Enchatriagge (Pt.7) – Fantasmas Noturnos

Enchatriagge (Pt.7) – Fantasmas Noturnos

Escrito por Lillithy Orleander

unnamed

Eu me debatia, gritava e tentava de todas as maneiras possíveis me soltar das mãos de Sarifh.
Ele por fim apertou minhas mãos e as amarrou, segurou meu rosto e me deu um beijo.
Eu senti tanta repulsa que minha única reação foi cuspir na cara daquele monstro e levei uma bofetada.

– Maldita! -ele sorriu.- Mas agora falta pouco para que eu seja completamente feliz. Só preciso matar o pequeno monstro e depois…

Ele me olhou diabolicamente, como se em sua mente pérfida ele imaginasse as atrocidades que faria á mim.

– Auster, irá te caçar.

– Auster é um homem morto e se não for eu mesmo arranco seu coração do peito e o faço parar de bater. Agora precisamos partir, temos negócios á tratar.

Sarifh me jogou numa jaula e acorrentou meu pé na portinhola, cobrindo onde estava com um pano para que eu não visse por onde passávamos
O balançar da carroça parecia mostrar que caminhávamos por um caminho acidentado e cheio de pedras, com a cor clara do pano pude então notar que a noite chegava.
E então paramos.

– Desçam – na.

Eu fui puxada como um animal pela corrente.
O fogo acesso me fez bem, mas ao olhar para Sarifh seu sorriso demoníaco me fez tremer.
Ele estava sentado em frente ao fogo com as mãos entrelaçadas e a cicatriz que Auster havia lhe feito parecia brilhar de forma grotesca quando a luz do fogo nela tocava.

– Sabe sempre achei interessante a forma como críamos o fogo e da mesma maneira como o apagamos. Ele resiste bravamente por um tempo e teima em não nos obedecer, mas por fim se rende á mão do homem e o dominamos.

– Você me dá nojo, Sarifh.

– E você me atrai, minha cara Mhina.

Ele então se levantou e caminhou até mim, andando ao meu redor.

– Sua pele parece um pêssego macio e rosado, colhido nos primeiros raios de sol, ainda molhado pelo orvalho, que me dá ganas de mordê – lá por inteiro.
E o calor? Ah, graciosa o calor que você emana me instiga e me deixa louco para que você me aqueça.

Ele parou atrás de mim, e puxou uma mecha de meu cabelo, me causando arrepios.

– Dama da Noite, é perfeito para um ser como você.
Amanhã partiremos cedo,iremos á um local onde acreditasse existir uma criatura capaz de realizar minhas vontades de maneira ilimitada.
Quanto á você – ele passou a mão por meu corpo como se estivesse analisando uma mercadoria. – Em breve graciosa, você será minha. Você qurendo ou não.
Daqui pra frente eu sou seu senhor.

As lágrimas ardiam em meus olhos e eu as mantinha presas para que não entregassem minha fraqueza diante daquele homem.
Ele me mataria e eu pude sentir que não demoraria muito.

– Joguem – na novamente, não quero me deparar com surpresas desagradaveis e infortúnios que venham atrasar meus planos.
A propósito, graciosa – ele se virou para olhar em meus olhos sorrindo satisfeito. – Ninguém virá, a está altura, como ordenei aos meus homens, estão todos mortos.

Ele ria de forma debochada, enquanto meu choro se tornava compulsivo.
Agora era questão de sobrevivência, eu precisava descobrir um meio de fugir.
O fogo foi apagado e tudo pareceu silenciar.
Eu dormi ao som de um lobo que uivava ao longe.
Acordei com uma mão fria tocando minha face ainda no meio da noite.
Abri os olhos e nada vi, ainda estava coberta pelo pano, mas tinha certeza de que uma mão me tocará, mas somente o silêncio fazia morada naquele lugar.
E então veio a música, mais parecida com um sussuro lamentoso, e luzes esbranquiçadas aproximavam- se do tecido.
Foi então que vieram os gritos, um dos homens que me guardava arrancou o pano e então pude ver em seu rosto agora seco sua órbitas vazia e a boca aberta como se algo houvesse lhe sugado todo o vigor e com ele outros caiam por terra da mesma forma.
Sarifh olhou para os lados e não enxergava nada assim como eu, as luzes sumiram e alguns animais haviam fugido deseperados.
Novamente o silêncio se instaurou entre nós.
O dia amanheceu sem que nenhum de nós tivesse se quer fechado os olhos ou dissesse qualquer palavra.
O caminho que seguíamos nos levava direto para o parecia ser um túmulo asobre a terra, algo dentro de mim se agitava e me mandava fugir, mas como eu fugiria daquele inferno?
A gruta escura apagava qualquer tocha que acendessemos e Sarifh só nos impelia a prosseguir, confiante e frio, como senão corressemos perigo algum, as paredes murmuravm e pareciam chorar ao nosso redor.
Uma voz distante e aveludada chegou aos nossos ouvidos como um sino.

– São almas que clamam pela liberdade mas tramaram contra a própria vida e quiseram vingança.
E este será o túmulo delas pela eternidade assim como será o de vocês, seres imundos.

A gargalhada ecoava em todas as direções, e meu coração por um instante pareceu eregelar…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-

Eu havia matado um homem…
Onde é que eu estava com a minha cabeça? Eu ouvia minha voz acusa – lo e fazer – lhe perguntas, eu via o apavoramento e ainda sim, naquele momento eu só o queria ver morto.
Eu preferia que fosse ele ao invés de Ann,ou de Lugha e de qualquer outro, mas a culpa martelava em mim cabeça.
Lucas e Auster me olhavam assustados, enquanto Ann me abraçava e me mandava ficar calmo.
Niacksa agia com a mesma frieza de quem nada tivesse presenciado e recolhia o restante das nossas coisas.
Eu me sentia roubando tudo de todos, Mhina de Auster, a liberdade de Ann, Niacksa e Lucas e por pouco a vida de Lugha, que agora me era muito cara e só não havia sido perdida por ela ser quem e o que era.

-Pietro, vamos! – chamou Niacksa impaciente – Temos um longo caminho a seguir e segundo me contaram deve ser trilhado, em boa parte a pé.
Portanto pare de se lamuriar e ande.

Ela virou – se de costas e começou o caminho.
Lucas bateu em meu ombro com um tapinha amigavel e me sorriu como sempre fazia com todos, ele emanava segurança.
Amarrou um turbante turquesa em sua cabeça e pegou o resto de suas coisas.

– Não se preocupe. Está tudo bem, Pietro e vai ficar tudo bem.

E seguiu Niacksa e Ann.
Auster me olhou nos olhos, guardando a espada na cintura, vestiu a capa e saiu sem dizer palavra.
A determinação em seu olhar me fez entender que se fosse necessário ele morreria por ela, por Mhina.
Não senti quando ela se aproximou, e eu ainda não me acostumava com esse fato.
Deitou a cabeça em meu ombro e suas madeixas louras caíram sobre ele, formando ondulações infantis.

– Não precisa ter medo, eu estarei com você.

Ela me deu um beijo nos rosto e sempre que ela fazia isso eu sentia minha pele queimar, com o tempo eu passei a vê – la mais do que como amiga, pelo menos eu a via dessa forma, independente do que já havíamos passado.
Lugha segurou minha mão e passou para minha frente.
Em suas costas estava a aljava e flechas junto a espada curta, em sua coxa a adaga voltava a ser amarrada e agora presa a bota havia um punhal.
Eu olhava o arsenal como se nunca tivesse presenciado tal cena, foi quando ela me surpreendeu.

– Eu sei, parece ser muita coisa, mas estamos indo para uma guerra e quanto mais nos defendermos melhor, garante nossa sobrevivência.

Ela sorriu e me puxou, precisávamos alcançar os outros que já estavam distantes.

– Sabe quando tudo isso acabar, se conseguirmos sair vivos.
Eu quero conhecer o resto do mundo e mudar a vida que eu levo, e quero que você venha comigo.

Eu não sabia o que responder, eu apenas sorri.
O caminho era escorregadio por causa da pedras e do gelo que sobre elas se acumulava.
Não havia sinal de vida, nem vegetal e nem animal e quanto mais avançamos mais casas desapareciam até que enxergamos o que parecia ser a última.
Um senhor de meia idade sentado na soleira nos olhava com curiosidade e se dispôs a nos dar abrigo por uma noite, já que a noite começava a dar seus primeiros sinais.

– Vocês não deveriam ir por esse caminho. Os espíritos que nele habitam não gostam de intrusos.

– Do que o senhor está falando? – perguntou Lucas enquanto tomava um xícara de chá oferecida pelo senhor.

” O mal veio ao mundo depois que a mãe de tudo trouxe ao mundo seu sangue.
Representações dela se esconde na Terra e se alguém for até lá não vai voltar, pelo menos não como partiu.
O que dorme no monte dos condenados, devora almas e as escraviza. E é capaz de trazer devolta todos os seus medos e piores pesadelos personificados nas almas e memórias que você deixou partir nessa vida!

Eu tentei avisar ao último viajante e sua comitiva, mas ele me chamou de velho medroso.

Auster pulou na frente do homem e o agarrou pela gola da blusa.

– Qual foi a direção?

– Auster controle – se e solte o bom homem. – disse Lucas.

Ele olhava o senhor com os olhos arregalados e suando frio, nós todos presenciávamos o desespero dele e o medo que se estampava em sua face.

– Perdoe nosso amigo, essa comitiva levava uma moça?

– Não, não. – o homem olhava Auster assustado como se esperasse outro ataque. – Eram homens e animais e algo coberto sobre uma carroça.

– É Mhina, ele a prendeu para que ninguém a veja, eu tenho certeza, temos que partir e pega – los no caminho imediatamente.

– Jovem, a hora se faz cheia e não é aconselhávelsair para o monte durante a noite, acontecem coisas tristes por lá e sem explicação.

Auster sentou – se e nada mais falou.
Na manhã seguinte agradecemos ao senhor as informações e a hospitalidade, partimos e nada mais por nós foi encontrado, não tinha mais sinal de vida humana aos poucos árvores e clareiras começavam a aparecer e o frio pareceu aumentar, menos para Lucas que continuava impassivel.
O dia correu rápido e por muito pouco não perdemos Niacksa para um gigantesco buraco que tivemos que circundar.
Encontramos uma clareira próxima á um lago e decidimos parar ali e esperar o dia amanhecer.
O silêncio estava fazendo morada entre nós pois cada um de nós se preocupava com algo, mas o mesmo foi quebrado pelo som de passos apressados…

– Quems está aí? – Lucas perguntou.

Lugha imediatamente se levantou e armou o arco na direção dos passos, enquanto Auster desembainhava a espada.
Do meio das folhagens surgiu uma mulher magnificamente bela e com longos cachos , olhos verdes, vestindo uma capa branca.
Auster baixou a guarda e ficamos sem entender ao certo o que se passava.

– Você?

– Mèriage, encantador.

Algo no tom de voz da mulher fez com que Auster guardasse a espada irritado e nos virasse as costas, mas não antes dela falar.

– Vejo que encontrou o que procurava e também perdeu.

Ele nos deixou sem ao menos nos dizer quem era ela.
Mèriage parecia estar em casa, sentou – se ao redor do fogo e tirou a capa.

– Me desculpem pelo mal entendido. Oras onde estão meus modos.
Me chamo Mèriage e vou acompanha – los durante algum tempo, isso é claro se não se importarem é claro.

Niacksa se levantou e foi até ela.

– Eu sei bem o que é você, não me cause problemas e poderá ficar.

– Estou aqui para ajudar, nada além disso.

A moça tinha a pele muito alva e as faces rosadas, e assim como Auster carregava uma espada de punho vermelho – escarlate, mas nada mostrava que ela era uma guerreira.
Era alta e vestia roupas verde até a altura do pescoço, onde estava pendurado um pequeno frasco, preso entre amarras de fios de ouro.
Ela estendeu as mãos em direção ao fogo de forma despreocupada para se aquecer.

– Vocês não precisam se preocupar com a moça. Ela está bem. Ele precisa dela viva tanto quanto nós.

Eu então me levantei e fui atrás de Auster, ele treinava não muito longe dali e desferia vários golpes no ar com fúria.
Eu me sentei em uma pedra e decidi esperar que ele acabasse, ele precisava de tempo…

Mas como o tempo havia nos abandonado, ouvimos um choro bem distante.
Auster arregalou uma vez mais os olhos e correu para a clareira desesperado, caindo de joelhos diante da imagem que nenhum de nós parecia crer no que via.
Uma luz tomou a forma de uma moça enquanto tantas outras nos espreitavam por entre as árvores.

– Keramidhê? – ele soluçava.

– Ela não é quem você pensa. Nada aqui é do jeito que vocês pensam, nada é real ou verdadeiro. – nos disse Mèriage.

Niacksa e Ann começaram a falar umas coisas que eu não entendia, enquanto Lucas olhavam para o outro extremo da clareira, estendendo a mão.

– Mãe? – ele foi mais forte que Auster. – Você não é minha mãe.

A luz se apagou diante de Lucas, mas Auster parecia não nos ouvir, foi então que…

– Pietro? Pietro,meu pequenino?

A mão gélida e o hálito que me causou arrepios me fez virar e me deparar com personificação de meu pai.
Mas os gritos de Lugha me fizeram despertar e voltar do transe.

– Meu pai jamais iria querer meu mal, e você. Não é ele.

A luz pareceu evaporar. Eu corri de encontro a Lugha que era levantada por umas das luzes enquanto gritava.

– Mayliqè, por que? Me diz por que, eu pedi pra você ficar longe, eu pedi…

Ela chorava e eu a puxei do alto, ela caiu em meu colo e chorou copiosamente enquanto uma vez mais eu assistia a luz sumir.
Ninguém conseguia tirar Auster do transe e a coisa agora erguia sua cabeça nos olhando com um olhar faminto, abaixou- se até ele e levantou a cabeça para beija – lo, seu rosto pareceu começar a secar, e as outras luzes apareceram se juntando ao que Auster acreditava ser Keramidhê, a espada então brilhou e o despertou.
Ele se levantou um pouco fraco desembainhou a espada e passou a dar golpes nas luzes como se ferisse algo.
Nós ouváamos os guinchados e sussurros, um círculo de fogo branco, invocado por Ann e Niacksa se levantou para exterminar os seres que a pouco quase nos matariam.
Quando tudo se apagou vimos a entrada fria de uma gruta.
Mais gemidos, mais sussuros e agora água que parecia escorrer das paredes para dificultar a passagem.
Lucas teve receio de entrar e parou.

– Isso não é água.
São lágrimas e… – ele passou a mão na parede – E sangue.

– Agora não existe mais volta. Ou vencemos aqui e continuamos.
Ou morremos aqui e nos tornamos escravos da coisa. – disse Ann.

– Tomem cuidado! Um de nós não voltará…

A última palavra foi Mèriage e aquilo fez com que eu entendesse os motivos de Auster para sua repulsa inicial.
Estávamos completos e unidos no meio da tempestade.

O Fogo, a Água, o Ar , a Terra, o Espadachim e a Vidente.
O que nos restava agora era sobreviver a tudo.
Mas quem de nós não iria conseguir?

Continua

Comente, diga o que achou! Seu comentário incentiva o autor e faz com que continue a escrever novas histórias!

Um comentário em “Enchatriagge (Pt.7) – Fantasmas Noturnos

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s