A Sinhá

A Sinhá

Escrito por Saul Guterres

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No século XVII, havia uma grande fazenda que produzia um dos melhores café do Brasil naquela época. Era comandada pelo Coronel Daniel, que mantinha sobre sua fazenda um grande número de escravos. Daniel tinha uma conduta questionável, embora casado com uma moça muito nova e bonita, sempre que podia chamava um de seus homens de confiança e ordenava que as escravas mais novas fossem expostas para que ele pudesse saciar seus desejos sexuais mais doentios. Sua esposa se chamava Alana, que só casou-se com ele devido a uma dívida de seu pai com o coronel. A esposa, ao contrário do marido era de uma doçura jamais vista, sempre que podia ajudava as escravas e fazia o possível para que os castigos que seu marido os concedia fossem suspensos. 

Os escravos tinham grande preço por Alana, mas já com seu marido, se pudessem já o teriam matado. Daniel costumava exercer poder sobre os escravos mais fortes, humilhando os sempre que podia, para que todos soubessem que só ele seria o “homem” da fazenda. Os negros o temiam pois eles até hoje lembravam do destino de Amélia, uma jovem negra que foi estuprada na frente de sua família, pelo simples fato de amar a outro negro. E com isso todos evitavam relacionamentos para que não sofressem como Amélia. Pois ele jamais admitiria e deixou isso muito claro.

Certa vez um jovem negro de uma aparência exótica e de grande beleza, estava cuidando dos cavalos da sua sinhá e não percebeu a aproximação de Alana.

– Bom dia Cássio!
– Bom dia sinhazinha Alana, a sinhá veio cavalgar hoje?
– Não Cássio, na verdade vim saber se sua irmã está bem? Soube que infelizmente ontem meu marido a chamou em seus aposentos, e nós sabemos o que acontece lá….

Alana olhou para rapaz com uma mistura de tristeza, mágoa e revolta. Pois ela não aceitava as coisas que o coronel fazia com a vida daquelas meninas, que embora fossem escravas também eram gente.

– Ela não está muito bem sinhazinha, passou o dia com dor no corpo e teve várias feridas no rosto. Creio que será mais uma que seu Daniel matará. O negro neste estante sentiu imensa raiva do coronel, pois ele já havia levado 3 negras da sua senzala a morte e logo mais levaria a sua amada Sara.

– Bem Cássio, estão irei hoje a senzala para ver se posso ajudar sua irmã.

Até mais. Alana saiu em direção a fazenda e não se deu conta que logo atrás dela estava Daniel, que há algum tempo estava suspeitando que Alana andasse de caso com Cássio, sendo assim sempre que podia vigiava os passos da esposa, porque isso ele jamais aceitaria.

– Onde estava Alana? Gritou o coronel fazendo com que a sinhá se assustasse.
– Bom dia Daniel, censurou Alana.- Eu estava indo cavalgar, mas desisti, e estou retornando para casa. Por que perguntas? Por acaso está me vigiando?
– Veja como fala comigo mulher não esqueça que você é somente uma dívida paga. E que não tem o direito de me questionar dentro de minha fazenda. Alana sentiu a raiva subir em seu rosto e desferiu uma bofetada na cara de Daniel
– Insolente, disse ele, quem você pensa que é? O coronel pegou seu chicote e iria soltar sobre Alana com toda sua força, mas num gesto rápido e preciso Cássio, que estava presenciando a cena de longe, segurou o braço do coronel a atirou o sobre chão, fazendo com que sua cara caísse sobre uma monte de estrume.
-Não machuque a sinhazinha disse Cássio, ou eu mato o sinhô. O senhor já levou três meninas da senzala, mas num vai levar a nossa sinhazinha.

Ameaçou o negro.

-Deixe isso pra lá Cássio, e saia daqui disse Alana. Que sabia o futuro que aguardava Cássio. E neste momento Daniel se levantou e em uma fúria absurda atirou-se sobre Cássio feito um animal, chamando atenção de seus homens que trabalhavam por perto e de todos os escravos.
– Negro imundo vai pagar por esse insulto. Os capangas que viram a cena correram e ajudaram o coronel a mobilizar Cássio, que estava já sem nenhuma reação.
– segurem ele, e levem para meus aposentos e amarrem ele lá, disse o
coronel.
– Não, soltem ele, Cássio não teve culpa de nada, ele apenas tentou me defender soltem ele suplicava Alana, mas sem obter exito. Os capangas bateram ainda mais em Cássio o deixando quase inconsciente.
– Você ainda o defende? Bem que desconfiei que estava transando com este negro, sua vadia.
– Cala essa boca seu monstro, acha que eu sou como você, que abusa do poder que tem apara saciar sua vontades loucas e ainda matar aquelas meninas? Gritava a sinhá sem saber dos riscos que coria ao enfrentar o coronel.
– Vadia, tem ciumes das negras, pois saiba que elas são melhores que você, por isso eu faço com eles o que eu quiser, mas já que está com ciumes vou fazer o mesmo com você. Ele ordenou que aos outros capangas que estavam por perto que amarrassem Alana junto de Cássio e o aguardassem.

Os outros que escravos que presenciavam a cena saíram correndo, ao verem que o coronel caminhava para direção deles. O coronel correu e agarrou duas moças, sendo uma a negra Sara, a qual sabia que Cássio mantinha um romance e saiu com elas em direção a fazenda. As negras gritavam e suplicavam para que ele as soltasse, mas nada no mundo pararia aquele homem que estava dominado por uma certa loucura e fúria.

Ao entrar no seu quarto, ele atirou as duas meninas sobre a cama e fechou o quarto de forma que elas não teriam como sair, pois se tentassem pular as janelas os capangas as pegariam de volta e as matariam sem piedade.

Sendo assim voltou-se até o quarto que estavam Cássio e Alana, entrou e logo despejou sobre Cássio mais e mais socos e chutes o deixando quase inconsciente. E depois partiu para cima de Alana, que em momento algum gritou de dor.

-Agora vocês pagaram pela traição que me fizeram disse Daniel. E como se eles fossem dois sacos pediu aos homens que arrastassem os dois ao seu quarto.

Ao entrarem Cássio avistou a jovem Sara que tremia, e ao o ver desatou a chorar abraçada a ele. – Não chore Sara, disse Alana, que com uma frieza surpreendente não demonstrava qualquer medo do que lhe estava para lhe acontecer. Não precisamos chorar apenas quero que vocês sintam muito ódio do Coronel, mais do que vocês um dia tiveram. Sem entender a atitude da sinhá os negros passaram a transformar o choro em ira.

Quando Daniel entrou no quarto encontrou todos em círculo, dizendo palavras as quais ele não entendia muito bem que língua era, Alana estava no centro em pé e os outros três de mãos dada em sua volta. Sem entender nada ele tentou avançar sobre os quatro, mas uma força a qual ele não entendia o prendeu de forma que ele ficou totalmente imóvel e foi jogado ao chão com tanta violência que a porta atrás dele fechou-se impedindo a entrada ou saída de alguém. E neste instante Alana se virou para Daniel e disse com um brilho estranho no olhar e uma voz mais grossa que a normal:

– Acha que conhece Daniel? Acha ainda que eu sou sua recompensa? Acha que pode maltratar a todos e ficar por isso mesmo? Acha mesmo que meu pai me vendeu a você? Pelo menos uma vez na vida seu porco imundo pense…
– Mas o que é isso, sua bruxa, saia daqui me solte, gritava ele. E ao uma gargalhada tão alta Alana revelou-se:- você nunca sequer quis saber de onde eu vim ou quem eu era… E este foi seu maior erro. Lembra-se de Amélia, a escrava que você matou na frente de todos?Pois bem sua avó era uma grande bruxa conhecedora da mais alta magia antiga. E jurou vingança sobre sua pobre e coitada neta. Um dia meus pais verdadeiros que estavam muito doentes a encontram vagando
sobre o cafezal e pediram a ela que cuidasse de mim que na época estava apenas com um ano de idade. Logo em seguida eles morreram e a velha negra cuidava de mim em uma cabana abadanada o qual nem seus capangas tinham conhecimento. Ela me contou sobre um homem muito ruim que maltratava as jovens como eu porém negras, e me pediu para ajudá-la na sua vingança. Eu cresci sabendo como manipular a todas energias e espíritos a minha volta e por isso hoje estou aqui, para fazer o que minha vó me ensinou desde então. E com a ajuda de todas as escravas e escravos mortos por você Daniel, hoje completaremos nossa tarefa.
– Não, socorro, me ajudem, gritava o coronel.
-Não perca seu tempo. Ninguém vai ouvi-lo, a não ser o som de sua própria morte. Sem esperar Alana começou a dizer frases que Daniel não entendia, e junto com ela Cássio, Sara e outra jovem negra repetiam as suas palavras. E neste momento o coronel começou a enxergar todos os espíritos dos muitos escravos que ele assassinou em sua fazenda, todos gritavam seu nome, gritavam por vingança e estavam todos mutilados e com aspecto sombrio fazendo o coronel tremer de uma forma que nem ele saberia que conseguiria.
– Para com isso, eu não matei ninguém, me deixem em paz.

Gritava Daniel.
– Como queira coronel, esta livre!!

E num momento de loucura ele correu em direção a janela e se atirou sobre ela, caindo de cabeça ao chão morrendo na mesma hora. Com a sua morte, seu espírito foi arrancado pelo de seu corpo, e foi aí que todos os escravos que aguardavam ele, partiram para cima dele, golpeando, gritando, fazendo tudo o que há muito tempo gostariam de ter feito. Alana, e os outros três olhavam pela janela toda a cena, até que Alana avistou a velha negra que com um sorriso malicioso, arrastou Daniel para o fundo da terra. E com um último sorriso, acenou para Alana e lhe disse:

– Eu sabia que era você!!! Amélia!!!!

Fim

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