A Garota Má (Pt.5) – Estilhaços

A Garota Má (Pt.5) – Estilhaços

Escrito por Natasha Morgan

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Cherry acordou com um cheiro estranho pinicando seu nariz. O aroma agridoce ondulava pelo apartamento, vindo do banheiro. Se fosse uma mulher comum aquilo teria passado despercebido. No entanto, fora treinada para ficar atenta aos mínimos detalhes, mínimos ruídos e mínimos aromas.

Além do mais, qualquer cheiro forte irritava seu nariz.

Maldita rinite!

Cherry abriu os olhos, trôpega.

Porcaria! Aquela droga ainda não havia saído completamente de seu organismo? Mesmo depois de sangrar e ter uma boa madrugada de sono?

Mas o que esperar daquela substância maldita? Willa havia sido muito clara quanto ao propósito da nova fórmula da OXY. E Cherry estava mais do que disposta a bater um papinho com os responsáveis pelo tráfico daquela nova droga.

Willa…

Cherry se virou, procurando pela menina. Ela não estava na cama!

Cherry saltou depressa, ignorando a dor que tal movimento provocou. Acendeu a luz do quarto e varreu os olhos pelo espaço. Estava vazio.

Caminhou pelo apartamento, nervosa, e acabou por encontrar a menina no banheiro. Ela vestia um de seus robes vermelhos, estava descalça e tinha os cabelos encrostados numa mistura esquisita.

Aquele cheiro agridoce que empesteava o apartamento vinha da tinta do cabelo.

Willa congelou assim que a viu.

– Ah, sinto muito. – apressou-se em dizer. – Prometo que vou limpar tudo assim que terminar.

Cherry franziu os olhos.

– Isso aí é rosa?

– Ah. – Willa deu um sorrisinho – É sim.

Cherry deu de ombros e voltou para o quarto, apanhando um cigarro no criado mudo. O primeiro trago a fez se sentir melhor, seu corpo ainda doía. Seu quadril estava dolorido e sensível, e o corto no braço latejava. Quase se arrependia da aventura na noite passada. Sua teimosia acabaria por mata-la.

– Tem frutas, pães e queijo na cozinha. – Willa disse, timidamente. – Pode tomar café-da-manhã. Ou almoçar.

– Já é tão tarde?

– Você dormiu uma boa parte da manhã.

– Droga. – Cherry terminou seu cigarro. – Você saiu?

– Não tinha nada para comer. – justificou-se a menina. – Achei que não teria problemas ir até a mercearia. Aproveitei para comprar a tinta – apontou para seu cabelo. – Sinto muito se a incomodei.

– Não incomodou. Eu desperto com facilidade.

Willa assentiu em silêncio.

– Evite sair sozinha. – disse Cherry. – Não é seguro no momento. Bóris tem contato por todos os lugares, seria fácil demais para ele acha-la por aqui.

– Você disse que foi escrava dele assim como eu. Como conseguiu escapar? E como ele não a encontrou até hoje?

– Ele poderia se quisesse. Mas hoje em dia morre de medo com o que farei com ele. Depois que meu tio me resgatou e treinou, eu me tornei letal para o búlgaro. Hoje em dia é ele quem foge de mim.

– Você é uma Von Kern. – Willa disse, como se fosse óbvio. – Claro que ele tem medo de você! Ele sabia quem você era quando a capturou? Quer dizer, como uma mulher poderosa como você foi parar nas mãos dele?

– Você faz muitas perguntas. – Cherry disse, mas sorriu.

– Desculpe. É que você parece ser tão forte! Quer dizer, eu vi o que fez ontem à noite. Você é forte! Não consigo imaginá-la seguindo aquele porco.

– Naquela época eu era apenas uma garotinha indefesa.

– Você quer dizer como eu.

– Não. Você é muito mais forte do que eu era.

– E como você fez para se tornar forte?

– Meu tio. Ele me treinou. Ensinou-me a ser forte, não ter medo e nunca mais me curvar.

– Você pode me ensinar a ser assim também?

– Klaus pode.

– O que quer dizer com isso? Vai me mandar para os Von Kern? – Willa pareceu assustada.

– Estou curiosa, onde ouviu falar em minha família? Sei que somos conhecidos praticamente no mundo todo, mas você não me parece o tipo de garota inteirada no mundo do crime… Opa. Acho que disse besteira…

– Não, você está certa. Eu não era inteirada sobre esses assuntos.

– Sinto muito.

– Vindo de você sei que é sincero.

Willa fez uma pausa, fitando o chão.

– Eu morava no sul com meus pais. – começou. – Em uma pequena fazenda próxima à Monroe. Acho que eu era inteiramente feliz por lá. Até que decidi tentar a vida em New York. Sabe, eu costumava ser bonita. Antes de tudo isso acontecer. – Willa falou, com um pouco de amargura. – Estava tentando entrar para uma agência de modelos em Manhattan.  Até consegui uma participação num desfile internacional…

Ela se calou.

– Deixe-me adivinhar, Bóris era um dos patrocinadores do desfile e se encantou por você. – Cherry disse. – Ele prometeu uma carreira promissora e cheia de oportunidades.

Willa deu um sorriso amargo.

– Foi exatamente o que aconteceu.

– É assim que ele atua. Tem empreendimentos em agências de modelo, turismo e orfanatos. É como recruta novas escravas. Só na Bulgária existem milhões de empresas em seu nome.

– Eu não sabia disso na época. Era uma inexperiente e tola. Mas já aprendi minha lição sobre ganância.

– Nada disso foi culpa sua. – Cherry disse, muito séria, olhando a menina nos olhos. – Você estava apenas tentando melhorar na vida, seguir seus sonhos. O que aconteceu não foi um castigo bíblico para a ambição. O que aconteceu foi devido à crueldade de um ser humano!

– Talvez se eu tivesse ficado na fazenda de meus pais…

– Não adianta tentar revirar as areias do tempo. – disse Cherry, com pesar. – Acredite, eu tentei. O passado não volta, não importe o quanto desejemos.

Ela fez uma pausa.

– Posso leva-la para rever seus pais, se quiser.

Willa chacoalhou a cabeça efusivamente, o olhar perdido em tristeza.

– Bóris matou toda minha família na primeira vez em que fugi.

Cherry amaldiçoou.

– Entendo por que você não quis tentar fugir de novo.

– Tinha medo de ele machucar mais alguém que eu amo. Ainda tenho. Mas decidi me dar essa oportunidade… Somente para vê-lo morrer em agonia como você me prometeu.

– Você disse que ele matou toda sua família. – Cherry a lembrou.

– Ele matou.

– Então por que tem medo que ele machuque alguém que você ama se… – ela se interrompeu.

– Se estão todos mortos? – Willa completou por ela. – Porque há mais uma pessoa.

Cherry esperou, paciente, ela continuar.

– Quando eu estava sobre o poder do búlgaro, eu me apaixonei. – Willa contou. – Parece estupidez, não é? Apaixonar-se em meio a todo esse horror. Mas aconteceu. Havia um segurança novo. Desconfio que ele não sabia no que estava se metendo quando aceitou trabalhar para Bóris. Mas foi assim que nos conhecemos. Tivemos um romance escondido por alguns meses, eu realmente me apaixonei por ele e estava mais do que disposta a morrer por aquela paixão. Afinal de contas iria morrer de qualquer jeito. Por que não morrer por algo que vale a pena?

Willa tomou fôlego.

– Antes que Bóris descobrisse sobre nós, August decidiu fugir. Ir embora antes que pesasse sobre ele o peso da traição. Era uma ideia tresloucada, mas decidimos levar a diante. Foi a primeira vez que eu fugi. E me arrependo amargamente. Bóris nos encontrou tentando atravessar a fronteira do médico, pretendíamos nos refugiar no Brasil.

 Eu deveria saber que ele nos encontraria. Mas não pensei muito nisso quando decidi fugir. Não pensei nas consequências. Bóris me atraiu com a ameaça de matar meus pais caso não voltasse para ele.

 Lembro-me de ter ficado tão desesperada que, mais uma vez não pensei em mais nada e decidi voltar para ele. August tentou me impedir, mas não o ouvi.

 No instante em que fui aprisionada pelos braços de Bóris novamente ele mandou incendiar a fazenda de meus pais, com toda minha família dentro. Naquela noite fria ganhei a marca horrorosa em minhas costas… E a certeza de que jamais voltaria a fugir.

 Sei que August ainda vive. Ele tentou me achar três anos atrás, mas Bóris quase o matou. Eu mesma enviei um recado, implorando para que ele me esquecesse . Não podia suportar mais uma morte nas costas.

– Você tem medo que Bóris cace August. – Cherry compreendeu.

– Eu sei que ele fará isso. Foi uma de suas ameaças.

– Tem alguma ideia de onde August possa estar?

– Não. Tudo o que eu sei é que ele fugiu para Nova Guiné com a família. Era um homem influente, conhecia pessoas importantes fora do país.

– Então não acho que precise se preocupar. Bóris não vai gastar seu precioso tempo à procura do seu antigo amante. Ele virá diretamente atrás de você.

– Pode me proteger como disse?

– Eu posso. – Cherry garantiu. – E vou ensiná-la como se defender sozinha. Agora vá tomar um banho e se livrar dessa tinta. Temos uma reunião importante com os Von Kern.

*-* *-*

A mansão dos Von Kern era espetacularmente linda, Willa não pôde deixar de notar.

As paredes eram muito claras, janelas altas e largas ricamente decoradas. O acabamento do telhado lembrava bastante os antigos castelos medievais. O três andares tinham elegantes sacadas, o peitoril de ferro envolvido por hera.

De onde estava, Willa podia avistar a piscina enorme cercada pelo jardim. Havia árvores, plantas e roseiras espalhadas pela propriedade.

Um verdadeiro palácio de gelo.

Por um instante, a menina se esqueceu de onde estava e se permitiu apreciar a beleza. Jamais havia visto uma mansão tão bonita e preservada! Nem mesmo as casas do búlgaro eram tão ricamente belas.

A lembrança de Bóris apagou seu devaneio mágico e ela não pôde deixar de estremecer.

Cherry se aproximou, pousando a mão gentilmente no ombro dela.

– Não precisa ter medo. – disse. – Ninguém aqui fará mal a você. Posso garantir.

– Vão aceitar uma estranha?

– Se estiver comigo, sim. Klaus sabe que não confio em muitas pessoas. Se estou trazendo você para dentro da casa dele é porque tenho total certeza de que não é uma inimiga.

Elas passaram pelos seguranças carrancudos.

– Não o deixe te intimidar. – Cherry sussurrou e então abriu a porta principal.

O interior era igualmente sofisticado e belo. Mas Willa não teve a oportunidade de apreciar a decoração. Foram recebidas por um homem robusto, alto e nórdico. Ele vestia uma calça de náilon típica de luta, uma regata e um anel de opala no dedo mindinho. Seu semblante era duro, até mesmo se sorrisse.

Klaus se aproximou a passos lentos, as botas pesadas ecoando no piso lustroso.

– Então. – disse ele – Esta é a garota da qual falou?

Cherry assentiu – o que o fez avaliar a menina.

– Qual seu nome, criança?

– Willa. – ela respondeu, timidamente. Céus! Aquele homem lhe dava calafrios!

– Você esteve sob o domínio de Bóris?

Atrás de Klaus apareceram mais duas pessoas curiosas. Um jovem loiro e uma mulher de incríveis cabelos negros. A presença deles distraiu Willa momentaneamente. Mas ela voltou sua atenção para o homem poderoso à sua frente com rapidez, respondendo.

– Sim, senhor.

– Minha Mona disse…

Cherry o olhou feio, interrompendo-o.

Klaus revirou os olhos.

Cherry – ele se corrigiu – Disse que você está disposta a aprender a se defender.

– Sim, eu estou. Quero ser forte como ela.

– Você carrega a marca?

A pergunta dele chocou as pessoas na sala. Mas Klaus não se desculpou. Precisava saber!

Willa o encarou com firmeza, avaliando se a intenção por trás daquele gesto era humilhá-la. Não encontrou nada além de frieza.

Desconfortável, ela ergueu a bainha da blusa, expondo as costas arruinadas.

A expressão do mafioso em nada se alterou. Ele apenas assentiu duas vezes, calmo e mandou que abaixasse a blusa. Era o suficiente. Seus olhos fixaram-se na menina.

– Depois de tudo o que passou certamente merece um treinamento para aprender a ser forte. A partir de hoje contará com a proteção de minha família. Nunca mais estará sozinha! Vou ensiná-la a se defender, a não ter mais medo e a jamais se curvar. Você vai renascer… E recuperar os estilhaços de seu coração. – seus olhos se demoraram na sobrinha. – Não precisamos de mais uma alma perdida.

– Obrigada. – Cherry se manifestou.

– Somos uma família. Você nunca me pediu nada. Até agora. Não posso me recusar a conceder um único desejo àquela que tanto faz por mim. Além do mais, ela me lembra você.

Ele caminhou pelo hall.

– Venha, menina. Vamos iniciar seu treinamento.

Willa congelou, incerta. Mal conhecia aquele homem. Deveria segui-lo? Deveria confiar nele? Mas o olhar seguro de Cherry a acalmou.

– Sander, venha! – Klaus ordenou. – Suas habilidades serão úteis.

O jovem loiro desceu a escada à passos leoninos, juntando-se à eles. Usava um traje parecido com o do pai e seu porte era firme e seguro, o que sugeria que também era um lutador.

Eles desapareceram pelo arco decorado da porta.

Alline se aproximou.

– Klaus saberá o que fazer com ela. – disse. – Assim como soube o que fazer com você. Fez bem em trazê-la para nós.

Cherry encarou a tia.

– É uma proteção extra à qual podemos contar. Além do mais, aprender a se defender é fundamental. Todas precisamos ser fortes.

– Mas é claro. – Alline sorriu com simpatia. – Talvez fosse uma boa ideia deixa-la aqui conosco. Temos diversos quartos. Convenhamos, depois de tudo o que a pobrezinha passou, um pouco de luxo seria reconfortante. Além de garantir segurança máxima à ela.

– Ela ficará comigo.

– Tem certeza? Com todas essas suas missões pode não ter tempo para cuidar dela. Sabe que o búlgaro não vai poupar esforço para ter a menina de volta.

– Eu sei. Sei também do medo miserável que ele tem de mim. Bóris não é idiota. Willa ficará em perfeita segurança ao meu lado. Sou letal como toda Von Kern deve ser.

Alline ignorou a alfinetada.

– Além do que, não estou sozinha. Willa terá proteção de todos os lados. – Cherry garantiu.

– Ah! – Alline deu um sorrisinho. – O Caçador de Recompensas. Achei que houvesse rompido contato com ele. Sabe que não deve trazer atenção desnecessária para nossa família. Alguém como Halle Bennet é perigoso para os negócios.

– Não se preocupe, tia Alline. Do Caçador cuido eu.

Cherry desapareceu.

*-* *-*

Willa foi levada para uma sala pouco iluminada que mais parecia um galpão sem janelas e ar denso. Havia alguns tubos de ventilação no teto abobadado, mas eles não faziam muita diferença. O espaço era amplo e abrigava uma centena de parafernálias, de aparelhos de musculação até um grande tatame. Alguns sacos de areia usados para treinar Box estavam espalhados em fileiras intercaladas.

Parecia uma academia muito bem equipada.

Klaus e Sander caminharam formalmente pela sala, firmes como soldados. Willa os seguiu em silêncio, observando tudo ao seu redor. Com toda certeza estava ansiosa para o que estava por vir! Queria aquele treinamento tanto quanto queria sua liberdade. Ser forte como Cherry e capaz de se defender seria o primeiro passo que daria em sua nova vida.

Estava mais do que disposta a começar.

Klaus apanhou alguma coisa num dos armários de lata ao fundo da sala e voltou enfaixando as mãos com uma faixa preta, como os lutadores de Box costumava fazer antes de por as luvas. Ele parou de frente à garota, os olhos sérios e firmes.

– A primeira coisa que precisa aprender é a autodefesa. – disse ele. – Caso alguém a ataque, precisa saber se defender dos golpes.

Sander se sentou no tatame, observando-os.

– Firme os pés no chão e erga o tronco. – Klaus ordenou.

Willa fez o que ele mandava, encarando seu professor com determinação.

– Quero que se concentre em meus movimentos.

Willa o observou se mover, ensaiando golpes e formas de ataca-la. Algumas vezes lento para que ela pudesse ver exatamente como se movia, algumas vezes rápido demais para ela sequer perceber.

– Preste atenção, criança. É importante saber como um agressor se move e quais são as suas partes fracas. É como uma assassina prevê seu oponente.

– Eu não quero ser uma assassina. – Willa disse, a voz fraca.

– Talvez precise. É você ou eles. Agora levante essa voz! Se vai me contestar que seja com firmeza. Não deixe que pensem que é fraca. Isso dará poderes  aos seus inimigos.

– Eu não quis ser rude…

– Não. Peça. Desculpas. – Klaus a fitou com severidade. – Nunca peça desculpas! Saiba se impor e dizer aos outros exatamente o que quer. Uma Von Kern é uma mulher de fibra. Jamais se curva.

– Mas eu não sou uma Von Kern.

– Está sob a proteção da minha família agora. E vai aprender como ser uma de nossas mulheres. Nosso país é um dos territórios dos antigos Vikings. Nossa família tão antiga que poderia descender dos próprios guerreiros de Thor. Nossos homens são fortes, protetores e soldados. E nossas mulheres forjadas no calor da batalha!

Klaus se aproximou da menina.

– Vou trazer o calor da guerreira para dentro de você, jovenzinha. E nunca mais será vencida facilmente. Isso eu posso prometer. Agora, vou ensiná-la a se defender de possíveis ataques. E quero que intercepte meus golpes assim. – ele ensinou os movimentos certos à ela.

Willa repetiu os gestos várias vezes para ter certeza que tinha entendido. Viu Klaus se afastar e se agachar numa posição ofensiva. Ela se preparou.

Ele atacou. Moveu-se depressa, sem que ela pudesse notar seus movimentos, e em apenas alguns minutos tinha a garganta frágil entre suas mãos. A menina o fitou, aterrorizada.

– Lembre-se do que eu disse sobre observar os movimentos? Isso seria muito útil num momento como esse.

Ele a largou.

Willa recuou, esfregando o pescoço.

– Não demonstre fraqueza! – ralhou o mafioso.

Willa se aprumou, fitando-o com raiva.

Klaus sorriu.

– Bom. A raiva brilhando em seu rosto é bom. Concentre-a naquele que te feriu. Vai fazê-la ter mais energia para lutar! A forma como a ataquei, você deve se defender empurrando os braços para frente assim. – ele lhe mostrou os movimentos certos. – E pode me dar uma rasteira, jogando o impulso de seu corpo assim…

Cherry apareceu na soleira da porta, observando-os. Willa se sentiu um tanto nervosa em estar sendo observada, mas se esforçou para aprender o que Klaus lhe ensinava com tanto vigor. Foi lenta no começo, mas após algumas demonstrações acabou pegando o jeito. Conseguia interceptar os golpes com maestria.

Cherry assumiu algumas rodadas, ensinando-a com um pouco mais de paciência e dedicação. Willa conseguiu interceptar a maioria dos golpes que a outra lhe dava, surpresa com sua desenvoltura.

Ela sorriu.

– Não comemore ainda! – Klaus ralhou come ela. – Você ainda não é boa.

Willa apagou o sorriso do rosto, mas isso não impediu a alegria em seu interior. Ela realmente estava conseguindo!

– Você aprende rápido, mas ainda não é habilidosa como deve ser. Vamos ver se continua sorrindo depois que Sander terminar com você. – Klaus sorriu, presunçoso. – Sander! Assuma daqui.

Ele se afastou com Cherry, desaparecendo pela porta.

O garoto loiro desceu do tatame e se aproximou da menina. Ele assumiu a mesma posição ofensiva que o pai usara antes, fitando a menina com um misto de seriedade e malícia.

– Vamos nos divertir um pouco, rosinha. – ele disse e atacou, passando-lhe uma rasteira miserável que a fez cair estatelada no chão.

Willa o fuzilou com os olhos, segurando o joelho esfolado.

Sander riu de verdade, como um moleque e a ajudou levantar.

– Você pensa demais. – disse ele. – Fique atenta aos movimentos, como meu pai alertou, mas não pense demais. Defenda-se.

Willa assentiu. A raiva ia se amenizando.

– Vamos de novo. – Sander se agachou. – Se me vencer, eu a ensino a dar um soco!

– Eu sei dar um soco.

O rapaz riu.

– Eu quis dizer um soco de verdade! Sem quebrar os dedos.

Willa fez cara feia.

Sander a atacou novamente.

Ela o interceptou com certa dificuldade, mas conseguiu se livrar dos golpes e ainda derrubá-lo no chão com uma rasteira.

Ele riu.

– Boa defesa. – aprovou.

– Não deveríamos estar fazendo isso no tatame?

– Feridas de batalha nos incentivam. – ele torceu o nariz para o pulso esfolado.

– Acho que já tenho cicatrizes demais.

– Verdade. Mas as que ganhará hoje representarão sua força renascendo.

Sander se aproximou dela.

– Você me venceu. E como combinado vou ensiná-la a dar um belo soco.

*-* *-*

Cherry seguiu o tio até o escritório, contente com o progresso de Willa na autodefesa.

Klaus serviu-se de uma dose de conhaque e sentou em sua poltrona confortável. Entrelaçou as mãos e fitou a sobrinha.

– Aqui estamos novamente.

– Preciso de sua ajuda para encontrar uma pessoa. – Cherry cortou logo os rodeios.

– Quem? – Klaus a fitou com um sorriso paciente. Adorava o jeito da sobrinha!

– Uma mercenária.

– Uma mercenária? – ele ergueu as sobrancelhas. – O que quer com uma mercenária?

– Isso é problema meu.

– Ah, ainda está zangada comigo. – ele riu. – Ainda não compreendeu os motivos que me levaram a fazer o que fiz?

– Eu entendi muito bem. – Cherry foi ríspida.

– Não entendeu, não.  Se houvesse compreendido não estaria tão irredutível! Deveria me agradecer. É graças a isso que se transformou na mulher letal que é hoje!

– Vai fazer o mesmo com Willa? Jogá-la numa prisão para que aprenda a ser forte?!

– A menina já viveu em cativeiro por tempo o suficiente, tem o fogo adormecido dentro de si. Só preciso acordá-lo.

– E acaso eu não vivi o suficiente em cativeiro também? – Cherry cuspiu as palavras para cima dele.

– Quando chegou aqui você era uma menina fraca, ingênua e indefesa. Eu a lapidei e transformei na assassina fria que é!

Cherry se calou.

– O que quer com uma mercenária? – Klaus perguntou novamente.

– O nome dela é Meera. Quero que a encontre.

– Meera. – ele deu um sorrisinho. – Espero que saiba com o que está se metendo.

– Sério mesmo que está me dizendo isso? Você é um mafioso poderoso! Por que está se mijando todo por causa de um nome?

Klaus sufocou um sorriso. Ah, como amava quando sua Mona o enfrentava daquela forma, toda voluntariosa e destemida! Era naqueles momentos que ele pensava como valeu a pena todo seu trabalho em treiná-la.

– Pode encontra-la para mim ou não?

– É mais fácil ela encontrar você.

– Foi o que me disseram. – Cherry suspirou. – Suponho que devo ficar esperando a visita dessa mulher, o que não me agrada em nada! Importa-se de eu usar seu Porche de novo?

– Ainda pensa em destruí-lo?

– E como!

– Aonde vai?

– Acertar algumas contas pendentes. – Cherry destravou sua pistola, encaixando-a com cuidado no coldre na cintura. – Vou me ausentar por algumas horas. Prossiga com o treinamento de Willa, por favor.

– Não vai me pedir para pegar leve com ela?

– Você é o melhor.

– Ainda bem que se lembra, criança. Ainda bem que se lembra. – ele gargalhou,  bem humorado.

*-* *-*

A Hex estava vazia àquela hora da tarde, exceto pelos seguranças que sempre ficavam de tocaia, vigiando o casarão gótico. Cherry tinha certeza que King estava lá dentro, o dono nunca deixava seu bar. Especialmente quando tinha trabalho extra para cuidar.

Ela passou pelos seguranças lá fora sem dificuldades e foi até o escritório do amigo.

Encontrou-o em sua habitual mesa de mogno, contando suas preciosas pedrinhas.

King ergueu a cabeça ao ouvi-la entrar e logo aquele sorriso confiante se espalhou pelo rosto másculo.

– Um pouco cedo para as pedras. – Cherry comentou.

– Não há hora certa para apreciar essas beldades. – ele sorriu. – A que devo a honra?

– Preciso de uma pequena ajudinha, companheiro.

– Diga e a ajudarei com prazer.

– Fico feliz de vê-lo tão amigável mesmo depois daquela confusão que criei em seu bar. – Cherry deu um sorrisinho. – Realmente sinto muito.

– Águas passadas. Encontrou o que procurava?

Me encontraram. – ela corrigiu.

– Eu soube. – King sufocou um sorriso. – E soube também que deu uma surra nos russos.

– Espero que isso não tenha afetado seus negócios. Andrei está morto.

– Não se preocupe. Apressaram-se em substituí-lo. Meus negócios continuam em prosperidade.

– Ótimo! Odiaria prejudicar um amigo.

King sorriu, respeitoso. Apreciava a relação de amizade que tinha com a Von Kern.

– Você disse que precisava de ajuda. O que posso fazer por você?

OXY. Preciso saber quem está fabricando a nova fórmula dessa droga.

– Não trabalho com essa porcaria.

– Mas certamente conhece quem está envolvido nesse ramo.

– Por sorte eu sei.

King a fitou com atenção.

– Por que esse interesse repentino na OXY? Acaso as pistas de Andrei a levaram até essa gente?

– De certa forma sim. É pessoal. – ela não deu mais detalhes.

– Claro que é. – King sorriu. – Ouvi dizer que os albaneses estão por trás da nova fórmula.

– Possivelmente. Já enfrentei albaneses demais noite passada. – ela resmungou baixinho. – Pode me dar um endereço?

– Certamente. – King apanhou seu bloquinho de anotações e escreveu rapidamente numa caligrafia invejável. – O nome do traficante é Joe. Foi ele quem começou a distribuir essa merda pelas ruas. Com toda certeza ele sabe quem é o chefão!

– Obrigada, King. Você é o melhor!

– Tome cuidado, garota. – ele pediu.

– Eu sempre tomo. – Cherry se interrompeu. – Só mais uma coisa. Acha que pode me ajudar a encontrar uma mercenária chamada Meera? Klaus quase se mijou na calça quando eu pedia a ele para procura-la.

O dono do bar ergueu as sobrancelhas.

– Meera?

– É o nome que me deram.

– Seu tio é um homem esperto por não querer cruzar o caminho dessa mulher.

– Mas eu não sou. Quero encontra-la!

– Acho que posso te ajudar em relação a isso. Mas não é certeza! Certas pessoas são boas na arte de se esconder.

– Achei que fosse um homem esperto também. – Cherry sorriu para ele, provocando-o.

– Não tenho problema nenhum com Meera. – King retribuiu o sorriso.

– Mais uma vez, obrigada.

– É um prazer fazer negócios  com você.

– Vou me lembrar de trazer mais pedrinhas a você.

– Apenas tome cuidado.

Cherry assentiu uma vez e saiu.

*-* *-*

O endereço que King lhe dera a levou diretamente para uma das avenidas mais perigosas e movimentadas do bairro. Havia centenas de traficantes ocupando as esquinas, trabalhando com seus truques para atrair a garotada. Ela só precisava adivinhar qual deles era Joe.

E não demorou muito para descobrir. Observando o movimento constante e os garotos repassando os produtos, Cherry encontrou o único desconhecido naquela área.

O garoto era alto e muito magro, usava uma calça jeans surrada e um agasalho da Abercrombie, que estava na cara que era roubado.

Cherry se aproximou.

O garoto voltou seus olhos automaticamente para ela, avaliando.

Ele deu um sorrisinho.

– Quer se divertir, moça?

– Depende. O que tem aí?

– Heroína, cocaína… – ele esfregou o nariz, ansioso. – O que você quiser. Mas se me permite indicar algo, temos uma droga mais potente e duradoura. Coisa nova no pedaço.

– Eu estava contando com isso.

O menino esfregou o nariz novamente. Seus olhos tinham um brilho estranho, quase lunático, e ele estava suando mais do que deveria num dia fresco como aquele.

Ah, um viciado! Pelo jeito aquele garoto não apenas se encarregava de distribuir a mercadoria como também passava um bom tempo desfrutando dela.

– Quanto vai querer? – ele perguntou, impaciente.

– Tudo.

– Isso vai sair caro, dona. – o moleque deu um sorrisinho.

– Ah, mas não estou interessada em pagar. Você vai me dar tudo o que tem aí e vai me dizer para quem trabalha.

O rapaz olhou bem para ela, avaliando se estava blefando.

– Isso não vai rolar, dona. – disse ele, engrossando. – Acho bom sair daqui antes que eu e meus manos damos um jeito em você!

– Mas é claro que você ia dizer isso. – Cherry suspirou. E acabou socando-o.

O moleque cambaleou para o meio da rua, quase sendo atropelado por um caminhão se não fosse Cherry puxá-lo de volta pelo gorro do casaco. Ela o empurrou com força contra uma caçamba de lixo abandonada no beco e puxou sua pistola, apontando para o babaca viciado.

– Dona, por favor! Eu não sei de nada! – ele começou a implorar.

– Eu quero as drogas nos seus bolsos. Anda, passa pra cá!

Trêmulo, o menino entregou as ampolinhas prateadas.

– Bom menino. Agora, quem é o seu chefe?

– Por favor, não atira! Eu só trabalho para ele!

– Para quem? Só quero o nome.

– Nicholas! Nicholas Kramer! Por favor! Eu não queria fazer isso. Eles me viciaram e me forçaram a trabalhar para eles! Por favor, eu tenho família!

– Eu espero mesmo que sua família não saiba de suas atividades extracurriculares. Onde encontro esse Kramer?

– Há um galpão na próxima esquina, logo atrás do armazém Khemet’s. Kramer fabrica suas drogas lá!

– Ótimo! – ela checou seu relógio. – Um pouco cedo para estar distribuindo essas merdas por aí, não acha?

– Eu só faço o que me mandam fazer, dona. Os fregueses não se importam a hora do dia! Quando o efeito passa é preciso correr.

– Imagino…

– O que vai fazer comigo?

– Por enquanto você vem comigo. – ela o agarrou pelo cangote, impelindo-o a andar. – Vai me levar ao galpão. E se eu descobrir que está mentindo, vai ganhar um tiro num lugar que realmente te importa!

– Não faça isso não, dona! – O menino implorou de novo. – Juro que não estou mentindo.

– É o que veremos!

Em pleno fim de tarde e ninguém os percebeu nas ruas. As pessoas de New York aprendiam facilmente a ignorar certas coisas e a policia àquela hora estava reunida saboreando rosquinhas maravilhosas. A barra estava limpa!

O garoto conduziu Cherry até o galpão escondido, mancando.

A calçada estava vazia e silenciosa.

Cherry encostou a pistola no ombro dele.

– Chame seus amigos. – ordenou.

Trêmulo, o garoto obedeceu. Deu duas batidas no portão de lata.

– Ralph! Laurence! Sou eu! Abram a porta!

O portão se abriu e um rapaz de cabelo seboso colocou a cabeça para fora. Ele sequer teve tempo de puxar sua arma, Cherry empurrou a porta com força e o derrubou no chão. Ela pisou na mão estendida, jogando fora a pistola semiautomática e o socou no rosto até que perdesse os sentidos. Foi tudo muito rápido.

Um outro homem veio em socorro, empunhando outra pistola vagabunda e atirando à esmo.

Ora, aquele pessoal deveria treinar melhor!

Cherry acertou um chute na perna dele, fazendo-o se dobrar. Aproveitou a pequena distração e arrancou a arma da mão dele, torcendo o braço para trás. O homem gritou de dor e recebeu uma coronhada de presente, desmaiando no chão sujo.

– Sério mesmo que contrataram caras fracotes como esses para o serviço? – ela riu, dirigindo agora sua atenção ao último homem ali.

Ele usava um jaleco e óculos fundos. E olhava para a mulher com os olhos estatelados.

Um amador, talvez?

Mas o momento perplexo do cara durou muito pouco. Assumindo o controle dos seus negócios, ele apontou um 38 para ela.

Cherry parou no meio do caminho, analisando seu rival e dando a ele a saborosa ilusão de que estava no controle. Gostava de tirar uma onda com aqueles idiotas amadores.

– Posso saber o nome da idiota que matou meus homens? – ele gritou de onde estava.

– Cherry. Cherry Vicious. – ela disse com um sorriso engraçadinho e apanhou alguma coisa do chão. – Olha só! Uma Shotgun de cano cerrado. – apontou a arma para o homem. – Vamos ver do que essa belezinha é capaz. – sorriu, diabólica.

O sujeito pareceu reconsiderar. Abaixou a 38.

– Melhor assim. – Cherry aprovou. – Não me parece o tipo que sabe atirar. Aliás, não me parece o tipo malvadão que trafica drogas!

– O que quer? Veio tomar meu território?

– Suas drogas pouco me interessam. Exceto por uma.

– Posso imaginar a qual se refere. – o homem se sentou tranquilamente em uma cadeira. – Vai sair caro, princesa.

– Eu invadi seu galpão, matei seus seguranças e estou apontando uma arma para a porra da sua cabeça! Acha mesmo que vim aqui negociar?

– Se for esperta é exatamente o que vai fazer.

– Digamos que eu não seja. O que vai fazer? Atirar em mim com seu 38? – ela riu.

– Ah, por favor! Sou apenas um velho! Não é de mim que precisa ter medo e sim da pessoa que financia tudo isso. – ele fez um gesto, abrangendo todas as caixas que cercavam o galpão.

– Está me dizendo que não é o “cabeça” dessa organização? – estranho, por um lado ela já desconfiava. Um babaca como aquele conduzindo um negócio lucrativo? Nem pensar!

– Eu sou. – ele sorriu, presunçoso. – Sou o responsável pela nova fórmula da OXY. Mas não sou o bandidão que procura!

– Você é exatamente quem eu procuro!

Ela o socou com o cano da Shotgun, derrubando-o da cadeira.

O homem se virou de barriga para cima, tomando fôlego. Seu nariz parecia quebrado.

– Você começou com essa porcaria! – Cherry o acusou.

– Eu precisava de dinheiro! Lucien ofereceu uma boa quantia se eu usasse meus conhecimentos cientistas numa nova fórmula!

– Lucien?

– Lucien Fournier. É ele que financia tudo!

– Interessante. Não sabia que o francês estava envolvido nesse tipo de coisa. – Cherry refletiu.

Mas é claro que ela conhecia Lucien Fournier. Ele era bastante conhecido por sua coleção de antiguidades. Costumava comandar o pequeno museu em Manhattan e negociar suas obras de arte… Especialmente as falsificadas. Era um homem extremamente rico.

Cherry só não imaginava por que ele se interessaria em financiar uma droga venenosa como aquela.

– Você não faz ideia em que tipo de coisa Lucien está envolvido. Não vai querer se meter com ele. – o cara disse.

– Posso lidar com isso depois. Agora, se não se incomoda, dê-me suas mercadorias.

O homem hesitou.

– Vamos! Eu não tenho o dia todo! – Cherry o empurrou, impaciente.

O traficante amador a levou até o pequeno laboratório escondido atrás de algumas cortinas e a apresentou às centenas de ampolas cintilantes.

Cherry se aproximou do refrigerador e pegou uma das ampolas, examinando-a com atenção.

– Isso é a nova OXY?

– Essa é a líquida. – explicou o homem. – É a mais eficiente. Mas temos a em pó, para  os viciados mais pacientes. O efeito é o mesmo.

– Ou seja, ambas são venenosas.

– Sim. Rapidamente se introduzem no sistema nervoso, destruindo-o parcialmente. A injetável vicia em poucos minutos.

– A menos que você sangre. – Cherry retorceu o nariz.

Ela apanhou as ampolas do refrigerador e as jogou no chão, esmagando-as com a bota. Juntou os pequenos cilindros de metal os guardou no bolso da calça.

– Isso não vai adiantar nada. – o traficante falou. – Mesmo que eu lhe dê tudo o que tenho aqui dentro, mesmo que você limpe as ruas. O mundo não vai ficar livre da OXY. Eu tenho a fórmula aqui. – ele apontou para a cabeça.

– Ah, mas você não vai mais fabricar essa porcaria.

– Como vai garantir isso?

Cherry deu um sorrisinho diabólico e o chutou. O homem caiu em cima da mesa de acrílico, derrubando tudo o que estava em cima. Ela o grudou pela gola do jaleco, encarando aqueles olhos esbugalhados.

– Alguém injetou essa merda em mim! Posso garantir que não tem nada de engraçado ou legal nisso. Você nunca mais vai fabricar esse lixo! Isso eu garanto.

O homem a fitou pela primeira vez com medo.

– O que vai fazer? Me matar? Sou apenas um velho!

– Isso é completamente irrelevante para mim.

Ela apanhou alguma coisa em cima da mesa e fixou os olhos no traficante.

– Não vou sujar minhas mãos com mais sangue. Mas você vai provar de seu próprio veneno!

Cherry cravou a agulha da seringa no pescoço dele, afundando o êmbolo.

O homem gritou, surpreso, e começou a chacoalhar a cabeça, como se pudesse se livrar do veneno.

Tarde demais, otário!

OXY – ela atingia  o sistema nervoso em poucos segundos, destruindo-o parcialmente e viciando.

É, Cherry tinha certeza absoluta que aquele homem nunca mais iria fabricar aquela merda!

*-* *-*

Willa fechou o punho, tomou impulso e jogou toda sua força naquele soco. E acabou atingindo o loirinho bem no queixo!

Aha! Ela finalmente conseguiu!

Depois de várias tentativas interceptadas, ela finalmente conseguiu acertá-lo!

Sander cambaleou para trás, rindo como um moleque.

– Muito bem, garota! Você me atingiu em cheio! – sua voz exalava aprovação.

– Finalmente! – Willa comemorou.

– Eu sabia que conseguiria. – ele se aproximou, puxando as mãos dela para examiná-las. – E olhe só! Seus dedos estão inteiros! – riu.

Willa o empurrou com camaradagem.

– Eu disse que sabia dar um soco!

– Não, rosinha. Você teria quebrado todos os dedos se utilizasse aquela sua técnica patética. – Sander deu uma piscadinha.

– Você e seu pai estão sendo muito legais em me ajudar com isso.

– Quem diria, não é? Os Von Kern sendo caridosos. – ele deu uma risada sarcástica.

– Pouco conheço sobre sua família para compreender o escárnio.

– Você está de brincadeira! – ele a encarou.

– Não. Conheço o nome porque é o que mais falam nas ruas e em reuniões importantes da máfia, mas nunca ouvi muita coisa além de que são poderosos, ricos e… Bem, mafiosos.

Sander riu.

– É a primeira garota que eu ouço dizer isso. Quase me sinto melhor. Sabe o que é tentar sair com alguém e a pessoa sair correndo ou se aproximar de você apenas para benefício próprio?

– Não. – Willa também riu. – Não seu como é ser um mafioso.

– Engraçadinha. – ele disse, mas acabou rindo. – Você não me parece ter medo.

– Depois de tudo o que eu passei, acredite, mafiosos são o menor de meus problemas.

– Sinto muito por isso. – Sander se mexeu, desconfortável. – Quero dizer, sinto muito por tudo o que passou.

– Eu também.

– Com esse treinamento você nunca mais passará por esse tipo de coisa.

– Eu sei. E é exatamente por isso que eu agradeço. – Ela encarou o loirinho. – Mafiosos ou não, vocês estão me dando a oportunidade de juntar meus pedaços e me tornar forte.

– Devemos isso à Cherry. – Sander disse.

Ele caminhou lentamente de volta ao tatame e apanhou uma garrafinha de água. Deu alguns goles e ofereceu outra à Willa.

– Cherry nunca pediu nada à Família. Você deve ser importante para ela.

– E eu nem sei por quê. Nos conhecemos numa noite na Hex. Ela me impediu de usar heroína, fiquei tão brava! E então nos encontramos de novo em um evento turbulento. Ela salvou minha vida e me deu essa oportunidade.

– É por causa da marca nas suas costas. Cherry tem o mesmo passado que o seu.

– Ela me contou que já pertenceu à Bóris. – Willa disse, baixinho. – Disse que tem a mesma marca nas costas. Mas sei muito pouco do passado dela. Acho que ela não gosta muito de falar sobre isso.

– Você gostaria?

– Acho que não.

Sander deu uma um longo gole na água.

– Os pais de Cherry foram assassinados em nosso país. – começou. – Eles eram pacíficos, ficavam longe dos negócios da família e criaram Cherry assim. Sabe, era para ela ser uma pessoa totalmente diferente do que é hoje. Teria uma vida digna se não fosse por essa tragédia que se abateu sobre nós. Mas o destino ´cruel, não é mesmo? – seu sorriso amargou. – Ela foi sequestrada no avião a caminho da américa. Meu pai iria busca-la para viver conosco. Apesar de não concordar com as decisões do irmão em ficar longe dos negócios. Família é família! Vivemos sob esse código.

Sander fez uma pausa, fitando a menina. Podia enxergar com clareza sua inocência indo embora. Como era bonita! Aquele cabelo rosa lhe dava um ar exótico e indomável – o que ele adorou.

– O búlgaro a comprou quando a levaram para a Bulgária. – continuou. – Acho que os sequestradores não sabiam que ela era uma Von Kern. Acredito que nem mesmo Bóris. Mas não teria feito muita diferença se soubessem. Ouvi dizer que quando o búlgaro quer alguém, ele não me esforços para ter.

– Ele é um porco! – Willa disse, por sua vez, e a raiva amargou suas feições.

– Sim, ele é.

– Como Cherry escapou?

– Desde que ela sumiu, meu pai começou a procura-la em todos os cantos do mundo. Não parou um instante. Uniu toda a família para uma missão de busca. Da América à Istambul. Foram meses procurando… Anos! Até que ouviu-se rumores sobre um magnata búlgaro que mantinha escravas sexuais traficadas da América. Foi como a encontramos.

– Cherry disse que passou mais de dois anos nas mãos de Bóris.

– Foram dois anos infernais. Meu pai até hoje não se perdoa por ter demorado tanto a encontra-la.

– O búlgaro tem muitos recursos. Sabe se esconder.

– Não dos Von Kern. – Sander disse. – Quando a resgatamos pouco havia sobrado da adorável Mona. Ela estava destruída! Achávamos que não duraria muito, tínhamos medo que se matasse na calada da noite. Mas ela não fez nada disso. Havia uma força assustadora adormecida dentro dela, acho que estava guardando para o momento em que teria que se fazer valer desta força. Ela implorou ao meu pai para treiná-la. É claro que meu pai concedeu o desejo, ele a treinaria mesmo que não houvesse pedido. Era sua obrigação como parente mais próximo. A menina precisava curar sua dor e ser forte! O treinamento foi longo, complexo e poderoso, transformando-a na mulher letal que é hoje… E a fazendo abandonar para sempre a garotinha amável e ingênua que costumava ser.

Sander se calou, perdido em seus próprios pensamentos.

– Acho que o que a impulsionou a viver foi o assassinato dos pais. – prosseguiu ele. – Cherry jurou ir atrás do responsável até o inferno. O ódio que nutria por Bóris a ajudou ainda mais nessa empreitada. Assumiu os negócios da família, ajudando sempre meu pai quando ele necessita. E nas horas livres ela caça. É uma predadora cruel e habilidosa. Uma pantera faminta cuja comida preferida são pistas que a levarão diretamente aos assassinos de seus pais. A vida dela é movida á vingança, nada além disso. Ela vai se vingar, tanto da morte dos pais como de Bóris. Duvido que alguma coisa possa pará-la… Duvido que ela morra antes de concluir sua vingança.

Ele voltou seus olhos claros para Willa.

– Cherry nunca recuperou seus pedaços. Espero que isso não aconteça com você.

– Não posso julgá-la. Ser escravo de Bóris Petrov deixa marcas incuráveis na alma. Talvez eu também não consiga juntar os estilhaços que sobraram de meu coração. Talvez eu também me perca…

– Você não precisa. O treinamento serve exatamente para isso: torna-la forte e recuperar seus pedaços. Tentamos com Cherry, mas acho que já não havia mais nada dentro dela a não ser vingança.

– É por isso que seu pai concordou em me ajudar?

– Ele vê Mona dentro de você. – Sander explicou. – Ele não pôde salvá-la. Mas fará de tudo para salvar você. Já vi aquele olhar no rosto dele antes. É um grande desperdício uma menina como você se perder para sempre.

– Eu quero a minha vingança. – Willa disse, muito segura. – Quero ver Bóris morrer em agonia!

– Você a terá! Terá sua vingança. Mas não se perca no processo.

– Eu não quero me perder. – Willa disse. – Mas talvez não haja algo dentro de mim que realmente importe o bastante para juntar meus pedaços. O búlgaro tirou tudo de mim!

– Então tire tudo dele. Mas para isso precisa continuar o treinamento, ser forte!

– Eu vou. Vamos continuar. – ela se levantou prontamente. – Quero aprender tudo o mais rápido possível.

– É assim que se fala, garota! É assim que se fala. – Sander riu. – Mas encerramos por hoje. Foi o suficiente. Você aprende rápido e é habilidosa. Não vou pegar leve com você, nem meu pai. Mas por hora chega. Venha, vamos para dentro. – ele a conduziu. – Deve estar com fome.

Willa o seguiu, dissuadindo da ideia de ignorar seu estômago roncando.

– Sabe, de todas as coisas que ouvi a respeito dos Von Kern nenhuma era sobre hospitalidade. Você até que é legal.

– Eu até sou legal? – Sander riu de novo. – Somos mafiosos, não trogloditas. Não há motivos para não sermos civilizados, há? Você é convidada.

– Cherry disse que eu não precisava ter medo da Família.

– E não precisa. Você não é a inimiga.

– Eu não tenho medo.

– Diz isso porque sabe que é uma convidada ou porque aprendeu a dar um soco?

Willa riu.

– As duas coisas. – ela disse e o seguiu para dentro da mansão.

A cozinha era enorme e muito bem abastecida. Havia uma mesa longa de cobre na copa, ornamentada com todo tipo de frutas, pães e bolos.

Sander deixou Willa ali, garantindo que era bem vinda e podia comer o que quisesse.

– Eu volto já. – disse e saiu apressado.

Willa voltou-se para as gostosuras expostas na mesa e seu estômago roncou. Por Deus! Como estava faminta! Sem cerimônias, apanhou uma porção de frutas, incluindo os belos mirtilos, e se serviu de um copo de suco de laranja.

Alline observava a menina, oculta nas sombras. Seus olhos eram indecifráveis, a postura altiva como toda mulher daquela família deveria ter. Aproximou-se com elegância, o salto alto ecoando no piso de madeira.

Usava um vestido de cetim roxo. Uma mulher elegante além de bela. Para pertencer àquela família não bastava ser astuto, a elegância e finesse eram fundamentais. Especialmente quando se tratava da esposa do poderoso Klaus!

Willa se levantou, um tanto intimidada com a presença da mulher.

– Por favor. – Alline indicou a cadeira, sentando-se à mesa também.

– Não quero incomodar.

– De forma alguma. É uma convidada de Klaus e Cherry. Ouviu o que meu marido disse, agora está sob a proteção dos Von Kern.

– Obrigada. – Willa disse, incerta e tímida. E então se fechou.

Alline continuou a observá-la por longos minutos.

– Posso imaginar o que tem passado. – disse. – Já fui uma garota como você. Medrosa e perdida. Cheia de inseguranças e ingenuidades. Mas, diferente de você, eu encontrei um homem que mudou meu mundo e me fez parar de sentir pena de mim mesma. Eu me tornei forte e poderosa.

– Klaus. – Willa disse, respeitosa.

Alline deu um sorrisinho que não chegou a seus olhos.

– Oh, sim. Klaus.

– Você teve sorte. Possui uma bela casa agora… E um posto desejável na família. – Willa não quis, em nenhum momento, ser ríspida ou sarcástica. Mas acabou por sentir um sabor amargo preencher sua boca. – Eu também me tornarei forte.

– Mas é claro que vai. Basta manter em mente um objetivo que a impulsione a vencer. Todos nós somos capazes de nos reerguer depois de uma queda, por mais feia que tenha sido.

Willa a analisou com cuidado e, hesitante, perguntou.

– O quão fundo você caiu?

– O bastante para quebrar os ossos e estilhaçar a alma. – Alline a fitou com uma pontada de amargura. – Todos caem uma ou duas vezes na vida. O importante é reerguer-se. E eu fui reerguida.

– Isso parece bonito… Ser salva por quem ama. Mas não é algo para mim. Todos que amo foram tirados de mim. Não tenho ninguém para me levantar. Estou nessa trilha sozinha e é assim que me levantarei, com minhas próprias pernas.

– Foi o que eu fiz. Acima do amor ou qualquer outro sentimento romântico, eu me reergui por mim mesma. Foi a força dos meus braços, pernas e tronco que me ergueu da lama. É o que você deve fazer.

– Eu já tenho um sentimento que me move.

– E o que seria?

– Vingança.

Alline fitou os olhos ardentes da menina, enxergando o fogo por trás deles.

– Escolha o que te move com cuidado. Pode cair novamente.

Willa se empertigou.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que se for esperta vai aprender tudo o que tem que aprender com meu marido e seguir em frente com sua vida. Esqueça a retaliação com Bóris, isso não vale a pena. Você  é tão jovem! Tem tanto a viver…

– Depois de anos sendo escrava dele, anos sendo espancada, usada e maltratada, eu posso dizer com todas as letras que isso vale a pena. – Willa a encarou com firmeza.

– A vingança tem um sabor amargo.

– Sabor esse ao qual estou acostumada.

– É uma jovem tenaz. – Alline disse, incerta sobre se aprovava ou não.

– Aprendi a ser.

– Eu espero sinceramente que mude de ideia. Odiaria vê-la cair mais uma vez. Mas quem sou eu para interferir em escolhas tão pessoais? É uma mulher esperta. Saberá escolher o melhor caminho a se trilhar. Talvez queira ficar conosco na mansão. – ela sugeriu. – É grande e cheia de quartos. Pode escolher qualquer um. Você já passou por tanta coisa! Um pouco de conforto certamente lhe será bem vindo.

– Tenho todo conforto de que preciso com Cherry.

– Tem certeza disso? Aqui é muito mais seguro.

– Eu agradeço o convite. De verdade. Mas devo recusá-lo. Cherry salvou minha vida, teho certeza de que estarei segura ao lado dela. É onde quero ficar.

– Mas é claro.

Alline bebeu uma taça de vinho para tirar o sabor amargo da boca. Seus olhos foram simpáticos ao encarar a menina sentada à sua frente. Uma perfeita dama educada!

Naquele momento, Sander apareceu, perfeitamente vestido. Os cabelos loiros cortados em estilo militar estavam molhados –  o que indicava que tinha tomado banho.

– Ah, aí esta você. – Alline sorriu para o enteado. – Estava me perguntando por que abandonou a moça sozinha numa casa tão grande.

– Foi apenas por alguns minutos. Cherry já voltou?

– Ainda não. Seu pai está trancado no escritório, atolado em trabalho. Devo me juntar a ele. – ela se levantou, despedindo-se educadamente. – Divirtam-se!

Sander se sentou à mesa e começou a se servir de frutas e bolos.

– Espero que tenha aproveitado a fartura dessa mesa. – disse ele. – Precisa se alimentar bem para estar forte. É muito magrinha.

– Vamos ver o que posso fazer quanto a isso. – Willa disse, divertida, e abocanhou um pãozinho doce, sorrindo o tempo todo para Sander.

*-* *-*

Cherry voltou para a mansão quando já começava a escurecer. Encontrou Willa sentada com Sander em um dos sofás da sala de televisão, jogando Vídeo Game.

– Não acredito que a está viciando nessa porcaria! – Cherry fez uma cara de indignação.

– Não estou viciando ninguém. Ela já gostava disso antes de eu convidá-la a jogar. – Sander se defendeu com um sorriso.

– Como foi o primeiro dia? Achei que fosse encontrar vocês no galpão à essa hora. Klaus sabe que estão aqui se divertindo?

– Claro que sabe. – Sander deu uma piscadinha para a prima. – Sua amiga aprende rápido. Até acertou um soco no meu queixo.

– Bom. – Cherry sorriu para Willa. – Seu pai ainda está em casa?

– No escritório. – Sander respondeu, concentrado no jogo. – Ele tem uma reunião importante hoje á noite. – ele olhou para a prima. – Vai brigar com ele de novo?

Cherry sorriu.

– Sem mais brigas por enquanto.

– Ótimo! Melhor assim. Sinceramente, eu tenho medo quando vocês começam a brigar desse jeito.

– Porque sabe que posso dar uma surra nele?

– Não. Sem chance. Ele te treinou.

– Nunca subestime a força de uma mulher. – ela deu uma piscadinha para ele.

– Sim, eu sei. Willa me mostrou isso hoje.

A menina riu.

– Bom. De vez em quando você é um pouco arrogante. – Cherry disse.

Sander voltou seus olhos para ela, as sobrancelhas erguidas.

Cherry o ignorou.

– Diga a seu pai que não me esqueci do que conversamos esta tarde. Ainda quero achar a garota.

– Que garota?

– Ele vai entender. Venha, Willa. Vamos embora.

Willa levantou-se depressa, despedindo-se de Sander e prometendo voltar no dia seguinte para o treinamento e mais uma partida de Vídeo Game. Seguiu Cherry pela mansão, sentindo as dores de seus músculos começarem a se manifestar. Talvez tivesse que fazer uso de analgésicos na primeira semana.

Mas valia a pena. Estava bastante confiante.

Ela voltou seus olhos para Cherry, observando-a com cuidado enquanto dirigia. Ela parecia tão forte! Era tão destemida e segura de si! Custava acreditar que tinha passado por todas aquelas  porcarias com o búlgaro.

– Sinto muito por seus pais. – Willa soltou em dado momento.

Cherry a fitou de rabo de olho, prestando atenção na estrada.

– Sander me contou. – Willa explicou. – Disse que seus pais foram assassinados como os meus. Sinto muito.

– Eu também. O que mais Sander contou?

– Sobre seu passado nas mãos do búlgaro, como foi resgatada e treinada por Klaus. Sinto muito, não quis bisbilhotar. – ela se apressou em dizer.

– Pode me perguntar o que quiser. Não tem que pedir desculpas. É só que não gosto de lembrar do passado… Não mais do que devo.

Willa assentiu.

– Acho que posso entender isso. Assim como posso entender por que se move  pela vingança.

– É a única coisa que sobrou dentro de mim. – Cherry disse.

– Deve ter sobrado algo mais… Adormecido.

– Não sobrou nada, Willa. Ao menos nada que eu possa despertar agora. Fui destruída durante aqueles dois miseráveis anos. Já não estava completa antes de ser capturada, a morte dos meus pais roubou parte de mim e Bóris destruiu o resto.

– Eu também fui estraçalhada. Sei como se sente… Esse vazio por dentro. – Willa a fitou por alguns minutos. – No entanto, sei que nem tudo se perdeu dentro de mim.

Cherry deu um sorrisinho.

– Como eu disse, você é mais forte do que eu. Ainda há esperanças para você, menina. Não deixarei que se perca no meio de seus pedaços. Você é tão jovem!

– Você também é jovem. Se vai investir em mim e não me deixar se perder nesse meio de estilhaços, quero a mesma oportunidade. Posso tentar te resgatar também.

Cherry a fitou. E acabou sorrindo novamente. Gostava da menina. Gostava de verdade.

Fez-se silêncio.

Willa não sabia mais o que dizer.

– Sente falta deles? De seus pais?

– O tempo todo. As memórias que tenho deles são vagas, mas as mais preciosas que guardo.

– Entendo você. – ela sorriu um pouco. – Sinto o mesmo em relação aos meus pais. Compreendo a sua vingança, acho que faria o mesmo no seu lugar. E não acho que ela seja infundada como sua tia disse.

– O que ela disse?

– Apenas me deu conselhos cuidadosos para não acabar como você.

– É claro que deu. – Cherry franziu o nariz.

– Você não gosta dela?

– Não tem a ver com gostar. Alline e eu apenas temos ideias diferentes.

Cherry estacionou o Porche na garagem subterrânea do prédio.

– Seu carro é um tanto chamativo para o que você faz, não acha? – Willa comentou quando entraram no elevador perfumado.

– Não é meu. O Porche é de Klaus. E cedo ou tarde teremos o prazer de destruí-lo. – ela riu, bem humorada.

Willa não manifestou qualquer opinião sobre o assunto. Às vezes Cherry lhe parecia louca!

O apartamento estava vazio quando entraram, confortável e bem decorado. Cherry abriu a geladeira e apanhou uma garrafa de bebida. Bebeu lentamente enquanto a menina lhe observava em silêncio.

– Por que pinta seu cabelo dessa cor? – perguntou, realmente curiosa.

– É o que me faz ser a antiga Willa. Acho que não fui apenas destruída com tudo o que aconteceu. Também perdi todas as cores do meu mundo. Pintar o cabelo de rosa é como reafirmo minha identidade, prova que ainda sou eu e que ainda estou viva.

– Entendo o que quer dizer. – Cherry a observou. – Eu gosto.

Willa sorriu, seguindo-a pelo apartamento.

– E aquele moço bonito de ontem? – perguntou com um sorrisinho. – Vocês são namorados?

– Aquele moço bonito é um caçador de recompensas. Fique longe dele, por favor. Halle Bennet se mete em mais problemas do que pode resolver.

– Ele parece gostar de você.

Cherry a ignorou, livrando-se da roupa que usava.

– Meio irônico, não acha? – Willa continuou. – Uma mafiosa e um caçador de recompensas.

– Minha vida e escolhas são sempre irônicas. – Cherry torceu o nariz, vestindo roupas limpas.

– Já percebi isso.

Cherry sorriu para a menina, apanhando o notebook em cima da escrivaninha do quarto e o levando para a sala. Ela se sentou no sofá e ligou o aparelho, iniciando suas buscas.

Willa a deixou trabalhar em paz, tomou um banho e se serviu de um caprichado sanduiche de pasta de amendoim. Sander iria ver quem era a magrinha! Rindo consigo mesmo pela amizade improvável, ela se sentou ao lado da nova colega de quarto e apartamento, observando-a em silêncio.

Cherry parecia preocupada… E um tanto frustrada.

– O que está fazendo ai? – perguntou Willa, espiando a tela do notebook.

– Procurando por alguém que definitivamente não quer ser encontrado.

– Não deve ser tarefa difícil para alguém como você.

– Nesse caso é sim. – Cherry torceu o nariz.

– Já tentou o programa de rastreamento federal?

Cherry a encarou, erguendo as sobrancelhas.

– O que? Eles têm um programa bastante eficiente. Engloba não apenas pessoas fichadas, mas qualquer um que tenha seu passaporte ativado nos aeroportos dos Estados Unidos.

– Seria muito legal ter acesso à esse programa, mas eu não pertenço ao FBI ou qualquer organização do estado. – ela disse, como se fosse óbvio.

Willa deu um sorrisinho.

– Posso rastrear o sistema deles para você.  – ela disse. – E se erguer as sobrancelhas de novo vou considerar um insulto! – alertou.

– Não achei que fosse um hacker.

– Nunca se sabe se vamos precisar de tais serviços…

Willa assumiu o controle do notebook e em poucos minutos estava dentro do sistema de rastreamento federal.

– Qual o nome da pessoa que você quer encontrar?

– Meera.

Willa iniciou a busca.

Nada apareceu. Não havia ninguém com esse nome na lista.

– Você sabe de onde ela vem? Ou qualquer informação sobre essa mulher? Às vezes pode ajudar. Se eu categorizar…

– Ela é uma mercenária. – Cherry disse.

Willa congelou os dedos no teclado, voltando seus olhos para a colega.

– Ela é o quê?

– Uma mercenária. – Cherry repetiu devagar.

– Está atrás de uma mercenária? Será que isso é uma boa ideia?

– Concentre-se apenas em encontra-la nesse programa, por favor. Eu cuido do resto.

– Isso parece bom para mim. Exceto que não consta isso nas profissões disponíveis no programa. Sinto muito. – Willa mordeu os lábios, confusa.

– Droga! – Cherry praguejou.

– Se essa Meera é conhecida e costuma vir ao país, ela sabe realmente como se ocultar. Com toda certeza aqui estão os nomes de todos que entram e saem do país.

– Não é surpresa que ela saiba se ocultar. É uma mercenária, não uma vendedora de biscoitos. Só esperava encontra-la com mais facilidade, afinal de contas é o que todos dizem! Que ela vem atrás de quem a procura.

– Não seria esse o caso de esperar?

– Não tenho tempo para isso. – Cherry se levantou do sofá.

– Sinto muito mesmo. – Willa disse.

– Não se preocupe, pequena hacker. – Cherry brincou. – Vou dar meu próprio jeito de encontra-la. Agora, por favor, mantenha-se longe de confusão. Pelo menos até eu voltar.

– Vai sair?

– Apenas por alguns minutos. Vou visitar um amigo na Hex. Pode se cuidar por alguns minutos?

– Não sou criança. – Willa sorriu. – E se não estivesse tão cansada ia implorar para me levar com você. Adoraria curtir a noite dançando, em liberdade.

– Fica para outra vez. Estarei de volta em poucos minutos.

– Não precisa se preocupar comigo. Não quero ser um estorvo para você, então faça suas coisas que eu me cuido.

Cherry sorriu para ela, apanhou sua jaqueta de corino e saiu.

*-* *-*

É claro que ela não usou o Porche amarelo, teria outras milhares de opções de como destruí-lo. Optou por sua Harley Davidson, estacionando-a uma rua á frente da Hex. O movimento estava fraco àquela hora – o que só podia significar que King abrira mais cedo e a clientela já estava abrigada sob o teto gótico, dançando sob aos luzes pulsantes.

Tomara que King tivesse novidades!

Ela realmente queria encontrar a mercenária. E queria encontra-la o mais rápido possível!

Sentia que estava cada vez mais perto do assassino de seus pais e nada no mundo iria dissuadi-la de pegá-lo!

Ela olhou a rua vazia, lembrando-se do que o albanês havia dito sobre a mercenária: Basta sussurrar seu nome, ela virá ao seu encontro.

Cherry revirou os olhos.

Mas que babaquice!

Não é como se ela fechasse os olhos e invocasse a presença da mulher!

– Meera. – ela sussurrou, imitando um tom fantasmagórico.

Cherry riu de sua tentativa patética e se concentrou no que realmente importava. King com certeza teria informações!

Estava atravessando a rua em direção ao casarão gótico quando foi atingida por uma brisa fria. Cherry parou no meio do caminho, confusa, e acabou sendo interceptada por uma presença repentina.

A mulher surgiu do nada, parada a poucos metros no meio da rua. Tinha a pele levemente bronzeada e longos cabelos negros. Usava uma calça escura, uma blusa de couro envelhecido e um sobretudo damasco. Suas botas eram tão rústicas que fizeram barulho no asfalto quando ela se aproximou. A maquiagem que usava era parecida com a que as mulheres do oriente médio costumavam usar e ela tinha uma tatuagem estranha no rosto, tornando-a ainda mais sinistra.

Meera!

Mas que porra era aquela?

A mercenária deu mais dois passos largos em direção à Cherry, puxando uma espada longa e ameaçadora de dentro de seu sobretudo.

– Estava me procurando?

Continua

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