A Garota Má (Pt.2) – Hex

A Garota Má (Pt.2) – Hex

Escrito por Natasha Morgan

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A boate Hex era possivelmente o lugar mais badalado de New York. Seu estilo gótico lembrava uma daquelas igrejas com grandes janelas escuras e portas altas e largas. De longe poderia parecer apenas uma mansão velha no centro da cidade, mas quem enxergava as luzes piscando lá dentro tinha certeza que era uma promessa de diversão insana.

Cherry estacionou sua Harley Davidson na esquina, descendo com elegância e observando o movimento na calçada. A fila era imensa, dando a volta no quarteirão – o que indicava que era apenas o início da noite. King jamais deixaria uma fila daquele tamanho do lado de fora, atraia demais a atenção e, embora todos soubessem da boate, ele queria deixar o interesse da polícia de fora.

O movimento era diverso. Havia punks, góticos, emo, mauricinhos, viciados, trabalhadores e até algumas meninas com ar inocente. Uma clientela diversificada. Cherry teve que se espremer para passar por entre todas aquelas pessoas e chegar ao segurança de terno cintilante que guardava a porta. Um olhar foi o suficiente para ele deixa-la entrar, abrindo espaço com seu corpanzil.

Naquela noite, Cherry se esforçara para se vestir de acordo com o que as pessoas no bar usavam. Sua calça era de couro, como sempre usava. Mas a blusa negra tinha um corte gótico, com franjas e decote ousado. A gargantilha ajustada ao pescoço lembrava uma coleira e ela não pensou duas vezes antes de passar o delineador e o batom forte, desta vez um pouco mais escuro que seu habitual vermelho fogo.

As pessoas no bar olharam para ela com admiração, esticando o pescoço conforme ela andava. A maioria estava acostumada a vê-la por ali, como tomava conta dos negócios do tio era normal Cherry verificar como andava o fornecimento de drogas na boate. Então não era surpresa as pessoas esbarrarem com ela por lá. No entanto sempre havia um ou outro que se rendia à sua beleza selvagem.

Ela perdeu as contas de quantas vezes foi obrigada a dar uma surra em bêbados inconvenientes que não aceitavam um não como resposta. Era uma parte cansativa de seu trabalho. Esse tipo de cara sempre encanava com ela. E Cherry, explosiva como era, não deixava barato.

Ela acenou para as meninas que serviam a clientela no bar. Tudo ali dentro era bem organizado, desde as mesas de granito aos banheiros unissex nos fundos. As paredes do lugar eram escuras e as janelas, fumê. A única coisa responsável pela iluminação eram as milhares de luzinhas coloridas piscando o tempo todo, fazendo desenhos psicodélicos na pista de dança do outro lado.

Impossível não gostar daquele lugar, Cherry pensou, caminhando pela multidão agitada. Sexo, drogas e Rock n’ Roll – tudo o que uma menina má gostava. Ela estava no paraíso! Se encontrasse o cretino que estava procurando e pudesse dar uma surra nele aquela seria uma noite perfeita.

Com passos sensuais, embalando-se conforme a música que estourava dos alto-falantes, Cherry seguiu pelo corredor estreito que dava direto ao escritório do senhor do bar. Ela não bateu na porta, nunca precisou, apenas adentrou o lugar ricamente decorado. Foi uma explosão de cores, como sempre era. Impossível deixar de se surpreender com toda aquela decoração colorida.

King estava sentado atrás de uma mesa grande de vidro, perfeitamente acomodado em sua poltrona de couro e fumando um charuto enquanto examinava pequeninhos diamantes. Cherry se aproximou em silêncio e despejou sobre a mesa dois saquinhos de veludo.

O homem ergueu a vista e abriu seu sorriso encantador.

King era um homem digno de seu nome: forte e poderoso, além de muito bonito. Era um moreno musculoso de traços firmes, olhos escuros e cabelos grossos. Vestia-se como mandava o figurino de sua boate; calças jeans, camiseta regata exibindo sua única tatuagem monstruosa. Nada de terno para o senhor do bar.

Ele apanhou os saquinhos de veludo ainda com o sorriso no rosto e espalhou o conteúdo na mesa. O vermelho dos rubis se misturou com o transparente do diamante num contraste sedutor.

– Isso me deixa terrivelmente excitado. – disse o homem, fitando as pedrinhas com brilho nos olhos. – Agradeça a seu tio por essas belezinhas. Elas não fazem parte do nosso acordo.

– Klaus sabe da sua admiração por pedras preciosas. – Cherry se limitou a dizer.

King voltou seus olhos para ela, sentando-se de volta na poltrona confortável.

– Você demorou a vir este mês.

– Ando ocupada.

– Ainda atrás do russo? – o homem riu.

– Andrei não vai escapar de mim assim tão fácil. E, veja só, consegui informações que o ligam a esta boate. Acho que estou no lugar certo. – o olhar que lançou ao outro foi perigoso.

King retribuiu o gesto, enfrentando-a.

– Eu lhe disse que os homens dele frequentavam o bar. Faço negócios com os superiores de Andrei.

– Eu sei. Meu tio me mandou para lembrar você de seu acordo conosco. Não precisa vender essa porcaria dos russos quando tem a nossa droga de excelente qualidade.

– Eu dispenso a porcaria. – King sorriu, permitindo-se relaxar. – Só me interesso pelo material que presta. Diga a seu tio que não me esqueci de nosso acordo, não estou interessado em romper negócios com a Família.

– Eu disse isso á ele.  – Cherry deu um meio sorriso.

King juntou as palmas das mãos, olhando para a garota com atenção.

– O que quer com Andrei?

– Você sabe o que quero com ele. – ela sorriu, diabólica.

– Não estou falando da parte em que você o mata. Quero saber que tipo de informações quer com ele, posso te ajudar.

– king, você sabe o quanto gosto de você. Então, se sabe alguma coisa sobre como posso achar o desgraçado, é bom me dizer logo.

O homem sorriu.

– Você me deixa completamente apaixonado quando me olha desse jeito e faz ameaças.

– Não me obrigue a cumpri-las.

– Não, minha querida. Gosto dos negócios que tenho com sua família. Odiaria ter que por um fim nelas ao me atracar com você.

Cherry esperou paciente.

– Não quero confusões para meu lado. – King disse. – Faço negócios com você e com os russos. Com os Albaneses de vez em quando. Sou neutro. Estou interessado apenas na grana que entra em meu bolso. – ele fez uma breve pausa. – Se quiser encontrar Andrei deve perguntar a quem tem ligação direta com ele. Há um grupo de senadores que frequenta a boate na área VIP, talvez você deva ter uma conversa com eles… Amigável.

Cherry sorriu.

– Eu sempre sou amigável.

*-* *-*

Cherry se sentou num dos bancos de couro em volta do balcão, apoiou os braços na madeira escura e pediu uma tequila. Seus instintos de caçadora funcionavam perfeitamente, atentos ao movimento ao seu redor. Aquele era um excelente lugar para observar.

Ela bebericou a bebida que a Bartender disponibilizou, sentindo o líquido queimar em sua garganta.

Ao longe, as pessoas se divertiam dançando, bebendo e conversando aos gritos. Especialmente aquele grupo facilmente destacável de seis homens ricamente vestidos que riam alto e tomavam Whisky em copos importados. Seus ternos eram caros, podia-se ver. E os Mocassins davam um ar de sofisticação nada comum numa boate.

Um deles disse alguma coisa em outro idioma, rindo como um idiota.

Cherry sorriu. Na mosca! Era exatamente o grupo que procurava.

Ela deslizou do banco com elegância, caminhando até a mesa onde os homens estavam. Seu andar era de um felino e quando se inclinou sobre a mesa, fitando cada um dos homens, sua expressão se tornou uma mistura perigosa de sedução e maldade.

Os rapazes se agitaram, alguns chegando a sorrir com malicia para a garota.

– Olá, rapazes. – ela ronronou.

– Oi. – disse um deles com sotaque inconfundível. – Quer se divertir um pouco?

– Não sabia que King oferecia mulheres tão exóticas por aqui. – comentou outro.

Cherry sorriu, malévola.

– Ah, eu pretendo me divertir sim. Andrei Krasofc. O que podem me dizer sobre ele?

Os homens fecharam a cara, assumindo uma expressão severa.

– Não conhecemos nenhum Andrei Krasofc. – disse um deles, o que tinha cabelos compridos preso num rabo de cavalo totalmente oposto ao seu estilo senador de respeito.

– Ah, qual é, rapazes! Não sejam tímidos. Sei que tem negócios com o senhor Andrei.

– Minha senhora, não sei do que está falando.

– Tenho certeza de que sabe. – Cherry estreitou os olhos. – Vocês não vem aqui para fazer campanha à seu cargo político. Esta é uma boate bastante conhecida por oferecer diversão.  – ela retorceu a palavra – E ambos sabemos que Andrei fornece a diversão de vocês.

O homem do rabo de cavalo se levantou, lançando a ela um olhar perigoso.

– Se você conhece Andrei como diz, então talvez seja melhor tomar cuidado, mocinha.

Cherry agiu rápido, torcendo o braço do senhor engomadinho e o jogando contra a mesa. Os copos de Whisky importado saíram voando.

– Acho melhor você ter cuidado, velho. – ela disse, aplicando mais força contra o braço dele.

Sem dar nenhum crédito ao aviso, o amigo dele resolveu interferir, deu um pulo para frente e encostou uma faca elaborada na garganta de Cherry.

– Eu acho bom soltá-lo, mulher. – o cara disse e seu bafo lhe deu ânsia.

Cherry sorriu, divertindo-se com a audácia. Com um giro rápido, ela o empurrou, jogando-o no chão com violência. Ele caiu de barriga para cima, encarando-a como se não pudesse acreditar que o havia derrubado. Inabalável, ela pisou na mão dele, fazendo-o soltar a faca. Agarrou o homem pela garganta, levantando-o sem qualquer desconforto e o jogou em cima da mesa de granito onde o outro estava a poucos segundos atrás. Ela o socou no rosto três vezes, fazendo o sangue escorrer pelo nariz quebrado.

As pessoas que se divertiam no bar pararam o que estavam fazendo, observando a cena com certo espanto.

Cherry se voltou para o senhor rabo de cavalo.

– Muito bem, agora que já tenho a atenção de vocês, onde encontro Andrei Krasofc?

Como nenhum deles respondeu, ela disse:

– Vamos, não me obrigue a dar uma surra em vocês!

– Não sabemos nada sobre Andrei Krasofc! – o cara teve a pachorra de insistir.

Cherry fechou os olhos, suspirando pesadamente.

– Ok. Vamos fazer da forma mais difícil, mas que esteja claro que foi você quem pediu. Não posso dizer não vou me divertir com isso…

Ela o grudou pela roupa e o jogou contra o balcão do bar, vendo-o se espatifar entre as bebidas como um paspalho. Aproximou-se da bagunça, grudando-o novamente e aproximando o rosto do dele.

– Eu perguntei onde está Andrei Krasofc! – ela disse, pronunciando as palavras com lentidão.

– E- Eu não sei.

Cherry o socou.

– Onde está Andrei Krasofc?

– Eu não sei! – ele gritou de volta.

Ela sorriu, quase no limite de sua paciência.

– Eu sei quem você é. Sei das suas sujeiras mais sórdidas e sei também que ele limpa tudo para que a polícia não o investigue. Se você não colaborar, vou fazer essas porcarias vazarem na mídia e todos saberão do seu apego por criancinhas.

O homem congelou.

– Agora, diga-me onde posso encontrar o senhor Krasofc para ter uma conversa civilizada com ele?

– Eu juro que eu não sei de nada. – o Rabo de Cavalo começou a balbuciar, morrendo de medo.

– Ah, por favor! Eu achei que fosse mais homem que isso. Eu ainda nem comecei.

– Cherry! – a voz de King reverberou pelo bar, furiosa.

Ele se aproximou a passos largos, deixando claro seu aborrecimento com a bagunça. Ao redor, todas as pessoas observavam, ansiosas para saber o que aconteceria. Brigas sempre atraíam movimento e apostas.

Cherry soltou o homem que segurava, voltando sua atenção para o senhor do bar. Mas ele a ignorou. King falou diretamente com o homem de terno.

– Oliver, sinto muito que tenha passado por isso dentro de minha casa.

O senhor Rabo de Cavalo se levantou, ajeitando o terno fino com a dignidade que não tinha. Ele assumiu sua expressão habitual, voltando a ser um esnobe. Ergueu a caça para se equiparar com o dono do estabelecimento.

– Talvez seja melhor você aprender a controlar suas putas. Mulheres selvagens não são de bom tom se você deseja subir na vida.

Cherry fez um movimento ofensivo, pronta para voar no pescoço daquele cretino, mas King a segurou com força.

– Vou me lembrar disso. – King disse á contragosto. Não gostava de homens como aquele, mas precisava deles para manter seus negócios funcionando.

O homem fez pouco caso, reunindo-se com seus amigos. Antes de sair, ele ainda sussurrou:

– Não vou me esquecer disso, menina.

Cherry se livrou do aperto de King, fitando-o com raiva.

– Você os deixou ir! – acusou.

– Eu disse para você ser amigável! – ele rebateu de volta.

– Para o inferno com isso. Como se pudesse ser amigável com um idiota como aquele! O que deu em você? Eu estava quase conseguindo a informação.

– Não. Você estava quase conseguindo um cadáver para eu ter que explicar.

Cherry cruzou os braços, irritadiça.

King olhou as pessoas curiosas ao redor.

– Muito bem, pessoal! O show acabou. Voltem ao seu divertimento ou serei obrigado a os expulsarem!

A clientela se moveu, inquieta, e se espalharam de volta ao bar.

King voltou sua atenção à Cherry.

– Você sabe que sempre cuido de você. – ele disse.

– Não preciso que cuide de mim. Sei fazer isso muito bem.

– Eu sei que sabe. – ele deu um sorrisinho. – Agora, por que não vai se divertir enquanto encontro alguém para limpar essa bagunça?

– Você me fez perder a informação de que precisava.

– Não se preocupe, querida. Aqueles idiotas vão voltar… E trazer Andrei com eles. Se você quer que o russo saiba que o está procurando, já enviou sua mensagem. Ele vai procurá-la.

– Acho bom que venha. Ou terei que usar você como isca. – Cherry deu as costas a ele e seguiu até o banheiro. Precisava se limpar. Havia sangue em sua mão.

O banheiro unissex tinha as paredes impecáveis – resultado de um chefe durão que impunha regras em seu bar. Não havia uma porta faltando nas cabines, um espelho quebrado ou pichações. Cherry abriu a torneira e deixou que a água lavasse o sangue acumulado nos nódulos de seus dedos.

Ela pensava em como a noite tinha saído fora dos trilhos quando uma garota entrou, escancarando a porta e se escondendo dentro de uma das cabines. Cherry conhecia aquele padrão, aquela ansiedade. E não gostava nada daquilo.

Aproximou-se da cabine em silêncio, confusa com o que estava fazendo. Aquilo não era da sua conta! Não costumava se importar com o que os viciados faziam dentro do banheiro. Quem era ela para ligar? Mas alguma coisa a impeliu a seguir a garota.

Ela abriu a porta devagar, ouvindo o som da respiração da menina se elevar. Olhou diretamente para a garota. E o que tinha nas mãos.

A menina era jovem. Jovem demais para estar num lugar como aquele portando uma dose tão alta de heroína. Tinha os cabelos curtos e espetados numa cor desbotada, os olhos eram claros e a mancha arroxeada ao seu redor sugeria que não era a primeira vez que ela se metia numa encrenca. Vestia-se inapropriadamente, vestido comportado e discreto – nada a ver com o que o pessoal costumava usar naquele local.

Cherry ficou confusa. Não compreendia o que aquela garota fazia naquele lugar.

A garota a encarava com medo. Talvez temesse que sua droga fosse roubada.

– Esqueça isso, menina. – Cherry disse. – Vai estragar sua vida. Acredite.

A garota riu, uma risada irônica totalmente oposta a suas feições jovens.

– Acredite, minha vida já foi estragada.

Cherry deu um meio sorriso amargo.

– O que está ruim pode sempre piorar. – ela disse e tirou o saquinho celofane das mãos da menina. – Isso não é para você.

– Hei! Eu paguei por isso!

– E eu estou tomando de você.

– Você não pode fazer isso!

– Acredite, eu posso. – Cherry abriu o celofane e despejou o conteúdo na privada. – Você não precisa disso. Quer uma salvação? Torne-se mais forte do que essa porcaria. Algumas vidas ainda podem ser salvas.

Ela saiu do banheiro a passos largos, deixando a garota perdida lá dentro com seus próprios demônios a serem vencidos.

*-* *-*

Cherry voltou a se sentar no balcão do bar, agora arrumado depois de sua bagunça. A garçonete vestida de látex preto se aproximou com seu rebolado elegante, oferecendo uma dose de tequila. Impressionante como todos ali estavam ansiosos por servi-la. Será que tinham medo de que chutasse seus traseiros caso não oferecessem uma bebida imediatamente? Seria Cherry tão aterrorizante assim? Ela não pôde deixar de se perguntar.

Mas Sarah era legal. A garçonete loura trabalhava ali fazia três anos e era bastante competente. King jamais trabalharia com funcionários incapazes.

Cherry tapou o copo com a mão, balançando a cabeça.

– Nada de tequila desta vez. Quero algo mais forte.

– Noite difícil?

– Pela bagunça que você teve que arrumar pode imaginar.

A garçonete assentiu.

– King está zangado.

– Dê-lhe uma boa dose de Rum e toda essa irritação se dissolve. – Cherry riu.

– Então, o que vai beber?

– Martini. Eu pago. – a voz familiar acabou com o prazer da assassina.

Cherry se limitou a olhar para o lado, encontrando os olhos avelã cativantes de Hale. Ela se arrependeu no mesmo instante. Como odiava a forma como aquele olhar encontrava o seu naquela intensidade surreal, numa promessa louca de um sexo fervente.

A química entre aqueles dois soltava faísca e nunca terminava bem. Sem nenhum cuidado, eles poderiam incendiar um quarteirão.

– Cai fora. – ela disse, hostil.

– Sabia que te encontraria aqui. – Hale se aproximou, apoiando-se no balcão de forma sensual. Vestia uma camisa escura naquela noite e calças puídas – o que lhe dava um visual um tanto desleixado e charmoso.

Cherry o ignorou completamente, atendo-se a pedir sua bebida. Absinto foi a escolha perfeita. Algo forte e selvagem, como ela se sentia aquela noite. Habilidosa, a garçonete colocou a taça com a bebida à sua frente, uma colher própria equilibrada na borda, um cubo de açúcar e o acendeu. O clarão iluminou os olhos de Cherry, deixando-os com aquela chama exótica.

Ela retirou a colher e bebeu o drink de uma só vez, sentindo-o queimar sua garganta com um fogo selvagem. Quando depositou a taça novamente na madeira puída, puxou a faca que guardara na cintura e a apontou diretamente para a garganta do homem ao seu lado. A lâmina fria tocou a pele macia numa ameaça perigosa.

Hale riu.

– Eu disse que se cruzasse meu caminho eu iria mata-lo – disse Cherry. – E não estava brincando.

– Vai fazer isso agora? – ele a fitou nos olhos daquela maneira impetuosa. – Aqui?

– Por que não? – Cherry sorriu, maligna.

– Hã… Cherry… Não faça sujeira no balcão. – a garçonete pediu, incerta sobre o que fazer naquela situação. King não iria gostar!

Cherry a ignorou completamente.

– Vamos, Cherry, me corte. – Hale provocou, pressionando o próprio pescoço contra a faca.

– Não deveria me provocar desta forma. Sabe que tenho estômago para fazê-lo.

– Não duvido de você, só de suas motivações. Você não quer me matar.

– Que presunção a sua.

– Não é presunção. Conheço bem você e seus sentimentos por mim.

– Não há qualquer tipo de sentimentos. – ela o olhou feio. – Espere, talvez eu tenha me enganado. Há sentimentos sim. Vingança! Que tal isso? Acho que vou levar você para o galpão do meu tio e te torturar, talvez arrancar um pedaço, só para vingar os quatro anos que passei na prisão por sua causa.

– Me cortar não vai recuperar aqueles anos.

– Não. Mas vai me satisfazer e muito.

Eles ficaram em silêncio por incontáveis minutos, olhando-se.

Cherry abaixou a faca, endireitando-se.

Hale também se recompôs.

– O que veio fazer aqui, Hale? – ela perguntou, de mau humor. – Não estava brincando quando disse que vou te matar. Por que simplesmente não sai do meu caminho e poupa-me o trabalho?

– Facilitar para você quase não tem graça. – ele riu um pouco. – Não vim te provocar. Soube que veio para arranjar encrenca com os russos então vim me certificar de que não saísse ferida. À propósito, bela surra a que deu naqueles engomadinhos.

– Não preciso dos seus cumprimentos. Tampouco da sua ajuda ou supervisão. Dou conta dos russos sozinha.

– E ainda assim não conseguiu a informação que queria.

Cherry se voltou para ele, estreitando os olhos.

– Você veio aqui me vigiar e ver se consegue alguma pista do Andrei! Todos sabem que ele é procurado pelo FBI e pela Interpol. Está tentando pegá-lo!

– Bingo!

– Seu filho da puta! – Cherry o encarou com raiva. – De jeito nenhum vai por suas patas de caçador de recompensa em cima dele! Andrei é meu!

– Você sabe que eu a deixaria mata-lo se não fosse lucrar com a entrega dele, não é mesmo?

– Ah, com toda certeza você não vai pegá-lo! – disse Cherry, apontando mais uma vez a faca para Hale. – Eu o estou procurando há mais tempo e a morte dele é minha por direito.

– Podemos negociar.

– É mesmo? E como faríamos isso? Eu teria o direito de arrancar um braço e você ficaria com o resto do corpo? – a ironia tingiu sua voz.

Hale riu alto.

– Isso seria inapropriado. Sabe que ele precisa estar inteiro para eu receber a grana. Sinto muito. Você não pode matar ou despedaçar. No entanto, estou disposto a deixa-la interroga-lo.

Cherry deu aquele seu sorrisinho aterrorizante.

– Isso não me basta.

– É claro que não. – Hale meditou, pensando em suas alternativas. Seu olhar era astuto e sedutor, uma mistura dos dois que o tornava tão desejado pelas mulheres. As boas e as más.

– Com todo esse papo de negociação, o que quer dizer? Tem Andrei em suas mãos nesse momento? Porque eu acabei de chutar o traseiro dos homens dele.

– Não estou com Andrei. Mas sei onde ele se esconde.

Cherry voltou seus olhos para ele, como uma leoa que acabara de visualizar sua presa tão esperada. Céus, ela era arrepiante com aquela expressão!

– Estou disposto a negociar. – Hale disse.

– Está blefando.

– Não desta vez.

– E onde conseguiu a informação? – ela parecia cética.

– Isso não importa. Está disposta a negociar? – ele ergueu a sobrancelha.

Cherry apanhou o copo de conhaque que ele bebia e virou num só gole.

– Qual é o acordo? – perguntou.

Hale sorriu.

– Boa garota. Bom, em primeiro lugar você terá que prometer que não vai mata-lo! Nada de truques, estou compartilhando isso com você de boa vontade. Não sou o inimigo aqui. Pelo menos não mais. Estou disposto a deixar que o interrogue.

– Quanto ele vale? – Cherry perguntou.

Hale franziu o cenho, mas respondeu mesmo assim:

– A Interpol está pagando quatrocentos mil. – ele sorriu um pouco. – Mas os sérvios ofereceram oitocentos.

– Vai entrega-lo aos sérvios? – Cherry estava cética.

– Ao que pagar mais, doçura. Ao que pagar mais.

– Você é um cretino.

– Amém a isso! Você está dentro?

– Depende. Quero a metade. Você divide o dinheiro, eu ganho a informação que quero e todos ficamos felizes.

– Achei que não se importasse com o dinheiro.

– Eu não me importo. – ela sorriu.

– Então é pelo simples prazer de ferrar comigo?

– Você sabe o quanto gosto disso.

– Ah, Cherry! – Hale sorriu como um moleque. – Sabe o quanto gosto de fazer negócios com você?

– Temos um acordo. – ela estendeu a mão.

– Temos um acordo.

Eles selaram o pacto com um aperto de mãos e uma dose de tequila.

– Então. – Cherry começou. – Onde ele está?

Hale gargalhou.

– Até parece que vou te contar assim tão fácil.

– Eu aceitei o acordo, grandão. Estou disposta a interroga-lo e depois deixa-lo todinho para você. Quero meu dinheiro, lembra?

– Vamos fazer isso juntos.

– Hale…

– Sem discussão. Não confio em você para agir sozinha.

– Você é esperto. Esperto demais para meu gosto.

– Nos encontramos pela manhã. Vamos juntos até onde ele se esconde e faremos juntos todo o serviço.

– Você sabe que posso esquecer facilmente nosso acordo e te torturar até que me conte onde ele está, não sabe?

– Tenho certeza de que faria isso. No entanto, me torturar te privaria do prazer dos benefícios que posso oferecer. – ele se aproximou sorrateiramente e lhe roubou um beijo.

Cherry o afastou tão logo aquela boca capturou a sua.

– Sem gracinhas, Hale. – ela o alertou, levantando-se do banquinho alto. – Eu te vejo pela manhã.

– Cherry. – ele a chamou. – Sei que não acredita em mim, mas se quer saber quem realmente à entregou, pergunte a Sander. O garoto sabe.

Cherry o fitou com raiva uma vez mais antes de dar as costas ao bar.

A noite estava fria quando ela saiu pela porta principal, encarando a rua vazia. Cherry se apertou contra a jaqueta de couro, procurando por sua moto no meio de tantas outras mais na calçada. Àquela altura não havia mais afila gigante de pessoas ansiosas por entrar, estavam todos abrigados lá dentro naquela onde de prazer e loucura.

Hex era a tentação para os viciados e a promessa ousada para os pervertidos.

Ela riu, lembrando-se de King comandando aquele lugar e então caminhou lentamente até a Harley Davison estacionada na esquina. Estava quase chegando à moto quando foi surpreendida com coronhada na cabeça. Cherry perdeu os sentidos, caindo na calçada suja.

Os dois homens grandes e fortes agarraram o corpo da garota e o jogaram numa van cinza, sem qualquer consideração.

Um homem vestido sofisticadamente se aproximou do corpo, afastando o charuto de seus lábios rachados e sorrindo com satisfação.

– Não estava procurando por Andrei? Pois aqui estou eu.

Ele fechou a porta da van com violência.

Continua

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