A Garota Má (Pt.6) – A Dama do Deserto Escarlate

A Garota Má (Pt.6) – A Dama do Deserto Escarlate

Escrito por Natasha Morgan

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Fudeu!

Esse foi o primeiro pensamento de Cherry ao ver a mercenária puxar a espada.

Começou a recuar, incerta. Não tinha ideia do que aquela louca iria fazer! Iniciar uma luta no meio da rua?

Porra! Não era como se ela tivesse uma espada também, para revidar os golpes daquela lâmina afiada e reluzente. Só carregava a Sig Sauer… Que à propósito, apontou diretamente para a estranha.

A mercenária seguiu seus movimentos com os olhos, os lábios curvando-se num sorriso debochado.

– Pretende lutar com isso?

– Se houver uma luta… – Cherry sorriu com seu charme de predadora. Não se deixaria abalar diante de uma oponente como aquela.

A mercenária avançou, dando giros habilidosos e cortando o ar com sua espada longa. Cherry recuou como pôde, livrando-se dos primeiros golpes sem muita dificuldade. Apertou o gatilho da Sig Sauer, mandando uma chuva de balas à qual a mercenária soube evitar com a lâmina afiada. As balas se cravaram na parede de um armazém qualquer.

Cherry jogou a pistola no chão e virou um mortal, atingindo a mercenária no rosto. Ambas cambalearam. A mulher sinistra sorriu como uma louca e atingiu um golpe certeiro no ombro da outra, fazendo-a se estatelar no asfalto.

Cherry se levantou com maestria e encarou sua oponente mais uma vez.

Ah, aquilo começava a ficar divertido!

Sem armas, a mafiosa escandinava usou o que aprendeu em treinamento com o tio. Luta mano a mano. Com os punhos cerrados investiu contra a outra mulher, dando socos e golpes ferozes. Mas aquilo não parecia adiantar nada! A mercenária se defendia com habilidade e conseguia devolver as porradas.

Uma delas atingiu Cherry no nariz, fazendo-o sangrar.

Ela recuou um passo, esfregando o sangue com a mão. Seu olhar foi mortal.

Ok. Agora não tinha mais graça! A cretina havia arrancado sangue dela!

Filha da puta.

Cherry avançou com mais força desta vez, passando uma rasteira na mulher e arrancando a espada brilhante de suas mãos. Foi atingida novamente, desta vez com um chute no quadril.

Cherry se afastou, vacilando. O chute pegou bem em sua ferida – que ainda estava fechando sem o auxílio de pontos! A dor foi aguda e quase a fez praguejar, mas soube guardar as emoções e se concentrar na luta. Teria tempo para se lamentar depois.

A mercenária sorriu, apanhando sua espada do chão. Ela a avaliou, pensativa. Então decidiu por vez descarta-la, depositando com cuidado na calçada. Seus olhos fitaram a mafiosa curvada, curiosos.

Cherry rosnou, partindo para a briga novamente. Elas rolaram no chão, ralando-se no asfalto ao mesmo tempo em que trocavam chutes, porradas e arranhões. A mercenária conseguiu puxar um chumaço de cabelos loiros enquanto Cherry afundava as unhas no pescoço dela.

Ela empurrou a outra, livrando-se do peso desnecessário e engatinhando até o outro lado da rua.

Ah, mas Cherry não iria facilitar! Agarrou a mulher pelos cabelos e a jogou de volta no chão, surrando-a.

A mercenária se defendeu com um soco e conseguiu pegar a espada de volta, erguendo-se do chão e apontando a lâmina para a oponente vencida. Seu sorriso era presunçoso.

– Então… – começou, fitando a outra. – O que uma franguinha como você quer comigo?

Cherry a mirou com ódio.

– Certamente deve ser algo importante. – continuou Meera. – Não é sempre que gente como você procura meus serviços.

Cherry a acertou com um chute, passando logo uma rasteira em seguida. Deu uma cambalhota rápida e alcançou a pistola do outro lado da rua, apontando-a para a mulher quase ao mesmo tempo em que a lâmina da espada pousava ameaçadoramente em seu pescoço novamente.

Meera sorriu.

– Não tão fácil, Franguinha.

Cherry a mirou com firmeza.

– Meu nome é Cherry. Cherry…

– Eu sei quem você é, menina. Mona seria um nome mais apropriado, não acha? Você acabou com os russos, deu uma surra num albanês, interferiu o caminho de um poderoso francês e agora veio atrás de mim. Mas que franguinha mais atrevida! A pergunta que realmente me interessa é: O que uma Von Kern pode querer comigo?

Os olhos escuros da mercenária se fixaram na outra.

Cherry correspondeu àquele olhar.

– Preciso de respostas. E sei que você as tem.

– Que tipo de respostas?

– O tipo que te livrará de uma boa surra se colaborar.

Meera riu.

– Ainda acha que pode me enfrentar? – ergueu as sobrancelhas. – Ou você é muito atrevida… Ou muito burra! Talvez os dois.

– Somos muito boas no que fazemos. Talvez passemos o dia todo lutando uma contra a outra, isso não importa. Tudo o que quero são respostas.

– Eu gosto de você. Tem fogo nos olhos. E sabe lutar bem. É uma oponente perigosa.

– Que pena. Porque eu não gostei nada de você.

Meera riu de novo, cheia de escárnio.

– Façamos assim: você me faz as perguntas e, dependendo do que me oferecer em troca, eu as respondo.

– Mercenários. – Cherry resmungou. – Sempre trabalhando para quem paga mais. O que quer?

– São tantas possibilidades… – Meera abaixou sua espada. – Parece que estamos nos entendendo agora.

– Concordo. – Cherry guardou sua pistola.

Elas se encararam, silenciosas e mortais.

– Deveríamos ter essa conversa num lugar mais apropriado. Longe de olhares curiosos. – Cherry disse.

– E onde seria esse lugar? – Meera disse por sua vez, desconfiada.

– Existe um restaurante tranquilo aqui perto. Podemos ir…

– Nada disso. Não confio em você, Cherry. – ela retorceu o nome.

– O que acha que vou fazer? Te mandar para uma armadilha e te torturar até obter respostas?

– Não pode negar que é exatamente o tipo de pessoa que faria isso.

Cherry sorriu, contra sua vontade.

– Garota esperta.

– Esperteza é o que me mantem viva. – Meera retribuiu o sorriso.

– Ótimo. Então onde pretende ir? E que esteja claro que também não confio em você, mercenária.

– Jamais cometeria o erro de pensar que confia. Vamos à Hex.

Cherry pareceu meditar.

– Não acho que eu queira colocar meu amigo no meio disso.

– King sempre está no meio de confusões como essa. Eu jamais o prejudicaria. Podemos conversar tranquilamente no bar dele.

– Ah, você conhece king. – Cherry pareceu um tanto surpresa.

Meera riu.

– Eu e ele fizemos alguns negócios de vez em quando. Vamos. – ela apontou para a casa gótica logo à frente.

Pouco à vontade, Cherry a seguiu. Sempre atenta aos movimentos de sua adversária.

Elas atravessaram a rua e tocaram na porta.

Um segurança carrancudo espiou pela pequena abertura medieval. O bar estava lotado, motivo pelo qual as ruas estavam vazias e a fila inexistente. A porta foi aberta e elas adentraram a boate barulhenta.

Foi um tanto engraçado. As pessoas no bar acabaram se distraindo com a presença daquelas duas estranhas, olhando para elas com certa cautela.

Mas é claro! Cherry era famosa por rondar a boate e causar confusões, além de ser taxada como uma assassina de aluguel – não, ela não fazia ideia de onde surgiram tais histórias. E Meera era uma mulher alta, forte e marrenta. Só a espada encaixada habilmente em suas costas era motivo para assustar qualquer um.

Mas os clientes de King eram educados o suficiente para não se intrometerem em assuntos alheios. Voltaram rapidamente à curtição, dançando, bebendo ou consumindo suas drogas preferidas.

– Acha uma boa ideia chamar tanta atenção assim? – Cherry perguntou enquanto andava pela boate ao lado de sua adversária sombria.

– Achei que uma Von Kern não se importasse em chamar a atenção. Não é você que vem quase todos os dias armada até os dentes e com essa pose de assassina beber uma dose de tequila?

– Bom, essa é a minha área. Todos aqui me conhecem.

– Ah, você se refere a mim? – Meera riu. – Eu não me importo nem um pouco em chamar a atenção. Só se mete em meu caminho quem é tolo. – seu olhar foi bastante significativo.

– Tolice é meu segundo nome. – Cherry sorriu para ela.

King as encontrou no meio do caminho. Ele vestia um terno extremamente elegante naquela noite e parecia um tanto assombrado quando as encontrou próximas ao bar.

Cherry teve que segurar o riso. Pobre King. Ele realmente achou que ela daria para trás na missão de encontrar a mercenária?

– Não acreditei quando via as imagens em minhas câmeras de segurança. – disse ele, fitando-as. – Vocês duas entrando em meu bar amigavelmente?

– Olá, King. – Meera disse e o beijou na boca.

Cherry os fitou com surpresa, absorvendo aquela cena.

O beijo foi rápido, simples e terno.

King se afastou, pouco a vontade.

– É bom ver você. – Meera sorriu para ele.

– Bom te ver também. Cherry, você a encontrou, como queria. – ele fitou a colega.

– Na verdade foi ela quem me achou.

– Uma franguinha assustada, devo dizer. – Meera riu.

Cherry rosnou para ela.

– Ok. Porque não vão ao meu escritório? Acho que é um lugar mais confortável para conversarem, supondo que é isso o que vieram fazer. – king disse.

– Está com medo que destruamos seu bar? – Cherry perguntou com um sorrisinho tentador.

– Deus sabe a bagunça que vocês duas podem fazer! – King soltou um palavrão. – Minha casa, minhas regras. Nada de brigas! – ele as alertou.

– Já passamos por isso lá fora. – Meera disse.

– Queremos apenas um lugar neutro para conversar.

– Ótimo.

King as guiou para dentro de seu escritório e concordou em deixa-las sozinhas para resolverem o que quer que fosse. Só a presença daquelas duas no mesmo ambiente lhe fazia suar como um porco.

Maldição!

O que Cherry estava aprontando agora? E por que diabos Meera aceitara se envolver?

Coisa boa não seria, com toda certeza!

*-* *-*

Meera se sentou na adorável poltrona de couro de King, totalmente á vontade, voltando sua atenção para a loirinha durona à sua frente.

– Então, o que quer saber?

– Não. Primeiro:  o que quer em troca das respostas?

– Isso depende muito das perguntas.

– Pare de joguinhos! – Cherry a encarou com seriedade.

– Eu não faço joguinhos, menina. Não estava brincando quando disse que gostei de você. É forte, habilidosa e letal. Essas são características que eu admiro em uma pessoa. Diga-me o que quer saber e, dependendo do que for, não lhe cobrarei nada.

– Simples assim? – Cherry ergueu uma sobrancelha. – Vai me ajudar por pura gentileza?

– Gentileza? – a mercenária riu. – Não seja tola. Você é uma Von Kern. Ajudá-la pode ser bastante útil para mim, além de trazer inúmeros benefícios.

– Os Von Kern não negociam com mercenários.

– E quanto á Cherry Vicious?

– Eu trabalho por mim mesma.

– Isso parece bom. É mais uma coisa que temos em comum. Eu também trabalho por mim mesma. – Meera fez uma pequena pausa, olhando para a outra. – Do lugar onde eu venho, honra é extremamente importante. Diga-me o que quer saber e eu lhe responderei. Em troca ficará me devendo um favor.

– Que tipo de favor?

– Um favor absoluto. Qualquer coisa que eu pedir, você fará.

– Parece um preço alto demais. Sairia muito mais simples torturar você.

Ambas sorriram.

– Aposto como gostaria disso, Cherry Vicious.

– Não gosto de torturas. Na verdade, há apenas uma pessoa nesse mundo á qual estou disposta e ansiosa por torturar. Essa pessoa não é você. – Cherry a encarou. – Seu favor absoluto, considere-o prometido.

– Posso confiar na sua palavra, assassina?

– Na minha família também damos muito valor à honra. Pode confiar em mim, mercenária.

– Ótimo. – Meera sorriu como uma leoa que acabara de jantar. – Agora, em que posso ajuda-la?

– Estou procurando uma pistola MP-448 Skyph, calibre 9 mm.

Meera franziu o cenho, realmente confusa.

– Não me diga que tudo isso foi apenas por causa de cobiça por uma arma!

– Não tem nada a ver com desejo de colecionadora. – Cherry garantiu.

– O que quer com a arma? E por que acha que sei alguma coisa sobre ela?

– O albanês de quem você a comprou me disse seu nome.

Meera riu.

– Você deu uma surra em Besnik Hoxha por causa de uma Skyph 9 mm?

– Na verdade eu dei uma surra nele porque ele é um porco.

– Interessante. Não sabia que os Von Kern se importavam tanto com a reputação dos outros.

– Em se tratando de escravidão sexual você deveria saber que eu me importo muito. Não sabe tudo sobre mim, mercenária?

– Certamente. – Meera se mexeu, pouco a vontade. – O que quer com a arma?

– Primeiro quero que me diga que não assassinou meus pais com ela.

A mercenária a encarou, sem expressão.

– Foi o que pensei. – Cherry disse. – Você não teria motivos para esconder.

– Seus pais foram assassinados quando ainda era apenas uma menina. – Meera disse e estava claro que não foi uma pergunta. – Ouvi dizer que você é motivada pela vingança. Que está á caça dos assassinos de seus pai e daquele búlgaro que a aprisionou.

– Está bem informada.

– Sempre faço o serviço completo. – a mercenária a fitou com seriedade. – Não sou quem procura. Embora naquela época eu já fosse capaz de segurar uma arma, não fui eu quem matei seus pais.

– Mas você tem a arma.

– A Skyph?

– Edição limitada apenas para colecionadores. Calibre 9. É a arma responsável pela morte de meus pais. Minhas pistas me levaram diretamente a você.

– Uma vez que essa arma é projetada exatamente para sabermos qual bala ela disparou…

– Eu posso provar de qual pistola ela saiu. – Cherry concluiu. – Tenho as balas.

– E como pretende encontrar quem puxou o gatilho?

– As pistas vão me levar diretamente até o assassino.

– Pouco provável. Pistas são boas porque nos levam a pessoas ligadas ao que procuramos. Mas elas não apontam quem realmente queremos encontrar. Suas pistas podem leva-la diretamente ao mandante, mas não ao assassino.

– Eu tenho o pressentimento que o mandante é o assassino.

– Você precisa ter certeza. – Meera disse, encarando-a no fundo dos olhos. – Quando puxar o gatilho precisa ter certeza de que será contra o assassino de seus pais. Só assim sua vingança será completa. Não pode arriscar matar a pessoa errada. Acredite, você jamais se perdoaria.

A mercenária fez uma pequena pausa. Então voltou a encarar a outra.

– Essas armas não apenas foram projetadas com balas específicas para cada pistola. Elas foram projetadas para marcar os atiradores. O russo que a criou era um homem esperto e não estou totalmente certa se tinha um acordo com alguém para criar uma arma tão engenhosa. A pólvora usada nas balas contém um ácido poderoso, que é liberado no instante em que se puxa o gatilho. O seu assassino tem as mãos arruinadas.

Cherry a encarou, sem nenhuma expressão. Definitivamente não sabia sobre esse segredinho.

– Como sabe disso?

– Como eu disse, faço muito bem o meu trabalho. Sempre procuro conhecer os objetos que uso… Ou que me mandam comprar.

– Você foi paga para comprar essa arma então.

– Acaso tenho cara de colecionadora? – Meera ergueu as sobrancelhas.

– Vai saber. – Cherry deu de ombros.

– Poucas pessoas sabem sobre esse pequeno detalhe sobre a Skyph limitada. Principalmente quem me mandou comprá-la. Para falar a verdade, quem me mandou comprar essa pistola não estava interessada em cobrir qualquer rastro… O que me leva a pensar que ela não tem nada a ver com isso.

– Ela?

– Quem me mandou comprar a Skyph era uma conhecida.

– E você vai me entregar o nome dela? Mesmo ela sendo uma conhecida? – Cherry estreitou os olhos.

– Sabe, eu me simpatizo com a vingança. – Meera disse. – E gostei de você. Hoje em dia é difícil encontrar uma adversária à altura. E até hoje nunca encontrei alguém que me desafiasse como você fez. Respeito-a por isso. E ainda temos o meu favor absoluto. – ela deu um sorrisinho. – Vou ajuda-la.

Cherry assentiu.

– Essa é a primeira vez que não vou precisar dar uma surra para obter pistas.

– Mas nós lutamos!

Elas riram.

– Tudo bem. Posso dizer que a respeito por isso também. – disse Cherry. – A admiração é mutua.

– O nome dela é Vedrana. Nós nos conhecemos na Sérvia há muito tempo atrás, quando fomos enviadas a um monastério no Oriente Médio. Ficamos amigas logo no começo e quando ela foi expulsa por não conseguir seguir o treinamento corretamente, nos afastamos. Eu permaneci no monastério e fui educada como guerreira numa antiga ordem. Vedrana nunca foi boa no combate como eu, acho que ela buscava coisas diferentes na vida. Foi uma surpresa quando entrou em contato comigo há anos atrás, pedindo-me para comprar uma arma específica. Foi a última vez que nos vimos. Não sei muito sobre ela, que rumo tomou depois que foi embora do monastério. Mas ela me pareceu uma mulher poderosa. Acho que conquistou poder nos últimos anos. Éramos jovens naquela época, mas sabíamos a arte de matar.

– Tem alguma ideia de onde posso encontra-la?

– Teremos que procurar. Só tenho um nome.

– Difícil encontrar pessoas com apenas o primeiro nome… No entanto, acho que conheço alguém que pode me ajudar.

– Posso pesquisar os rastros que ela deixou. Quando nos encontramos ela deixou bastante coisa para trás. Como disse, acho que não estava interessada em cobri-los.

– Exceto pelo nome. – Cherry disse, astuta. – Sua amiga não queria que soubesse quem ela era e que poder conquistou.

– De fato. – Meera concordou. – No entanto, Vedrana sempre foi uma mulher misteriosa.

– Espero que não se importe, mercenária, mas vou caçar sua antiga amiga.

Meera sorriu com malicia.

– Não somos mais amigas. Estou interessada em outro tipo de amizade no momento.

– Descarta tão fácil seus amigos?

– Fui ensinada a não me apegar às pessoas.

– Engraçado, tive o mesmo treinamento.

Elas se entreolharam.

– Que esteja claro que não confio em você. – Cherry alertou.

– Muito menos eu.

– Ótimo. Se me trair, eu acabo com você. Sabe que eu posso, que tenho coragem e recursos. Então não tente nenhuma gracinha!

– Não estou aqui para roubá-la, franguinha. Muito menos te ferrar. Para falar a verdade, quando ouvi seu chamado só me aproximei por curiosidade. Estava ansiosa em saber o que uma Von Kern como você poderia querer comigo. Agora estou motivada por nosso acordo.

– Espero que eu não me arrependa.

Cherry marchou até a porta e a abriu, dando as boas vindas à King.

Ele entrou no escritório com os olhos astutos. Ainda estava perturbado com aquele encontro repentino em seu bar. Olhou as duas garotas com cautela, analisando-as.

– Obrigada por ceder seu escritório, King. – Meera disse, educadamente.

– Estou surpreso por ele ainda estar inteiro.

– Eu disse que não haveria brigas. – Cherry disse, por sua vez.

– Conseguiu o que queria?

– Estamos nos entendendo.

– Bom.

Meera deu um beijo na bochecha dele, despedindo-se – o que comicamente o deixou vermelho.

Ela riu.

Cherry acenou uma vez, agradecendo a hospitalidade.

– Qualquer dia terá que me contar algumas coisas sobre o seu passado. – ela disse e desapareceu pelo corredor escuro.

*-* *-*

Elas escutaram a música quando ainda estavam no elevador.

Cherry ainda meditava sobre a ideia de ter levado Meera para seu apartamento, incerta sobre aquela decisão. Mas afinal de contas a mercenária descobriria facilmente onde morava, como descobrira os outros fatos sobre sua vida, não é mesmo? Então não era uma ideia tão estúpida leva-la para dentro de seu porto seguro.

A música as alcançou quando se aproximavam do oitavo andar. Cindy Lauper cantava alegremente uma de suas músicas mais famosas.

Cherry franziu o cenho e abriu a porta.

Willa dançava efusivamente, usando um short velho e uma blusa branca de alcinha. Parecia completamente distraída, curtindo a música alegre e abraçando aquele momento feliz com a alma.

Cherry não pôde deixar de invejá-la. Há muito tempo não se permitia um momento como aquele, em que se libertava da vingança amarga e se permitia dançar ao som de sua música favorita. Realmente sentia falta daquele tipo de coisa.

Ela riu, contra sua vontade.

Meera encarou-a como se fosse louca. E então seus olhos se voltaram para a outra maluca de cabelos cor de rosa. Ela achou graça, esboçando um sorriso debochado.

Willa congelou tão logo as viu. Seus olhos nem passaram por Cherry, focaram-se na estranha exótica ao lado dela, arregalando-se. Ela apanhou o controle do aparelho de som e com um click o silenciou.

– Porcaria! – soltou, recuando dois passos. – Por favor, me diga que não trouxe uma mercenária para dentro da sua casa. – ela encarou Cherry.

Meera se limitou a sorrir.

– Acredite, tipos muito estranhos já entraram em minha casa. – Cherry disse.

– Acho que preciso me acostumar a isso. – disse Willa. – O que ela faz aqui?

Ela se chama Meera. – a mercenária se apresentou, encarando a menina como se fosse um bichinho. – Quem é a garota? – perguntou à Cherry.

– Uma amiga.

– Interessante.

– Você confia nela? – Willa perguntou. – Deve ter um bom motivo para tê-la trazido aqui.

– Mais uma franguinha. – Meera riu, cheia de escárnio.

Cherry decidiu ignorá-la, voltando sua atenção à Willa.

– Não confio nela. Mas temos um acordo. Ela está aqui para me ajudar.

– Fez um acordo com uma mercenária? – Willa parecia descrente.

– Uou! Não era eu quem estava dançando Cindy Lauper!

Willa a olhou feio.

– Não precisa ter medo de mim, franguinha. Não estou aqui para machuca-la.

– Não tenho medo de você. – Willa garantiu. – Só não confio em mercenários.

– Já entendi por que gosta dela. – Meera sorriu para Cherry.

– Preciso de você, Willa.

– Por que eu tenho a sensação de que isso não é uma coisa boa?

– Preciso que invada o sistema de rastreamento novamente.

– Ah. Só isso? – ela parecia desapontada.

– Precisamos encontrar uma pessoa.

– Espero que essa pessoa não seja tão difícil de rastrear como essa aí. – Willa apontou para Meera.

– Tentaram me rastrear por sistemas federais? – Meera achou graça.

– Não sabíamos que você era tão esperta em cobrir seus rastros.

– Mercenários devem ser espertos. – ela deu uma piscadinha para a menina.

Willa apanhou o notebook em cima da mesa e se sentou no sofá. Começou a digitar rapidamente, fazendo seu trabalho enquanto as outras duas se sentavam também.

– Não acha ela jovem demais para desempenhar um trabalho satisfatório como hacker? – Meera perguntou, incerta sobre a capacidade da garota.

– Hei! Eu sou boa! – Willa a fitou com o cenho franzido.

– É bom que seja. A pessoa que estamos procurando tem a mesma capacidade de se ocultar que a minha.

Willa parou de digitar, encarando a mulher estranha.

– Nesse caso não acho que a procura seja eficaz.

– Tente mesmo assim. – pediu Cherry. – Podemos encontrar alguma pista.

Willa pareceu avaliar as duas.

– Qual o nome?

– Vedrana. – Meera disse.

– Vedrana? Que tipo de nome é esse?

– Sérvio. Precisamos encontrar qualquer pista ou documento que nos leve a essa mulher.

Willa assentiu, voltando a digitar com rapidez. Seu rosto juvenil em nada enganou a mercenária. No instante que o olhou a garota soube que um passado de dor e medo a assombrava. Conhecera meninas como ela algumas vezes na vida.

Por um momento ficou tentada em sondar qual a relação que a garota tinha com a Von Kern.

– Encontrei um nome. – Willa disse. – Vedrana Jovanović.

– Tem um arquivo? – Cherry perguntou.

– Sem foto. – Willa analisou a pesquisa. – Aqui diz que é uma mulher de quarenta e poucos anos, sérvia e empresária. Tem registros no passaporte de Istambul, Marrocos, França e Estados Unidos.

– Istambul? – Meera encarou a tela do notebook. – Tem as datas?

– Vamos ver… – Willa checou o documento. – Ela viajou para Istambul em 1987. Em 1993 foi para o Marrocos e dois anos depois para a França. Veio para os Estados Unidos em 2004. E então se encerra o passaporte.

– É ela! – Meera disse. – Em 1987 fomos para o monastério em Istambul. Tínhamos treze anos. Ela foi expulsa da ordem aos 19, em 1993. Foi quando sumiu.

– Vedrana Jovanović. – Cherry disse, a satisfação brilhando em seus olhos. – Procure tudo sobre esse nome.

– Vou ver o que posso fazer. – Willa prometeu.

– Vai achar pouca coisa, mas qualquer informação é válida.

Willa se concentrou em seu trabalho.

Cherry voltou sua atenção á Meera.

– Posso te oferecer alguma coisa?

-Desde que não tenha veneno… – a mercenária sorriu.

Cherry desapareceu na cozinha e voltou com dois copos de Vodka.

Meera bebeu com gosto, apreciando o rastro fervente que a bebida deixou em sua garganta. Ela deixou o copo apoiado no canto da mesinha de centro, voltando seus olhos para sua mais nova aliada.

– Boa Vodka.

– Tento manter certas tradições.

Willa continuou batucando os dedos no teclado do notebook, preenchendo o silêncio com aquele som irritante.

– O que vai fazer quando encontrar Vedrana? – Meera perguntou.

– Fazê-la falar. – Cherry respondeu.

– Não me diga. E eu achando que você iria convidá-la para um cafezinho. – a ironia foi ácida.

– Não tomo café. Jamais.

– Você vai mata-la?

– Depende. Isso a incomoda? – Cherry a observou.

– Não sei dizer ao certo. Aprendi a me manter afastada das pessoas, lembra? Nada de se envolver. Dá muito certo em meu trabalho. Se Vedrana é a responsável pela morte de seu sangue, você tem todo o direito de mata-la. É o que eu faria.

– Você parece entender de vingança.

– Eu me rendi a algumas. – Meera confessou. – Todas muito justas.

– Uma mercenária justa? Essa é boa!  – Willa riu, ainda concentrada em seu trabalho.

Meera voltou seus olhos para ela.

– Não gosta de mercenários, senhorita cor- de- rosa?

– Difícil encontrar quem goste. Vocês são assassinos pagos.

– O nome disso é assassino de aluguel. Mercenários são guerreiros que lutam por dinheiro… No meu caso seria uma guerreira que cumpre ordens.

– Ordens de quem?

Meera sorriu do inquérito.

– No começo eu seguia ordens apenas de quem me treinou. Mas já não mantenho tal lealdade tribal. Sigo ordens de quem paga mais, é claro.

– Como eu disse, uma assassina paga.

Cherry riu, observando-as em silêncio.

– Você é atrevida, tal como sua amiga.

– Pois eh. Se tem uma coisa que eu aprendi com os Von Kern é não se esconder. Falo tudo o que penso.

– Uma mulher que se impõe e fala o que pensa é uma mulher forte. – Meera aprovou. – O monastério onde fui criada e instruída não acreditava na força de uma mulher, mas fiz eles mudarem de ideia.

– Matando todos?

Meera gargalhou.

– Não. Ensinando-os como uma mulher pode ser forte e poderosa.

– Acho que posso gostar de você, afinal. – Willa disse e voltou sua atenção novamente para o notebook, tentando em vão esconder o sorriso.

– Achou alguma coisa? – Cherry perguntou.

– Você vai ficar satisfeita com os resultados. – ela fitou a amiga com empolgação. – Achei alguns registros com o nome de Vedrana. Ela viajou para o Marrocos depois de sair de Istambul e parece que conheceu alguém influente por lá. Conquistou uma grande quantia em dinheiro e chegou a investir em algumas coisas distintas no Oriente.

– Com toda certeza a fortuna dela cresceu. O preço que pagou pela pistola russa limitada não foi brincadeira. – Meera comentou.

– De fato. – Willa assentiu. – Seja quem for que a abrigou no Marrocos dividiu com ela dinheiro o suficiente para começar seu próprio negócio. Engraçado ela não ter ficado muito tempo por lá. Dois anos depois se mudou para a França. E é aí que as coisas ficam ainda mais interessantes.

Willa desceu a seta da tela com o mouse, lendo o restante dos registros.

– Parece que ela engravidou aos vinte e três e abandonou a criança em um orfanato renomado ao sul da França. Pouca coisa se diz a respeito. Ela assumiu um cargo importante em um museu da cidade e após alguns anos enriqueceu. Parece que começou a vender obras de arte famosas de um pintor desconhecido. Esse investimento lhe rendeu milhões.

Willa franziu o cenho.

– Os dados se perdem por aqui. Só tem mais algumas informações sobre a mudança dela para os Estados Unidos em 2004. Parece que ela deixou uma fortuna e tanto na França. Casas, teatros, dinheiro e algumas obras de arte.

– O que diz sobre a vida dela aqui nos Estados Unidos? – Cherry perguntou, ansiosa.

– Achei apenas um endereço. Acho que foi o primeiro lugar onde ela se estabeleceu antes de mudar completamente de identidade.

– Certamente. – Meera disse.

– Podemos achar pistas nesse endereço.

– Rua Pearl St. Edifício Gold Lux, Apartamento 675. Hartford, Connecticut.

– Ótimo! – Cherry levantou do sofá num pulo. – Vamos para lá.

– Agora? – Willa a encarou. – São quase três da manhã.

– Quanto antes, melhor. Não tenho um horário certo para seguir pistas, Willa. Quando elas aparecem, eu vou atrás.

– Hã, talvez seja boa ideia esperar até amanhecer. – Meera disse, por sua vez.

Cherry pareceu ponderar.

– Partiremos amanhã cedo então.

– Uma excelente ideia. – Meera se levantou. – Agradeço a hospitalidade. Encontro você na recepção amanhã cedo.

Cherry a acompanhou até a porta.

– Não esteja lá e eu juro que te caço até os confins da terra. – alertou.

Meera sorriu.

– Não vou enganar você, franguinha. Nos vemos amanhã. – a mercenária fez uma pequena mesura e foi embora.

Cherry trancou a porta, suspirando.

– Sinistra. – Willa disse, apontando a porta por onde Meera havia saído.

– Devo concordar com você.

– Confia nela?

– De jeito nenhum. Mas não acho que ela seja estúpida para me trair.

– Ah, me desculpa aí, mas acho que ela é bem estúpida a esse ponto sim.

– Pode ser. Mas temos um acordo valioso.

Willa a fitou com desconfiança.

– Que tipo de acordo?

– Um que eu espero sinceramente não me arrepender de firmar. – Cherry fitou a menina. – Vamos dormir. Temos que repor as energias. Especialmente você.

Willa desligou o notebook e aceitou o conselho de Cherry.

Dormir seria uma ideia fantástica!

*-* *-*

Meera chegou logo de manhazinha, encontrando-as na recepção. Willa vestia um pijama e estava completamente descabelada, a cara sonolenta. Isso não a impediu de lançar um olhar mau humorado para a mercenária.

Cherry estava vestida de forma prática, calças confortáveis, blusa básica e o coldre preso na cintura, abrigando duas pistolas Sig Sauer. Desta vez ela usou os cabelos presos. Parecia pronta para a ação.

Meera abriu a porta de seu carro prateado, convidando-as a entrar.

– A senhorita cor-de-rosa vai conosco? – ergueu uma sobrancelha.

– Com certeza não. Vou voltar a dormir, obrigada. – Willa bocejou.

Cherry se voltou para ela.

– Volto a tempo de te levar à mansão Von Kern. – prometeu.

– Claro. Estou ansiosa para ver seu primo me dar mais uma surra. – Willa se despediu e voltou para dentro do prédio, praticamente se arrastando. A preguiçosa não gostava de acordar cedo. À julgar pelo treinamento que estava tendo, tinha toda razão em estar tão cansada.

Cherry entrou no Freemont, travando a porta e Meera pisou no acelerador. Tinham destino certo. Seguiriam até Connecticut para investigar o apartamento de Vedrana. Alguma coisa deveriam achar. Afinal de contas, as pessoas sempre deixam rastros… Por mais inteligentes que fossem.

– Sua amiga parece bastante familiarizada com os Von Kern. – Meera comentou em determinado momento.

Cherry se limitou a encara-la.

– Qual a relação de vocês? – a mercenária insistiu.

– Qual a relevância disso?

Meera riu.

– Quanta hostilidade pela manhã.

– Ainda não confio em você, mercenária. Duvido que possa chegar um dia em que eu vá confiar. Não tenho motivos para falar sobre minha vida pessoal com você.

– Temos um acordo.

– Acordo esse que não envolve Willa e a relação que temos.

– Ela é sua namorada?

– Eu não tenho relações de compromisso. – Cherry garantiu.

– Foi o que pensei. Além do que, ela é muito nova para você.

– Willa é apenas uma amiga.

– Uma amiga que você leva para a casa da Família. – Meera parecia estar sondando, seus pensamentos astutos.

– Algumas amizades valem a pena a esse ponto.

Fez-se silêncio. Ambas concentradas na estrada à frente.

Cherry pareceu meditar sobre o assunto.

– Ela foi traficada e escravizada. – soltou, sem saber ao certo por que estava contando isso àquela mulher.

Meera desviou os olhos da estrada apenas por um momento, encarando a Von Kern.

– Eu a encontrei sob o domínio do albanês quando fui atrás de pistas. – Cherry continuou. – Willa tem a marca do búlgaro nas costas. Pertence à ele. Era apenas um presente momentâneo para Besnik. Eu a tirei de lá e prometi uma vida digna e diferente.

Meera permaneceu em silêncio, dirigindo.

– Meu tio ofereceu para treiná-la, torna-la tão forte quanto eu. Acho que devo isso à ela, afinal. Se eu não houvesse sido resgatada por minha família ia querer que alguém me desse essa oportunidade. Nem sei por que estou contando isso a você…

– Você se importa com a menina. – foi tudo o que a mercenária disse.

– Acho que sim. – Cherry olhou para ela. – Não espero que entenda isso. Você não se apega a ninguém, como disse.

– Sou completamente capaz de entender. – Meera garantiu. – Eu já me apeguei a uma pessoa antes. Ela foi arrancada de mim.

– Interessante.

– Essa foi a primeira vez que abracei a vingança. Quando matei o desgraçado o gosto doce e satisfatório da vingança explodiu em minha boca, aliviando qualquer amargura que ainda restasse.

Meera fez uma pequena pausa.

– Você deveria dar à menina tal satisfação. Ela merece, depois de tudo o que passou nas mãos do Magnata.

– Talvez eu divida minha vingança com ela. – Cherry meditou sobre o assunto.

– Bom.

Outra pausa breve.

– Eu ouvi sobre o búlgaro. – Meera começou, cautelosa. – Quando se é uma mercenária ouve-se sobre muitas coisas. Devemos sempre estar atentas aos criminosos, eles são nossos alvos mais cobiçados. Já estive na Bulgária antes e ouvi falar muito desse Bóris Petrov. Dizem que ele é um santo por lá.

Cherry rosnou.

– Claro que não conhecem o hobby dele. – Meera continuou.

– Seus caminhos já se cruzaram?

– Eu não me envolvo com esse tipo de pessoa. Por mais que me paguem bem. O que eu aprendi na Ordem sobre honra me impede de fazer negócios com essa gente.

– Eu a respeito por isso.

Meera voltou seus olhos para ela.

– Espero sinceramente que enfie suas unhas nele.

– Eu vou. – Cherry disse com fogo nos olhos. – Antes de morrer eu arrastarei Bóris Petrov até o inferno!

Meera riu, realmente entusiasmada com aquele fogo selvagem nos olhos da assassina. Gostava de pessoas assim, fortes e destemidas.

Cherry ligou o som e a voz de Mariah Carey preencheu o carro.

– Você está de sacanagem!

– O carro não é meu. – Meera se justificou.

– Você roubou? – Cherry a encarou como se ela fosse louca.

– Você disse que estava com pressa para irmos…

Cherry riu.

– Brilhante! Se nos pegarem vou te deixar apodrecendo na cadeia.

– Não vão nos pegar. – Meera disse e acelerou. – Pode ter certeza!

A Von Kern riu novamente. Há anos procurava por alguém com um humor igual ao seu para a loucura. Finalmente havia encontrado.

– Seja quem for o dono, tem um péssimo gosto musical. – ela apertou o botão do aparelho de som, trocando a estação.

Quando a voz de Ozzy Osborne preencheu o silêncio em uma de suas músicas favoritas, ela começou a curtir a viagem.

*-* *-*

Não demorou tanto para chegarem em Hartford, como previam. A cidade se estendeu bonita e elegante. Black Sabbath ainda tocava em um volume alto, mas Cherry desligou o som assim que passaram pelo Capitólio. Precisavam se concentrar agora.

Meera era habilidosa na direção e seguiu sem muita dificuldade pelo trânsito. Em poucos minutos estavam na Rua St Perl. Passaram pelo Starbucks e estacionaram na garagem subterrânea do Edifício de luxo Gold Lux.

A escuridão abraçou o carro e elas rapidamente desceram. Engraçado não precisar de uma senha de acesso num Edifício tão sofisticado…

Elas caminharam até a recepção elegante onde havia um homem trajando um terninho rica de giz. Ele as fitou com atenção, assumindo seu ar gracioso ao lidar com hóspedes.

– Posso ajuda-las? – sua educação era impecável.

Meera deu um sorriso doce, incorporando sua personagem nada convincente.

– Oi. Nós gostaríamos de acessar um dos apartamentos. Minha irmã já não mora aqui faz um tempo, mas sei que mantém seu apartamento. Gostaria muito de poder entrar.

– Mas é claro. A senhora tem a chave, presumo.

– Com toda certeza.

Cherry franziu o cenho para ela, mas não disse nada.

Extremamente eficiente, o recepcionista as guiou até o elevador e desejou que tivessem um bom dia. Meera foi igualmente educada, sorrindo para o rapaz enquanto as portas do elevador se fechavam.

Sua expressão mudou drasticamente quando ficaram sozinhas. Ela sorriu com malícia.

– Essas pessoas são tão facilmente enganadas!

– Como é que pretende entrar sem uma chave? – Cherry a estudou.

– Por favor, diga-me que não fez essa pergunta. – Meera a encarou como se ela fosse uma monga.

Cherry continuou olhando para ela.

– Que espécie de bandida você é?

– O tipo que mata.

– Mas não o tipo inteligente, presumo. – a mercenária revirou os olhos. – Diga-me, como você agiria?

Cherry não titubeou.

– Eu daria uma surra no engomadinho lá embaixo e o faria abrir a porta para mim.

Meera riu.

– Pois eh. Sempre usando de violência. Você é afobada demais.

– Ah, é mesmo, engraçadinha? Então me mostre a sua inteligência, por favor.

As portas do elevador se abriram.

Meera foi direto para o apartamento 675. Tirou alguma coisa de dentro do bolso da calça e se agachou na altura da fechadura. Ela foi bastante habilidosa com o alfinete, encaixando-o nas engrenagens da fechadura e destravando a porta. Tudo isso em menos de três minutos.

Cherry bufou.

– Uma ladra em potencial.

– Não aprendeu isso em seu treinamento? – a mercenária a provocou.

– Aprendi. Só acho mais divertido dar uma surra no recepcionista e o fazer abrir a porta.

– Claro que você acha. – Meera riu de novo e empurrou a porta.

O apartamento era elegante por dentro. Móveis rústicos, obras de arte e alguns candelabros europeus. Elas entraram cautelosamente, analisando tudo ao redor para ter certeza de que aquele território era seguro.

Cherry se aproximou da escrivaninha vitoriana, abrindo as gavetas e remexendo em alguns documentos.

Meera caminhou pelo apartamento, observando as pinturas e decorações.

– O gosto de Vedrana por arte melhorou muito. – comentou, distraída.

– Droga! – Cherry praguejou. – Não há nada de valor aqui.

Meera se aproximou, analisando os documentos.

– São registros de museus.

– E uma entrega de um quadro em New York. – Cherry olhou bem para Meera. – No museu Willoughby Éclatant.

– Você conhece o lugar?

– O mais importante é: eu conheço quem dirige o lugar.

Cherry deu uma risadinha.

– Mas que imbecil. – resmungou. – Esse francês sempre arruma um jeito de cruzar meu caminho. Talvez eu deva fazer uma visitinha à ele qualquer dia.

Meera deu de ombros, voltando-se para as paredes decoradas. Seus passos a levaram diretamente ao quarto sofisticado. Tudo muito arrumado e conservado. Oh, talvez Vedrana ainda frequentasse aquele apartamento.

Talvez fosse boa ideia deixar uma mensagem para sua antiga amiga.

A mercenária riu com malícia.

Analisou a penteadeira, ainda havia vidros de perfumes, doces demais para seu gosto, maquiagem e escovas de cabelo. O espelho estava decorado com algumas joias penduradas.

Meera apanhou-as nas mãos, tentada com a beleza de um colar em especial. O fio era de prata, muito delicado, e na ponta pendia uma ametista lapidada e muito bonita. A pedra lhe chamou atenção não por seu brilho místico, mas pela inscrição rúnica gravada em letras pequeninas.

Renascer.

Filha da mãe!

Meera sorriu com uma satisfação imensurável.

Cherry apareceu na porta.

– Do que está rindo?

– Ela renasceu. – disse Meera. – Estávamos certas ao supor que ela abandonou sua antiga vida, mudou o nome, os documentos e sua história e começou uma vida nova e totalmente distinta.

Meera mostrou o cordão de prata em sua mão.

Cherry o observou.

– Isso é uma pista? – ela parecia incerta.

– Com toda certeza. Esse colar é de renascimento. Algo espiritual, traz a mudança e o renascer da alma. Vedrana acreditava muito nessas coisas. Era extremamente religiosa. Acho que deixou isso para trás quando assumiu sua nova identidade. Se soubermos onde ela conseguiu isso, talvez possamos descobrir mais coisas.

– Espero mesmo. Porque não há mais nada de valor nesta casa. – Cherry olhou ao redor do quarto, torcendo o nariz para a decoração.

Elas trancaram a porta quando saíram, uma habilidade extra de Meera. Impressionante como ela conseguiu concertar a fechadura, não deixando nenhuma evidência de que fora arrombada.

O recepcionista se encontrava no mesmo lugar quando o elevador abriu as portas para o hall, e elas foram diretamente até ele. Meera estendeu o cordão de prata, sorrindo com educação forçada.

– Tem alguma ideia de onde minha irmã conseguiu esse colar?

O recepcionista franziu o cenho para a joia e seu olhar se tornou um tanto pejorativo. Ele se mexeu pouco a vontade.

– Desculpe-me, madame. Mas eu não me envolvo nesse tipo de bruxaria.

– Bruxaria? – Cherry quase riu.

– Essas artes pagãs não me agradam. Já deveriam ter prendido aquele velho! É um absurdo que continue a espalhar essas artes pecaminosas.

– Que velho? – Meera estreitou os olhos.

O recepcionista se calou.

– Não me obrigue a te fazer falar… – Cherry engrossou, sendo contida por um leve toque de Meera.

– Por favor, só queremos saber onde ela conseguiu esse colar. – disse a mercenária. – Também não aprovamos esse tipo de coisa. Por isso vou me livrar deste colar assim que sairmos daqui. Vim para limpar o apartamento da minha irmã de toda essa porcaria.

– Ah, é uma sábia mulher, senhora. – o recepcionista sorriu, voltando a ficar confortável. Fitou Cherry pelo canto do olho, desaprovando-a.

– De que velho falava? É quem vendeu o colar para minha irmã?

– Possivelmente. Ele tem uma tenda perto de Bushel Park, consulta cartas de tarô e runas como essa inscrita na pedra. Estava sempre por aqui com a senhorita Jovanović.   – ele pigarreou. – Se fosse vocês ficaria bem longe daquele homem. É um maluco feiticeiro.

– Interessante. – Cherry deu uma piscadinha para Meera.

O recepcionista a ignorou, desviando os olhos.

– Muito obrigada pela sua ajuda. – Meera disse, docemente educada. – Se minha irmã, por acaso voltar, diga a ela que mandei lembranças.

Ela saiu dando risada.

Cherry assumiu o volante desta vez. Seria engraçado se não dizer excitante dirigir um carro roubado pela cidade. Ela pisou no acelerador, seguindo as placas e o trânsito.

– Então… Vamos mesmo atrás desse feiticeiro?

– Um pouco de feitiçaria sempre cai bem. – Meera riu e ligou o som.

*-* *-*

Bushel Park era, de fato, um lugar agradável de passear. A grama verdinha e aparada, as árvores, o lago… A brisa fresca. Havia algumas pessoas fazendo piquenique, outras brincando com seus cachorros e algumas que se dedicavam ao exercício ao ar livre.

Sem dúvida a presença de Cherry e Meera causou alguns olhares. Aquelas duas não combinavam nada com a paisagem. Que bom que não estavam à passeio…

Foi fácil avistar a tenda de feitiçaria que o recepcionista havia mencionado. Ela se encontrava do outro lado do lago, escondida por entre as árvores. O tecido era de tafetá preto, dando um aspecto um tanto sombrio ao lugar. Nas bordas da tenda havia amuletos de ossos pendurados e algumas inscrições em uma língua estranha.

Meera se aproximou, puxando Cherry.

Não tinha ninguém do lado de fora, então elas foram entrando.

A tenda era grande e confortável. Abrigava algumas estantes com objetos estranhos, uma mesinha de madeira e um balcão de carvalho. O velho estava sentado dentro do balcão, espetando algumas bonequinhas vodu.

Cherry entrou com cautela, olhando tudo à sua volta.

Já Meera foi direto ao ponto. Não se assustava com facilidade.

O homem as fitou com um sorrisinho simpático. Não tinha nada de velho, como disseram. Seus cabelos eram cacheados num tom castanho, na altura dos ombros. O rosto dizia claramente que já havia visto bastante coisas na vida, digno de uma sabedoria surpreendente. Ele vestia uma túnica verde oliva que lembrava a vestimenta dos boêmios. E parecia sorrir com espontânea simpatia.

Meera estendeu o colar para ele.

– Estamos procurando pela dona deste colar. Foi você quem o vendeu?

O homem analisou a joia atentamente.

– Ah, sim. Confecciono joias como estas. – ele apontou para a pequena vitrine no balcão, onde se encontravam vários colares feitos de runas.

– Estamos no lugar certo. – Cherry sorriu, satisfeita.

– Gostaríamos de saber a respeito da moça que comprou este colar com o senhor. – Meera disse.

– Receio que não possa encontra-la, minha jovem. Este colar tem o poder de fazer renascer o espírito. A mulher que você conheceu já não existe mais.

– Tenho certeza que ela existe. – Cherry olhou feio para ele.

– Vedrana pode não existir mais com esse nome. Mas tenho certeza que a mesma mulher ainda existe com numa outra vida.

O homem se limitou a encará-la.

– Pode nos dizer alguma coisa que nos leve a ela? Alguma pista ou rastro que ela tenha deixado?

– Sinto muito. O renascimento nada deixa para trás.

– Ora, vamos! – Cherry estava perdendo a paciência.

O velho a encarou.

– Não espero que você entenda certas coisas, Escandinava.

Cherry estreitou os olhos.

– Posso sentir o perfume do mar do norte em você. – o feiticeiro sorriu, analisando-a.

– Escute aqui, velho. Não tenho tempo para brincadeiras. Preciso saber onde esta mulher está!

– Não posso fazer nada por você. Mesmo que eu quisesse. Sua amiga não deixou nada para trás. Veio até mim com um pedido de renascimento. Fiz algumas sessões de feitiçaria no apartamento dela, mas não era de xeretar. Depois que lhe vendi o colar já abençoado, não a vi novamente.

Cherry praguejou, considerando seriamente em chutar alguma coisa.

– E você não teria um feitiço para localizá-la? – Meera brincou, bem humorada.

– Nenhum que funcione com você. – o feiticeiro respondeu com educação.

– No tempo em que você passou no apartamento, notou alguma coisa sobre ela que possa nos ajudar? Alguém que frequentasse a casa dela? – Cherry os interrompeu, impaciente.

– Como eu disse, não sou um xereta. Eu ia, fazia a purificação e voltava para minha casa. Não posso ajuda-la, menina.

Meera agradeceu pelo tempo e puxou Cherry para fora daquela tenda, deixando algumas moedas de ouro em um caldeirão na entrada.

Cherry soltou um palavrão.

– O rastro se perdeu!

– Não se perdeu. – Meera disse como uma confiança palpável. – Vamos encontra-la.

– Através de quais pistas?

– Vamos caçar novas pistas. Acredite, temos por onde começar. Agora vamos embora. Não gosto desta cidade.

Cherry concordou, contra sua vontade.

*-* *-*

Willa se encontrava impaciente no apartamento quando elas finalmente chegaram. Cherry não parecia nem um pouco contente. Entrou tempestiva e foi direto para a cozinha se servir de uma dose de tequila. Meera a seguiu, aceitando uma bebida também.

Willa as fitou com indagação.

– O rastro se perdeu. – Cherry disse, virando outra dose.

– Ainda não. – Meera corrigiu. – Temos algumas coisas a fazer ainda.

– Tipo o que?

– Você ainda não esgotou todas as suas pistas. Deveria investigar o museu Willoughby Éclatant. Deve haver pistas escondidas por trás dessa venda.

– Talvez. – Cherry bufou.

– Não seja tão negativa.

– A culpa é sua. Não me deixou chutar o traseiro de ninguém hoje. Sem lutas, sem diversão.

Ela se levantou.

– Fique à vontade. Vou tomar um banho, tirar o ar de Connecticut do corpo. – ela parou no meio do caminho. – Vê se não apronta!

Meera riu.

– Achei que à essa altura já tivéssemos vencido esse impasse.

– De jeito nenhum. Para mim você ainda é uma adversária perigosa.

Cherry sumiu no corredor, deixando Meera e Willa sozinhas.

Willa encarou a mercenária, silenciosa.

– Então… – Meera começou. – Ouvi dizer que você está treinando autodefesa. Quer aprender alguns golpes novos?

Willa ergueu as sobrancelhas.

– Ah, vamos lá! Vai me deixar entediada aqui? Pelo menos me ofereça alguma diversão.

– Até parece que vou lutar com você.

– Lutar não. Aprender…

Willa a fitou com desconfiança.

– Não sei se seria uma boa ideia.

– Por quê? Está com medo que eu chute essa sua bunda magra pra valer?

– Sabe, você está começando a me irritar.

– Ótimo. Venha – Meera a desafiou. – Está na cara que você tem problemas comigo. Por que não resolvemos isso de uma vez?

– Não tenho problema nenhum com você.

– Ah, tem sim. A senhorita cor-de-rosa não gosta de mercenárias. Mas em compensação não se importa em dividir o apartamento com uma mafiosa assassina.

– Eu tenho motivos para gostar da Cherry. Ela me acolheu e salvou minha vida.

– Você não quer aprender a salvar a própria vida?

O olhar de Meera era um inconfundível desafio, como se a instigasse a abraçar aquela oportunidade. De fato a mercenária parecia o tipo de mulher que sabia se defender muito bem.

– Eu posso te ensinar algumas coisas úteis. O resto é com você.

Willa titubeou.

Foi o que bastou para Meera lançar aquele seu sorriso satisfeito e derrubar a menina no chão com apenas um movimento. Willa caiu sentada, perplexa, e fitou a lutadora habilidosa logo á frente.

Meera estendeu a mão, levantando-a.

– Você precisa ser mais atenta. O que é que aqueles Escandinavos andam te ensinando?

– Você é mais rápida que eles. – Willa disse, reposicionando-se. Desta vez numa postura que aprendeu com Klaus.

– Jura? – Meera pareceu empolgada. – É sempre bom saber. Vamos de novo, franguinha. Desta vez me mostre o que você já aprendeu.

A mercenária a atacou de novo e, embora Willa realmente tenha usado um dos movimentos de autodefesa que Sander lhe ensinara, acabou sendo ineficiente. Sua oponente a derrubou com facilidade, mais uma vez.

Willa se levantou sozinha.

– De novo.

Meera sorriu, aprovando a disposição da garota. Ela se curvou, assumindo uma posição ofensiva, pronta para atacar de novo.

– Mas que porcaria está acontecendo aqui? – Cherry apareceu, encarando-as com descrença.

– Meera se dispôs a me ajudar em alguns golpes. – Willa disse.

Cherry voltou seus olhos para a mercenária.

– Eu estava entediada. – Meera deu de ombros.

Cherry cruzou os braços, observando-as.

– Isso vai ser interessante…

*-* *-*

Meera se despediu de tardezinha. Precisava resolver algumas coisas em New York antes de partir e achou que o número de pancadas que deu em Willa fora satisfatório por um dia. Pelo menos a menina havia aprendido alguns truques.

Engraçado a sua disposição para ensinar. Em geral não se considerava uma professora e jamais tivera paciência ou humor para ensinar truques à outras pessoas. No entanto, algo naquela menina despertou aquele seu lado gentil e prestativo.

Não se apegue a ninguém…

A regra ressoou em sua mente diversas vezes, mas ela soube ignorar temporariamente. Não fazia mal ajudar pessoas de vez em quando. Especialmente quando tal instinto aflora dentro de si.

Até que foi divertido – ela se permitiu admitir à si mesma.

Alguns momentos na vida devemos nos dar a chance de ceder.

Cherry fez questão de leva-la até lá embaixo, onde se encontrava o carro roubado do qual ela ainda não tinha se livrado e que, por algum milagre, a polícia não havia rastreado.

– Para onde vai agora? – Cherry perguntou.

– França. Deve haver pistas por lá.

– Achei que essa vingança fosse minha.

– Temos um acordo, lembra? – Meera sorriu. – Eu prometi ajuda-la e não vou descansar até te entregar algo conclusivo. Você segue as pistas por aqui e deixa que eu procuro nos cantos mais remotos.

– Parece um bom plano, mercenária.

– Mas é claro que é, franguinha. – Meera riu e entrou no carro. – Não se meta em confusões desnecessárias, por favor. Odiaria perder minha sócia.

– E você vê se não mata pessoas desnecessariamente. – Willa disse, acenando uma vez.

Meera riu.

– Só por uma boa quantia, Senhorita cor-de-rosa. Só por uma boa quantia.

– Nos vemos por aí. – Cherry disse.

– Saberei entrar em contato. – a mercenária garantiu e, acenando mais uma vez, deu partida no carro, deixando apenas o rastro de uma boa música.

Cherry se voltou para Willa.

– É uma boa hora para ir à Mansão. Já adiamos seu treinamento por hoje.

Willa assentiu, de repente animada.

Cherry apanhou o Porche amarelo canário e tomou a direção para a casa de seu tio.

– Ainda pretende destruir o carro? – Willa perguntou, os cabelos voando loucamente com o vento.

– Pode apostar. – Cherry gargalhou e acelerou.

*-* *-*

Sander estava mais do que disposto a ensinar Willa naquela tarde. Não sabia dizer ao certo, mas estava começando a gostar daquela menina.

Cherry os deixou á vontade e foi ter com o tio, então Willa seguiu o loirinho até o galpão de treinamento. Também ostentava um sorriso no rosto, ansiosa para por em prática tudo o que havia aprendido com a mercenária. Ansiosa por aprender mais também.

Aquele treinamento significava muito para ela.

Sander começou com um pequeno aquecimento, explicando o quanto era importante se exercitar. Um bom lutador está sempre em forma e seu corpo precisa se acostumar com a rotina, era o que todos pregavam naquela casa.

Por sorte, Willa achou uma legging velha jogada no guarda roupa de Cherry e uma camiseta confortável. Nada de jeans hoje!

Desta vez fora mais fácil se defender dos golpes, ela soube interceptar a maioria deles e ainda derrubar Sander no chão com uma rasteira. É claro que ele levantou sorrindo, aprovando-a com os olhos.

Ela aprendeu outra série de movimentos de autodefesa e algumas técnicas para atacar. Sander parecia um bom professor. Exceto por sua arrogância repentina em determinados momentos que eram refletidas naquele seu sorrisinho irritante de conquistador.

Willa começou a ficar esperta com ele.

– Acho que aprendi. – disse ela, depois de vê-lo demonstrar várias vezes o mesmo movimento de esquiva.

– Tem certeza disso? – Sander ergueu as sobrancelhas, o sorriso metidinho começando a se formar nos lábios.

– Tenho. – ela o fitou com um quê de desafio – Vamos lá.

– Está me desafiando?

– Imagine, professor. Estou apenas incentivando o aprendizado.

Sander estreitou os olhos, secretamente adorando aquela ousadia.

– Vamos ver se você aprendeu mesmo. – ele disse, agachando-se.

Sander atacou, jogando seu corpo na direção dela.

Willa se defendeu com maestria, interceptando o soco que ele tentou lhe dar. Ela o empurrou, olhando com satisfação a expressão de surpresa com rosto dele. Foi tão rápida que ele sequer teve tempo de reagir ou assimilar o que ela estava fazendo, impulsionou o corpo para cima, agarrou o pescoço dele com as coxas e o jogou no chão, pressionando-o com o próprio corpo.

Willa deu um sorrisinho, fitando-o de cima.

Sander a encarou com perplexidade, mal acreditando que a garota conseguira derrubá-lo daquela forma, e então explodiu numa risada alta, realmente se divertindo com aquela situação. Ela quase não pesava em cima dele, na verdade o calor do corpo dela era agradável.

– Onde aprendeu isso? – ele perguntou.

– Com um amiga. – Willa disse, com satisfação. E então se levantou.

Ela o avaliou.

– Precisa de ajuda para se levantar, grandão? Ou pode fazer isso sozinho.

Sander impulsionou seu corpo para cima com facilidade, sorrindo. Ainda a fitava com perplexidade, mas estava se divertindo.

– Então. O que tem a me ensinar agora? – Willa perguntou.

Sem dar a chance de ela impedi-lo, Sander avançou e a beijou com intensidade.

*-* *-*

Cherry estava a caminho da porta, pronta para dar uma volta e esfriar a cabeça quando Alline a impediu. A tia estava extremamente elegante naquela tarde, usando um vestido de verão estampado de flores alegres. O cabelo negro e lustroso, preso num rabo-de-cavalo alto.

Ela se aproximou com aquela habitual simpatia, dando a entender que gostaria de conversar.

– Já está de saída?

– Preciso dar uma volta.

– Entendo. Você me parece triste… Frustrada, talvez?

Cherry voltou-se para ela, analisando a tia.

– Talvez.

– Espero que não tenha a ver com sua procura. Ouvi dizer que estava atrás de uma mercenária. – a voz deixava claro sua desaprovação. – Sabe que não nos misturamos com essa gente.

– Vocês não se misturam á essa gente. – Cherry corrigiu. – Eu me misturo a quem for que me leve aonde eu quero.

– Admiro essa sua liberdade.

E eu não admiro nada essa sua submissão – o pensamento pipocou na mente da assassina.

– E então… Você a encontrou? – Alline perguntou.

– Não. – Cherry mentiu. – Desisti da ideia.

O alívio de Alline foi visível e a garota ficou se perguntando por que a tia não queria que ela encontrasse Meera. A mulher pareceu enxergar essa confusão em seus olhos, pois se apressou em explicar.

– Eu só me preocupo com a família. – Alline disse. – Não gostamos de mercenários porque eles são facilmente volúveis. Uma hora podem estar ao nosso lado e na outra se voltarem contra nós. Essa gente sempre se alia a quem paga mais. São perigosos.

– Entendo.

– Devemos proteger a Família.

– Eu sempre protejo a Família.

– Eu sei. – Alline sorriu, cautelosa. – Mas é que você costuma tomar decisões imprudentes. Envolver-se com um caçador de recompensas, por exemplo.

– Sabe, eu não entendo essa sua implicância com a minha relação com Halle. – Cherry a encarou com firmeza.

– Um Caçador de Recompensas é tão perigoso quanto uma mercenária.

– Eu sei lidar com Halle. Assim como eu sei lidar com qualquer decisão imprudente que eu tome. Sei o código pelo qual fomos criados. E eu sempre protejo e preservo a Família. Você não precisa se preocupar.

– Sinto muito. Não quis ser rude.

– Você não foi. Apenas certifique-se em cuidar da própria vida. – Cherry disse e saiu.

Com toda certeza não estava com paciência para lidar com a tia. De vez em quando as preocupações infundadas de Alline lhe davam nos nervos! Ainda mais agora que já tinha tantas coisas na cabeça.

Realmente estava frustrada. A perda do rastro de Vedrana a irritou em demasia. Precisava tomar um ar, procurar algum tipo de diversão ou iria acabar explodindo e fazendo alguma besteira.

Inferno! Se ao menos encontrasse alguém para dar uma surra!

Ela riu, lembrando-se do quanto foi excitante lutar com Meera. Aquela era uma oponente à sua altura, alguém com quem dava gosto de lutar e morrer.

Engraçado sentir isso em relação á mercenária. Como sua tia dissera antes, essa gente era perigosa. Mas por algum motivo sentia que podia confiar na palavra de Meera. Ela não parecia apenas uma mercenária. Aquela mulher tinha honra, como muitos guerreiros do Oriente.

Fora uma boa fazer acordo com ela.

Cherry entrou no Porsche, decidida a dar uma volta. Talvez fosse interessante disputar um Racha. Velocidade parecia uma boa ideia naquele momento e ela bem conhecia as áreas onde tais corridas aconteciam.

No entanto, o carro a levou a outro lugar.

Ela estacionou na entrada do hotel, surpresa por ter decidido ir até lá. Certamente não faria isso em outra ocasião. Não mais.

Mas precisava mesmo de uma distração. Qualquer coisa que a livrasse daquela frustração amarga que retorcia sua boca. Precisava de algo quente, forte e embriagador.

Ela subiu pelo elevador, sem se dar ao trabalho de ser anunciada na recepção. Taí um problema que nunca teve em hotéis como aquele. Tocou a campainha do quarto 203 e aguardou, impaciente. Seu corpo balançava sutilmente, ansioso pelo que estava para acontecer… Ansioso por algum tipo de liberação.

Halle abriu a porta, surpreso.

– Cherry?

Ele vestia apenas uma calça escura, o peitoral musculoso exposto num convite audacioso, o que só instigou o monstro faminto dentro dela.

Cherry envolveu as mãos nos cabelos de Halle e o puxou de encontro à sua boca, devorando os lábios perfeitos num beijo ardente e cheio de segundas intenções, o calor ferveu seus corpos a ponto de fazê-los queimarem vivos.

 

Continua

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8 comentários em “A Garota Má (Pt.6) – A Dama do Deserto Escarlate

  1. Que não demore o próximo…rs
    Continua nos deixando apreensivo e agora, também, na adrenalina.
    O que foi essa luta da Meera e Cherry?
    Está cada vez melhor e com muita perfeição.
    Parabéns!!!

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    1. Aiiinnn, que booom que você está gostando ^_^
      Eu estava ansiosa pelos comentários sobre a luta das duas! kkkkk
      Pode deixar que em breve sai o próximo capítulo 😉
      Se prepare que vai pegar fogo! 😀

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    1. Ahhhhh 😀
      Feliz que você está gostando!
      Só uma coisa a dizer sobre a sua observação sobre a Alline: Você é esperta! he he he he
      Em breve sai o próximo capítulo 😉

      Curtir

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