador? – Fridda indagou.

– Dê-me dois dias.

– Dois dias e nada mais.

– Senhora, foi um prazer fazer negócios com você. – Halle deu uma piscadinha para ela.

– Se ousar nos trair, eu arranco suas tripas, garotão.

Sander pareceu animado com aquela parceria, fez questão de exibir sua satisfação.

– Assunto encerrado por hoje. – Fridda concluiu a reunião. – Agora vamos falar sobre um outro assunto pendente…

– Só um momento. – Cherry interrompeu. – Preciso falar a sós com Klaus.

Ao não obter negação, Klaus a seguiu pelo corredor até seu escritório particular. Cherry se sentou á vontade na poltrona de veludo do tio e se apossou dos computadores.

– Preciso usar um dos seus sistemas privados. – ela disse.

– E desde quando precisa de permissão?

– Nesse caso eu preciso. – ela olhou nos olhos do tio. – Trata-se de Bóris.

– Achou ele?

Cherry assentiu, digitando alguma coisa em um dos computadores de alta tecnologia. Os aparelhos emitiam alguns “bips” enquanto ela procurava pelo que queria.

– Eu implantei um rastreador nele. Preciso usar seu sistema para ficar de olho.

– Você fez o que? – Klaus se aproximou do computador.

Ali estava, um pontinho negro no meio da tela, indicando a localização exata do alvo. O programa privado contava com imagens de satélites especiais que captavam não apenas o sinal do rastreador como também a imagem interna de onde ele se encontrava.

Cherry podia ver claramente o pontinho negro numa suíte residencial de um dos melhores hotéis de New York.

– Preciso que prometa não se meter nisso. – disse Cherry, fitando o tio com franqueza.

Klaus correspondeu aquele olhar firme.

– Eu a treinei e eduquei para ser forte. Esta é sua vingança, não vou interferir.

Cherry assentiu, verdadeiramente agradecida.

– Obrigada.

Klaus fez uma pequena pausa, observando-a instalar o sistema em seu celular.

– Esse caçador de recompensas… – começou ele. – Ele a está ajudando?

– Halle me ajuda sempre que preciso, em diversas situações. Foi ele quem me ajudou a sair do galpão nojento daqueles russos. Também foi ele quem resgatou Willa e eu da Fun House.

– Parece uma relação interessante.

– Não é uma relação. – Cherry encarou o tio. – Somos como uma dupla explosiva. Funcionamos muito bem, juntos. – ela fez uma pequena pausa. – E espero sinceramente que vocês não decidam mata-lo hoje.

Klaus riu.

– Acho que ele se mostrou útil afinal.

– Deixe essa situação de Lucien conosco. Concentre-se apenas nos problemas que já tem.

Num gesto nada convencional, Cherry afagou o ombro do tio. Aquele era o único gesto de afeto que ela permitia demonstrar para com ele. Klaus sorriu uma vez com suavidade e lhe deu um beijo na testa.

– Tome cuidado, Mona.

Cherry lançou a ele um olhar aborrecido, mas que durou apenas alguns segundos.

– Vou partir agora. Halle e eu temos trabalhos para esta noite.

– Você é uma boa garota, Cherry.

– Ora, não me venha com sentimentalismo. – ela fingiu irritação.

– Na verdade estou furioso com você. – disse Klaus, ocupando seu lugar na poltrona de veludo. – Furioso por ter destruído meu Porche. E por ter trazido um caçador de recompensas à esta casa.

Cherry deu um sorrisinho.

– Você vai superar.

Ela o deixou sozinho.

 

Fridda foi insistente quanto à presença de Willa naquela casa, ressaltando o quanto havia gostado da menina e a fazendo prometer que voltaria mais vezes para tomar chá com ela. A jovem garantiu que todos os dias chegava cedo para o treinamento e que seria um prazer dividir as trades com Fridda. Eles se despediram e partiram.

A noite estava apenas começando para Cherry e Halle. Teriam trabalho o suficiente para preencher toda a madrugada. Ela estava abrindo a porta do apartamento, quando seu celular tocou.

– Olá, franguinha. – a voz de Meera foi bem vinda e resultou em sorriso nos lábios de Cherry.

 – Mercenária.

 – Aposto como estava se perguntando quando eu ligaria de volta.

 – Com toda certeza. Temos um trato.

 – Ah, eu não me esqueceria disso. É por causa do nosso acordo que estou ligando. Devo dizer o quanto esse país é detestável? Odeio a França! – ela resmungou.

– Deveria ter pensado nisso antes de se oferecer a ir para aí.

O que posso dizer? Sou muito prestativa.

 – O que tem para mim, Meera. Descobriu alguma coisa útil além do seu ódio pela França?

 – Eu descobri sim… E talvez hoje seja seu dia de sorte.

Cherry a ouviu atentamente.

O nome do benfeitor que acolheu e enriqueceu Vedrana é Lucien Fournier. Isso lhe soa familiar? Parece que o falsificador que conhece tem muito mais a ver com isso do que você imagina. Se tem alguém que conhece a nova identidade de Vedrana, esse alguém é ele.

Quando terminou de ouvir, Cherry teve certeza de que caçaria aquele Francês.

O restaurante Illustrare era um lugar extremamente agradável.

Iluminado por vários candelabros acobreados, o espaço amplo e rústico fazia qualquer outro restaurante naquela região parecer desleixado. A decoração era impecável, as mesas de cristal adornadas com toalhas de cetim e um arranjo de flores azuis.

Os garçons vestiam-se de vermelho e preto, o uniforme elegante e igualmente impecável. Traziam sempre uma badeja de prata e seu bloquinho de anotações, comportando-se como verdadeiros fidalgos.

A recepcionista era muito bonita, ruiva, pele levemente sardenta e os olhos amendoados. Usava um vestido negro de gala e parecia tratar todos os clientes de forma simpática e polida. Seu sorriso era extremamente afetuoso.

Cherry chegou um pouco mais cedo, na esperança de sondar o território. Para aquela noite especial optou por um vestido de corpete negro que sustentava seu busto com ousadia. A saia do vestido era vermelha e de um tecido leve, uma pequena abertura até a coxa, onde mantinha uma adaga de rubi presa pela cinta liga. Seus cabelos claros estavam presos num coque bem elaborado, expondo a tatuagem tribal no pescoço. Mas ninguém pareceu notar suas tatuagens quando entrou – o que era ótimo! Lugares luxuosos como aquele costumavam espalhar uma política de preconceito.

Ela sorriu para a recepcionista, reservando uma mesa no térreo. Uma mesa afastada lhe conferiria uma boa visão do restaurante e seus clientes. A bela ruiva lhe acompanhou até a mesa desejada e a deixou ali, com um sorriso elegante.

Cherry se sentou, apreciando a decoração e a vista. O térreo era um espaço amplo e aberto, decorado com flores, candelabros e cristais. Dava para ver a lua dali de cima, uma paisagem e tanto! Havia poucas pessoas, uns dois casais e alguns executivos espalhados pelas várias mesinhas.

Ah, mas a mesa 86 estava vazia. Por enquanto.

Cherry deu um sorrisinho, apoiando sua bolsinha de lantejoulas em cima da mesa. Ela apanhou um celular descartável e digitou alguma coisa.

 – Onde você está? – a voz de Halle lhe chegou apreensiva.

 – No térreo. – ela respondeu, sossegada.

 – Eu estou no prédio da esquina, num dos quartos. Dá para enxergar tudo daqui de cima.

– Ótimo. Fique atento. Ele pode chegar a qualquer momento.

 – Tem certeza de que quer fazer isso?

 – Está mesmo me perguntando isso? – Cherry ergueu a sobrancelhas em direção à janela do prédio onde Halle se encontrava. Sabia que ele podia vê-la.

Ele deu uma risadinha.

 – Tome cuidado, sua louca. Qualquer coisa estou a posto.

 – Me bipe quando o avistar. – ela disse e desligou.

Cherry guardou o celular na bolsa e se limitou a pedir um vinho.

Halle havia insistido para ir junto, convencendo-a de que seria útil. Aquela definitivamente não era uma grande ideia, mas ela acabou cedendo. Só esperava que o idiota não ferrasse seus planos. Havia aguardado por aquela noite ansiosamente. E que Deus a ajudasse, se Halle fodesse tudo, enfiaria uma bala no saco dele!

Cinco minutos depois, uma garçonete voltou com sua bebida, depositando a taça com elegância na mesa. Cherry bebericou o vinho, apreciando o sabor doce e observando o movimento ao seu redor com maestria. Seus olhos eram atentos como os de um predador e logo focaram um grupo renomado que entrava no restaurante naquele exato momento.

Eram quatro homens elegantemente vestidos, os ternos caros davam a entender que tinham dinheiro para esbanjar à vontade. Três deles estavam armados, portando pistolas com silenciadores no coldre discreto do terno. Uma caçadora notava isso sem grandes dificuldades. O único naquele grupo que parecia além de suspeitas era o homem robusto usando o casaco de pele no centro daquele pequeno grupo. Com as feições rústicas, cavanhaque escuro e cabelos arrumados a base de gel, aquele homem era um perfeito cavalheiro sofisticado.

Bóris Petrov.

Cherry não conteve o sorriso diabólico que se espalhou por seu rosto.

Do outro lado do restaurante, Halle ajustou o rifle, apoiando-o no espaço amplo da janela e mirando naquela direção. Seu dedo deslizou até o gatilho, pronto para puxá-lo caso precisasse. Os olhos atentos à visão exata que a lente da arma lhe proporcionava. Nenhuma parte de seu belo rosto era amistoso.

Cherry cruzou as pernas sensualmente e voltou à degustar sua bebida. Sempre atenta ao movimento naquela mesa um tanto afastada, estudando os homens ao redor de sua presa. Não seria tão difícil chegar nele, afinal de contas. Se aqueles capangas fossem tão babacas quanto os que Bóris mandara matar Halle, ela estava feita.

Mais um sorrisinho presunçoso escapou.

Uma música elegante começou a tocar na intenção de alegrar o ambiente clássico e lá estavam as dançarinas, trajando belos vestidos de gala e bailando no espaço amplo entre as mesas.

Bóris gostava delas, não é mesmo? A julgar pela forma como o búlgaro se aprumou na cadeira e passou a observar as belas mulheres jovens, ele ainda apreciava a dança clássica. Aquele sorriso babaca em seu rosto irritava a caçadora profundamente.

Ah, mas nada com que ela não pudesse lidar. A adrenalina corria solta em suas veias, instigando-a a um momento raro de euforia. Estava ansiosa por começar seus planos para aquela noite.

O búlgaro desviou os olhos das dançarinas, comentando alguma coisa com seus amigos. Seu olhar passou para o relógio de bolso que ele carregava e seu cenho se franziu, aparentando preocupação.

Ele estava à espera de alguém.

Bom, talvez Cherry pudesse ajuda-lo quanto àquilo.

Ela se levantou da mesa com elegância, deixando a taça de vinho para trás. Seu caminhar era sensual, os quadris remexendo-se numa dança tentadora. Passou pelas mesas no meio do restaurante, ignorando todas elas, até chegar á 86.

Os capangas ergueram o olhar quando ela se aproximou, não contendo o deslumbramento. Ah, com certeza eles não faziam ideia de quem era a dama vestida de vermelho ou certamente já teria pulado dos assentos e apontado as armas para ela. Cherry se aproveitou daquela ignorância, invadiu o espaço privado dos colegas e colocou-se sob o campo de visão de Bóris. Seus olhos se encontraram numa fração de segundos e o búlgaro congelou.

Cherry sorriu.

– Procurando por alguém?

Bóris recuou, arrastando a cadeira num barulho deselegante. Ele apontou uma pistola diretamente para o pescoço dela, mantendo a arma discreta aos olhos dos clientes no restaurante.

Isso pareceu alertar seus capangas, pois eles fizeram o mesmo.

A resposta de Cherry foi apenas outro sorriso diabólico de arrepiar os cabelos. Ela pousou a mão na pistola que pressionava seu pescoço, abaixando-a.

– Não há motivos para ser selvagem, búlgaro.

Ela lançou um olhar significativo aos capangas. Eles abaixaram as armas.

Inabalável, a assassina voltou seus olhos para sua presa. Ah, como fora delicioso ver aquele olhar perplexo no rosto do búlgaro! Ele parecia petrificado, como se houvesse chegado à beira de um precipício e não tivesse outra saída a não ser saltar. Oh, sim, ela era o anjo da morte que viera leva-lo para o inferno!

– Agora que a selvageria foi mascarada, por que não dançamos? Soube que você aprecia as dançarinas. – ela caminhou com sensualidade até o meio do térreo, atraindo-o com seus quadris. – Por que não uma música mais apropriada? Uma dança mais envolvente. – ela riu. – Tango, talvez? – seu olhar passou à uma garçonete que desfilava com uma bandeja.

Embaraçada, a moça fez um pequeno gesto para a orquestra e então a música sensual preencheu o térreo, aquecendo o coração das pessoas numa promessa devassa.

Cherry deu um giro gracioso e uma pequena rebolada, expondo sua perna através da abertura lateral do vestido num convite irrecusável. Seus olhos encontraram os do búlgaro com intensidade e ela fez um gesto com os dedos, chamando-o.

A expressão perplexa de Bóris Petrov se alterou, dando lugar à malícia. Ele pareceu indeciso por apenas alguns minutos antes que seu lado presunçoso tomasse conta de suas ações. Seu peito inflou e ele caminhou até ela, cego ao perigo que espreitava por trás daquele vestido elegante.

Ele a envolveu com habilidade, puxando o corpo dela de encontro ao seu, como pedia os movimentos daquela dança caliente. Cherry permitiu que ele a manuseasse nas mãos, acompanhando os passos sensuais. Era uma atração para a plateia, que os observava com adoração.

Bóris a girou uma vez, empurrando-a e a agarrando de volta no meio do caminho. Seus corpos próximos o fez lembrar de épocas mais doces. Ele sorriu. Cherry o empurrou, dando-lhe um tapa na cara, e então voltou para seus braços, seguindo os passos do tango da morte.

– O que quer aqui, minha pequena flor selvagem das neves? – ele perguntou, bailando com ela. – Sentiu saudades?

– Ouvi dizer que você gosta deste restaurante, então vim confraternizar. Você anda fugindo de mim. Isso é ruim para a amizade.

– Não seja tola de tentar algo por aqui, minha bela. Seria um erro fatal. Eu sempre ando com meus seguranças e muito bem armado.

– Ah, não se preocupe. Eu não vou matá-lo agora. – Cherry garantiu. – Sem ninguém para vê-lo cair quase não tem graça. Vou deixá-lo voltar para casa, tomar um agradável banho de espumas e foder uma de suas putas. Quando o amanhã chegar, eu estarei à sua caça. E desta vez vou encontrar seu império… E vou fazê-lo ruir.

Bóris gargalhou, achando-a adorável.

– Você se tornou deliciosamente má. Eu gosto disso! É muito mais interessante do que a garota amedrontada que tive que domar. E por falar em éguas, você roubou algo de mim.  Minha garota. Eu a quero de volta.

– Você nunca mais tocará num só fio do cabelo dela. –Cherry disse num giro e lhe deu uma cotovelada dolorida no estômago.

Bóris a apanhou novamente, puxando-a de encontro a seu corpo num movimento brusco. Seus lábios asquerosos pousaram na orelha dela.

– Ah, minha adorável Solina!

Cherry se esquivou com graciosidade.

– Não mais Solina. Meu nome é Cherry… Cherry Vicious. – ela deu um sorrisinho perigoso, voltando a bailar.

– Vicious. – o búlgaro sorriu. – Eu já fui viciado em você uma vez, menina.

– Oh, sim. Eu me lembro. Mas não se trata de viciá-lo. – Cherry o fitou nos olhos e o que quer que houvesse naquele olhar foi capaz de congelar a alma dele. – Eu não vou apenas viciá-lo, vou intoxicá-lo como um veneno doce, cruel e impiedoso. Eu vou matá-lo tão lentamente que você vai implorar ao demônio para te salvar. Só que ele não vai atender suas preces. Porque eu sou o demônio. O demônio que você criou.

Bóris interrompeu seus passos, perturbado. Oh, sim! Lá estava aquele olhar novamente. Mas é claro que ele sabia que estava brincando com fogo. Não é à toa que vivia fugindo dela.

Lá atrás, os seguranças se ergueram da mesa, agitados.

Mas Cherry apenas se limitou a sorrir, terminando sua dança com um pequeno floreio elegante.

– Adeus, Bóris. Nos vemos em breve na trilha da morte. – ela acenou uma vez, antes de desaparecer no meio das pessoas.

O búlgaro ficou para trás, observando, estático, o rastro de sua caçadora.

 

 

Cherry desceu os degraus do restaurante com rapidez, encontrando Halle do outro lado da rua. O caçador de recompensas parecia atento e empunhava uma pistola, seus olhos continham um brilho perigoso.

– Você o deixou ir! – ele rosnou.

– Esperava que eu o matasse na frente de todas as pessoas lá dentro? –ela ergueu as sobrancelhas.

– Eu esperava sim. – Halle voltou seus olhos para as portas duplas do Illustrare, os lábios se contraindo numa careta. Estava na cara que ele queria entrar e terminar o serviço por si só.

– Nem pense nisso. – disse Cherry. – Eu concordei em você vir comigo contanto que não se metesse nesse assunto.

– Eu não entendo! Você passa anos da sua vida procurando esse filho da puta e quando tem a chance de enfiar as unhas nele, simplesmente o deixa ir embora!

– Nada como a doce ilusão da liberdade. – ela deu um risinho. – Além do que, ele não vai a lugar nenhum sem que eu saiba.

Halle franziu o cenho.

– Ah, não achou mesmo que eu viria até aqui, dançaria com ele e o deixaria escapar mais uma vez, não é? – ela remexeu em sua bolsinha de lantejoulas, retirando um pequeno aparelho preto. – Saberei exatamente onde ele está.

– Isso é um GPS?

– Mais ou menos. Apenas um dos brinquedinhos que minha família possui. Funciona como um rastreador de alta tecnologia, implantado na pele. É imperceptível.

– E aposto como implantou isso no búlgaro quando dançavam.

– Garoto esperto. É claro que eu não dancei com ele apenas para instigar sua imaginação.

Halle abaixou a Sig Sauer, guardando-a na jaqueta. Sua expressão se suavizou apenas um pouco, ainda estava apreensivo.

– E você não considerou tirar nem um pedacinho dele?

Cherry riu, divertindo-se com a reação do caçador.

– Acredite, eu estava louca para retalhá-lo.

– Não posso crer que não o fez!

– Uma assassina profissional sabe a hora de hesitar e a hora de atacar. O tempo da caçadora apenas começou.

Halle fez uma pausa, deixando o silêncio se estender. Ele a analisou com cuidado.

– Como se sente?

Cherry ergueu as sobrancelhas.

– Não me venha com essa de mulher durona agora. – Halle a olhou feio. – Como se sente? Não deve ter sido fácil reencontrar aquele porco! Ficar tão perto dele e não poder matá-lo.

– Vou ter essa chance quando o momento certo chegar. Agora, vamos sair daqui. Não quero ter surpresas. Não se esqueça de que ele ainda está caçando você.

Halle franziu o cenho, mas concordou em sair dali. Estavam de carro desta vez, um Audi R8 da coleção particular da assassina. O carro deslizou pelas ruas iluminadas e seguiu seu caminho até o elegante edifício Orn.

Cherry estacionou na garagem subterrânea e eles subiram de elevador, sem dizer absolutamente nada. Sua expressão era indecifrável, embora algumas vezes se pudesse ver o medo espreitando seus olhos cinzentos. Ela não conseguiria disfarçar por muito tempo. Ninguém saia de um encontro desses numa boa. Não quando seu passado se remexia insistentemente por dento, ameaçando iniciar um conflito de emoções.

Ela se serviu de uma dose dupla de tequila assim que adentrou o apartamento, virando tudo de uma vez e deixando a ardência afogar suas mágoas mais sombrias. Halle a observava em silêncio do outro lado do balcão.

– Tem certeza de que está bem?

– Vou ficar.

O caçador de recompensas se aproximou.

– Pode falar comigo, se quiser.

– Ah, tá!

– Ainda está zangada comigo?

– Pode apostar.

– Mesmo eu tendo segurado a onda e não apertado o gatilho quando ele estava com você nos braços?

Cherry voltou seus olhos para ele.

– Eu teria arrancado sua pele se tivesse feito isso.

– Teria valido a pena.

A sombra de raiva se apossou dos olhos de Halle novamente.

– Essa guerra não é sua, caçador. Não precisa se envolver.

– É aí que você se engana. Essa guerra é tão minha quanto sua.

– Não foi Bóris quem feriu sua irmã.

Halle se afastou, fechando a cara. A raiva o ferveu por dentro.

– Não entendo como pôde deixa-lo ir!

– Eu já disse! Tenho minhas estratégias para acabar com o búlgaro. Não se meta nisso! Não é da sua conta.

– Para o inferno que não é! Ele feriu você!

– Você não precisa vingar minha honra. Não somos um casal e eu não preciso do seu heroísmo!

Halle a fitou, furioso.

– Pare de ser tão teimosa! Pelo menos uma vez na vida aceite ajuda de quem se importa com você! Não precisa afastar as pessoas assim.

– Fui ensinada a ser assim. Não quero sua pena!

– Isso não é pena, Cherry.

Ela desviou os olhos, zangada.

– Ao invés de descontar suas frustrações em cima de mim, você podia simplesmente aceitar um abraço e me dizer como se sente.

– Não preciso de todo esse sentimentalismo. Estou bem.

– Não está não.

– Como pode dizer como eu me sinto?! – ela o encarou com raiva.

Halle se aproximou, encarando-a nos olhos com toda sua intensidade.

– Porque eu me senti exatamente como você naquele maldito prédio abandonado. Eu tinha o rifle nas mãos, a mira perfeita. Tudo o que precisava fazer era puxar o gatilho. E, acredite, eu o teria feito se não respeitasse a sua vingança. Minha irmã caiu nos braços de um cretino como Boris, sofreu tudo o que você sofreu, exceto que o sofrimento dela durou poucas horas antes que o ordinário a matasse. Se eu estivesse frente á frente com o desgraçado que a matou, eu o teria matado. Então sei muito bem como se sente!

– Ele é um porco! – Cherry cuspiu, ignorando as lágrimas que ameaçaram irromper de seus olhos furiosos. – E é exatamente por isso que ele tem que morrer! Por sua irmã, por Willa e por tantas outras que tiveram o azar de cruzar o caminho de porcos como ele!

Cherry respirou fundo, tomando fôlego. A raiva, o nojo e a amargura ameaçaram irromper das profundezas de sua alma.

– Maldito! – ela gritou, jogando longe a garrafa de tequila e a fazendo se espatifar no azulejo claro da cozinha. – Vou fazê-lo sofrer! Fazê-lo implorar para morrer. Ele pagará por cada pedacinho de pele que ousou profanar!

– Eu sei que vai. – Halle disse, mantendo a serenidade diante da cólera dela.

– Essa vingança é minha! – Cherry olhou bem nos olhos dele.

– Não vou me meter. Eu prometo. – ele se aproximou ainda mais, invadindo o espaço dela. -Você não precisa se consumir nisso, não agora. O que posso fazer para diluir seu ódio?

Cherry o encarou numa mistura de raiva, mágoa e desejo. Mas não demorou muito para a fome abrasadora dominar suas ações, despertando aquela paixão insana que a queimava por dentro sempre que estava perto daquele homem.

– Beije-me. – ela disse. – Beije-me até que eu não pense em mais nada além de nossos corpos juntos.

E Halle beijou.

Tomou-lhe a boca numa explosão ardente, devorando os lábios com sofreguidão.

Eles foram parar no balcão da cozinha, agarrados um ao outro num desespero tresloucado. Halle lutou contra o botão da própria calça enquanto Cherry se livrava da calcinha e puxava a saia do vestido até o meio das coxas. Com apenas um puxão, ela se livrou do jeans dele, libertando a ereção pronunciada.

Halle a puxou com força de encontro a seu corpo e a penetrou, estocando-a cada vez mais rápido enquanto ela se segurava na banqueta da cozinha.

Cherry precisava daquela liberação. E ele também.

*-* *-*

Willa chegou à mansão Von Kern no horário certo desta vez. Não queria nenhuma desculpa para chamarem sua atenção, já bastou as acusações de Alline na última vez. Não queria problemas ou qualquer tipo de desentendimento com aquela família, então se esforçaria para seguir as regras.

Estacionou o Escalade no pequeno estacionamento de pedriscos do jardim. Os seguranças que guardavam a entrada da casa a olharam com atenção, checando quem era. Aquele olhar frio lhe congelava a alma. Nunca suportou capangas, eles lembravam o búlgaro e sua segurança reforçada.

Willa se empertigou e seguiu pelo caminho de cascalho até o arco enfeitado da entrada da mansão. Ela aguardou pacientemente do lado de fora até Klaus ou Sander aparecerem. De jeito nenhum entraria naquela casa. Não mais.

Sander a encontrou ali fora. Vinha caminhando pelo jardim, usando apenas uma calça de náilon. O peitoral musculoso estava exposto num convite aberto, dando um ar ainda mais charmoso ao jovem nórdico.

Willa mordeu os lábios, desviando os olhos daquela visão. Ele sorriu tão logo a viu, aproximando-se de um jeito moleque.

– Ah, chegou cedo hoje, baixinha. – o sorriso dele era animado.

– Prometi ao senhor Von Kern que seria mais pontual.

– Senhor Von Kern? – Sander riu.

Willa se manteve séria.

– Meu pai vai assumir o treino mais tarde. Vou me trocar e podemos iniciar o aquecimento.

– Parece bom.

Sander a fitou, analisando a expressão séria demais naquele rosto infantil.

– Você pode entrar. Vou tomar uma chuveirada, pode demorar um pouco.

– Tudo bem. Vou espera-lo aqui fora.

O rapaz ergueu as sobrancelhas.

– O sol está agradável. – Willa deu um sorrisinho, incentivando-o.

– Tudo bem. – Sander desapareceu pelas portas altas.

Mais uma vez sozinha, Willa se mexeu inquieta. Se o treinamento não fosse realmente importante, ela não voltaria àquela casa. Algumas situações eram complicadas de lidar. E ela já tinha uma quota alta demais de humilhação.

O aroma doce que chegou a seu nariz a impeliu a sair dali imediatamente. Uma pena que não tivesse essa opção. Alline apareceu poucos segundos depois, usando um robe púrpura de ceda. Os cabelos negros estavam soltos, mas não desgrenhados. Ela era tão bonita!

Suas feições simpáticas não se alteraram quando viu a jovem de cabelos coloridos ali parada, apenas franziu o cenho.

– Ah, aí está você. – Alline sorriu. – Pensei ter ouvido sua voz.

– Estou apenas esperando por Sander. É ele quem vai assumir o treino pela manhã.

– Mas que conveniente.

Willa lançou um olhar aborrecido à outra.

– Ah, sinto muito. Sem provocações hoje. – Alline se desculpou. – Sinto muito tê-la aborrecido na outra noite. Vamos nos esquecer disso.

– O que quer?

– Apenas me desculpar pelo ocorrido. Como eu disse à Cherry, não me senti bem com a pequena discussão entre nós…

– O que foi que disse à Cherry? – Willa se empertigou.

– Nada sobre o que conversamos noite passada. – Alline garantiu. – Eu apenas mencionei que a aborreci. Ela relatou minhas desculpas?

– Não se preocupe com isso, Senhora Von Kern. Esse assunto morre aqui.

– Nada de Senhora para mim. – Alline riu. – A Senhora desta casa não está presente por enquanto, mas receio que terá o prazer de conhecê-la esta tarde. – seus lábios se curvaram em desagrado ao qual ela não soube ignorar.

Willa a ignorou, fitando o jardim ao longe.

– Vamos, não seja tão difícil! – Alline insistiu. – Não quero que haja qualquer mal entendido entre nós.

– Pelo contrário, Alline. Não há qualquer tipo de mal entendido. Você foi extremamente clara. – Willa devolveu o olhar, enfrentando-a com altivez.

Sander surgiu naquele instante, usando uma nova calça de náilon e camiseta branca. Ele as fitou com confusão.

– O que está havendo aqui?

– Ah, a bela Willa está chateada comigo. – Alline se apressou em dizer, abraçando o enteado com afeto.

– Por quê? – Sander pareceu achar graça.

– Sua madrasta está enganada. – Willa forçou um sorriso. – Vamos? Estou pronta para te dar uma surra!

Sander riu, animando-se com a empolgação da garota.

– É assim que se fala, baixinha!

– Divirtam-se. – Alline disse, por sua vez, vendo-os correr em direção à academia. Seu sorriso amistoso não conseguiu ocultar totalmente a ironia que espreitava seus lábios.

 

Sander preparou uma série de movimentos e golpes simples para que Willa aprendesse. Ela se esforçou bastante para compreendê-los e os aplicou com agilidade, surpreendendo o treinador.

Ele bateu palmas, sorrindo e aprovando o desempenho dela.

Willa não se deixou relaxar, encarou o treinamento com seriedade e deu seu melhor naquele aprendizado. Sua concentração estava totalmente empenhada em aprender os golpes e saber se esquivar deles.

– Você está diferente hoje. – Sander observou.

– Estou concentrada.

– Não é isso. Há alguma coisa diferente em você.

– Não sei do que você está falando.

– Está distante.

Willa o encarou.

– Sou a mesma de sempre.

– Não é, não. Você quase não sorri mais. Está com essa expressão séria desde que chegou, como se estivesse na defensiva. Em geral isso é muito bom dentro do treinamento, mas não há inimigos reais aqui. E você também não me olha mais nos olhos. O que houve com a nossa camaradagem?

– Estou concentrada no treino.

– Isso nunca a impediu antes.

– Mas o que você quer de mim? Que eu aja como uma garota comum, dando risada de banalidades e me distraindo quando na verdade eu deveria estar dando o melhor de mim num treinamento que decidirá minha vida? – ela explodiu, jogando suas frustrações em cima dele.

Sander pareceu chateado.

– Achei que aquele beijo não iria interferir em nossa amizade. Pelo menos, foi o que você prometeu.

Willa fechou a cara.

– Somos amigos.

– Não é o que está parecendo.

– Sander, eu preciso me concentrar! Preciso me dedicar a isso, como já lhe disse. Não tenho tempo para ficar brincando.

Sander abandonou sua posição ofensiva de combate e se aproximou, encarando-a nos olhos.

– Mentirosa.

Willa recuou, perturbada com aquela invasão em seu espaço pessoal.

– O que aconteceu entre você e Alline? – ele perguntou. – O que ela disse a você?

– Por que acha que ela disse alguma coisa?

– Porque está na cara que há algo errado entre vocês duas.

– Impressão sua.

– Willa… – ele tocou seu rosto, numa tentativa suave de atrair seu olhar.

– Não toque em mim. – ela recuou. – É melhor não fazer isso.

Sander endureceu as feições.

– Ótimo!

– Sinto muito.

Ele se afastou, deixando transparecer sua frustração.

– Vamos continuar com o treino.

– Sander…

– Mantenha a posição que lhe ensinei. – ele a cortou. – Vamos tentar novos golpes.

– Desculpe. Eu fui rude com você, não deveria ter feito isso. É só…

– Você não precisa se explicar. Já entendi seu ponto de vista.

– Não entendeu não. – ela o encarou com firmeza.

– Vou deixa-la em paz, Willa. Não faço parte do grupo de homens insistentes que não aceitam um não como resposta. Sei respeitar os limites dos outros.

Willa não pôde evitar o sorriso triste que se espalhou em seu rosto.

– Justo quando eu penso que você não pode mais me impressionar…

Sander se manteve impassível, apenas observando-a.

– Sinto muito. – Willa repetiu. – Você está entendendo as coisas de forma errada. E que idiota eu por não deixa-lo pensar exatamente como está pensando. Mas a verdade é que eu não sou assim. Gosto de deixar as coisas muito clara às pessoas.

Ela fez uma pausa.

– Acho melhor que tenhamos uma relação estritamente profissional porque fui avisada que qualquer outro tipo de comportamento seria inapropriado.

Sander franziu o cenho.

– O que está dizendo?

– Sua madrasta viu nosso beijo.

– E daí?

– E daí que ela me instruiu a me manter afastada da sua cama.

Sander estreitou os olhos.

– Está de brincadeira!

Mas os olhos de Willa não demonstravam qualquer traço de brincadeira.

– Alline disse isso a você?

– Sim.

– Eu não acredito! No que ela estava pensando?

– Estava pensando na mesma coisa que eu. Não é uma boa ideia ficarmos tão próximos, acredite, pertencemos a um mundo diferente.

– Ah, não me venha com essa! Me surpreende que você tenha se afastado de mim só porque Alline mandou. Por acaso tem medo dela?

– Ela é a mulher do seu pai! Vocês pertencem a uma família mafiosa bastante respeitada por aqui. O que seu pai diria se soubesse que eu tenho algum tipo de interesse no filho dele?

– Não sei. Vamos perguntar! – ele a puxou na direção da porta.

Willa se soltou.

– Está louco?

– Nunca estive tão lúcido. Deixe de besteiras, Willa. Acaso acha que somos aqueles esnobes da alta sociedade? Somos mafiosos! Esse clichê de achar que não pode ter qualquer envolvimento comigo porque sou rico e você pobre é a maior babaquice!

– Não se trata de ser pobre ou rico. Trata-se de você ser o herdeiro de um mafioso e eu uma ex- escrava sexual e prostituta!

Sander recuou com as palavras dela. O assombro em seus olhos era evidente.

– Acaso acha que eu me importo com isso? Acha que eu a categorizo como uma prostituta?

– Eu sei o que eu fui. E ao que parece sua madrasta não aprova tal fato, ela deixou isso muito claro noite passada.

– Maldição, Willa! Sei que não escolheu este destino para você, é uma vítima! E ainda que houvesse escolhido, se eu gostasse de você como gosto ainda assim gostaria de ficar com você. Não somos babacas trajando ternos elegantes. Deixe de acreditar nas mentiras venenosas de Alline. Maldição! Não acredito que ela disse essas coisas a você.

– Ela está apenas protegendo a honra da família.

– Isso nada tem a ver com honra. – Sander disse e marchou até a porta da academia.

– Aonde vai? – Willa correu atrás dele.

– Resolver essa pequena questão. – disse ele, de mau humor.

– Não seja idiota! Não vai fazer nada disso.

– Sabe qual é a onda dos mafiosos? A gente nunca deixa que nos digam o que fazer. – Sander deu um sorrisinho e se desvencilhou de Willa, seguindo em frente.

 

Alline se deliciava com o sol da tarde na beira da piscina quando Sander apareceu, marchando furiosamente.

– Será que você poderia me explicar o que a faz pensar que pode decidir sobre minha vida amorosa?

Alline se ergueu da espreguiçadeira, levantando os óculos de sol e encarando o enteado. Aquela sua expressão de surpresa só serviu para irritá-lo mais.

– Não ouse dizer que não sabe do que eu estou falando. – Sander alertou.

– Eu só posso supor que a jovem Willa tenha lhe contado sobre o que conversamos noite passada. Sinto muito se isso lhe irritou, querido enteado. Eu estava sendo apenas sensata.

– Não. Você está sendo intrometida, maldosa e inconveniente.

Alline ergueu as sobrancelhas.

– Ah, por favor! Não se faça de inocente ou desentendida. Se Cherry não suporta esses seus momentos falsos de inocência, eu muito menos!

– Você está sendo rude.

– Assim como você foi rude quando insinuou que Willa era uma prostituta.

Ela voltou seus olhos para a garota calada.

– O que foi que ela lhe disse?

– A verdade. – Willa se pronunciou, enfrentando o olhar da mulher.

– E que verdade seria essa, Willa?

– Você não tem o direito de dizer às pessoas para se manterem afastadas de mim! – disse Sander, encarando a madrasta com aborrecimento. – Não sou seu filho e a minha vida não lhe diz respeito.

– A sua vida me diz respeito uma vez que faço parte desta família. E a Família é importante! Não pode se envolver com qualquer pessoa. E pelo que eu soube Willa mesmo o dispensou. Não desconte sua frustração em cima de mim.

– Você não tinha o direito de fazer ameaças a ela.

– Eu não a ameacei. Apenas disse que o melhor era ela ficar no lugar dela.

– E que lugar seria esse? – o rapaz estreitou os olhos.

– O de visita. – Alline encarou a menina. – Você é uma visita. Apenas uma menina que foi hospedada por bondade do meu marido. Está aqui para treinar, não para confraternizar com os homens desta casa.

Willa avançou, ofendida. Mas Sander a conteve.

– Cadela!

– Viu só? É uma selvagem.

– Cale-se! – Sander rebateu, zangado. – Você não tem direito algum de tratar um hóspede desta forma! Quem acha que é?

– Sou a esposa do seu pai. Querendo ou não é meu dever cuidar de pequenos dissabores que possam aborrecê-lo. Sinto muito se isso não o agrada. E sinto muito que eu a tenha ofendido novamente, jovem Willa. Mas vamos deixar as coisas bem claras por aqui. Você é uma ex-prostituta. Não serviria para nada além de sexo para meu enteado. E não ouse dizer que isso é mentira, Sander Von Kern! – seu olhar o silenciou. – O que eu fiz foi a penas evitar maiores dissabores. A menina está aqui para treinar, não para servir aos seus caprichos. Acredite, ela não me parece o tipo que queira se envolver apenas para ser usada, não é como as outras prostitutas conformadas. Ela não escolheu isso. Para quê quer fazê-la se apaixonar por você? Seria crueldade. E todo esse capricho serviria para nada além de magoá-la e provocar seu pai.

– Não preciso que você me defenda. – Willa disse.

– Não, você não precisa. Mas faço isso por mim mesma. Se eu fosse você, gostaria que alguém ficasse do meu lado.

– Você não está do meu lado.

– É o que acha, menina.

– Alline, você é perturbada. – Sander disse. – Muita pretensão a sua achar que sabe de minhas intenções para com Willa ou qualquer outra pessoa.

– Eu sempre sei. – ela deu um sorrisinho triste.

– É aí que você se engana!

Tomado pelo impulso, Sander agarrou o rosto de Willa e lhe tascou um beijo ardente.

– O que acontece entre mim e ela não é da sua conta! – ele disse para Alline, um tanto sem fôlego.

Willa lhe virou um tapa com força.

– Não me use para provar seus argumentos! Se for me beijar que seja por vontade e não para afrontar sua madrasta! – ela disse, furiosa, e saiu correndo.

Alline deu uma risadinha.

– Eu lhe disse que essa é uma mulher diferente.

Sander a ignorou, indo atrás de Willa.

A menina estava tão distraída com sua irritação que acabou esbarrando com Klaus no jardim. Ele a ajudou se levantar com uma risadinha dura.

– Mais cuidado por aí, menina.

– Sinto muito. – ela se desculpou.

– Tentando fugir do treinamento? – o escandinavo ergueu as sobrancelhas.

– De jeito nenhum. Estava voltando para a academia agora mesmo.

– Onde está Sander?

E ele apareceu correndo naquela direção. A expressão ansiosa se desfez assim que viu o pai.

– Ah, aí está você. – disse Klaus, adiantando-se. – Não os encontrei na academia. Por acaso estavam fugindo dos deveres?

– Houve apenas uma situação pendente que tive que resolver. Posso falar com Willa um momento antes de continuarmos?

Willa se empertigou.

– Acho melhor voltar para o treinamento. Não quero perder nenhum minuto.

– Eu insisto. – Sander disse.

– Estarei esperando na academia, Senhor Von Kern. –ela saiu apressada.

Klaus voltou seu olhar para o filho.

– O que está acontecendo aqui?

– Talvez você deva perguntar para a sua mulher. E faça o favor de dizer a ela que se ela ousar se intrometer na minha vida novamente, eu a colocarei no lugar ao qual pertence!

Sander saiu marchando em direção ao galpão usado como academia.

Irritado, Klaus o seguiu.

– Sander! Não seja insolente, garoto! O que está havendo?

Sander encontrou Willa se alongando.

– Willa, eu sinto muito. Não quis passar a ideia errada…

– Deixa isso para lá, Sander. Vamos nos concentrar no treinamento…

– O que está acontecendo aqui! – a voz de Klaus trovejou, interrompendo-os.

O patriarca da família os encarou com dureza.

– Nada. – Willa se apressou em dizer.

– Sua mulher disse à Willa que se mantivesse afastada de mim porque você não lidaria bem com o fato de eu me envolver como uma ex-prostituta. – Sander disse, ainda muito zangado.

Klaus estreitou os olhos, encarando os dois. Coitada da jovem Willa, ela parecia pálida e assustada, como se tivesse visto um fantasma! Olhava ansiosa para ele, esperando uma reação negativa e até mesmo explosiva.

-Ora, este é o grande problema? – ele perguntou. E então explodiu em uma risada alta.

– Não vejo motivo para graça. – Sander fez cara feia. – Controle sua mulher!

– Acaso tenho cara de quem manda ou desmanda nas mulheres desta casa?

– Alline precisa entender qual é o lugar dela. Não tem o direito de se meter na minha vida.

– E você é um tonto por dar ouvidos às tolices daquela mulher.

Klaus voltou seus olhos para Willa. A menina se encolheu.

– Pela forma como está encolhida eu só posso supor que está esperando que eu a expulse. – ele disse.

– Eu não quis faltar com respeito…

– E como é que faria isso? Apaixonando-se por meu filho? – ele deu uma risada amistosa. – Ora, menina. Tenho mais o que fazer para me preocupar com sentimentos adolescentes. É maior de idade, assim como Sander. Ambos sabem o que fazem. Não dê atenção às asneiras que minha mulher espalha. Ela é um tanto territorialista demais. No mínimo deve estar com ciúmes por haver outra mulher disputando atenção nesta casa.

– Duvido muito que seja isso. – Sander murmurou.

– O que quer dizer? – Klaus lançou um olhar pétreo ao filho.

– Sua esposa é invejosa.

– E não foi o que eu acabei de dizer?

Sander deu um meio sorriso, obrigando-se a concordar com o pai.

– Vamos deixar esta situação para trás.

– Parece-me uma excelente ideia. – Willa disse, baixinho. – Eu realmente não quero confusão.

– Na verdade, jovem Willa, eu deveria me desculpar por minha mulher tê-la ofendido de alguma forma. – Klaus começou. – Mas não farei isso. Ela mesma pedirá desculpas. E vou entender se não as aceitar.

– Isso não é necessário.

– Isso é absolutamente necessário. – seu tom de voz encerrou o assunto. – Agora se recomponham os dois! Teremos visita. Terminemos logo a sessão de treino. Depois vocês continuam a discutir por banalidades.

Willa não contestou, voltou seu foco imediatamente para seu professor e viu Sander fazer o mesmo.

Ótimo! Era por isso que ela estava ali.

 

Klaus a liberou quando o céu já estava alaranjado. Willa sentia dores nas pernas e nas costas, estava exausta. Ora, aquelas vitaminas não estavam ajudando como deviam. Sem dizer uma palavra, ela saiu pelo jardim, alongando os músculos para ver se a dor diminuía.

Sander a alcançou em apenas alguns passos.

– Willa…

– Nem vem. – ela o alertou. – Seu pai está logo ali atrás.

– Achei que ele já tivesse deixado bem claro que não se opõe…

– Eu me oponho.

– Desculpe. Eu não queria dar a impressão errada lá na piscina.

– Quem sabe da próxima vez que me beijar seja por vontade e não para afrontar outra pessoa.

– Eu a beijei porque tive vontade.

– Não foi o que pareceu.

– Não seja tão inflexível…

– Já chega, Sander. Esse assunto acabou.

– Não até que você me desculpe de verdade.

Willa abriu a boca para argumentar quando foram interrompidos por uma pequena discussão que acontecia na frente da mansão. Sander correu até lá, seguido por Willa e acabou por se deparar com uma cena cômica.

Uma senhora de cabelos platinados repreendia veemente um dos seguranças, apontando o dedo na cara do sujeito. O homem de quase dois metros de altura encarava a velhinha com pavor, assentindo com efusão a cada nova bronca.

Sander começou a rir, atraindo a atenção da velha.

A senhorinha voltou os olhos claros naquela direção com uma carranca. Seu rosto, embora cheio de rugas não era nem um pouco amistoso.

Bestemor[1]. – Sander disse, com carinho, aproximando-se da velha.

A mulher suavizou a expressão com um sorriso duro e abriu os braços para o neto.

Sander a abraçou com força, comemorando a presença daquela de quem ele mais gostava. Parecia uma agressão seu abraço apertado numa velhinha tão frágil. Mas ela não tinha nada de frágil!

A Bestemor da família se afastou do neto, olhando bem para ele.

– Você está maior. – ela disse naquela vozinha aguda. –Mais musculoso.

Pappa não pega leve comigo.

– Acho muito bom. Não se pode descuidar do físico, Barnebarnet mitt[2]. – a senhorinha disse e seus olhos se voltaram para Willa. – Ah, quem é a jovem adorável?

– Esta é Willa, Bestemor. Ela está treinando conosco. Willa, esta é a grande matriarca da família, Vovó Fridda.

Willa se adiantou, estendendo a mão para a velhinha. Seu aperto era firme, como imaginou.

– É um prazer, menina Willa. – Fridda disse, tentando soar amistosa. – Você pertence aos negócios da família?

– Oh, não. – Sander riu. – Ela é uma amiga de Cherry.

Tal afirmação pareceu empolgar a senhora.

– Ah, é amiga da minha Mona?

Bestemor, sabe que ela não gosta que a chamem assim. – Sander alertou.

Fridda o ignorou, focando os olhos na jovem de cabelos cor-de-rosa.

– Minha pequena Mona tem poucas amigas. É um prazer conhecer uma delas.

– O prazer foi meu, senhora. – Willa respondeu com timidez.

– Veio passar o fim de semana conosco? – Sander perguntou, iniciando uma conversa descontraída com a avó.

– Vim resolver alguns problemas repentinos. – a velhinha respondeu, torcendo os lábios.

– Ah, sim. –Sander compreendeu. – Não imaginei que viria de tão longe por causa disso.

– Alguns infortúnios andam rondando as portas de nossa família. É meu dever como matriarca colocar ordem nisso tudo.

– Cherry vai gostar de vê-la.

– Onde está ela? Onde está minha Mona?

– Talvez ela apareça mais tarde.

– Ótimo, ótimo. – Fridda sorriu, empolgada.

– Essas são suas malas? – Sander apontou para as três maletas de couro amontoadas na grama. – Vamos leva-las para cima, vou instalá-la em seu quarto…

– Não se atreva. – a velhinha lançou um olhar mortal ao neto. – Acha que não sou capaz de levar minha bagagem para cima?

Bestemor, sabe como os homens desta família são cavalheiros. Não seja teimosa.

– Eu já lhe disse que sou capaz de levar isso para cima!

– É muito pesado… – Willa disse.

O olhar que Fridda lhe lançou a calou de imediato. Ela se lembraria de não discutir com aquela mulher. Nunca. Pelos céus, aquela família era esquisita.

– Vamos, deixe de besteiras, Bestemor. – Sander disse e agachou-se para apanhar as malas.

A velhinha puxou uma pistola antiga e atirou no chão, poucos centímetros do neto. Sander deu um pulo, soltando um palavrão em outra língua.

– Mas que criança boca suja. – a velhinha resmungou, olhando feio para ele.

– Ficou maluca? Podia ter atirado em mim! – Sander parecia indignado.

– Minha mira é perfeita. – Fridda disse com satisfação, guardando a pistola de volta no casaco. – Agora, se tocar nestas malas novamente vou lhe atirar no joelho. Garanto que dói pra caramba.

Willa deu uma risadinha, divertindo-se com aquilo.

Sander olhou feio para ela. Afastou-se das malas da avó e permitiu que ela mesmo as levasse até seus aposentos. Maldição, não se podia brigar com as mulheres Von Kern, ele sempre acabava perdendo… Ou com uma bala no traseiro.

Klaus os recebeu no hall, na companhia de Alline.

Fridda cumprimentou o filho numa mensura antiga e o abraçou, contente em revê-lo.

– Fez uma boa viagem, Mor[3]?

– Impossível não se divertir quando tenho um jatinho particular ao qual posso pilotar. – Fridda sorriu.

Ela lançou um olhar inexpressivo para Alline, acenando uma vez com respeito. E então voltou sua atenção novamente ao filho.

– Temos assuntos a tratar.

– Temos sim. – Klaus parecia preocupado. – Talvez queira ir descansar um pouco. Teremos tempo para resolver os problemas mais tarde.

– Acaso parece que preciso descansar? – ela ergueu as sobrancelhas platinadas.

Klaus não disfarçou a risada.

– Ora, Mor, você é uma mulher de fibra.

– Como todas as mulheres desta família.

– Talvez a senhora queira esperar pela ceia. – Alline começou, na tentativa de ser prestativa.

– Os negócios da família não devem esperar. – Fridda soou seca. – Não vim de tão longe para comer lagostas!

– Tudo bem. – Sander interferiu. – Vamos nos reunir na sala de lazer. Relaxem um pouco. Bestemor, a senhora me parece ávida por uma taça de licor.

– Seria uma maravilha, Barnebarnet mitt.

Eles se dirigiram às salas enormes da mansão, escolhendo uma de seu gosto.

Willa sentiu-se deixada para trás e optou por esperar Cherry ali mesmo no hall. Não importava quanto tempo tivesse que esperar.

– Venha, jovem Willa. – Fridda a chamou.

– Hã, eu não acho uma boa ideia… – Alline começou. – Trataremos de negócios da família. Não acho…

– Cale-se! – Fridda disse com rispidez. – A menina vem junto. Não há motivos para achar que é uma espiã, certo?

– Nem um pouco. – Sander disse.

– Então qual o problema de ela participar? – a senhora insistiu. – É uma amiga da minha Mona, então é bem vinda a esta família.

– Ah, tudo bem. – Willa se apressou em dizer. – Realmente não ligo de ficar esperando por aqui. Gosto de apreciar o jardim.

– Não se preocupe, querida, eu cuido de você. – Fridda deu uma piscadinha.

Sander riu.

– Minha avó gostou de você. – ele sussurrou á Willa conforme eles seguiam pela Sala.

 

*–* *–*

Cherry terminava de se armar quando Halle a abordou no hall do apartamento. Ele também estava armado, o cabo da Si Sauer aparecendo no coldre do casaco.

– Vamos mesmo fazer isso?

– Preciso falar com meu tio.

– E quer mesmo que eu vá junto? – Halle ergueu as sobrancelhas.

– Não era você quem queria fazer uma visita à mansão Von Kern?

– Eu estava brincando.

– Ah, então agora amarelou?

– Não seja boba. Só quero que tenha certeza do que está fazendo.

Cherry deu uma risadinha.

– Não se preocupe, Halle, não vou deixar ninguém te despedaçar.

– Agradeço por isso. – ele lançou um olhar engraçado à ela.

Cherry revirou os olhos e o puxou para o elevador.

 

A mansão estava silenciosa quando eles chegaram. Exceto pelos seguranças, não havia ninguém á vista. Cherry estacionou o Audi R8 ao lado do Escalade de Willa e desceu com Halle. Os seguranças lançaram um olhar retesado ao acompanhante de Cherry.

– Relaxa, Bob. Ele está comigo. – ela disse para tranquiliza-lo.

– A senhora me desculpe, mas não quero me envolver em problemas por deixa-lo entrar. – o segurança disse, o mais respeitosamente que pôde.

– Não terá problema algum. Halle está comigo. Viemos discutir um assunto importante, eu não o teria trazido se não fosse urgente.

Halle teve o bom senso de não fazer nenhuma piada, permaneceu calado apenas observando o olhar desconfiado e apreensivo do segurança.

– A senhora Fridda está aí. – o homem disse, sugestivamente.

– Merda! – Cherry deixou escapar.

– Não quero problemas, senhorita Vicious.

– E não terá, Bob. Pode deixar comigo. Assumo total responsabilidade pela presença dele.

O segurança não ousou contestá-la, abriu espaço para que pudessem passar.

– É… Acho bom você se preparar. – Cherry disse à Halle, quando atravessavam o hall elegante.

– Por quê?

– Digamos que a matriarca desta família está em casa hoje.

– Ah, ela não gosta e caçadores de recompensas. – Halle deu um sorrisinho.

– Ela não só não gosta como passou anos de sua vida caçando-os.

Halle congelou.

– Eu disse que não seria uma visita agradável.

– Você sabia que ela estaria aqui?

– Não. Uma falta de sorte. Mas vamos descobrir o que está acontecendo e vencer logo esse impasse.

Antes que Halle pudesse impedi-la, Cherry abriu as portas duplas da sala de lazer.

E foi aí que a confusão se fez.

 

Estavam todos reunidos no longo e confortável sofá felpudo que ocupava a maior parte daquela sala. Klaus e Alline se sentavam juntos, assim como Willa e Sander, deixando Fridda no meio para poderem ouvir o que ela tinha a dizer.

A velhinha se vestia com roupas pesadas, de couro rústico. A calça era clara, assim como a blusa de gola alta, mas o casaco de aviador era de um marrom escuro, dando um ar de faroeste à pobre senhora. Tão logo a porta se abriu, seus olhos astutos foram atraídos para os visitantes.

Ela deu um pulo do sofá, assim como Klaus, ultrajados.

– Mas o que significa isso? – gritou o tio.

– Klaus, eu não o traria se não fosse urgente… – Cherry começou, mas o som de uma arma sendo engatilhada a interrompeu.

Fridda tinha sua pistola antiga apontada diretamente para Halle e sua expressão dura dizia que ela não hesitaria em derramar sangue no carpete.

– É bom ter uma boa explicação para isso. – disse a velha.

Halle a fitava estupefato, mas não ousou dizer sequer uma palavra.

Bestemor, ele está aqui para ajudar. – Cherry disse.

– Um caçador de recompensas?

– Halle não está aqui para reunir informações.

– Duvido muito disso. – Klaus rosnou.

– Sabemos de informações importantes, por isso viemos. Ele veio para ajudar.

– Não vejo como um caçador de recompensas seria útil. – Fridda disse e seus lábios se retorceram em desagrado. – Odeio esses miseráveis.

– Ah, Cherry… Você foi longe demais desta vez. – Alline comentou, num aparte venenoso.

– Tudo bem, vamos nos acalmar! – Sander saiu de seu lugar confortável e se postou entre a garrucha e o caçador.

– Saia da frente, Barnebarnet mitt.

Bestemor, acha mesmo que Cherry traria um traidor á esta casa?

– Só se fosse uma louca. Não pense que me convencerá a deixa-lo respirando. É uma afronta ter um caçador de recompensas em minha casa!

– Não se atenha a títulos. Ele está com Cherry, não é imbecil de tentar traí-la, não é mesmo caçador? – Sander falou diretamente com ele.

Halle sustentou o olhar do rapaz.

– Pode ter certeza. Não estou aqui para tentar nenhuma gracinha. Na verdade, eu vim ajudar.

– Não preciso da ajuda de um caçador! – Fridda cuspiu.

Bestemor, seja flexível, por favor. – Sander pediu.

– Se ela for flexível, eu não serei. – Klaus ameaçou.

– Vocês não vão matar ninguém! – Cherry perdeu a paciência, encarando a todos ali com um olhar fulminante. – Podem não gostar do fato dele ser um caçador de recompensas, mas terão de aceitar que ele está trabalhando comigo. Se forem atirar terão que entrar na porrada comigo! E não pense que terei pena de você por ser uma velha. – ela disse, olhando para a avó.

Fridda sorriu, suavizando a expressão por apenas alguns minutos.

– Você é um orgulho para a família, Mona.

– Meu nome é Cherry.

– Você não vai privar uma velha de chamar a neta como quiser, não é mesmo?

– Considerando o fato de que você está prestes a atirar no namorado dela, eu acho que vai sim. – Willa disse, muito discretamente, e se postou ao lado de Halle no meio de toda aquela confusão.

Os olhos de Fridda se estreitaram.

– Está comprometida com este caçador? – o ceticismo estava presente em sua voz.

– Não estou não. – Cherry lançou um olhar zangado para Willa.

– Está sim. – a menina insistiu.

– Com quem Cherry dorme não é assunto nosso, não é mesmo? – Sander tentou mais uma vez amenizar a tensão. – Por que não abaixamos as armas e temos uma conversa civilizada? Cherry disse que tinha um assunto urgente para tratar…

– Eu tenho. – Cherry encarou o tio. – Precisamos conversar.

– Tire o caçador daqui. – Klaus ordenou.

– Halle fica. – Cherry o enfrentou.

Sander revirou os olhos, puxando a garrucha da mão da avó com agilidade. Ele deu um tiro para cima, calando a discussão.

– Chega! O caçador fica, Cherry fica e o resto da família também. Vamos nos sentar e conversar como pessoas e não ficar brigando como leões.

– Como se atreve? – Fridda lhe deu um puxão de orelha, tentando apanhar sua arma de volta.

– Depois que acalmar os ânimos eu a devolvo á senhora.

– Não me faça lhe dar uma surra, seu moleque!

– Vamos ouvir o que o caçador e Cherry têm a dizer. Depois, se quiser, pode matar ele. – Sander sugeriu.

– Parece muito bom para mim. – Halle disse, por sua vez.

– Uma ideia razoável. – Fridda concordou.

Com um suspiro, Sander devolveu-lhe a garrucha com a promessa de que ela não tornaria a mirar o caçador até que a reunião estivesse encerrada. Klaus não pareceu gostar da ideia, por ele matava aquele atrevido imediatamente. Mas acabou se sentando de volta ao lado da esposa indignada.

Cherry se sentou ao lado de Halle, mantendo-o o mais longe que pode dos outros.

– Temos um sério problema. – começou ela. – Parece estar havendo algum tipo de confraternização entre as máfias. Lucien Fournier ofereceu uma reunião bastante suspeita noite passada, convocou vários mafiosos e organizações poderosas, incluindo a Tríade. Achamos que estão planejando alguma coisa.

– Eu sei. – Klaus disse, com um suspiro. – Fui convidado a esta reunião.

– Você o quê? – Cherry o encarou.

– Sabemos dos planos do francês, minha querida. – Fridda disse. – Acha que vim apenas para transportar drogas?

– Você transportou drogas? – Willa engasgou.

As pessoas a ignoraram, focando a atenção no que era discutido.

– Você foi à reunião? – Cherry perguntou ao tio.

– Eu e Sander. – Klaus assentiu.

– Merda! Eu não o vi por entre a multidão.

– Acha que sou estúpido? Cheguei meia hora depois do início. Não confio naquele francês.

– O búlgaro esteve lá? – os olhos de Cherry dilataram.

– Ele não estaria vivo se eu houvesse cruzado com ele.

– Foi uma boa ideia você não ter atirado no albanês. – Halle comentou.

– Ah, foi você quem deu aquele trato em Besnik Hoxha? – Sander riu, aprovando.

– Poderia ter me avisado que estava na reunião. – Cherry disse ao tio, repreendendo-o.

– Eu sequer sabia que você estava atrás do francês!

– Tínhamos um assunto a tratar.

– Nós temos um assunto a tratar. – Fridda a corrigiu. – Seu tio me ligou informando do convite desta reunião alguns dias atrás. Eu sabia que Lucien estava aprontando alguma coisa. O que ele podia querer com os Von Kern? Sabe, a reputação dele é extensa na Europa. Fiquei desconfiada e pelo visto fiz muito bem em vir.

– O que ele quer? Qual o objetivo da reunião? – Cherry quis saber.

– Poder. – Klaus disse. – Lucien está atrás de mais poder do que já tem. Confesso que só fui a tal reunião porque achei interessante o convite. Esse francês está expandindo seu território faz tempo, chegou a interferir em meus negócios por algum tempo. Eu estava de olho nele. Nem por um momento me deixei convencer que era apenas um falsificador astuto. Lucien sempre foi esperto. E quando o convite chegou, tive certeza dos planos dele.

– Ainda não acredito na audácia daquele francês. – Sander murmurou.

– Que tipo de poder você se refere? – Cherry perguntou.

– Ele quer reunir forçar. Conquistar mais territórios através de uma proposta sedutora. Lucien se acha muito esperto por ter passado a perna em vários traficantes, ele acha que pode controlar a máfia.

– E o que a tríade acha disso? – Halle perguntou, interessado no rumo da história.

– Por que o interesse, caçador de recompensas? Pensa em passar as informações adiante? Entregar o plano de Fournier á polícia em troca de dinheiro? – Alline foi ácida.

Halle voltou seus olhos para ela.

– Depende. Que utilidade ele tem para vocês?

Fridda soltou uma risadinha diabólica.

– Ora, se não fosse um caçador eu até poderia gostar de você.

– Não devemos bater de frente com o francês. – Alline disse.

– E devemos deixar que ele tente dominar a máfia? – Cherry rebateu.

– Não acha que um falsificador barato teria esse poder. Mesmo que ele esteja conquistando poder, não seria fácil controlar ou dominar a máfia. Seja ela russa, albanesa ou escandinava.

– Lucien é um homem esperto. Se ele se atreveu a reunir todos os criminosos do poder para tentar uma abordagem como essa, não duvido que tenha bons argumentos e várias cartas na manga. – disse Halle.

– O caçador está certo. – Klaus falou. – Lucien não está de brincadeira. Certamente ele tem um plano para tentar conquistar mais espaço e território. O que ele propôs na reunião é um tanto insano. Imagine! Unir forças a um lunático em troca de poder e fama! Como se por si próprio, nós não tivéssemos poder e fama o suficiente.

– O que mais ele ofereceu? – o olhar de Cherry era astuto.

Klaus se mexeu, desconfortável.

– Digamos que a proposta dele consiste em um programa inovador bastante cobiçado por algumas organizações.

– Que tipo de programa?

Delta L I

– Puta merda! – Halle soltou.

– O que foi? Sabe alguma coisa a respeito disso? – Cherry perguntou.

Halle se empertigou.

– Tenho um amigo no exército russo. Há algum tempo atrás ele foi designado a cuidar da segurança de um campo cientista ao norte de Kiev. O nome da unidade era Delta L I. É a fabricação de medicamentos e testes confidenciais. Estavam tentando criar alguma coisa. E pelo visto conseguiram.

– O que é?

– O que resultou daquelas experiências foram armas bastante poderosas para destruir e degenerar pessoas. – Klaus disse. – Algumas dessas drogas são bastante cobiçadas, mas pouco encontradas. O exército russo fez de tudo para destruir aquele laboratório, mas algumas coisas foram roubadas internamente. Poucas pessoas sabem disso, o governo de Kiev abafou o caso e silenciou qualquer tipo de testemunha. Não queriam aterrorizar a população com possíveis ataques.

– Uma das drogas resultada das pesquisas consiste em um pequeno líquido esverdeado chamado Sílica. – Halle continuou. – Essa porcaria é capaz de deixar uma pessoa louca e fazê-la explodir seu cérebro com uma arma.

– Deus do céu! – Willa se assombrou.

– O que aquele imbecil pretende com isso? – Cherry disse, por sua vez.

– O que todos querem. Poder. – Klaus disse. – Imagine você ser capaz de eliminar pessoas ou viciá-las com drogas super mais potentes do que as que existem no mercado. É uma utopia. Não faltaria cliente para nenhuma organização e Lucien manteria o trono, por assim dizer. Ele seria o soberano, o que ostenta todo esse poder.

– Seriamos apenas seus empregados e distribuidores.

– E vocês acham mesmo que Lucien Fournier tem essas drogas em seu poder?

– Não, querida. – Fridda disse. – Ele tem o laboratório todo.

– Isso é loucura! Como ele conseguiria uma coisa desse porte?

– Lucien é um homem esperto. – Klaus disse.

– Todos somos homens espertos. – Cherry o corrigiu.

– Mas Lucien é mais.

– Meu palpite? Ele deve ter entrado em contato com algum grande traficante russo, nada relacionado á máfia. Juntos eles tramaram algum tipo de plano sórdido para roubar o laboratório antes que a equipe do exército fizesse a limpeza. Um grande golpe de sorte. – Halle falou.

– Eu me recuso a acreditar nessa babaquice! – Cherry olhou feio para as pessoas na sala.

– O próprio Lucien nos deu uma pequena amostra de seu poder. – Sander disse.

Cherry voltou seus olhos para ele.

– O que quer dizer com isso?

– Que ele nos mostrou do que a Sílica é capaz. Ao vivo. – Klaus disse. – Uma cena difícil de se esquecer.

– Merda! E o que acontece agora? – ela olhou diretamente para a avó.

A velhinha devolveu um sorriso diabólico.

– Nós o matamos.

– Não! – Alline se meteu. – De jeito nenhum. Não vamos nos voltar contra uma imensidão de mafiosos. O que acha que vai nos acontecer?

– Querida Alline, sua opinião se faz desnecessária.

– Fridda, pense bem. Não vai querer atrair os outros para nosso encalço! Somos poderosos e letais, mas não somos imortais. Uma organização como a que Lucien está reunindo poderia ser nossa ruína.

– Alline está certa. – Klaus se pronunciou. – Devemos pensar em outra abordagem.

– Quem aceitou a oferta. – Halle perguntou.

– Três ou quatro traficantes de área menor, os russos e os albaneses.

– Então a tríade ficou de fora.

– Assim como a Yakuza e outras organizações criminosas. – Sander assentiu.

– Por que está com esse olhar? Acha que a tríade viria em nosso favor? – Alline deu uma risadinha sarcástica. – O melhor a se fazer é aceitar a oferta e saber lidar com o francês. Observar o inimigo enquanto ele dispõe as peças no tabuleiro de xadrez.

– Não quero me envolver com esse tipo de coisa terrorista. – disse Klaus.

– Nossa família não é desse tipo. – Fridda concordou. – Não somos bonzinhos, mas não nos envolvemos nesse lixo!

– E o que vai fazer então, velha? – Alline a olhou nos olhos. – Entregar sua família ao massacre?

– Ah, isso não vai chegar a um massacre. E se houver guerra posso lhe garantir que o sangue derramado será do outro lado.

– Dê-me dois dias. – Halle pediu, encarando-os. – Posso buscar informações com esse meu amigo russo. Podemos arquitetar um plano plausível que não prejudicará sua família nem tampouco explodirá uma guerra.

– E o que vai fazer por nós, caçador? – Fridda o encarou.

Halle deu um sorrisinho.

– Sei que não confia em mim, mulher. – ele não se atreveu a chama-la de velha. – E não deve confiar mesmo. Sou o que sou, um caçador ardiloso e traiçoeiro. Mas a minha pele também está na reta. Digamos que o que eu fizer será para salvar meu próprio traseiro.

– Parece-me uma ideia a ser considerada. – Klaus admitiu.

– O que pretende? – Cherry perguntou á Halle.

– Vamos ver como podemos contornar toda essa situação. Se poucos aceitaram a oferta do francês isso significa que os que não aceitaram não vão se render ao domínio dele.

– Mas você não acha que Lucien pode ser perigoso com todo esse poder em mãos?

– Não se pegarmos esse poder antes dele.

– O que têm em mente, Caçador? – Fridda indagou.

– Dê-me dois dias.

– Dois dias e nada mais.

– Senhora, foi um prazer fazer negócios com você. – Halle deu uma piscadinha para ela.

– Se ousar nos trair, eu arranco suas tripas, garotão.

Sander pareceu animado com aquela parceria, fez questão de exibir sua satisfação.

– Assunto encerrado por hoje. – Fridda concluiu a reunião. – Agora vamos falar sobre um outro assunto pendente…

– Só um momento. – Cherry interrompeu. – Preciso falar a sós com Klaus.

Ao não obter negação, Klaus a seguiu pelo corredor até seu escritório particular. Cherry se sentou á vontade na poltrona de veludo do tio e se apossou dos computadores.

– Preciso usar um dos seus sistemas privados. – ela disse.

– E desde quando precisa de permissão?

– Nesse caso eu preciso. – ela olhou nos olhos do tio. – Trata-se de Bóris.

– Achou ele?

Cherry assentiu, digitando alguma coisa em um dos computadores de alta tecnologia. Os aparelhos emitiam alguns “bips” enquanto ela procurava pelo que queria.

– Eu implantei um rastreador nele. Preciso usar seu sistema para ficar de olho.

– Você fez o que? – Klaus se aproximou do computador.

Ali estava, um pontinho negro no meio da tela, indicando a localização exata do alvo. O programa privado contava com imagens de satélites especiais que captavam não apenas o sinal do rastreador como também a imagem interna de onde ele se encontrava.

Cherry podia ver claramente o pontinho negro numa suíte residencial de um dos melhores hotéis de New York.

– Preciso que prometa não se meter nisso. – disse Cherry, fitando o tio com franqueza.

Klaus correspondeu aquele olhar firme.

– Eu a treinei e eduquei para ser forte. Esta é sua vingança, não vou interferir.

Cherry assentiu, verdadeiramente agradecida.

– Obrigada.

Klaus fez uma pequena pausa, observando-a instalar o sistema em seu celular.

– Esse caçador de recompensas… – começou ele. – Ele a está ajudando?

– Halle me ajuda sempre que preciso, em diversas situações. Foi ele quem me ajudou a sair do galpão nojento daqueles russos. Também foi ele quem resgatou Willa e eu da Fun House.

– Parece uma relação interessante.

– Não é uma relação. – Cherry encarou o tio. – Somos como uma dupla explosiva. Funcionamos muito bem, juntos. – ela fez uma pequena pausa. – E espero sinceramente que vocês não decidam mata-lo hoje.

Klaus riu.

– Acho que ele se mostrou útil afinal.

– Deixe essa situação de Lucien conosco. Concentre-se apenas nos problemas que já tem.

Num gesto nada convencional, Cherry afagou o ombro do tio. Aquele era o único gesto de afeto que ela permitia demonstrar para com ele. Klaus sorriu uma vez com suavidade e lhe deu um beijo na testa.

– Tome cuidado, Mona.

Cherry lançou a ele um olhar aborrecido, mas que durou apenas alguns segundos.

– Vou partir agora. Halle e eu temos trabalhos para esta noite.

– Você é uma boa garota, Cherry.

– Ora, não me venha com sentimentalismo. – ela fingiu irritação.

– Na verdade estou furioso com você. – disse Klaus, ocupando seu lugar na poltrona de veludo. – Furioso por ter destruído meu Porche. E por ter trazido um caçador de recompensas à esta casa.

Cherry deu um sorrisinho.

– Você vai superar.

Ela o deixou sozinho.

Fridda foi insistente quanto à presença de Willa naquela casa, ressaltando o quanto havia gostado da menina e a fazendo prometer que voltaria mais vezes para tomar chá com ela. A jovem garantiu que todos os dias chegava cedo para o treinamento e que seria um prazer dividir as trades com Fridda. Eles se despediram e partiram.

A noite estava apenas começando para Cherry e Halle. Teriam trabalho o suficiente para preencher toda a madrugada. Ela estava abrindo a porta do apartamento, quando seu celular tocou.

– Olá, franguinha. – a voz de Meera foi bem vinda e resultou em sorriso nos lábios de Cherry.

 – Mercenária.

 – Aposto como estava se perguntando quando eu ligaria de volta.

 – Com toda certeza. Temos um trato.

 – Ah, eu não me esqueceria disso. É por causa do nosso acordo que estou ligando. Devo dizer o quanto esse país é detestável? Odeio a França! – ela resmungou.

– Deveria ter pensado nisso antes de se oferecer a ir para aí.

O que posso dizer? Sou muito prestativa.

 – O que tem para mim, Meera. Descobriu alguma coisa útil além do seu ódio pela França?

 – Eu descobri sim… E talvez hoje seja seu dia de sorte.

Cherry a ouviu atentamente.

O nome do benfeitor que acolheu e enriqueceu Vedrana é Lucien Fournier. Isso lhe soa familiar? Parece que o falsificador que conhece tem muito mais a ver com isso do que você imagina. Se tem alguém que conhece a nova identidade de Vedrana, esse alguém é ele.

Quando terminou de ouvir, Cherry teve certeza de que caçaria aquele Francês.

Continua

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[1] Vovó

[2] Meu neto.

[3] Mãe.

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