A Garota Má (Pt.3) – Sangue Amargo

A Garota Má (Pt.3) – Sangue Amargo

Escrito por Natasha Morgan

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Cherry acordou num galpão frio e escuro, amarrada por duas correntes presas ao teto. As algemas apertavam seus pulsos terrivelmente, causando desconforto. Ela recuperou os sentidos aos poucos, abrindo os olhos devagar e olhou ao redor. Estava sozinha por enquanto, o espaço amplo cercado por caixas fechadas de madeira.

Sem janelas, sem porta a vista, sem escapatória. Não tinha ideia de onde poderia estar.

Forçou as correntes, tentando se soltar e tudo o que conseguiu em troca foi dor. Aquela porcaria estava apertada! Se forçasse mais corria o risco de cortar a pele.

Maldição! Ela resmungou, repreendendo-se por ter sido tão estúpida. Mas é claro que os russos iriam atrás dela. Depois de torturar um de seus homens, Andrei viria babando para cima dela.

Cherry só não esperava que fosse imediatamente.

Ela se remexeu mais uma vez, tentando alcançar suas armas. Nenhuma. Foram removidas.

Russos espertos!

A porta escondida se abriu, ruindo. Três pessoas entraram. Dois eram homens, um fortão armado e um careca fumando charuto. E havia uma mulher. Ela usava um vestido florido e um avental manchado, seu cabelo era vermelho e os olhos penetrantes. Sua idade? Ah, como era cômico. A mulher parecia ter sessenta anos.

Se Cherry pudesse descrevê-la em apenas uma palavra seria sinistra. E olha que Cherry estava acostumada a lidar com aquele tipo de gente!

Os três se aproximaram, postando-se em frente à garota amarrada. O fortão e o careca sorriam com maldade enquanto a senhora apenas a encarava com a cara fechada. O que fumava o charuto deu um passo à frente.

– Então, você estava procurando por mim, menina? – o sotaque dele era inconfundível.

– Andrei Krasofc. – Cherry disse com satisfação.

– Então estava mesmo me procurando. – ele sorriu um pouco. – Deu uma surra em meus amigos senadores para chamar a atenção. Devo supor que seja a mesma mulher que meus homens caçavam a noite retrasada?

– Para um russo, você deduz as coisas bem rápido. – Cherry sorriu.

O fortão avançou, ofendido.

– Calma, Félix. – Andrei pediu, segurando o homem pelo ombro num gesto simples.

– Isso. Calma, Félix. – Cherry provocou, olhando para o fortão num convite claro para a briga. Estava amarrada, desarmada e capturada. Não levaria desaforo para casa!

Andrei a encarou com seriedade.

– Você matou o segundo homem em meu comando. – ele disse e Cherry não soube dizer se ele estava com raiva ou apenas indiferente.

– Matei. – ela confessou, o sorriso brincando na ponta dos lábios.

A mulher rosnou, mostrando sua indignação.

– Eu deveria mata-la agora mesmo por tal afronta! – Andrei disse. – Acaso sabe com quem está lidando?

– Quando se mata um homem a sangue frio sabe-se o que está fazendo. Eu sei quem você é Andrei Krasofc. A pergunta é: você sabe quem eu sou?

– Uma menina com uma vontade louca de morrer. – o fortão, Félix, respondeu por ele.

Cherry o encarou com sarcasmo, mas guardou suas palavras para si mesmo.

– Quem é você? – Andrei perguntou, olhando-a com desconfiança. – E o que quer comigo?

Cherry gargalhou.

– Eu quero matar você. Primeiro você terá que responder algumas perguntas, é claro.

– É claro. – Andrei riu, acompanhando-a com divertimento. Seus olhos se estreitaram, assumindo uma expressão perigosa. Ele se aproximou ainda mais, apertando a algema sobre o pulso da garota. – Quem é você?

Cherry mordeu os lábios para não gemer de dor.

– Vá para o inferno. – disse.

– Não, menina. Você é quem está no inferno. E está prestes a conhecer o diabo!

– Pois que ele venha! – Cherry o mirou com raiva.

Andrei deu um sorrisinho de pura maldade.

– Vai me responder quem é. E por que está me procurando!

Ele agitou os dedos uma vez e o fortão se aproximou, soltando-a das correntes. Cherry tentou se livrar dando uma cotovelada no estômago do sujeito, mas de nada adiantou. Félix a segurou com uma força exagerada e a levantou no ar.

– Malditos russos! Jamais gostei de vocês! – ela gritou, chutando o ar.

Fortão a jogou contra uma cadeira de metal, forçando-se a sentar. Ele atou suas mãos e pernas com Silver Tape e conectou alguns fios assustadores á cadeira. Ela se remexeu, zangada, puxando os braços feridos.

– Agora que está confortável, vai me responder o que perguntei. – Andrei falou com falsa gentileza.

– Vai se danar!

– Ok. Marnie, ela é toda sua.

A senhora se aproximou com suavidade, ajeitando o avental. Seu rosto não era nada amistoso e quando ela sorriu, seu sorriso arrepiou até a alma de Cherry.

– Vamos ver o que consigo arrancar de você, meu bem.

*-* *-*

Edifício Orn

19:15 PM

Hale chegou mais cedo do que planejara, esperando ter um tempo para conversar com Cherry. Ele esperava sinceramente que Sander houvesse contado toda a verdade à garota. De jeito nenhum levaria a culpa por Cherry ter sido entregue à polícia seis anos atrás. Podia ser um caçador de recompensas inescrupuloso, mas de forma nenhuma jogaria tão baixo! Especialmente com alguém de quem ele gostava.

Hale sorriu, lembrando-se de seu relacionamento conturbado, indefinido e explosivo com a garota da Máfia. A forma como se conheceram foi o ápice para aquela relação. Ele estava numa missão complicada tentando resgatar um diplomata inglês e prender um chefão internacional das drogas quando uma louca usando couro entrou no hotel em que se encontravam, explodindo a porta central e atirando para todos os lados.

Foi amor à primeira vista. Uma atração alucinada que o acometeu repentinamente.

Especialmente quando ela atirou em seu ombro sem qualquer consideração.

Eles lutaram aquela noite, brigando por quem pegaria o chefão no final das contas. Foi a primeira vez que ele perdeu para uma mulher – o que o fez se apaixonar ainda mais. Hale passou a segui-la por toda a cidade, tentando formar uma parceria amigável. Aquela mulher era como ele, juntos poderiam ser os melhores…

Isso até ele iniciar uma pesquisa e descobrir que aquela garota louca era uma mafiosa perigosa.

Mas quem foi que disse que isso tirou seu interesse por ela? Pelo contrário! Brincar com fogo sempre fora seu exercício favorito. E Cherry parecia ser uma fornalha ardente, os olhos dela lembravam as chamas traiçoeiras.

No começo, pensou em juntar provas e a entregar à polícia, recebendo uma boa quantia. Um Von Kern valia milhões! Mas logo essa ideia se esvaiu, ele não estava interessado em traí-la e sim viver grandes aventuras ao lado daquela maluca! Além do mais, se ganhasse a confiança dela poderia facilmente se aproximar da Família e com isso juntar informações para seu próprio benefício. Afinal de contas, era um caçador de recompensas inescrupuloso.

Ele ainda procurava por tais informações…

Hale tocou a campainha, esperando pacientemente do lado de fora do apartamento. De jeito nenhum que iria invadir. Cherry havia sido bastante clara na ultima vez que resolvera entrar por conta própria; e irritá-la estava fora de cogitação.

Ninguém atendeu.

Ele tocou mais uma vez, franzindo o cenho. Colocou a orelha na porta na tentativa de ouvir alguma coisa. Sempre sabia quando Cherry estava em casa, o som de Heavy Metal era inconfundível. No entanto, desta vez não havia som algum.

Ele se ajoelhou perante a porta, fuçando em seu bolso até achar o grampo improvisado que carregava para situações como essa. Cherry ficaria muito brava, mas era uma questão de necessidade. Eles combinaram aquele horário e ela não respondia. Bem que ele tentou ligar no celular descartável que ela carregava, mas sequer deu sinal.

Com suas habilidades criminosas, ele encaixou o grampo na fechadura e a fez rodar. A porta se abriu revelando um apartamento vazio. Hale ainda procurou por todos os cômodos, percebendo que talvez ela não houvesse ido para casa noite passada. Estava tudo muito bem arrumado.

Ele soltou uma maldição, saindo e fechando a porta com cuidado. Desceu de volta à recepção, interrogando o senhor atrás do balão bem entalhado.

– Sinto muito, senhor. – o velhinho disse, amistoso. – A senhorita Vicious não voltou ontem à noite.

– Porcaria! – Hale esbravejou, descontando sua frustração no balcão.

O velhinho o olhou com reprovação.

Hale voltou para o lado de fora, observando a noite gelada. Checou seu telefone uma vez, tentando em vão ligar para o número que guardava tão bem.

Sem sinal.

– Mas que inferno, Cherry! – ele resmungou, falando com a noite. – Por favor, diga-me que não foi estúpida de procurar sozinha por ele!

O vento lhe respondeu com uma chicotada no rosto.

Mas é claro que aquela garota era estúpida de ir sozinha procurar por Andrei Krasofc!

 

*-* *-*

Cherry soltou um grito do fundo da garganta. Não aguentava mais segurar a do. Sua mão estava estendida numa mesa de vidro, pingando sangue. Havia cortes feios em seu abdômen e seu corpo todo ainda se recuperava da sessão de choque que acabara de tomar.

A senhora de sessenta anos á sua frente tinha o avental emporcalhado de sangue e agora agitava um alicate tenebroso nas mãos, o sorriso malévolo brincando naquele rosto sádico. Para uma velhinha ela era bem cretina em matéria de crueldade!

Passou as últimas três horas trabalhando muito bem com suas faquinhas afiadas, retalhando a carne de Cherry lentamente só para vê-la sofrer em agonia. Por mais controlada que a pessoa seja é simplesmente impossível demonstrar indiferença quando se está sendo torturada. Cherry gritou e não se envergonhou disso, pelo contrário. A cada grito intensificava ainda mais sua raiva.

Ah, quando ela saísse dali iria dar uma surra naquela velha! Independente da idade!

– Então, meu amor. Vai me dizer para quem trabalha ou terei que começar a trabalhar nos seus belos dentes? – a senhora falou com gentileza, agitando o alicate novamente.

Cherry deu um sorrisinho sarcástico.

– E lá vamos nós de novo. – ela disse. – Não trabalho para ninguém, velha.

– Oh, enfim uma resposta plausível! – a velhinha comemorou. – Então é uma desgarrada? Segue suas próprias regras.

– Na maioria das vezes.

– Eu já deveria saber. Uma garota como você é estúpida o bastante para ir atrás de meu Andrei sozinha. Independência nem sempre é sinônimo de inteligência. – debochou.

– Você ficaria surpresa se soubesse as pessoas com quem costumo andar.

– Achei que tivesse dito que não trabalhava para ninguém.

– Eu trabalho. Ocasionalmente. – Cherry respirou fundo para tomar fôlego. – Mas ir atrás de Andrei é um trabalho só meu.

– Estúpida, como eu disse. – a velha zombou novamente com aquele seu sorrisinho irritante. – Então, diga-me com quem costuma andar, menina. Quem são essas pessoas para quem trabalha ocasionalmente?

– Aposto que gostaria de saber.

– Oh, sim. E você vai me contar. Assim como vai me dizer o que quer com meu Andrei.

– Seu Andrei? – Cherry riu novamente, disposta a provocar a mulher. – Não acha que está velha demais para um homem como ele?

A velha estreitou os olhos.

– Somos uma família. Eu sou a avó dele.

– E deixam você participar dos negócios da família? Mas é claro que sim! A Máfia russa não tem bom senso. Deixar que uma velha assuma tal função… – foi a vez de Cherry debochar.

Enfezada, a mulher a esbofeteou.

– Depois de tudo o que passamos nas últimas horas você deveria ter mais respeito pelo meu trabalho. Ou será que eu peguei leve demais com você? – a erguida de sobrancelha da senhora foi ameaçadora.

– Para mim você não passa de uma velhinha entediada com o tricô!

– Mas que menina atrevida! Os pais americanos não tem a mesma desenvoltura e firmeza de educar seus filhos como os russos. Em meu país uma menina como você seria castigada até aprender a respeitar os mais velhos.

– Eu não sou americana.

A senhora estreitou os olhos novamente e então seus lábios se separaram num sorriso satisfeito.

– Vejo que a educação que estou lhe aplicando está funcionando. Começou a responder minhas perguntas. Muito bem. Agora, se não é americana, de onde é?

Cherry gargalhou. Por baixo da mesa iniciou o processo complicado de se livrar daquela fita maldita que prendia suas pernas.

A senhora continuou falando, soltando ameaças.

– Vamos, menina. Não me obrigue a te retalhar mais.

– Você pode tentar.

Aquele sorriso debochado só serviu para irritar a velha um pouco mais.

– Cedo ou tarde você vai falar.

Cherry finalmente conseguiu soltar as pernas.

– Não. Cedo ou tarde o seu Andrei vai falar!

Ela se impulsionou para frente, quebrando a mesinha de vidro e fazendo os instrumentos pavorosos voarem. Ainda algemada nas mãos, ela conseguiu dar um chute com toda sua força na cara da velha, cortando-a com a lâmina estratégica em suas botas.

A mulher recuou, tocando o rosto retalhado. Seu grito foi apavorante e atraiu os homens do lado de fora.

Fortão voltou junto de mais dois homens e Andrei.

– Prendam-na! Prendam-na de volta! – a senhora gritava, segurando o rosto. Seus olhos soltavam faíscas de puro ódio.

Fortão a segurou com força pelos cabelos e a ergueu da cadeira, arrastando-a de volta até as correntes suspensas no teto. Cherry não facilitou para ele, chutando e esmurrando como podia. Malditos russos! Ela foi presa novamente por aquelas algemas apertadas e suas botas foram arrancadas.

Andrei segurava a velha em seus braços e olhava para Cherry furioso.

– Você só está dificultando as coisas, menina.

Cherry gargalhou, sacudindo as algemas.

– Vocês não fazem ideia de quem eu sou, não é mesmo? Não tem a mínima ideia do vespeiro em que estão mexendo!

– Quem é você?!

– Eu sou uma Von Kern. – Cherry o olhou nos olhos, percebendo o movimento involuntário que ele fez ao ouvir aquele nome.

Fortão recuou, olhando para o chefe com indecisão. Ahá! Seria medo aquela expressão que cruzou os olhos dele?

Andrei manteve sua postura firme.

– Você é a sobrinha sequestrada de Klaus Von Kern.

– Parece bastante inteirado sobre a minha vida.

– Assuntos como esse se espalham rapidamente no mundo do crime. O que quer comigo, menina?

– Ela disse que está por conta própria, então nada tem a ver com a rivalidade entre nossas famílias. – a senhora se apressou em dizer.

– E então? – Andrei a fitou.

– Quero que responda algumas perguntas. – Cherry olhou para as algemas. – Agora que sabe quem sou por que não me solta para termos uma conversa civilizada?

– Você matou um de meus homens e deu uma surra em outros dois. Acha mesmo que vou confiar em você?

Cherry deu um sorrisinho.

– Não é segredo que o quero morto, Krasofc. Mas se responder minhas perguntas de boa vontade posso relevar essa ideia. Talvez eu apenas o torture como sua avó fez comigo.

– Tenho uma ideia melhor. Você fica quietinha aí e eu respondo suas perguntas de boa vontade como um gesto de desculpas pela tortura. – ele pareceu incomodado. – Não sabíamos quem você era.

– Ah, não se preocupe. Não vou levar esse caso ao meu tio. Eu vim por conta própria… E é por conta própria que vingarei os meus cortes.

– Você já me cortou, sua puta escandinava! – a velha rugiu.

Cherry riu.

– Isso é só o começo.

– Já chega. – Andrei olhou feio para as duas. – Vou responder suas perguntas, menina. E depois a soltaremos e isso será esquecido.

– Ou podemos negociar com Klaus. – fortão disse, pensando com agilidade.

– Isso parece uma ideia a ser considerada.

– Ou podemos simplesmente mata-la e transportá-la para nossa Mãe Rússia e desovar o corpo por lá. Ninguém nunca saberá. – a velha disse, bem diabólica.

– Outro assunto que podemos considerar. – Andrei disse, frio.

– E vocês acham mesmo que qualquer uma dessas opções vai tirar meu tio da parada? Ele sabe onde estou!

– Você disse que estava sozinha. – fortão a lembrou.

– Eu estou. Mas a Família sabe de todos os meus passos.

– Não quero me indispor com sua família, mas se for preciso o farei. Não posso lidar com uma garota como você me caçando. Agora, o que quer de mim?

– Considerando que estou prestes a me soltar daqui e chutar o seu traseiro gordo, vou aceitar suas respostas agora. A arma responsável por tirar a vida de meus pais, eu guardei a bala. E acho que você pode me levar diretamente à pessoa que a comprou…

– A máfia russa não tem nada a ver com o assassinato de seus pais. – Andrei se apressou em dizer. – Somos rivais, todos sabem. Mas seus pais eram pacifistas. Em nada atrapalhavam meus negócios. Ou de qualquer outro.

– Quem os matou pensava diferente.

– Não fomos nós.

– Eu não disse que foi você. Mas sei que sabe quem foi. Vocês russos são responsável por grande parte do tráfico de armas e considerando que a arma do crime era de seu país só posso supor que foi você quem a vendeu.

– Eu tenho muitos clientes, menina. Não costumo negociar pessoalmente com todos eles.

– Pistola MP-448 Skyph, calibre 9 mm – Cherry disse. – Até aí tudo bem, exceto pela forma da bala. Era bem diferente da comum para essa arma, o que me faz lembrar da Skyph limitada que os russos fizeram para colecionadores. Foram feitas apenas trinta e cinco. E adivinha quem foi que se responsabilizou em espalhá-las pelo mundo? – seu olhar recaiu sobre Andrei. – Eu sei por fonte segura que você mesmo vendeu essas belezinhas.

– Eu me lembro bem da MP Skyph. – Andrei fitou a garota à sua frente. – Você quer a lista com os nomes dos compradores? Isso não adianta de nada! Vai atrás de cada um desses homens e tortura-los até que o culpado se revele?

– Não preciso torturar ninguém. Cada bala foi meticulosamente marcada de acordo com o número da pistola. O número da minha bala é quem vai revelar de qual pistola saiu. É como uma grande operação 007. Os russos queriam controlar o uso dessas armas. Mas é claro que você sabia disso. -Cherry o fitou com cuidado, analisando a expressão do homem. – O que me leva a pensar se não está tentando proteger alguém.

– Como já lhe disse: não temos nada a ver com o assassinato de seus pais. Vou lhe dar a maldita lista com os nomes.

– Muita gentileza, considerando o fato de que pretende me matar e despejar meus restos em seu país nojento.

Andrei a ignorou completamente.

– Talvez você se interesse em saber que na mesma época em que seus pais foram assassinados eu vendi a última arma à um homem poderoso na Europa central. Ele se chama Besnik Hoxha e coincidentemente atua no tráfico de armas. Não sei lhe dizer se ele vendeu a arma ou apenas a guardou como ato de sua coleção. Isso você terá que perguntar a ele. Besnik vive em Detroit hoje, é sócio de um clube prestigiado.

– Como clube prestigiado você quer dizer uma rede de prostituição. – Cherry o corrigiu.

– Drogas, armas, prostitutas. Eles negociam de tudo por lá.

– Acho que sei bem onde procurar.

– É claro que sabe. – Andrei deu um sorrisinho. – Uma Von Kern sempre sabe onde procurar esse tipo de gente. Mas sabe, muito me espanta saber que se rendeu à parte criminosa de sua família. Seus pais eram pacifistas…

– Não sou meus pais. – Cherry assumiu uma expressão sombria.

– Bem se vê.

– A sua selvageria não tem limites. – a velha disse, olhando-a com raiva.

– Minha selvageria? – Cherry riu. – Foi você quem me torturou! E pode esperar que quando eu me soltar vou refazer todos os cortes que me fez.

– Você não vai se soltar. – Andrei deu uma risadinha. Voltou-se então para a avó. – Vamos, Marnie. Vamos cuidar desse rosto.

Eles se afastaram em direção à porta e a fecharam com uma tranca, deixando Cherry sob os cuidados de um guarda com cara de paspalho.

Ela sorriu. Mas quanta idiotice! Eles estavam facilitando demais para ela. A intenção de Andrei era indefinida, ele ainda não sabia o que fazer com a garota. Mas estava claro que não pretendia soltá-la! Cherry voltou seus olhos para o rapaz incumbido de vigiá-la. Ele parecia atento, mas as mãos estavam suadas segurando a arma e pela forma como ele andava dava para ver o quanto estava nervoso. Um novato, talvez.

Bom, Andrei ficaria desapontado.

Cherry impulsionou o corpo para a frente, dando um salto no ar e agarrando o pescoço do rapaz com as pernas. Ela apertou bem as coxas, sufocando-o. O rapaz se sacudiu, desesperado, tentando se livrar do aperto sem sucesso. Ela o imobilizou.

– As chaves. – disse devagar, fitando-o. – Quero as chaves das algemas.

O rapaz se sacudiu.

– Você não está em posição de discutir. Tem trinta segundos para decidir. Se me soltar prometo não te matar, vou apenas te dar uma surra.

O rapaz a fitou com os olhos arregalados, quase sem ar. Por fim assentiu, com dificuldades. Cherry afrouxou as coxas só um pouco, permitindo a ele respirar.

– Sem truques. Ou eu quebro seu pescoço!

O rapaz tateou os bolsos, procurando pelas chaves das algemas. Como é que ela podia saber que estava com ele? Retirou as chaves prateadas e as entregou à loira, rezando para que ela tivesse piedade e não o matasse. Ou será que morrer seria um destino melhor do que enfrentar a fúria de Andrei?

– Agora, solte as algemas. – Cherry ordenou.

Tremendo, o rapaz obedeceu, livrando-a do metal apertado.

Cherry empurrou a correntes longe, voltando sua atenção ao rapaz. Como o prometido, ela não o matou. Mas lhe deu um soco forte o suficiente para desmaia-lo. Olhou ao redor, pensando em seu próximo passo. Com toda certeza iria atrás daqueles russos filhos da puta! Apanhou a pistola jogada no chão e a engatilhou, aproximando-se da porta de metal aos fundos.

Ela nem chegou perto.

Um Impala 67 invadiu o galpão pela parede dos fundos, espalhando pedaços de tijolos e poeira. O barulho foi estrondoso! Hale estava ao volante e parecia furioso. Nada se abalou com o atrito contra a parede, saiu do carro sem nenhuma dificuldade, apontando suas duas Zorakis para os russos que saíram pela porta principal.

Andrei veio babando para cima deles. Fortão e a velha também, empunhando armas de alta pressão. A chuva de balas foi mortal, atingindo dois russos em áreas vitais e os fazendo cair sem vida no chão. Cherry não esperou para ver o que acontecia, correu para o lado de Hale e apontou a arma para os russos, atirando junto com o caçador de recompensas.

– Não atirem na garota! Não queremos uma retaliação dos Von Kern. – ela ouviu Andrei gritar em meio a todo aquele caos.

Não queriam retaliação? Uma ova! Aqueles cretinos a havia torturado! Para o inferno que não iria se vingar.

Ela acertou a velha em cheio no ombro, soltando uma risada maligna. A mulher a fitou com raiva, os olhos faiscando. Andrei semicerrou os olhos, apontando a arma para ela numa mira extraordinária. Ele atirou.

Cherry recebeu a bala em cheio no quadril, o impacto a fez cambalear. A dor se espalhou pelo corpo, quase insuportável, tornando-a letárgica. Mas ela não se deixou intimidar. Num único movimento, atirou duas vezes vendo as balas atingirem com precisão o tórax do Fortão.

Hale a puxou com força para dentro do carro enquanto ainda se defendia dos tiros. Habilidoso, ele assumiu o volante e deu ré, saindo de dentro do galpão a toda velocidade. O carro seguiu pela rua abandonada cantando pneu… E recebendo uma chuva de balas na traseira.

Ninguém ousou segui-los.

Cherry baixou a arma, remexendo-se no banco para olhar a ferida. Ela gemeu.

– Como está aí? – Hale perguntou, os olhos grudados na estrada.

– Aquele filho da puta me acertou!

Hale desviou os olhos da estrada apenas por um segundo, olhando de relance para o ferimento. A blusa branca que ela usava estava machada de sangue.

– Aguenta aí.

– Como sabia onde eu estava? – Cherry o inquiriu.

– Apareci na sua casa na hora que combinamos, você não estava lá. Entrei e percebi que não havia vestígios de sua presença desde ontem á noite então só pude concluir que você foi estúpida o suficiente para ir atrás de Andrei sozinha.  Como o encontrou?

– Ele me encontrou! Não fui estúpida, seu idiota. Estava saindo da Hex quando ele me interceptou, me deu uma coronhada e me levou para aquele lugar nojento!

– Ah. – foi tudo o que ele pensou para dizer.

– Aqueles engomadinhos o avisaram que alguém o estava procurando e o babaca decidiu me torturar para saber quem eu era e o que queria.

– Pelo menos conseguiu a informação de que precisava?

– Acha que sairia de lá sem ela? – Cherry deu um sorrisinho.

– Boa garota.

– Sinto muito pelo seu dinheiro. Andrei escapou.

– Uma hora eu pego aquele russo safado. – Hale sorriu para ela.

Cherry evitou olhar para ele, focando-se na estrada.

Ele estacionou o Impala em uma rua com pouco movimento, ajudando Cherry a descer. Ela tentou empurrá-lo.

– Não preciso de ajuda! Sou perfeitamente capaz de andar.

– Não seja teimosa agora. Ou prefere que eu a leve a um hospital? – ele ameaçou.

Cherry rosnou, mas permitiu que Hale a ajudasse. Eles subiram os degraus longos até a recepção do hotel. Hale a pegou no colo, sem paciência. Cherry não ousou reclamar. Passaram pela recepcionista, subindo direto pelo elevador sem qualquer explicação.

– Você vive num hotel. – Cherry comentou, grogue. A blusa estava  se encharcando mais e mas, o sangue escorrendo abundantemente àquela altura.

– Estou sempre me mudando, doçura. Não posso me dar ao luxo de ter uma residência fixa. – Hale disse, evitando olhar para o ferimento dela, estava ficando preocupado.

– Claro, Caçador de recompensas. – Cherry sorriu para ele.

O elevador apitou, chegando ao andar destinado.

Hale escancarou a porta de seu quarto, depositando Cherry em cima do balcão que separava a cozinha do resto do cômodo. Ela resmungou alguma coisa.

– Deixe-me ver. – Hale se inclinou, olhando o quadril baleado. O tiro foi feio.

– Apenas tire essa porcaria. – disse Cherry, rasgando a barra da blusa.

– Está perdendo muito sangue.

– Não importa. Tire.

Hale hesitou. Aquilo não era uma boa ideia…

Cherry revirou os olhos, sem paciência. Puxou a arma da cintura e apontou para ele.

– Tire a bala, Hale. Agora!

O caçador de recompensas a olhou nos olhos, absorvendo toda a intensidade contida e então assentiu.

Encaminhou-se para a cama no centro do quarto e retirou uma maleta prateada de cima do criado-mudo, aproximando-se novamente da garota. Abriu a mala e retirou uma pinça cirúrgica, gazes, soro fisiológico e curativos.

Hale ergueu a pinça, fitando Cherry com seriedade.

– Isso vai doer. Vai doer pra caramba!

– Espere. – Cherry se esticou e apanhou uma garrafa de Vodka na prateleira.

Ela abriu a garrafa e tomou um bom gole, fechando os olhos e respirando fundo.

Mais dois goles.

– Anda logo, franguinha. – ela se empertigou, esperando.

Hale tentou não rir, assumindo sua expressão mais séria. Enfiou a pinça dentro do ferimento, cutucando até achar a maldita bala. Ele a puxou para fora.

Cherry gritou.

Gritou, gritou e gritou até que a letargia assumiu o controle de seu corpo.

Aquela porcaria doeu como o inferno!

Bebeu mais Vodka, sentindo Hale repuxar sua pele dando pontos improvisados. Ele a costurou, fez um curativo e cuidou dos outros ferimentos também, passando uma pomada anti-inflamatória e cobrindo os cortes mais profundos. Foi o mais cuidadoso que conseguiu.

Cherry mordeu os lábios quando ele apertou a bandagem em seu quadril. Ela ainda segurava a garrafa de Vodka e aproveitou para dar mais dois ou três goles. O álcool tinha o poder incrível de entorpecer o corpo e com isso quase torna-lo isento de dor. E naquele momento era tudo de que precisava.

– Obrigada. – disse baixinho.

– Sou um anjo, não sou? – Hale brincou, sentando-se ao lado dela e apanhando a garrafa. Ele tomou um bom gole, permitindo-se relaxar finalmente. Aquelas últimas horas tinham sido extremamente tensas.

– É sério. – Cherry se esforçou para olhar para ele. – Obrigada por ter ido atrás de mim. Não precisava ter feito isso, não era sua obrigação… E obrigada por ter tirado essa porcaria de mim.

Ela apanhou a bala manchada de sangue em cima do balcão e a fitou com raiva, analisando.

– Sabe, eu não fui atrás de você só para salvá-la. – Hale começou com aquele seu sorrisinho malicioso. – Fui atrás de Andrei.

– Eu sei disso. Mas ao invés de se distrair correndo atrás dele e daquela velha cretina você me tirou de lá.

– Até parece que ia deixa-la para trás! Sou um cara inescrupuloso e diversas vezes passo por cima das pessoas para conseguir o que quero, mas não com você. Formamos um belo time. Não quero perder isso.

– Como eu disse: obrigada.

– Hei, você deixou uma velha te torturar? – Hale pareceu se lembrar e não ia deixar barato.

Cherry fez cara feia.

– Como se eu tivesse alguma escolha. Pelo menos acertei a cara dela quando tive chance.

– E o ombro. – Hale a lembrou, rindo.

Cherry o acompanhou na risada.

– Você me entende.

– E agora, o que vai fazer? Já tem as informações que queria.

– Agora eu vou à caça novamente. – ela o fitou com intensidade. – Tenho um nome. Vou começar por ele.

– Quem? Posso checar se quiser…

– Não quero você metido nisso.

– Achei que já tivéssemos vencido esse impasse.

– Você me tirou do galpão… Mas isso não compensa os quatro anos que peguei por sua causa. Ainda estou zangada com você e ainda quero te matar.

– Cherry, quantas vezes terei que dizer que não fui eu quem…

Ela não o deixou terminar. Roubou-lhe um beijo, silenciando-o.

– Apenas por hoje quero esquecer isso. Então, por favor, cale a boca. – ela pediu, os lábios grudados nos dele.

– Parece bom para mim. Você deveria descansar.

– É uma ótima ideia.

Ela tentou levantar, mas cambaleou. Hale a ajudou, levando-a em direção à cama enorme e bem arrumada. Deitou-a ali no meio dos travesseiros e a cobriu.

– Você fica aqui essa noite… Ou o que sobrou dela. Pela manhã pode ir embora se quiser. – ele disse.

– Vou descansar por algumas horas… Apenas isso. – Cherry disse, fechando os olhos e permitindo seu corpo relaxar.

 

*-* *-*

Já era manhã quando ela despertou, em meio as cobertas. Olhou para o lado e viu Hale adormecido, ele ainda usava a camisa social e tinha a Zoraki na mão. Cherry riu, levantando-se da cama sem fazer barulho. Hale sempre dormia armado, não importava a circunstância. A recompensa por anos a fio caçando assassinos perigosos.

Ela recolheu a arma que havia roubado dos russos e a encaixou com cuidado na cintura. Olhou para o quadril em que foi baleada, examinando o curativo. Não havia sinal de sangue, o que era muito bom. Deu uma última olhada em Hale e saiu, trancando a porta.

Lá embaixo, Cherry pediu ao gerente do hotel para fazer uma ligação. Sem celular, armas ou carro ela precisava que alguém viesse apanhá-la. Com toda certeza não estava a fim de roubar um carro para poder voltar para casa. Sua Harley Davidson deveria estar estacionada na esquina da Hex ainda e eram quatro quarteirões para chegar até lá… Um caminho longo para alguém que foi baleada na noite passada.

Sua única alternativa era Sander e ele atendeu o celular em poucos segundos, surpreso. Mas prometeu apanhá-la no endereço dado.

Ele chegou alguns minutos depois em seu Mustang vermelho, abrindo a porta com aquele sorriso galanteador de sempre.

Cherry entrou no carro com cara de poucos amigos, fuçando o porta luvas como de hábito. Quando achou o que procurava, colocou o cigarro entre os lábios e o acendeu, esperando que o primo desse partida e saíssem logo dali.

– Mas o que houve com você? – Sander perguntou, fitando o rosto pálido da garota.

– Problema com os russos. – ela resmungou.

– Então você achou Andrei?

– Digamos que ele me achou.

– E te deu uma boa surra também. – o rapaz disse, vendo as marcas pelo corpo da prima.

– Ah, isso foi cortesia da avó dele. – Cherry deu um sorriso isento de humor.

– Uma velha fez isso com você?

– Sim, uma velha fez isso comigo! – ela o olhou feio. – E se tirar sarro da minha situação eu apresento você à velhinha e vamos ver a sua opinião depois que ela acabar com você também.

– Ok. Ok. Vejo que está de mau humor.

– Experimente ser torturado, ameaçado, humilhado e baleado. Tudo isso numa noite só. Tenho certeza que estaria de mau humor também.

– Foi baleada? – a expressão divertida deixou o rosto do rapaz.

– Não se preocupe, já cuidei disso. Aliás, Hale cuidou.

– O Caçador de recompensas te ajudou? Achei que houvesse rompido relações com ele.

– Hale foi quem me ajudou a sair das mãos dos russos. E depois me trouxe para o hotel e retirou a bala de dentro de mim… E por falar no Caçador de recompensas ele me mandou perguntar a você quem foi que me entregou para a polícia naquela noite do assalto. Ele disse que você sabe.

Sander assumiu uma expressão séria, olhando para o volante.

– E então? – Cherry perguntou.

– Não foi Hale Bennett.

Cherry se permitiu um minuto de silêncio para absorver aquelas palavras. Ah, então era verdade! Hale não havia mentido para ela afinal.

– Quem foi?

– Papai.

– O quê?! – Cherry olhou bem para o primo, os olhos assumindo aquele tom cinza escuro de caçadora.

– Klaus não queria que soubesse á princípio, mas é seu direito. Essa foi a parte do treinamento que ele não te contou. Sua primeira missão foi fantástica, fez tudo o que esperávamos que fizesse. Mas a cadeia era necessária para você amadurecer mais. – Sander contou, evitando olhar para ela. – Papai esperou até que saísse do banco e alertou os policiais de plantão. Você foi presa algumas horas depois. Ele subornou a juíza para que pegasse um tempo curto, é claro. Na mente dele quatro anos era tempo o suficiente para deixa-la pronta. Só quando você realmente saiu da cadeia é que entrou para a Família. Seu treinamento foi complexo demais, Cherry. E Klaus quis ter certeza de que você se tornasse forte e poderosa como ele.

– Filho da puta!

– É. Ele é um filho da puta. No entanto, te transformou no que você é hoje.

Cherry virou-se para o primo, fuzilando-o com os olhos.

– Suponho que devo ficar agradecida com isso!

– No seu lugar eu ficaria revoltado. – Sander a corrigiu.

– Pode apostar que estou!

– Quando ele me entregou nas mãos dos Sérvios para me ensinar uma lição eu também fiquei. Tinha quinze anos e, por mais que odeie admitir, saí de lá um homem.

– Essa família é maluca!

– Uma merda que façamos parte dela, não é mesmo? – Sander deu uma risadinha. – Está pronta para ir?

– Me leve até a Hex. Preciso pegar minha moto.

Sander assentiu, ligando o carro. Eles não disseram nada depois disso, cada um trancado em seu silêncio particular, pensativos. A rua da boate estava vazia àquela hora da manhã e não foi difícil para Cherry avistar sua moto parada na esquina onde deixara estacionada.

Ela saiu do carro, batendo a porta com violência.

– Não vá fazer besteira, Cherry! – Sander gritou pela janela. – Não enfrente Klaus!

Mas Cherry não deu ouvidos às palavras do primo, montou na Harley e saiu a toda velocidade. Seu capacete havia ficado dentro da boate, então ela teve que se conformar com os cabelos voando com o vento e chicoteando seu rosto a medida que ela seguia pela estrada vazia. A verdade é que ela adorava isso, sentia-se livre.

Pôde ver o Mustang perseguindo-a. Sander tentaria impedi-la de tirar satisfações com o tio. Mas quem disse que estava disposta a deixar? Com a raiva que estava sentindo poderia por fogo no asfalto! Ela aumentou a velocidade, sentindo a moto rugir como um leão e se jogar para frente.

Conseguiu deixar o Mustang comendo poeira.

Cherry adentrou os portões da mansão e pulou de cima da moto, largando-a de qualquer maneira no pátio. Não se deu ao trabalho de cumprimentar os seguranças, foi marchando escada á cima até o escritório do tio.

Não houve qualquer tipo de gentileza ao abrir a porta.

Klaus estava sentado em sua poltrona confortavelmente, como passava a maior parte do tempo e se sobressaltou com o soco certeiro que levou na mandíbula. Ele cambaleou até o chão, fitando a sobrinha furiosa.

Ele riu, esfregando o canto da boca.

– Eu já esperava por isso. Você se tornou uma menina forte, querida Mona.

Cherry o fuzilou com os olhos.

– Dá próxima vez que armar para mim não vou ser educada como fui agora. Vou para cima de você com todas as minhas forças!

– Não preciso armar para você. É forte, ágil, poderosa e letal. Eu fiz de você assim!

– Quer uma retribuição? – ela foi sarcástica.

– Não preciso. Você é o meu orgulho. Isso já me basta.

– Vá á merda!

– Está com raiva, posso entender isso.

– Ah, não pode. Você não entenderia a magnitude da minha raiva nem se tivesse passado anos na cadeia.

– Meu pai me fez passar alguns meses. – Klaus disse. – Todos os pais fazem isso para treinar os filhos, ensiná-los a serem fortes.

– Para o inferno com essa tradição babaca!

Klaus a encarou em silencio. Analisou a sobrinha com mais atenção.

– Pelo seu estado devo supor que se encontrou com Andrei. Conseguiu o que queria?

– Tenho um nome e um endereço. – Cherry disse com pouca vontade.

– E? – Klaus ergueu uma sobrancelha.

Cherry o encarou com certa malícia.

– E eu quero cinquenta mil e o seu Porche amarelo.

– Cinquenta mil? – Klaus riu, divertindo-se. – Isso é para me atingir?

– Não. O seu carro é para te atingir. O dinheiro é para negociar em Detroit. Estou partindo hoje à noite.

– O que houve com sua Harley Davidson?

– Está fantástica como sempre. – ela deu um sorrisinho diabólico. – Quero seu Porche só para ter o prazer de destruí-lo.

– Gosto muito daquele Porche.

– Eu sei. Isso quita nossa dívida.

Cherry saiu antes que o tio pudesse argumentar. Encontrou Sander no corredor, o primo a encarava com ansiedade.

– Relaxa, ele ainda está vivo. – ela disse, maldosa.

Sander lhe deu um sorrisinho antes que partisse.

 

*-* *-*

Edifício Rondine – Próximo ao centro da cidade.

New York

18:00 PM

Andrei Krasofc estava recostado suavemente na borda de sua banheira italiana, no meio de um banho de espuma. Tinha um copo de conhaque em sua mão esquerda e fumava um de seus exóticos charutos com a direita. Seu rosto estava marcado com um leve corte perto dos olhos – gentileza de uma bala que passou de raspão.

Aquela Von Kern era perigosa, ele tinha que admitir. Pensava que a tinha sob seu controle, mas acabou saindo no prejuízo. Quatro homens foram mortos e sua querida avó se encontrava xingando obscenidades na mansão onde vivia, presa numa cama com soro e bandagens.

Marnie era durona. Mas um tiro no ombro a derrubara facilmente.

Ele resmungou, irritado. Melhor investir mais na segurança de sua família. Voltou sua atenção ao conhaque, bebendo o que restou num só gole. Momentos tranquilos como aquele eram raros por isso ele os aproveitava com sofisticação. Ainda tinha muito em que pensar, reunir-se-ia com seus superiores daqui a meia hora e precisava se preparar para o relatório que deveria fazer.

Ser um homem de negócios no campo criminoso não era fácil como os novatos costumavam pensar. Se não fosse um bom líder, um bom negociante e conduzisse seus soldados de forma ruim corria o risco de ser eliminado. Igor não tinha misericórdia e era intolerante quanto a erros. Era bom ele se manter forte e atento!

Andrei fechou os olhos, decidido a não pensar negativamente, recostou a cabeça na borda da banheira novamente e relaxou.

Sua falta de prudência o condenou. Algo foi pressionado delicadamente sobre sua cabeça e ele ouviu o som inconfundível de uma arma sendo engatilhada.

Andrei abriu os olhos, assustado, e encontrou aquele olhar selvagem da garota Von Kern. Ela sorria com malevolência.

– Mas o quê…? – ele olhava em volta tentando imaginar como aquela menina o achou e como foi capaz de entrar em seu apartamento sem que ele percebesse.

– Surpresa, Otário. – Cherry deu a volta na banheira para encará-lo direito, tomando cuidado de deixar sua arma exatamente onde estava: apontada na cabeça dele.

– Como entrou aqui? – Andrei resolveu bancar o destemido. Aquele tom sério só o tornava ainda mais deplorável.

– Pela porta. – Cherry respondeu, divertindo-se. – Sem nenhuma dificuldade, devo dizer. Jamais subestime uma Von Kern. Estou a caminho de Detroit, mas resolvi dar uma passadinha por aqui para encontra-lo. Eu disse que não deixaria barato o que me fez passar naquele galpão sujo.

– Eu lhe dei a maldita informação que queria! – Andrei argumentou, começando a tremer. Não era tolo o suficiente de pensar que ela fora até ali somente para ameaça-lo.

– E como cortesia da casa deixou sua avó me torturar.

– Não sabíamos quem era. Deixe isso como está, menina. Não vai querer encrenca para o seu lado.

– Está me ameaçando? – Cherry riu.

– Igor vai me vingar. Não vai querer se meter com ele. Acha que sou ruim? Igor é ainda pior.

– Não tenho medo do seu superior, Andrei. E devia saber que nada fica como está.

– Espere, espere! – o homem ergueu as mãos, implorando.

Cherry deu um sorrisinho.

– Você não deveria ter atirado em mim.

Ela apertou o gatilho.

O sangue respingou nos espelhos e se espalhou abundantemente pela banheira, tingindo a água. Cherry observou o corpo sem vida afundar delicadamente num silêncio profundo, então abaixou sua arma e saiu do apartamento.

A garota entrou no Porche amarelo rindo desvairadamente, ligou o som e saiu cantando pneu pela rua movimentada. Seu destino? Detroit. Estava louca para chutar traseiros!

Continua

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Um comentário em “A Garota Má (Pt.3) – Sangue Amargo

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