Enchatriagge (Pt.8) – Inferno

Enchatriagge (Pt.8) – Inferno

Escrito por Lillithy Orleander

e53e5220cf581666cfb952f6fced48e3-dlgu7c

Eu não sabia o que pensar, tudo estava rápido demais e as coisas mudavam constantemente. Eu podia sentir na brisa, no ar, o cheiro de morte. Fiquei calada e pensando comigo mesma onde é que eu estava com a minha cabeça quando decidi cometer essa loucura? Roubar gente desconhecida, e logo ter um louco me enfrentando, e com ele Pietro. Um homem, um menino… Diferente como eu e agora um assassino como eu. Sim, eu já havia matado antes, única e exclusivamente por medo e por questão de sobrevivência…

“Eu fui jogada no mundo, era o que me diziam. Ser o que eu era, uma Imperian, era esse o nome correto. Não sei se alguém me criou, pois muitos me ajudaram quando criança. Mas desde que me entendi por gente, percebi que as pessoas tinham medo de mim e outra até sentiam pavor de se aproximar. Quando eu chorava, pequenos tornados se formavam ao meu redor, arremessando longe quem tentasse chegar mais perto. Na primeira casa que me deixaram ficar, morava um senhor com a esposa. Eles me esperavam parar de chorar e me trancavam em um alçapão fétido, escuro e cheio de ratos que passeavam sobre mim sem se importar com minha presença. No começo eu gritava e esmurrava a porta pedindo para me tirarem de lá, mas com o passar do tempo eu simplesmente abaixava a cabeça e aceitava a punição, calada. Até o dia que decidi fugir, saí no meio da madrugada sem se quer olhar pra trás. Voltei para as ruas, queria a liberdade.

Andei com nômades e suas caravanas, aquilo que era vida e assim eu era feliz.Foi então que conheci Nahynliqë, um ladrão pequeno e esguio, de olhos claros e um pouco puxados, e sorriso franco e metido a esperto. Ele conseguia arrancar até as calças de um homem sem que ele notasse, mas ele tinha muitos vícios e por esse motivo vivia na miséria. Tinha um ótimo coração e me ajudou até quando fiz 18 anos, me ensinando tudo o que ele sabia.
Mas eu queria o luxo, ouro, jóias, seda…

Então decidi ser mais esperta, mas como uma ladra descobri logo descobri que nunca poderia ter ou comprar tudo nem mesmo a felicidade.
Uma noite enquanto eu dormia, homens vieram cobrar uma dívida de Nahynliqë, dívida de jogos.
Eu acordei assustada, com o som das vozes no outro cômodo e fiquei prestando atenção ao que eles falavam.

– Você nos disse que no outro dia, teríamos o ouro e com o dobro do que você nos devia. E no entanto, você simplesmente perdeu meu ouro e desapareceu feito poeira. Eu tenho informantes Nahynliqë, você sinceramente achou que eu não fosse encontra – lo?

Eu olhava pela fresta da porta e via Nahynliqë, de joelhos sendo segurado pelo cabelo. Ele levantou os olhos para mim, sorrindo e gritou:

– Fuja Lugha! Suma daqui.

Foi tudo que ouvi dele antes daqueles homens cortarem – lhe as mãos e eu cair estática á alguns passos da porta ao que um deles a derrubou com um chute.

– Olha só, o que temos aqui, uma pequena ladrazinha. – e me arrastou para junto de Nahynliqë pelos cabelos, me arremessando contra a parede. Eu quis chorar e meus olhos ardiam com as lágrimas, mas preferi engolir o choro e enfrentar os homens.

– Você não nos disse que havia mais alguém nessa pocilga.

O homem gordo e careca, sorria com seus dentes amarelados e esticou os dedos engordurados em direção ao meu rosto, eu abri a boca e o mordi.
Mordi com tanta força que só soltei quando senti o gosto do sangue daquele porco imundo.
O cômodo em que estávamos, parecia um matadouro, o sangue de Nahynliqë lavava o chão, empoçando em algumas imperfeições do piso, enquanto eu notava em sua face já pálida, se banhar em lágrimas.

– Deixe a cadelinha se despedir desse grande imbecil. – disse o gorducho dando uma sonora risada. – depois vemos o que fazer com ela.

Ele sentou – se confortavelmente em uma grande almofada enquanto nos observava.

– Minha pequena Lugha, acredito que dessa vez você não vai precisar cuidar de minhas feridas como sempre fez. – Nahynliqë sorriu.

Eu o olhava como a única família que tive e olhava os tocos dos pulsos sem as mãos…

– Se cuide pequena e seja melhor do que esse ladrão foi.

Seus olhos parados e a boca em um sorriso torto me fizeram perceber que a morte já havia tocado os olhos de Nahynliqë.
Eu estendi minnha mão até seus olhos e os fechei, mal tive tempo de voltar a deitar no colo de Nahynliqë e fui uma vez mais arrastada pelo cabelo e jogada em meu quarto. A porta se fechou atrás do homem e por sua expressão eu já sabia o que ele queria, mas fui rápida,puxei a adaga do cinto que mantinha preso em minha coxa e gritei me jogando em cima dele . Olhei em seus olhos e pude ver meu medo refletido nos dele. Cravei a adaga em seu pescoço , tomei impulso usando sua corpulência e continuei segurando a adaga onde estava, derrubando o corpo no chão, ele ainda tentou parar o sangramento com uma das mãos, mas era tarde e o estrago estava feito. Tirei a adaga de seu pescoço e enfiei a mesma em seu peito.

– Essa foi por Nahynliqë.

Alcancei minha aljava, ainda não era boa com o arco, mas era minha única chance e também a única arma próxima para dar cabo dos capangas, que agora tentavam arrombar a porta para acudir seu chefe. O primeiro que entrou foi rápido e desviou da primeira flecha, mas a segunda o acertou com violência, arrancando o olho esquerdo. Ele caiu de joelhos e sem reação alguma. O segundo homem era mais rápido e conseguiu alcançar meu pescoço, me sufocando.
Eu tentava puxar – lhe as mãos , mas a força dele era descomunal. Então o chutei com força e acertei, por sorte no lugar que todo homem valoriza, ele me soltou urrando de dor e eu caí de quatro no chão. Eu engatinhei até onde o gordo estava morto para tentar pegar ao menos uma das flechas, quando fui surpreendida pelo capanga com os olhos injetados de ódio. Ele me puxou pelo pé mas não percebeu que estava armada novamente.
Ele me jogou na parede e senti a dor lancinante e o sangue quente escorrer do golpe, enquanto eu me curvava e recebia um chute no estômago, roubando – me o pouco de ar que ainda havia em meus pulmões.

Eu cai e o escutei rir.

Eu só teria uma chance e não podia perdê – lá ou eu morreria. Enquanto ele se recompunha e gargalhava, o mirei de relance e meu alvo seria sua testa, tinha que dar certo. Eu arremessei a adaga e ela pegou certeira em sua garganta. Eu o vi cair de joelhos e vomitar o sangue escuro, como se esse o afogasse da pior forma possível. Alcancei o arco e mirei no coração, sua mão ainda correu da garganta para a seta mas já era tarde. Eu me levantei amedrontada e banhada em sangue, nossa pequena casa, agora de fato era um matadouro.

O Sol começava a nascer.

Peguei minhas armas, me lavei e já longe de casa, eu olhei uma vez mais para trás, alinhei uma flecha em chamas no arco. Haviam quatro corpos na casa, três por mim executados, eles agora ardiam no fogo junto a mesma. Com eles eu enterrava minhas dores e meu passado e partia para um novo recomeço.”

Adentramos a gruta logo pela manhã, o caminho tinha imperfeições gigantescas e muitas pedras pontiagudas prontas para nos matar se escorregassemos.
A névoa rasteira atrapalhava ainda mais e o frio havia se intensificado a tal ponto que eu peguei uma das calças de Pietro e não entendia como Lucas suportava tudo aquilo sem nem pestanejar.

– De onde você a conhece, Auster?

– Prefiro não falar sobre isso. – ele sorriu meio sem jeito ao responder Pietro.

Auster parecia ter envelhecido anos da noite para o dia e quando dormia nós ouvíamos ele jurar Sarifh de morte, mas no dia seguinte nenhum de nós ousava tocar no assunto.

– De onde conhece Auster, basiliscus* ?- disse Niacksa.

– Prefiro que me chame de Meriage, não gosto de tal título. – ela sorriu.- Só é necessário que vocês saibam que estou aqui para ajudar, nada além disso.

– Sem interesses, nem nada em troca? – perguntou Auster com olhar desconfiado e a mão no punho da espada, como era de seu costume.

– Sim, encantador.
Cada um aqui de nós vai desempenhar um papel nesta trama, inclusive você.

– Já cansei de dizer que nada tenho a ver com isso. – disse Auster irritado.

– Se você não tem nada a ver com isso, me diga Auster, você só veio por Mhina?

– Não, infelizmente não.
Vim por Sarifh, Mhina foi a conseqüência…

– Sarifh também tem seu papel nisso tudo. – falou Meriage.

– Nos diga apenas o necessário. – retrucou Niacksa.

Todos nos calamos mas os sussuros e lamentos pareciam aumentar. Lucas suava frio mas nada dizia. A fria claridade nos deixava apreensivos e se perguntando aonde tudo daria.. Mas o que mais me preocupava era a previsão de Meriage.

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Aquelas sensações estavam me sufocando e qual não foi minha surpresa ao notar os corpos pálidos e translúcidos que flutuavam ao nosso redor, não serem percebidos pelos demais. Eu estava sozinho entre os dois mundos. Entre crianças e idosos, moças e rapazes, todos estavam ali, pedindo socorro ou nos mandando partir para longe dali. Alguns pareciam estar presos nas paredes da gruta e estendiam as mãos na tentativa de agarrar nossas vestes, passando direto pelos tecidos, o frio de suas almas parecia nos ferir como o gelo. Eu não sabia o que dizer, então fiquei calado, estava nervoso e a energia que nos rondava naquele lugar não me inspirava confiança, eu sentia medo e não podia dizer nada.

A luz fraca bruxuleava pela gruta para iluminar o caminho, aos pouco entendi que a luz vinha dos espíritos ali encarcerados.
Mas precisávamos seguir adiante, se esse era o caminho que levava até Mhina, era por ele que iríamos seguir. O silêncio aos poucos começou a fazer morada e de repente os lamentos cessaram. O caminho ficou mais estreito, o mal cheiro, cheiro de coisas podres chegou aos nossos narizes, Ann mudou de cor e de súbito desmaiou.

Então ouvimos som de algo sendo rasgado e em seguida mastigado, nesse instante percebi como era bom não pode ver tudo. Ann voltou do desmaio, mas não percebemos nada de diferente. Do nada ela e Meriage se calaram e pareceram entrar na parede da gruta, em transe. Nós só as seguíamos sem nada dizer, a luz clara deu espaço a uma de tom alaranjado, o frio pareceu sumir e eu comecei a não sentir mais o frio das almas, quando decidi puxar Ann para lhe perguntar o que ocorria vi seus olhos vazios e inexpressivos. Ela caminhava na frente e Meriage foi a primeira a falar.

– Ela não vai mais voltar. A alma de Ann se perdeu.

Ela continuava a caminhar, presa no transe como se algo a puxasse para o centro da gruta, por fim sua silhueta sumiu mais a frente, tentei correr mas Niacksa me interrompeu.

– Não, Lucas. Tem algo lá. – e apontou em direcão ao caminho seguido por Ann. – e está nos esperando.

Seguimos com mais cautela e o cheiro de sangue voltou a invadir o ar. Saimos com cautela do mesmo lugar que Ann e ficamos horrorizados aos ver a cena grotesca. Mhina estava nua, pendurada por correntes, que pareciam lhe cerrar os pulsos para deixar que seu sangue caísse em um poço. Ela chorava e gritava enquanto algumas almas subiam desse mesmo poço atravessando o corpo de Mhina. Sarifh olhava tudo ensandecido e dizendo palavras desconexas chamando algo.

“Unde in tenebris, et horribilis invoco.
Creaturam, ecce filius tuus sacrificium.
Matris Magnae et in virtute tuam requiro
Potestas enim qui magnanimitate.
Quinot si, Betheháruá”

Escutamos como se os trovões houvessem se juntado a nós dentro da gruta. Primeiro veio o grito de Ann e seu corpo se rasgava como pano as cada novo estrondo. O ser étereo saia de dentro de Ann, banhado no sangue da mulher doce que agora estava aos pedaços e corria em desespero como louco…

– Ann! Ann! Ann!…

Meus olhos se turvaram por causa das lágrimas e perdi a consciência queria aquilo morto e deixei a fúria vir a tona, Mhina pareceu sentir a mesma dor e logo seu corpo estava incandescente. Era o Sol nascendo em baixo da terra, era o mar criando – se em meio a secura…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Eles ascendiam juntos enquanto eu e Pietro segurávamos Niacksa que chorava desesperada. Meriage agora tinha os olhos amarelos e sibilava em direção ao ser.
Ele lançou asas ao ar e o sangue de Ann foi lançado em todas as direções. O ser era alvo como a neve, e sorria com inocência, mas atrás de si carregava uma cauda com ferrão. Não era homem ou mulher, pousou no solo com os pés cheio de garras e um longa cabeleira negra. Sua voz era estranha, era como se duas pessoas do sexos diferentes falassem em uníssono.

– Quem ousou acordar – me?
Quem ousa invadir meus domínios?

O ser olhou na direção de Sarifh e ao pensar sem que víssemos, estava ao seu lado observando – o.

– Você. Indigno.

– Eu o libertei, e trouxe a oferenda exigida, ordeno que me dê o poder.

A criatura jogou a cabeça para trás e passou a observar Mhina, que agora descia ao solo com longas asas flamejantes e o cabelo em chamas, os olhos estavam fechados. Quando ela falou, não era mais Mhina.

– Você feriu. – disse Mhina

– Você maculou. – disse Lucas

– Você matou. – respondeu Mhina.

– Ora,ora, ora Imperians, em minha casa. – a criatura parecia se divertir.

Lucas e Mhina pareciam juízes. Lucas então estendeu a mão em direção á Auster e com um movimento o trouxe para jumto de Sarifh, dizendo somente uma palavra.

– Morte.

– Por conspurcar filhos e mães. Por dizimar famílias. Este que a sua frente se encontra será vosso executor. – era Mhina.

Ela se virou para Auster como se não o conhecesse desembainhou a espada e passou em suas mãos.  A espada pegou fogo e quando voltou as mãos de Auster o brilho havia mudado. Almas começaram a subir do poço e soltar – se das paredes. Tentavam agarrar a criatura que os feria com a cauda e abocanhava aquelas que pareciam mais ousadas para enfrenta – lá.

– Não vou morrer em suas mãos Auster. – Sarifh riu.

– Eu vim aqui pra isso, Sarifh.
Você me roubou uma vida e quase me levou outra.

Auster lutava com maestria e Sarifh respondia a altura, ferindo Sarifh no braço. Um círculo branco se formou ao redor dos dois enquanto lutavam, e começaram a tomar forma, eram pessoas e todas as vezes que Sarifh se aproximava do círculo seus olhos se arregalavam e só então percebi, eram as pessoas que Sarifh havia matado que aguardavam sua morte para vingar -se . Um passo em falso e ele caiu, não houve tempo para se levantar, as almas alcançavam Sarifh no chão mesmo, sugando todas elas ao mesmo tempo o vigor e a alma de Sarifh que era dilacerado e arrastado para todos os lados acorrentado. Ele havia virado pó, sem vestígios, eu me encolhi.

– Um inútil a menos, nesse lugar. – o ser gargalhava – Juízes, hein? Vocês conheceram o Inferno agora é hora de me conhecer…

Aquilo parecia irritado, Meriage transmutou – se e observava o ser que lhe apontava a cauda.

– Você será a primeira.

– Estou aqui para uma única coisa e depois não importa de fato o que me aconteça, estarei livre.

Meriage adquiriu escamas verde – azulada que pareciam aço, a mulher ali sumirá dando lugar a uma imensa cobra que sibilava e abocanhava o ar na tentativa de acertar a criatura. Meriage por fim acertou mas também foi atingida e caiu imediatamente no solo. A couraça da grande cobra se rasgou caída no chão e de dentro saiu uma moça nova, de sardas nos rosto, cabelos avermelhados na altura dos ombros, olhos da cor do âmbar e lábios vermelhos.

– Ela conseguiu. – falou Niacksa.

– Conseguiu o que Niacksa? – perguntei sem entender.

– Meriage está livre, Lugha.

Eu olhava a moça me perguntando como podia.

– É assim que será em breve para cada um de vocês assim que chegarem ao templo de Ellenimir, para isso precisamos continuar vivo. – respondeu a nova Meriage.

Pietro olhava estarrecido tudo ao redor. Lucas e Mhina davam – se as mãos enquanto a criatura tomava uma nova forma, maior e mais forte.

– Dois já foram, podemos continuar de onde paramos? Ainda tenho mais dois Imperians para devorar…

O ser sorria enquanto olhava de Pietro para mim. Eu não sabia se sentia medo, se me preparava para morrer ou se deixava o instinto assassino e de auto-sobrevivência falar mais alto. Era esse o ponto em que estávamos : ” Matar ou ser mortos”. Mas nas circunstâncias em que tudo acontecia, morrer não era uma opção, era perder tudo…

Continua

Comente, diga o que achou! Seu comentário incentiva o autor e faz com que continue a escrever novas histórias!

NA: 1 – basiliscus : Basilisco

2 – “Criatura das Sombras, eu a invoco.
Criatura medonha eis teu sacrifício.
Dou – lhe um filho da Grande Mãe
E em troca peço teu magnânimo poder.
Levante – se, Betheháruá”

2 comentários em “Enchatriagge (Pt.8) – Inferno

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s