A Garota Má (Pt.7) – Desejos explosivos

A Garota Má (Pt.7) – Desejos explosivos

Escrito por Natasha Morgan

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O beijo, que começou ardente, foi aumentando de intensidade gradualmente até se tornar abrasador.

Para o inferno com isso!

Eles poderiam incendiar todo o hotel…

Halle ergueu Cherry do chão, sentindo-a envolver as pernas em seu quadril. Com um giro rápido e sem deixar os lábios dela nem por um segundo, ele os levou para dentro do quarto, fechando a porta com o pé.

Halle a prensou contra a parede, esmagando o corpo dela com o seu.

Cherry foi habilidosa com o botão da calça dele, livrando-o rapidamente da única peça de roupa que usava. Ela arrancou a blusa de alcinha e deixou que ele mesmo se livrasse do sutiã de renda… Com a boca.

Os lábios dele estavam fervendo quando abocanharam um de seus seios, sugando-os com força e a fazendo gemer deliciosamente. Cherry o arranhou como uma selvagem, mas isso apenas o excitou mais. Halle sempre gostou de suas carícias de leoa faminta. E estava ansioso por devorá-la com os lábios ferventes, queimando a pele e a fazendo se perder naquela sensação inebriante.

Ele se livrou da calcinha fina que ela usava com apenas um puxão e então a invadiu, preenchendo o corpo feminino com seu membro ereto. Cherry o segurou com foça pelos cabelos e deu uma mordida forte em seu pescoço, incitando-o a continuar.

E ele continuou, é claro, estocando-a cada vez mais forte contra a parede e a fazendo acompanha-lo naqueles movimentos sensuais e extasiantes. O único som que imperou foi o de seus corpos, selvagens, deslizando um contra o outro naquela dança ardente capaz de incendiá-los vivos.

*-* *-*

Willa se desvencilhou de Sander com um pouco mais de força do que desejava, empurrando-o.

Ele se afastou paciente, dando espaço a ela, mas seu olhar era um tanto confuso.

Ela parecia perturbada, esfregou os lábios com o cenho franzido.

– Não estou aqui para isso.

– Desculpe. Eu não quis passar dos limites.

– Não passou. – Willa o encarou com franqueza. – Eu só não quero me distrair. Esse treinamento é importante para mim. Não quero arrumar confusão com seu pai apenas por uma diversão. Você pode querer apenas se divertir, mas terá que encontrar outra pessoa para isso, eu preciso me focar no aqui e agora.

– Eu gosto de você, Willa.

– Você nem me conhece.

– Pelo pouco que conheço posso dizer o quanto você é interessante. Não quero usar você. Quero me divertir, como pessoas adultas fazem. – Sander deu um sorrisinho. – Não precisa achar que isso implica mais do que apenas diversão. Quer dizer, eu não a estou pedindo em casamento.

Willa sorriu.

– Isso parece bom. – disse. – Parece bom mesmo. Algo que com toda certeza eu aceitaria antes. Mas agora eu não tenho essa opção, não posso me dar ao luxo de ficar brincando enquanto existem tantas outras coisas em jogo. Eu preciso me focar em minha força e aprendizado.

– Você quer dizer a sua vingança.

– É. Isso também.

– Eu realmente não gostaria que você se perdesse como minha prima. Mas acho que posso te entender. Vingança é algo que nossa família leva muito a sério. Não deixamos barato. Peço desculpas por meu comportamento impróprio, com certeza meu pai não aprovaria um beijo roubado num momento em que deveríamos estar treinando.

Sander assumiu sua postura de soldado novamente.

– Vamos voltar ao trabalho.

Willa concordou.

– Ah, e só para constar. Eu gosto de você também. – ela disse e tentou, em vão, golpeá-lo com os movimentos que fora ensinada.

Sander sorriu para ela, interceptando o soco e a imobilizando.

Mais uma vez seus corpos ficaram próximos e aquele calor sedutor os envolveu, mas ele soube se manter bem longe daquele desejo. A garota estava certa, aquele não era momento para tentar ser engraçadinho ou galanteador. Ele estava ali para treiná-la. E era exatamente o que faria.

– Lá vamos nós de novo, baixinha.

Willa tentou não sorrir, mas seu esforço foi ineficiente.

*-* *-*

Os rastros de paixão estavam presentes naquele quarto de hotel, roupas espalhadas pelo chão numa trilha desleixada até a cama, onde se podia ouvir os suspiros e sussurros ardentes.

Cherry cavalgava Halle na cama espaçosa, as costas nuas exibindo aquela marca horrenda e disforme. Os cabelos estavam soltos e selvagens, e a pele ruborizada. Ela gemia baixinho em movimentos rápidos e ritmados, numa dança selvagem e bruta enquanto o Caçador embaixo de seu corpo agarrava seus seios com sensualidade e aguentava o tranco, imerso em seu próprio deleite.

Ela estava na beirada daquele precipício de prazer, muito próxima ao orgasmo quando seus sentidos de assassina souberam que algo estava errado. Apenas um ruído leve e quase inaudível a alertou de que tinham companhia do lado de fora.

Cherry inclinou seu corpo para trás, aumentando os movimentos selvagens. Suas unhas cravaram-se no peitoral forte do amante e ela explodiu num orgasmo arrebatador. Inclinando seu corpo para frente num movimento rápido, apanhou a Glock em cima do criado mudo, apontou para a porta e atirou três vezes, puxando Halle para o chão. O caçador de recompensas a fitou por apenas um segundo, perplexo, antes que a chuva de balas explodisse para dentro do quarto.

Um homem grandalhão chutou a porta com força, arrebentando a tranca e fazendo-a se chocar contra a parede. Ele estava muito bem armado e não pensou duas vezes antes de começar a atirar junto de seus outros companheiros, mandando bala para todos os lados.

A madeira firme da cama e um dos sofás sofisticados protegeram Cherry e Halle de tomarem um tiro, e também serviram de esconderijo. Halle alcançou sua pistola escondida atrás da cabeceira e apontou para os invasores, não economizando munição.

Cherry atirou mais algumas vezes e conseguiu acertar dois deles no ombro. Ela se levantou do chão e deu um chute no sofá, fazendo-o deslizar pelo quarto e acertar o grandão que liderava. Quando ele caiu, ela correu e o agarrou pelos cabelos, girando-o e o arremessando contra o vidro amplo da janela. O filho da puta caiu lá embaixo, gritando.

Ela se voltou para os outros dois cretinos com pistolas russas de araque, dando socos e chutes enquanto Halle acertava outro sujeito na cabeça. Ele desarmou o cara, deu dois murros com força no nariz e quebrou o pescoço do infeliz.

Cherry voltou sua atenção para o último deles, sorrindo como uma diaba.

O covarde tentou fugir, mas tudo o que conseguiu foram dedos e nariz quebrados. Cherry o agarrou pela gola da jaqueta e apontou a Glock diretamente para a cara dele.

– Quem mandou você aqui?

O rapaz fez uma careta e cuspiu na cara dela, resmungando em uma língua diferente.

Cherry o juntou pelos cabelos e arremessou a cara dele contra a parede, fazendo sangue jorrar pelo nariz comprido.

O cara se engasgou.

– Vai para o inferno, sua puta!

Halle se aproximou com uma rapidez surpreendente, apanhando a mão do babaca e torcendo um dos dedos.

– Olha como fala! – olhou ameaçadoramente para o sujeito. – Quem é seu chefe?

– Vai se ferrar!

– Nós já fizemos isso. Mas você e seus amigos fizeram questão de atrapalhar. – Cherry disse e sua voz dizia claramente o quanto estava irritada. – Agora, antes que eu enfie uma bala no meio da sua testa, você vai me contar exatamente para quem trabalha. Caso contrário vou atirar onde realmente te importa – ela baixou a arma para o meio das pernas dele.

O cara se mexeu, pouco a vontade.

– Ela não está brincando. – Halle alertou.

Para provar o que estava dizendo, Cherry engatilhou a pistola.

– Petrov. – o cara disse. – Bóris Petrov nos mandou aqui.

Cherry estreitou os olhos.

– Você é capanga do búlgaro!

– Como sabiam que a encontrariam aqui? – Halle inquiriu, resistindo a vontade de socar aquele imbecil.

– Ela não. Bóris nos mandou atrás de você, caçador de recompensas.

– Filho da puta. – Cherry praguejou.

– O que iam fazer comigo? Me matar?

– Na verdade era para levar você vivo. Mas sua vagabunda aqui começou a atirar…

Cherry deu um chute no saco do sujeito, fazendo-o se dobrar de dor.

– Eu não sou a vagabunda de ninguém. E você ganhou sua passagem só de ida para o inferno.

Ela puxou o gatilho, fazendo sangue espirrar para todos os lados.

Halle limpou os respingos em seu peito.

Cherry se apressou em apanhar as roupas no chão e se vestir, guardando a pistola no coldre. Halle fez o mesmo, apanhando todas as armas que escondia naquele quarto de hotel. Eles saíram sem fazer barulho, passando pela recepção como se nada houvesse acontecido. Pelo jeito o barulho não chegou até lá, pois estavam todos muito sossegados em seus afazeres noturnos.

Cherry entrou no Porsche e pisou no acelerador.

– Maldito búlgaro! Como se atreve!

– Zangada porque ele queria por as mãos em cima do seu troféu? – Halle provocou.

– Ah, pode apostar! Como pode estar tão tranquilo?

– Minha vida é cheia de aventuras como essas. – ele riu. – Já me acostumei. E você deveria se acostumar também, não acha? A vida de uma mafiosa também é cheia de perseguições e tiroteios.

– A coisa perde a graça quando te pega desprevenida. Como ele te achou?

– Algum filho da puta deve ter entregado meu endereço. Merda! Eu gostava desse hotel.

– Acho que terá de se acostumar com outro. Aqui já não é mais seguro.

– Para onde estamos indo? – ele fitou as ruas movimentadas.

– Para minha casa. Você fica lá até ser seguro procurar por outro hotel.

– Não sou uma mocinha em perigo. Você não precisa me salvar e proteger.

– Eu sei disso. – ela o fitou. – Mas faria o mesmo por mim.

Halle se calou, concordando.

– Além disso – ela continuou. – Preciso de sua ajuda com um assunto.

– Espertinha.

Cherry sorriu, os olhos se voltando para o espelho retrovisor num movimento atento. O sorriso morreu em seus lábios e seu corpo se aprumou, tenso.

– Filho da mãe!

Halle olhou para trás, tentando entender o que ela estava vendo.

– O que foi?

– Estamos sendo seguidos.

– Bóris não se atreveria. Ele sabe que estou com você?

– O que você acha? – Cherry pisou no acelerador, fazendo o Porsche se jogar para frente com elegância e destreza.

Muito bom o trânsito não ser ruim àquela hora da noite. Ou certamente estaria ferrada! Ela contornou os poucos carros que seguiam à frente, tentando despistar os babacas que estavam em seu encalço.

– Isso não faz sentido! – Halle disse, sentindo o vento chicotear seu rosto pela janela aberta. – Por que Bóris está atrás de mim? E por que diabos ele mandou seus capangas seguirem o carro se sabe que estou com você? Acaso o búlgaro perdeu o maldito juízo?

– Acho que ele finalmente está honrando as bolas.

– Não fique tão contente!

– Por que não? Depois de um dia inteiro sem nenhuma diversão, finalmente estou curtindo. Não estrague o meu barato. Não foi você mesmo quem disse que eu deveria curtir?

– Estamos sendo seguidos, sua louca! Por caras armados que não vão hesitar em atirar.

– Relaxa! Bóris não me quer morta.

– Eu estou mais preocupado é com o meu traseiro!

– Você está comigo, franguinha. Ninguém vai encostar no seu lindo traseiro. –Cherry deu uma piscadinha e aumentou a velocidade, deixando para trás a Van preta que os seguia.

A maluca estava se divertindo à beça!

Halle a fitou de mau humor.

Ela riu, mais uma vez, e virou a esquina, seguindo pela rua silenciosa.

– O que está fazendo?

– Resolvendo o nosso problema. Acho bom se segurar.

Halle a encarou como se fosse uma louca. Mas o que diabos ela estava fazendo? Aquela rua…

Mas ele não teve sequer tempo para raciocinar. Cherry seguiu a estrada em alta velocidade, fazendo uma curva perigosa e retornando à rua onde estavam cinco minutos atrás. Ela pisou no acelerador com mais força e atingiu aquela Van preta no meio do caminho. O impacto foi forte o bastante para chacoalhar os dois ali dentro do Porsche… E tirar a maldita van da estrada.

Cherry deu ré e pisou no acelerador novamente, atingindo a lataria já amassada e espremendo a Van contra a parede de granito. Todas as janelas estouraram, fazendo vidro voar por todos os lados.

Halle deu um muro no painel do Porsche.

– Mas que porra está fazendo? – rugiu ele. – Por acaso está tentando nos matar?

– Ainda não. – Cherry desceu do carro com um sorrisinho.

Os homens da van também decidiram sair da lataria amassada. Eram apenas dois e pareciam armados e perigosos.

Cherry caminhou tranquilamente pela estrada, acendendo seu cigarro habitual. O som das pistolas sendo engatilhadas não pareceu incomodá-la. Ela fitou os rapazes logo à frente, sorrindo como uma verdadeira caçadora.

Deu um trago longo, soltando a fumaça com sensualidade.

Halle saiu do carro, aproximando-se com a arma em punho. Seu primeiro tiro acertou um dos homens no ombro, fazendo o sujeito cambalear e cair no chão. Ele virou a Glock para o outro capanga.

– Não se preocupe com isso, querido. – Cherry abaixou sua mão, impedindo-o de atirar.

Ela sorriu para o último capanga, sacana. E então jogou a bituca de cigarro no chão, bem em cima do rastro de gasolina que vazava da van. O fogo surgiu imediatamente, ameaçador, e iniciou sua corrida da morte.

O homem tentou correr, mas não teve a mínima chance. Quando o fogo tocou o tanque, a Van explodiu.

O clarão forte os cegou por um momento. Mas Cherry não deixou de olhar a cena com satisfação. Inabalável, acendeu outro cigarro e o tragou com vontade.

Halle se aproximou, carrancudo.

– A cada dia que passa estou mais certo de que está perdendo sua sanidade.

– Eu nunca disse que seria boa, lembra? – ela sorriu.

Ele tomou o cigarro de seus lábios.

– Vamos embora daqui.

– Preocupado com a presença de seus amiguinhos policiais? – ela provocou.

– Tenho que salvar seu traseiro, não é mesmo?

– Não sou uma franguinha como você. Posso salvar meu próprio traseiro.

– É claro que pode. – Halle se viu rindo, contra sua vontade.

Cherry assumiu a direção do Porsche.

– De jeito nenhum. Eu dirijo desta vez. – Halle a empurrou com habilidade, assumindo o volante.

– Vai terminar de destruir o carro?

– Você já fez isso.

Cherry gargalhou como uma maluca e ligou o som.

Quando Sex Pistols começou a tocar, Halle deu partida no que sobrou do lindo Porsche amarelo canário.

*-* *-*

Willa definitivamente estava esgotada. Sander acabou com ela. E depois de mais duas seções de treino com Klaus, a menina estava cansada o suficiente para cair no chão ali mesmo e adormecer.

Maldição! Todo seu corpo doía.

Klaus a fitou com certa reprovação enquanto desenrolava aquela faixa grossa e preta de seus punhos.

– Deveria tomar algumas vitaminas. Está muito fraca.

– É apenas a exaustão com o treinamento. Não estou acostumada com a rotina.

– É o que vai dizer ao seu oponente? Para pegar leve com você porque não está acostumada à rotina?

Aquele semblante duro a amedrontava, de vez em quando.

– Eu estou bem. – Willa disse e fechou a cara.

– Malcriada. – Klaus a encarou, mais uma vez com reprovação. – A convivência com Cherry a está deixando impertinente. Talvez seja uma boa ideia te ensinar uma lição aqui neste ringue.

Willa não baixou a cabeça, enfrentando-o com o olhar.

Sander os observava em silêncio.

Klaus riu.

– Ao menos está aprendendo a não recuar.

– Foi a primeira lição que me ensinou. – Willa disse.

– E você aprende rápido como minha sobrinha. – o olhar dele suavizou por apenas alguns minutos.

Ele terminou de guardar as coisas no armário de latão.

– Eu a espero aqui amanhã, mais cedo. O que você e Cherry andam aprontando não me interessa. Mas sou extremamente exigente quanto à hora. Aprenda a ser pontual.

Willa assentiu, obediente.

Klaus deixou a academia, acenando significativamente ao filho.

Sander sorriu uma vez, sossegado.

Willa tentou ignorar o que se passava entre pai e filho, especialmente sendo eles da máfia. O que acontecia naquela casa não era da sua conta. Ela apanhou uma garrafa de água e a bebeu sofregamente, permitindo-se relaxar um pouco.

– Isso. Beba bastante água. Precisa se manter hidratada. – Sander disse, despreocupado.

– Acho que seu pai tem razão. Vou tomar algumas vitaminas.

– Ajuda um pouco. É apenas até você se acostumar à rotina.

Willa fez uma careta.

– Não deixe a frieza do meu pai chatear você.

– Não mesmo.

Sander riu.

– Ele é sempre assim? – Willa perguntou.

– O tempo todo. Assumir os negócios da família pode te tornar um homem duro.

– Você não é assim. – ela observou.

– Não tenho motivos para ser frio com você. Deixo isso para quando estou lidando com inimigos.

– E você tem muitos inimigos?

– Uma pá deles se for pensar em mim como herdeiro dessa família.

– Ah, me desculpe. Às vezes eu esqueço com quem estou lidando. Você é um mafioso, é claro que tem inimigos.

Sander voltou seus olhos para ela.

– É por isso que não quer se envolver comigo?

Willa riu.

– Até parece.

Sander a acompanhou na risada.

– Espero que estejamos bem. – ela disse, incerta. – Quer dizer, depois do beijo.

– Estamos tão bem que até vou te convidar para uma partida de videogame. Prometo não acabar com você. De novo. – Sander brincou.

– Até parece que vai me vencer! Você vai é comer poeira.

– É o que veremos. Venha, baixinha! Vamos logo… Estou ansioso para te derrubar mais uma vez.

Willa sorriu de novo e o acompanhou para dentro da mansão luxuosa.

Alline os recebeu no hall, muito bem arrumada em seu vestido de verão. Seu rosto trazia aquele sorriso simpático de sempre, transformando o rosto já belo. Ela parecia incomodada com alguma coisa, mas soube ocultar assim que viu o enteado.

Sander tentou apostar corrida com Willa para ver quem chegaria primeiro lá em cima, mas sua tentativa de ser divertido acabou sendo interrompida.

– Isso pode ficar para outra hora. Seu pai o está esperando no escritório. – Alline informou.

Sander franziu o cenho.

– Acho que os seus planos para esta noite foram mudados. – a madrasta disse, com um sorriso mais duro. – Klaus quer que o acompanhe na reunião de hoje.

– Eu fico me perguntando de onde ele tirou esta ideia.

– Não seja infantil, amado enteado. Já está na hora de começar a participar dos negócios da família.

– Achei que já fizesse isso, eliminando as ameaças. – ele bufou.

Seus olhos se voltaram para Willa num claro pedido de desculpas.

– Nossa partida de videogame ficará para outra noite.

– Tudo bem. – ela sorriu. – Eu estava cansada mesmo.

– Não tão cedo, baixinha! Você não escapará amanhã. – o rapaz alertou, sorrindo, e foi ao encontro com o pai.

Willa resmungou alguma coisa, divertindo-se com os modos despreocupados do novo amigo. Sua atenção se voltou para Alline.

– Hã… Acho que vou ligar para Cherry vir me buscar. – disse, um tanto sem graça com a presença da mulher. Ela não sabia dizer por que, mas ficar perto da Von Kern a intimidava.

– Por que não sentamos para jantar? – Alline ofereceu, com um sorriso inocente.

– Imagina! Não quero incomodar. Vou apenas ligar…

– Eu devo insistir. Meu marido e enteado vão sair esta noite. Não quero jantar sozinha. Realmente ficaria muito feliz se você me fizesse companhia.

Willa hesitou.

– Vamos. Não é possível que não esteja com fome. Deus sabe que Cherry não oferece boas condições de alimentação onde vive. Aproveite para se alimentar bem por aqui.

– Eu me viro bem com sanduiches e pasta de amendoim. – Willa tentou dar um sorrisinho.

A expressão de Alline não se alterou, ela continuou a fitar a menina com aquele seu olhar insistente. Será que alguma vez na vida aquela mulher ouvira um não como resposta? Willa duvidava muito disso. Com um suspiro, ela cedeu, seguindo a mulher até a sala de estar onde era servido o jantar fino, na mesa larga de carvalho.

Alline se sentou com elegância, demonstrando seu contentamento com a companhia. Ajeitou um guardanapo de pano suavemente no colo e se serviu, indicando a Willa que fizesse o mesmo.

A menina olhou as opções diversas e franziu o cenho. Já fazia tempo que não comia bem e não tinha tanta certeza se ainda se lembrava dos modos à mesa.

– Vamos, não precisa fazer cerimônia. Coma. – Alline lhe lançou um sorriso encorajador, apanhando uma lagosta da bandeja dourada e colocando-a no prato da garota.

– Hã… Obrigada.

Um silêncio inconveniente se fez, enquanto as damas jantavam delicadamente.

Alline mastigava com elegância, os modos muito refinados.

– Eu vi você e Sander na academia. – disse ela.

Willa largou o garfo de prata automaticamente, fazendo-o se chocar contra o prato de porcelana num barulho deselegante. Ela fitou a mulher á sua frente.

– O que quer dizer com isso?

– Eu quero dizer que os vi se beijando. – Alline disse, tranquilamente.

– Sander me pegou desprevenida. Isso não vai mais acontecer. Eu disse à ele…

– Sei perfeitamente o que disse. Eu os ouvi conversando. Sabe, Sander está certo. Não é uma boa ideia se envolver com ele.

– Foi o que eu disse. – Willa respondeu e sua voz saiu um pouco mais ácida do que desejava.

Alline a encarou com compaixão.

– Você é uma garota esperta. Sabe onde deve ou não se meter.

– Aonde quer chegar?

– Em lugar nenhum, minha querida. – Alline sorriu. – Só estou insinuando que seria melhor se manter afastada dos desejos de Sander. O pequeno Von Kern não pensa muito na hora de agir. É um grande escravo de seus desejos. Já vi milhões de meninas como você por esta casa, todas elas não passaram de mera diversão para ele…

– Com certeza você não viu milhões de mulheres como eu.

– Você se julga tão diferente?

Willa a encarou com altivez.

– Para Sander você seria apenas mais uma. Não vale a pena. Com toda certeza Klaus não gostaria de ver o filho se engraçando para seu lado. – Alline continuou.

– Ninguém está se engraçando para o lado de ninguém. Aquele beijo foi um erro.

– Claro que foi. – Alline sorriu, condescendente.

– Você vai contar a ele? Ao senhor Von Kern.

– Não há motivos para causar dissabores uma vez que você me garantiu que não há nada acontecendo entre você e Sander. Será nosso segredinho.

– Eu não quero perder o treinamento.

– Você não vai. Basta fazer o que eu disse, manter-se longe da cama de Sander.

Willa olhou feio para a mulher.

– Não sou uma vagabunda.

– Oh, eu não disse isso. – Alline pareceu horrorizada. – Apenas sei que jovens da sua idade são cheios de desejos. Já fui uma adolescente antes. – ela riu.

– Não estou interessada em me deitar com seu enteado.

– Tudo bem. Acredito em você, Willa. Vamos deixar esse assunto para trás e nos concentrar no jantar maravilhoso. Perdoe-me por entrar em assuntos tão delicados. Eu só precisava deixar claro minha posição.

– Mais claro impossível.

– Ah, está zangada comigo. – Alline disse, com pesar. – Mudemos o foco da conversa. Prometo não aborrecê-la mais.

– Acho melhor eu ir embora. – Willa se levantou.

– Não, por favor. Você prometeu fazer-me companhia.

– Você já deu seu recado. Não precisa mais de minha presença. – Willa foi seca.

– Não se comporte dessa maneira, eu lhe peço. Já pedi desculpas por me intrometer em sua vida.

– Não, eu entendo. Esta é sua casa, sua família. Você está apenas se assegurando. Eu a respeito por isso. Já disse que não vou levar essa história adiante com Sander, pois não há história alguma. Pode ficar tranquila. Agora, deixe-me ir embora.

– Esta bem. – Alline ergueu as mãos como quem se rende. – Não quero aborrecê-la mais.

Willa retirou-se apressadamente.

Quando estava em segurança no hall, ela pegou o celular no bolso e ligou para Cherry.

Tocou uma.

Duas.

Três.

Quatro vezes e ninguém atendeu.

– Droga, Cherry! Onde você está?

*-* *- *

Cherry se livrou da jaqueta quente no instante em que pisou na segurança de seu apartamento. Halle a seguiu em silêncio, sentindo-se em casa. Serviu-se de uma dose de vodka na cozinha e se sentou confortavelmente em um dos sofás de couro.

Cherry espiou pela janela, olhando o movimento da rua.

– Ele não vai mandar te seguirem até aqui. – Halle disse. – O problema dele era comigo.

– Bóris está ficando ousado.

– Pouco provável. Ele ainda não revelou onde se encontra.

– Ele sabe que se eu o achar vou mata-lo.

– Então não é tão atrevido quanto pensa.

Ela revirou os olhos.

– E então… Vai me contar para quê precisa de mim?

– Não. – Cherry fuçou sua jaqueta, procurando alguma coisa. – Droga! Acho que meu celular ficou no seu quarto de hotel.

Halle riu, despreocupado, e se recostou no sofá.

– Vou buscar Willa. Depois colocamos o assunto em dia. – Cherry disse.

– Ótimo! Vamos nessa.

– Ah, não se anime, bonitão. Você vai ficar aqui quietinho me esperando.

– Vai me deixar aqui sozinho depois dos capangas do búlgaro terem tentado me matar? – Halle ergueu as sobrancelhas, fazendo cara de inocente.

– Não existe lugar mais seguro para você do que minha casa.

– E é por isso que ficarei aqui para sempre. – ele deu uma piscadinha.

– Vai sonhando!

– Vamos, me deixe ir com você. Não me poupe da diversão toda. Imagine só a cara da sua família em me ver dentro da propriedade Von Kern!

Cherry riu, divertindo-se com a empolgação dele.

– É exatamente por isso que você fica.

– Então quer dizer que só você pode se divertir? Por que não posso conhecer sua adorável família?

– Engraçadinho.

– É mesmo uma menina má, Cherry. Se deitando com o inimigo. – Halle sorriu, e a beijou.

Cherry correspondeu o beijo por apenas alguns minutos e então o empurrou de volta para o sofá.

– Fique na sua, camarada. Vou voltar rápido. Não se meta em confusões.

– É você quem se mete em confusões, docinho.

Cherry lhe lançou um último olhar antes de sair.

O Porsche não estava tão destruído – o que foi um alívio. Ela dirigiu até a estrada que levava à mansão Von Kern, sempre atenta aos movimentos atrás de seu carro. De jeito nenhum ia se descuidar depois do que aconteceu.

Maldito búlgaro atrevido!

Ia descontar a ofensa com toda sua força na cara daquele cretino!

*-* *-*

Willa estava de muito mau humor quando a encontrou, já esperando na frente da mansão. Cherry saiu do carro, jogando as chaves para um dos seguranças brutamontes parados ao lado do portão.

– O que houve? – perguntou, fitando a menina.

– Nada. Fiquei apenas preocupada. Estou te ligando faz um tempo e você não atende.

– Longa história. Te conto no caminho. – Cherry a analisou bem. – Tem certeza de que está tudo bem?

– Claro. – Willa forçou um sorriso. – Vamos?

– Espere só um minuto. Preciso dar um recado ao meu tio.

– Ele saiu com Sander.

– Ah. – Cherry pareceu um tanto perdida, o sorrisinho misterioso morrendo nos lábios.

Alline apareceu na porta, segurando uma taça de vinho.

– Ah, Olá, Cherry. – ela sorriu uma vez.

– Vou esperar no carro. – Willa disse, seca e se afastou.

Cherry franziu o cenho.

– A culpa é minha. – Alline disse, aproximando-se. – Acho que a aborreci.

– O que disse à ela?

– Banalidades. Mas acho que a ofendi de alguma forma. Peça desculpas por mim. Não foi minha intenção.

Cherry se voltou para a tia com um sorrisinho maldoso.

– Claro. Contanto que você diga à Klaus que devolvi o carro dele. As chaves estão com o segurança. Ah, diga também que ele precisará leva-lo ao mecânico. Houve um pequeno incidente. Não foi minha intenção.

Alline revirou os olhos.

– Ah, Cherry… – ela balançou a cabeça. – Você e seus joguinhos de poder com Klaus. Parecem duas crianças.

– Certifique-se de contar a ele.

– Mas é claro.

Cherry riu mais uma vez e se afastou, seguindo a direção que Willa tomara.

– Você conseguiu destruir o Porsche. – Willa disse e um princípio de sorriso se formou em seu rosto chateado.

– Eu disse que o faria. – Cherry a fitou. – Vai me dizer o que aconteceu entre você e Alline? Ela me pediu para dizer desculpas.

– Não foi nada. – Willa sorriu. – Vamos?

– Eu sei que ela pode ser irritante muitas vezes, então se ela disse alguma coisa, pode me contar.

– Já disse que não foi nada. Não precisamos de todo esse drama. Podemos ir embora? Estou com o corpo todo dolorido e necessitando de uma soneca.

Cherry sorriu.

– Estão pegando pesado com você, não é mesmo?

– Eles são excelentes. Os melhores professores. Não se atreva manda-los pegarem leve.

– Eu não ousaria tanto. Venha, vamos voltar de moto hoje.

– Legal. Eu estava mesmo ansiosa para andar na sua Harley Davidson!

*-* *-*

Willa se divertiu à beça ao passear na Harley Davidson, conseguindo arrancar alguns risos de Cherry. Até que era fácil conviver com a mafiosa, realmente passara a gostar dela mais do que se teria permitido. O que aquela mulher fez por ela ninguém nunca teria se arriscado a fazer.

Tirou o capacete assim que estacionaram na garagem subterrânea do prédio, balançando os cabelos coloridos com alegria. O sorriso era enorme e brilhava no rosto infantil.

Cherry pareceu gostar de sua empolgação, pois fez alguma piadas engraçadas enquanto subiam de elevador. Ela parecia um tanto tensa naquela noite.

– Aconteceu alguma coisa? – Willa perguntou. – Você sumiu esta tarde e está toda tensa.

– Bóris mandou seus capangas atrás de Halle. Acho que ele sabe da participação dele em seu sequestro.

Willa enrijeceu.

– Não se preocupe. Ainda é válido o que eu te disse, o búlgaro não virá atrás de você aqui.

Cherry abriu a porta do apartamento.

– E é exatamente por isso que temos visitas. – ela apontou para Halle.

O caçador de recompensas abriu um sorrisinho quando viu Willa.

– Ah, você ainda está por aqui, pequenina. E pintou os cabelos. – o olhar dele era divertido.

Willa não pôde deixar de sorrir de volta.

– Ao que parece não tenho nenhum outro lugar para ir. E nem você. Cherry me contou que Bóris o andou caçando. – ela se sentou pesadamente no sofá.

– O maldito está ressentido porque eu a ajudei a fugir.

– Sinto muito por você. – Willa disse, preguiçosamente e recostou a cabeça contra o encosto do sofá.

– Deveria ir dormir. – Cherry disse. – Está acabada.

– É exatamente como me sinto.

– Temos planos para esta noite, não vamos atrapalhar seu sono.

– Temos? – Halle disse, por sua vez, encarando Cherry com curiosidade.

– O que vai fazer desta vez? – Willa perguntou.

– Relaxe! Não vou caçar nenhum outro mercenário. – ela riu.

– Puta que pariu! Você achou a mercenária? – Halle fitou Cherry com descrença.

– Eu disse a você que a encontraria. Quer dizer, foi ela quem me encontrou, mas nos acertamos bem.

– É claro que se acertaram! Você está viva.

Willa riu.

– Meera pode ser forte, ágil e habilidosa, mas Cherry também é tudo isso. Seria uma luta difícil e é impossível dizer com certeza quem sairia vencedor.

– Ah, então você também confraternizou com a mercenária?

– Aprendi até uns golpes novos. – Willa comemorou.

Halle riu.

– Conseguiu novas pistas? – perguntou à Cherry.

– É por isso que você está aqui. – ela deu um sorrisinho.

– Em que posso ser útil, bela dama?

– Sem gracinhas, Halle. Preciso que seja sério quanto a esse assunto. O que pode me contar sobre Lucien Fournier?

– O dono do museu Willoughby Éclatant? – Halle franziu o cenho.

– Esse mesmo.

– O que quer com ele? Sabe que ele está atolado até o pescoço no mundo do crime, não sabe?

– Inocente é que ele não é. Muita gente sabe que ele trabalha com falsificação de quadros famosos, não é à toa que aquele museu arrecada tantos euros. E recentemente fiquei sabendo que o cretino anda financiando drogas.

– Você está brincando? A Interpol está atrás de Lucien há um tempão!

Cherry estreitou os olhos.

– Ele está mais envolvido no crime do que você pensa. – Halle disse. – Tanto que está até atrapalhando os negócios do seu tio.

– Porcaria! Eu sabia que deveria investigar melhor esse francês.

– Ele é um grande senhor das drogas por aqui. Talvez seu território seja ainda maior do que sabemos. Eu não sabia que você o estava caçando. Suas pistas a levaram à ele?

– Digamos que é a segunda vez que Lucien Fournier cruza meu caminho. Isso não pode ser coincidência.

– Posso entrar em contato com meus informantes e pedir que façam um relatório completo sobre ele. Ou podemos invadir o sistema do FBI. Tenho certeza de que eles têm informações concretas sobre o francês.

– Deixemos o trabalho de hacker para Willa. Não temos tempo para isso. Ele mora perto, tenho total capacidade para investiga-lo pessoalmente. Mas aceito os relatórios.

– Posso procurar informações no sistema do FBI e Interpol, se quiser. – Willa se ofereceu, eficiente.

Halle a fitou com as sobrancelhas erguidas.

– Pode invadir o sistema da Interpol? – Cherry perguntou, igualmente espantada.

Willa balançou a cabeça em afirmativo.

– Posso invadir qualquer máquina que quiser. – ela sorriu. – Eu disse que não era uma hacker qualquer.

– Que outras cartas têm na manga, pequenina? – Halle brincou.

Willa sorriu em contentamento por ser útil. Realmente não estava nem um pouco a fim de dormir… Não com tanta coisa acontecendo. Seu corpo podia implorar por descanso, mas ela não cederia. Iria até o fim naquela jornada de vingança, ajudaria sua benfeitora em tudo aquilo que pudesse. Não era apenas uma aventura, mas uma dívida que precisava ser paga. Afinal de contas, Cherry a salvou.

– Vou ver o que consigo achar.

Cherry assentiu, agradecida. E voltou seu olhar para Halle.

– Eu e você vamos para as ruas.

– De novo? Tem certeza que é uma boa ideia?

– Mais coisas de franguinha? Onde é que está seu espírito aventureiro?

– Ficou lá atrás, perdido no meio dos escombros do meu quarto de hotel. – ele a fitou com uma careta que logo se transformou em um sorrisinho matreiro.

– Vamos logo. Quero saber no que mais Lucien está envolvido.

Halle a seguiu pelo corredor.

– O que pretende? Bater nele até que confesse seus crimes sórdidos?

– Mais ou menos isso.

Halle riu, divertindo-se. Era sempre assim com Cherry. Ele a achava uma louca, mas não podia negar a diversão que seus momentos de insanidade proporcionavam. Era um relacionamento explosivo, cheio de ação, suspense e perigo. Mas era exatamente o que ele gostava. A adrenalina queimava seu corpo tanto quanto aquele fogo abrasador da paixão.

– Ah, eu estou de moto. – Cherry disse, lançando-lhe um olhar significativo por sobre o ombro. – Terá que se agarrar a mim.

Oh, sim… Era por isso que ele estava ali.

Para se agarrar à ela!

Halle sorriu, como um moleque malicioso, e continuou a segui-la.

*-* *-*

Cherry estacionou numa esquina antes do Museu Willoughby Éclatant, usando um dos prédios comerciais para se esconder de olhos curiosos. A avenida estava pouco movimentada àquela hora, apenas alguns carros elegantes desfilando e algumas poucas pessoas descendo a escadaria do museu.

Halle se postou ao lado da Harley Davidson, observando a assassina trabalhar.

Cherry apanhou um binóculo dentro da jaqueta e passou a observar o movimento próximo ao museu. Lucien com toda certeza estaria ali, era seu local de negócios. Só Deus sabia o que aquele cretino negociava ali dentro, mas ela estava prestes a descobrir.

– Achei que fosse bater nele. – Halle comentou, um tanto decepcionado.

– Antes de entrarmos precisamos checar o local. – ela explicou.

– O que houve com a emoção em chamar a atenção?

– Hoje não. Vamos entrar e sair em silêncio. Agora fique quieto. – Cherry disse e voltou a se concentrar no movimento da rua.

O movimento, antes fraco, se alterou de repente. Os carros elegantes que antes apenas passeavam pela avenida dobraram de quantidade, todos estacionando na área VIP do Willoughby Éclatant.

Cherry se aprumou, escondida no canto do prédio comercial. A visão que tinha dali era perfeita, conseguindo enxergar tudo com o auxílio das lentes do binóculo.

As portas dos carros de luxo de abriram, liberando pessoas em trajes formais e elegantes. Havia mulheres e homens, distintos. E seguranças, é claro. Imperceptíveis à outros, mas não para uma assassina bem treinada. A aparência comum não enganava os olhos de uma caçadora habilidosa.

– O que é isso? – Halle perguntou, juntando-se à Cherry. Seus olhos de caçador também brilhavam, atentos.

– Uma reunião privada.

Aquilo é a Tríade? – ele apontou para dois homens vestidos ricamente.

– E a máfia russa. – Cherry apontou para outro grupo.

O fato de ela estar tranquila quanto à presença da organização chinesa mais perigosa do mundo não o surpreendeu. Halle estava acostumado com a insanidade daquela garota.

– Mas que porcaria está acontecendo aqui?

– Um encontro privado, bem escondido por debaixo dos panos. O que me preocupa é o que diabos esse francês está querendo se unindo a todos esses grupos mafiosos.

– Negociar arte é que não deve ser. O senhor zibelina ali na frente não me parece o tipo que aprecia Mona Lisa.

Cherry acompanhou o olhar crítico de Halle e acabou achando um sujeito que não deveria estar no meio daquela multidão. Ah, então os albaneses também foram convidados e Besnik Hoxha, mesmo todo ferrado, havia aparecido para honrar sua tribo.

– Filho da puta!

– É, você deu mesmo uma surra no cretino. – Halle riu.

– Ao que parece isso não foi o suficiente para ele tomar jeito.

– Ah, Cherry. Quando é que vai aprender que caras como ele nunca tomam jeito? Esse porco nasceu na lama e na lama ele sempre permanecerá.

– Acho que posso dar um jeito nisso. – ela deu um sorrisinho.

Cherry abandonou seu posto por apenas alguns minutos. Tempo o suficiente para apanhar o rifle compactado no acento da Harley Davidson.

– Mas que porra é essa?

– Uma Gunpower Hunting Range. – respondeu ela, inabalável, montando o rifle.

– De onde foi que tirou essa porcaria?

– Da mala da moto. – ela deu um sorrisinho. – Tenho meus truques.

– E o que diabos vai fazer com esse rifle? – o olhar dele se tornou perspicaz.

– Dar um jeito naquele albanês filho da puta. – Cherry disse, terminando de encaixar todas as peças mais o silenciador.

Ela voltou o rifle para onde estava a multidão aglomerada na escadaria elegante, observando-os através da lente encaixada em cima da arma.

– Nem sinal do francês. Acho que é apenas mais um covarde que não dá as caras.

Cherry voltou sua atenção novamente para Besnik, ajustando o rifle. Impressionante a tranquilidade com que lidava com tudo aquilo. De fato era uma assassina fria.

– Quais as chances de Bóris se juntar à reuniãozinha?

– Cherry, guarde esse rifle. – Halle disse, com sensatez.

– Está com medo, camarada? –ela sorriu.

– É mais uma questão de ser prudente.

– Prudência não faz parte do meu vocabulário. Não me diga que vai amarelar agora? Não era você mesmo quem queria um pouco de diversão?

– Acho que já tivemos isso o suficiente por uma noite.

– Aí é que você se engana. – Cherry se aprumou, ansiosa e engatilhou o rifle. – Sou uma viciada em adrenalina, uma leoa faminta que nunca está satisfeita.

– Coloque essa merda no chão!

– Nem. Fodendo. – seu dedo tamborilou no gatilho, antecipando os acontecimentos com avidez.

Ela puxou o gatilho.

Mas Halle foi igualmente rápido, empurrando o rifle para cima. A bala atingiu uma das lâmpadas do prédio comercial mais próximo, fazendo a luz oscilar. No entanto, nenhum dos mafiosos reunidos ali perto pareceu notar o pequeno incidente.

Halle olhou feio para Cherry.

– Ficou maluca? A porra da Tríade está lá!

– Eu sei exatamente quem são.

– Eles são como uma ordem. Se atirar em um, todos vêm atrás de você!

– Besnik não faz parte da Tríade, seu imbecil.

– Não. Mas faz parte dessa reunião maldita! É a isso que me refiro, sua teimosa maluca!

Eles se enfrentaram, olho no olho, numa batalha mortal.

– Se você atirar em qualquer um daquela multidão vai atrair a atenção do restante. Não seja tola.

Cherry apoiou o rifle no pescoço, preguiçosamente.

– Eu vou matar Besnik Hoxha. E se começar a me encher o saco, atiro em todos aqueles babacas ali na frente! Sejam eles da Tríade ou da puta que pariu.

– Você não está falando sério!

– Ah, não? Então espera para ver! Saia da minha frente, Halle. Eu tenho negócios a tratar com Besnik Hoxha e com o francês filho da puta.

– Você não vai invadir a reunião! – ele parecia perplexo. – Sua maluca psicótica! Primeiro é capturada e torturada pelos russos, depois fica sob a mira dos albaneses e agora quer se meter com um monte de mafiosos juntos, incluindo a Tríade? O que falta? Provocar a Yakuza?

– Até que não é má ideia. – Cherry deu um sorrisinho. – Ouvi dizer que eles estavam atrás do búlgaro…

– Isso não tem graça!

– Ah, deixe de ser uma franguinha! – ela olhou feio para Halle. – Desde quanto se tornou tão chato?

– Desde o momento em que você decidiu matar a nós dois.

– Quer relaxar? Eu não vou fazer nada estúpido.

– Ah, vai sim! O seu problema é que não consegue controlar os seus impulsos insensatos. Vai acabar morrendo!

– Ninguém vai morrer esta noite a não ser Besnik Hoxha. – ela voltou sua atenção à multidão, que começava a desaparecer pela porta principal do museu.

– Desculpe, Cherry. Não posso deixar você fazer isso. – Halle disse, com pesar, e enfiou a seringa no pescoço dela.

Cherry desmaiou instantaneamente, largando o rifle no chão.

*-* *-*

Willa estava terminando de reunir todas as informações que conseguira quando a porta do apartamento se abriu com brusquidão. Ela se levantou de um pulo, pronta para se defender dos capangas miseráveis do búlgaro, mas era apenas Halle.

Ele surgiu carregando Cherry nos braços, desmaiada.

– O que aconteceu? – Willa se apressou em perguntar, preocupada.

– Ela está bem. Apenas drogada. – Halle garantiu, levando-a para o quarto.

Ele depositou Cherry na cama com cuidado e teve o bom senso de recolher todas as pistolas dos esconderijos.

– De novo? – Willa o seguiu.

– Desta vez não foi um incidente. Fui eu quem a droguei.

– Por que diabos fez isso?!

– Porque ela estava prestes a fazer a maior estupidez! Com toda certeza ia ferrar nós dois. Eu não tive opção.

Willa fitou a amiga desacordada.

– Ela vai ficar brava. – disse. – Puta que pariu! Se eu fosse você saía do estado. Ela vai ficar muito brava!

Halle fez uma careta.

– Acha que não sei disso?

– Você só pode ser retardado.

– Ás vezes tenho quase certeza de que sou. – ele deu um sorrisinho. – Somente um retardado se prestaria ao trabalho de se envolver com uma mulher dessas!

Ele terminou de recolher a última pistola e rezou para não haver mais espalhadas em lugares que ele não conhecia. Com toda certeza Cherry estaria furiosa quando acordasse e uma arma nas mãos dela seria tão estúpido quanto matar Besnik Hoxha.

*-* *-*

Cherry acordou pela manhã com uma enorme dor de cabeça. Por apenas alguns segundos não se lembrou do que tinha acontecido na noite passada, mas no instante em que as lembranças de Halle enfiando uma seringa em seu pescoço se apossaram de sua mente, ela levantou de um pulo.

Filho da puta!

Ela fuçou atrás do criado mudo, na tentativa de apanhar sua pistola Sig Sauer. Mas é claro que não estava lá! Aquele cretino não era estúpido. Maldito!

Cherry praguejou, procurando em seus outros esconderijos.

– Bom dia, flor do dia! – Halle apareceu na porta do quarto, tentando manter o bom humor.

Cherry voltou seus olhos furiosos para cima dele.

– Olha, eu sei que está zangada. – Halle se apressou em dizer. – Mas tente ser racional.

– Você me drogou! – ela o acusou.

– Verdade. Sinto muito por isso.

– Ah, você não sente porcaria nenhuma! Mas vou fazer você sentir.

Halle recuou, as mãos erguidas como quem se rende.

– Sejamos racionais, Cherry. Temos trabalho a fazer. Por isso estou aqui, lembra? Precisa da minha ajuda.

– Talvez eu esteja errada e você seja descartável.

– Sabe que isso é mentira.

Cherry avançou contra ele e lhe deu um chute certeiro e cruel no meio das pernas.

Halle se dobrou, arfando.

– Isso quita nossas dívidas por enquanto. – ela disse, passando por ele como se não fosse nada.

Com uma dor dos infernos em suas bolas, Halle se esforçou para recuperar a clareza.

Filha da mãe!

Cherry sabia onde acertar. E, por Deus, como aquela maldita sabia bater.

Willa estava na cozinha, apoiada na bancada com o notebook quando Cherry apareceu.

– Ah, você já acordou.

– O que tem para mim? – Cherry perguntou, servindo-se de suco de laranja.

– Primeiro me diga que não bateu muito nele.

– Preocupada com Halle?

– Ele é um cara legal. Te trouxe viva para casa ontem à noite.

– Ele me trouxe drogada. – Cherry a corrigiu.

Halle apareceu, mancando.

– Relaxa, era apenas um sedativo. – disse ele, um tanto rouco, e apanhou um saco de ervilhas congeladas no frízer.

– O que tem para mim? – Cherry perguntou novamente, fitando Willa.

– Primeiro. – a menina se levantou da bancada, fechou o notebook, jogou-o no chão e o pisoteou.

Halle ergueu as sobrancelhas para ela.

– Desculpe, Cherry. Mas era necessário. Invadi muitos sistemas privados ontem à noite. O pessoal do FBI poderia nos rastrear.

– Não se preocupe com isso. Arrumo outro notebook. – Cherry disse com despreocupação.

– Espero que suas pesquisas tenham valido a pena. Precisamos saber algumas coisas a respeito do francês. – Halle disse.

Ele estava sentado num dos banquinhos que rodeavam a bancada, segurando o saco de ervilhas congeladas no meio das pernas. A cena até que era engraçada e Willa com certeza teria rido se o momento não exigisse seriedade.

– Consegui algumas informações, mas nada de novo. – ela disse. – Lucien Fournier é um tremendo golpista e traficante. Ele financia todo tipo de tramoias, desde falsificações de obras de arte até a nova droga que estava rolando nas ruas.

– E ao que parece ele anda tentando formar alianças. – Cherry resmungou.

– Isso pode ter a ver com o novo projeto dele. – Willa continuou. – Um homem poderoso como Lucien não se limita a apenas um tipo de poder. Ele quer algo absoluto. Pelo que achei no sistema do FBI, ele estava tentando formar alianças fora do país. Na França, por assim dizer. O governo americano estava preocupado com a possibilidade de ele negociar com terroristas marroquinos. Lucien teve uma grande participação num comitê oferecido por um Sheik em Manhattan mês passado.

– A Interpol tem seus motivos para estarem atrás dele. Mas o governo americano? – Halle franziu o cenho. – Esse cara está ferrado.

– Na verdade, não. Ele sabe escapar muito bem das acusações. Para falar a verdade sequer têm acusações contra ele. São apenas suposições.

– Lucien é esperto. É claro que vai cobrir seus rastros e posar de bom moço da arte. – Cherry disse. – A maioria dos mafiosos sabem se esquivar de acusações.

– Ele tem um grande império para proteger. – Halle concordou.

– Na verdade vocês não têm nem noção da imensidão do império dele. – Willa deu um sorrisinho e passou alguns documentos às mãos de Cherry e Halle.

Cherry analisou os dados no papel, assim como os milhares de números marcados numa conta num banco Suíço.

– Puta que pariu! – Halle soltou.

– Onde é que ele conseguiu tanto patrocínio? – Cherry perguntou, por sua vez.

– Lucien sempre foi um homem rico. E com sua fama de artista aproveitou para investir sua fortuna em crimes pequenos e bem espalhados. Ele é um gênio! – Willa disse. – Enquanto todos suspeitavam que era apenas um falsificador, ele se infiltrou no meio do tráfico, conquistando inúmeras posses. O poder dele é ainda maior do que o da sua família, Cherry.

Cherry pareceu refletir sobre o assunto, não gostando nadinha da ideia de um francês filho da puta prejudicar os negócios da Família.

– Sabemos que os Estados Unidos conta com o maior número de mafiosos e senhores da droga, assim como pessoas viciadas para dar dinheiro ao tráfico. Sempre sobram clientes. – Halle disse.

– Lucien está conquistando mais território a cada dia.

– Não por muito tempo.

– Ah, não se meta com ele, Cherry. – Willa avisou. – O poder que ele ostenta é tão grande quanto à segurança.

– Isso não vai me impedir de tentar.

– Chega de imprudências. – Halle a fitou com seriedade.

– Eu estou atrás de pistas importantes. Não vou largar o rastro só porque você está com medinho!

– Seja sensata. – Willa a fitou. – Não faça nada desnecessário. Ele é um homem poderoso.

– O búlgaro também é. E ambos estão prestes a cair diante da minha pistola!

– Por que não esperamos a poeira baixar? – Halle sugeriu numa tentativa de refrear a raiva de Cherry.

– Ou a ligação de Meera. – disse Willa, por sua vez.

– Está mantendo contato com a mercenária? – Halle fitou Cherry.

– Ela está me ajudando, reunindo pistas fora do país.

– A troco de quê?

– Isso não é da sua conta.

– Mercenários não ajudam em troca de nada. O que prometeu à ela, Cherry?

– Tudo bem. –Willa se levantou. – Vou deixar vocês conversarem á vontade. Já está na minha hora mesmo. Klaus me instruiu de chegar mais cedo. – ela foi saindo de fininho.

– Espere aí, mocinha. – Cherry a chamou. – Não quero você andando sozinha pelas ruas. Pegue as chaves do Escalade e vá com ele.

Willa a encarou.

– Sério?

– Sabe dirigir, não sabe?

– Sim.

– Então divirta-se!

Willa riu, fazendo uma dancinha engraçada.

– Nada de ficar rodando por aí. É para você ir à mansão e voltar.

– Não se preocupe com isso. Serei boazinha.

Cherry riu da empolgação da menina, vendo-a se afastar toda contente.

Voltou sua atenção à Halle, ele ainda a encarava daquela forma séria. Odiava aquela expressão dura no rosto dele. Inferno!

– Onde paramos mesmo? Ah, sim, o seu trato com a mercenária.

– Isso não é da sua conta, caçador.

– Aí é que você se engana. Seu tio sabe disso? Que fez um acordo com uma mercenária perigosa do Oriente Médio?

– Isso não é da conta de ninguém.

– Inferno, Cherry! Por que diabos só se mete em problemas?

– Eu nasci no meio disso, queridinho. – ela sorriu, sem humor. – Agora cale a boca e me ajude a descobrir o que diabos aquele francês pretende unindo todos aqueles mafiosos. Isso não é mais apenas curiosidade, é pessoal. Se Lucien está tentando conquistar território, eu tenho que presumir os movimentos dele.

– Você deveria informar seu tio.

– É o que farei pela manhã.

– Pode fazer isso hoje. É importante.

– Tenho outros compromissos.

Halle estreitou os olhos.

– Que tipo de compromisso?

Cherry sorriu como uma pantera.

– Tenho um encontro marcado com Bóris Petrov. O tempo dele acabou. Agora é a hora da caçadora.

 

 

Continua

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8 comentários em “A Garota Má (Pt.7) – Desejos explosivos

  1. Tô chocada…
    Como você consegue escrever a sensualidade, a estratégia, o romance e a adrenalina, sem deixar cair o enredo?
    Menina, está surrpreendente, mais que perfeito, está maravilhoso.
    Parabéns!!!

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    1. Aiiinnn ❤
      Eu sempre fico esperando os comentários e eles sempre me animam mais 😀
      Tento equilibrar tudo… E confesso que comecei a fazer isso melhor depois de começar o conto ^_^
      Super feliz que que tenha gostado

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