A Garota Má (Pt.1) – Estrada para o Inferno

A Garota Má (Pt.1) – Estrada para o Inferno

Escrito por Natasha Morgan

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Eu nunca disse que seria boa.
Não sou santa.
Não sou uma menina frágil.
Eu sou uma garota má.

New York

A moto deslizou pela rua, escorregando no asfalto molhado. O piloto rolou para longe numa elegância admirável, levantando-se habilmente com uma cambalhota e apontado a Glock para o rapaz que dirigia o Range Rover.

O homem careca congelou.

O piloto puxou o gatilho. Sua vítima tombou como um peso morto no meio da rua, a bala cravada em sua testa com maestria. Ao redor, as pessoas gritavam aterrorizadas, escondendo-se nos comércios ainda abertos. A polícia já havia sido acionada.

O assassino tirou o capacete, revelando a beleza selvagem de uma mulher. Os cabelos ultra claros e longos caíram com elegância, emoldurando um rosto de traços belos. Seus olhos eram cinza escuro e seus lábios pintados de vermelho.

A estranha usava couro e quando se aproximou suas botas negras fizeram barulho no asfalto. Ela olhou diretamente nos olhos do morto, encarando-o com uma frieza capaz de gelar a alma. E então esboçou um sorriso cruel.

– Descanse no inferno.

A assassina guardou a arma no coldre em sua cintura tranquilamente e levantou a Harley Davidson do chão, montando-a com a agilidade de uma pantera. E antes que os sons da sirene se aproximassem, ela deu partida, voando.

Seu nome era Cherry… Cherry Vicious.

Bem vindos à estrada do inferno!

* – * – *

Cherry veio de uma família Escandinava altamente importante… E criminosa. Os Von Kern eram conhecidos por comandar os países da Escandinava, mas não de forma positiva. A família antiga e poderosa espalhava pelas ruas, governo e boates renomadas sua droga incrivelmente tóxica. A máfia Escandinava só existia graças ao poder ostentado pelos Von Kern. E aquele poder todo não ficou contido apenas nos países gelados, ele se espalhou com sofisticação para o resto do mundo, intensificando-se na América.

Frédéric e Thea Von Kern foram os únicos naquela família a se recusarem a seguir a tradição, temendo a retaliação de seus inimigos e da polícia. A sua decisão de terem uma vida longe do crime abalou a Família tragicamente. Cherry teve sorte de ter pais amorosos, foi criada com amor e carinho em seu país natal, a Noruega, e ensinada a construir sua fortuna com base na honra, respeito e luta. E, acima de tudo, ela foi ensinada a ficar bem longe do negócio da família.

Mas tudo mudou drasticamente no momento em que os pais foram brutalmente assassinados numa noite de Natal, quando tinha apenas treze anos. Ela podia se lembrar daquela noite com uma clareza assustadora. Os homens armados invadindo a casa, sua mãe correndo pelos corredores mandando-a se esconder, os barulhos de tiros, o sangue espalhando-se tenebrosamente pelo chão e a grama gelada sob seus pés enquanto ela corria para salvar sua vida, deixando para trás tudo o que conhecia e amava.

Foi encontrada por um dos homens da Família e enviada para o tio mais próximo em New York. No entanto, no meio de sua viagem à América, cruzou o caminho de um Magnata Búlgaro e despertou seu interesse sórdido, sendo sequestrada e levada a uma rede de prostituição internacional.

Cherry poderia ter sido vendida por bilhões de dólares, mas o poderoso Boris a quis somente para seu divertimento, fazendo-a seu brinquedinho pessoal. Ela teve que servi-lo durante dois anos, suportando todos os seus castigos quando não o agradava, desobedecia ou tentava fugir. As marcas que ele deixou eram infernais e, se pudesse, Cherry arrancaria a própria pele para se livrar delas.

Quando estava prestes a completar seus dezesseis anos foi finalmente resgatada pelo tio e levada para a segurança de sua casa em New York. Klaus Von Kern era um homem poderoso, temido e respeitado. Ver a sobrinha nas condições em que encontrou não o agradou nem um pouco e ele se esforçou para ensiná-la a ser o tipo de mulher que jamais passaria por uma situação daquela novamente.

Não curvar-se.

Não submeter-se.

Não render-se.

Não morrer.

As lições do tio a transformaram numa assassina habilidosa e letal. Ela jamais se curvou novamente. Jamais chorou, implorou ou desejou morrer. Com seu passado ficou também a antiga identidade, a dor e o medo. Já não era mais aquela garotinha inocente que tremia diante de uma expressão severa. Ela era uma leoa faminta!

E queria sua vingança.

O homem que acabara de matar pertencia à Máfia Russa, principal rival nos negócios da Família. E Cherry tinha informações de que ele dirigia um comércio ilegal de tráfico de crianças, o que o colocava na posição de melhor amigo de Andrei Krasofc – o traficante de armas mais poderoso do país.

As balas encontradas no corpo de seus pais pertenciam a uma arma russa. E Cherry sabia muito bem que Andrei lhe ajudaria a descobrir a quem aquela arma pertencia.

Ela os faria pagar! Cada um deles. Derramaria o sangue de todos aqueles que tiveram participação na morte de seus pais e de quem mais se atrevesse a atravessar seu caminho. Os homens maus seriam punidos e seus corpos oferecidos aos Deuses mais sombrios!

*-*-*

Cherry estacionou a Harley Davison em frente ao portão majestoso de uma mansão e caminhou pelo cascalho até o arco da entrada. Os dois seguranças a cumprimentaram com um aceno de cabeça respeitoso. A casa era enorme e sofisticada, como o lar dos mafiosos costumava ser. Era engraçado como o luxo não a interessava. Podia ter uma mansão se quisesse, mas se contentava com sua cobertura no edifício Orn no centro da cidade. Sua mordomia se tornou seu pior pesadelo nas noites em que se lembrava da felicidade para sempre perdida ao lado dos pais. Eles tinham uma casa como aquela; luxuosa e confortável.

Cherry balançou a cabeça, livrando-se daqueles pensamentos amargos. Olhou ao seu redor, as salas pareciam vazias e silenciosas. Ela caminhou em direção à escadaria, seguindo caminho pelo carpete cor de vinho. No andar de cima o mesmo silêncio preenchia os cômodos. Eram inúmeros quartos, salas, salões de jogos e escritórios. Tudo levemente iluminado e decorado com esmero. Sua tia Alline não permitira o contrário. Uma mulher sofisticada como ela era digna de um lar bem arrumado e cheio de obras de arte de valor imensurável.

Cherry adentrou a enorme biblioteca, procurando pelo tio. Encontrou-o sentado confortavelmente em sua poltrona de veludo, examinando documentos em cima de uma mesa elegante de vidro.

Klaus era um homem muito bonito. Seus quarenta e poucos anos não desmereciam a beleza. Homem forte de cabelos claros, olhos azuis e um sorriso charmoso. Ele ergueu os olhos quando a viu entrar, a expressão séria tornando-se divertida.

– Ora, boa noite, minha querida. – seu tom nunca era amistoso embora as palavras tivessem uma conotação carinhosa. – Teve sucesso em sua busca?

Cherry tirou um envelope da jaqueta e o entregou.

– Informações sobre Andrei. – disse ela. – Soube que ele distribui suas porcarias na Hex.

Klaus deu um sorriso pouco satisfeito.

– King anda negociando com nossos rivais.

– A Máfia russa sempre arranja um jeito de se intrometer em nossos negócios. Fornecem para a maioria das boates em Nova Iorque. Acho que King está apenas reforçando os negócios dele.

– Não gosto da ideia de concorrer com os russos. – Klaus resmungou.

– O produto deles é uma porcaria. Não há qualquer tipo de competição.

– Eu suponho que você vá querer checar essas informações pessoalmente.

Cherry se limitou a assentir.

– Ótimo! Aproveite para dar um aviso ao King. Diga a ele para não vender aquela porcaria, é toxica e crianças morrem por causa desse lixo.

– Preocupado com as crianças? – Cherry esboçou um sorriso sarcástico.

– Oh, Mona, você sabe que eu sempre me preocupo com os pequenos. – Klaus suavizou a expressão.

Cherry enrijeceu.

– Não sou mais Mona. – disse ela, com um tanto de severidade.

– Perdoe-me. Velhos hábitos não morrem. Ainda vejo minha sobrinha aí dentro.

– É por isso que se recusa a vender suas drogas à crianças? Porque me imagina em cada uma delas?

Desta vez quem endureceu foi o tio.

– Não precisamos prejudicar inocentes ao fazer negócios.

– Muita sensibilidade para um mafioso. – provocou a garota. – Você não pensa nos inocentes quando manda seus homens assassinarem famílias inteiras quando se recusam a pagá-lo.

– Ora, não me responda, menina desobediente. – Klaus xingou, mas abriu um sorriso divertido. – Sua tia servirá o jantar em poucos minutos. Vá lavar as mãos e se junte à nós esta noite.

– Uma outra, talvez.

– Isso não é um pedido. – ele lhe lançou um olhar duro.

Cherry sorriu. Gostava do tio. Mais do que admitiria. Ele a ensinou a ser forte e isso era algo que ela jamais esqueceria.

Deu as costas a ele, caminhando com a graciosidade de uma felina pelos corredores longos e ornamentados com obras de arte. Podia já ter conseguido novas pistas e concluído sua missão naquela noite, mas ainda tinha fome de sangue.

Ou talvez sua fome fosse de algo mais saboroso do que a morte.

Ela sorriu, malévola. Era uma garota má!

Sua caminhada de caçadora foi interrompida quando avistou o primo numa das salas de recreação. O rapaz estava jogado num dos sofás, os pés em cima da mesinha de centro – Cherry tinha certeza que se Alline o visse fazendo mal uso de seus móveis ele teria sérios problemas.

– Olá, estranho. – disse ela, jogando-se no sofá ao lado do rapaz.

– Coração. – ele fez um pequeno aceno, recusando-se a desviar a atenção do videogame. – Como foi sua noite?

– Agradável. E a sua? Ficou o dia todo jogando essa porcaria?

– Oh, claro! Papai adoraria. – ele deu pausa no jogo e se virou para a prima. – E para a sua informação Resident Evil é um jogo extremamente instrutivo.

– Você é um nerd. – Cherry zombou, bagunçando seus cabelos loiros.

– Um nerd que pode enfiar uma bala na sua cabeça num piscar de olhos. – o rapaz piscou, divertindo-se. – Vai ficar para jantar?

– Seu pai me ordenou.

– Nesse caso sugiro que o obedeça. Você conhece o mau humor daquele velho.

– Eu não falaria assim de seu pai, se fosse você. Já o viu com um rifle na mão, o estrago que ele pode fazer. – Cherry riu.

O rapaz estava prestes a abrir a boca para revidar o comentário quando uma mulher elegante entrou na sala, a expressão aborrecida.

– Sander, ainda está aí jogando? – ralhou ela. – Eu achei que já tivesse tomado banho para jantar.

– Amada madrasta. – ele disse com excesso de doçura.

– Não use esse tom de deboche comigo! Vá agora mesmo se trocar! Eu o espero na sala de jantar e é bom que esteja pronto.

Sander se levantou do sofá num gesto ainda mais debochado.

– Você teme meu pai, mas não é ele quem me assusta nesta casa. – ele cochichou á Cherry. – Alline age como se fosse minha mãe. Isso é aterrorizante!

– Eu o estou ouvindo! – a madrasta o olhou feio.

– Ok. Ok. – ele ergueu as mãos como quem se rende. – Já estou indo. Espero que fique para o jantar, coração. É sempre mais divertido com você. – ele piscou uma vez antes de sair.

Alline se mexeu, pouco confortável. Era uma mulher elegante e jovem, Klaus soube escolher bem a segunda esposa. Tinha cabelos negros e lisos até o alto da cintura e olhos castanhos. Vestia-se com o mesmo esmero em que ostentava o nome da Família.

Cherry não tinha uma opinião própria sobre a tia. Via-a apenas como a mulher enfeite que o tio esbanjava pelas ruas. Alline não lhe parecia uma mulher de fibra como eram as daquela família. Ela não tinha aquela determinação no olhar que toda Von Kern tem. Não era uma lutadora e sim uma dondoca. No entanto, aquilo não era da conta de Cherry. Sempre respeitou a tia.

– Você vai ficar? – Alline perguntou, interrompendo os pensamentos da sobrinha. Seu tom era agradável, embora isento de emoções.

– Não. Klaus convidou, mas tenho assuntos pendentes.

– Se Klaus disse para ficar, você deveria.

– Você sempre o obedece? – Cherry perguntou, o sorriso malicioso.

Alline a fitou com altivez.

– Somos a família dele. Devemos obediência à quem sustenta essa casa e os negócios da Família.

– Eu obedeço a mim mesma. – Cherry disse e deixou a sala.

Não era de seu feitio ser grossa, mas parecia que a Tia instigava esse seu lado. Passou pelos seguranças na entrada da casa e apanhou a Harley Davidson, ansiosa por pegar a estrada novamente. Amava o toque do vento em seus cabelos, o zumbido em seus ouvidos e a adrenalina de voar.

*-*-*

O Edifício em que vivia era um arranha céu no centro da cidade, era cômodo e estratégico para ficar de olho no movimento da população ao seu redor. Como uma Von Kern, tinha de ficar atenta ao tráfico nas boates, o consumo de droga nas ruas e em seus rivais russos. O apartamento no centro de Nova Iorque era um bom negócio, prático.

O corredor estava silencioso quando o elevador abriu as portas. Tranquila, Cherry atravessou o espaço amplo e girou a chave em sua porta, adentrando o espaço aconchegante de seu apartamento. Tão logo sua bota tocou o piso frio, ela soube que algo estava errado.

Foi jogada bruscamente contra a parede, pressionada por um corpo maior que o seu. Entrando em modo ação, ela revidou, dando uma cotovelada no estômago do agressor e emburrando-o contra a mesinha de madeira no canto da sala. O sujeito se desequilibrou por apenas um instante, logo estava pronto para ataca-la novamente. Mas não teve nenhuma chance. Cherry sacou sua arma e apontou para a sombra à sua frente.

O agressor congelou ao ouvir o som da arma sendo engatilhada.

Cherry acendeu a luz e encarou o homem com certo divertimento. Ele era alto, musculoso e bonito. Cabelos e barba escura, olhos avelã. Ela o conhecia muito bem.

– Achei que tivesse mandado você parar de me seguir, Oficial Bennet.

– Caçador. – ele disse, num tom sensual. Seus olhos esquadrinharam o corpo dela, desejosos.

Caçador de recompensas. – ela retorceu as palavras, debochando delas. – Como entrou no meu apartamento?

– Você subestima as minhas habilidades. – ele sorriu, aproximando-se.

– Pode ficar aí. – Cherry alertou. – Perdeu seu tempo vindo aqui. Não vou para a cadeia de novo.

– Não estou te caçando, querida.

– Bobagem! Você está louco para pegar minha família. Os Von Kern são um prêmio por demais cobiçado.

– Isso é verdade. – o caçador de recompensas disse, passando a mão nos cabelos e desalinhando-os num gesto sensual. – Eu ganharia uma boa quantia em dinheiro se conseguisse entregar sua família ao FBI. Mas não estou aqui para isso.

– Claro que não. Você já conseguiu ferrar comigo.

– Oh, sim. De todas as maneiras. – ele riu com malícia.

Cherry estreitou os olhos.

– Qual é! Você sabe que estou brincando. Não fui eu que te entreguei à polícia.

– Para o inferno que não foi você! – ela o socou com força no rosto. – Foram quatro anos que peguei por sua culpa!

O caçador a agarrou com força, imobilizando-a em seus braços fortes.

– Cherry! – ele gritou para fazê-la parar de lutar contra se aperto e prestar atenção no que dizia. – Não fui eu!

Ela o chutou com força no meio das pernas.

– Vá à merda! – gritou de volta.

O rapaz começou a rir, ignorando a dor.

– Você continua a mesma. Senti saudades.

– Você tem três minutos para sair daqui antes que eu resolva mirar no seu saco e atirar. – Cherry disse, diabólica e apontou a arma novamente para ele.

– Você não vai atirar em mim.

– E o que faz você ter tanta certeza disso? – ela ergueu as sobrancelhas perfeitas.

– Porque você vai querer transar comigo mais uma vez antes de me mandar embora.

A expressão dela se transformou, dando lugar à perfeita sedutora.

– Eu posso decidir mata-lo depois disso.

– Abaixe a porcaria da arma. – o caçador se levantou do chão, encarando-a.

– Não.

Ele se aproximou, arrancando a camisa.

Cherry encostou o cano da Glock no peito dele, inflexível.

– Se você tirar toda sua roupa vai sair daqui nu. – alertou.

– Não fui eu quem te entreguei. Eu juro.

– Você é um caçador de recompensas. Teria ganhado muita grana ao me entregar.

– Na noite em que você foi apanhada eu estava em Las Vegas. Fiquei sabendo dois dias depois quando voltei.

– E o que vai dizer agora? Que tentou me tirar da cadeia?

O rapaz riu.

– Seu tio fez isso por mim. Mas pelo jeito nada conseguiu além de uma diminuição de pena. Alguns juízes não são facilmente subornáveis, nem pelo maior mafioso da Escandinava.

– Essa não é hora para você me provocar. Não se esqueça que ainda estou com a arma apontada para você.

O caçador aproximou seu rosto até ficar a centímetros do dela.

– Você já teria atirado. – sussurrou.

Cherry o agarrou, largando a Glock e envolvendo o corpo musculoso. Ela o beijou com vontade, puxando-lhe os cabelos num ar selvagem. O caçador aproveitou aquele exato momento para prender os lábios dela em sua boca, sugando-os com paixão e desejo. Ela o mordeu, rindo maliciosamente.

– Hale. – disse ela em seu ouvido, ofegante.

-Humm? – ele resmungou, beijando-lhe o pescoço.

– Eu quero que vá embora.

Hale se afastou dela, fitando-a com um grande ponto de interrogação na cara.

– Você está de sacanagem! – ele parecia cético.

– Eu disse que você tinha três minutos para sair. Já se passaram dois.

– Você largou a arma. – ele sorriu, debochando.

– Eu ainda posso te estrangular.

Hale abriu um sorriso malicioso.

– É claro que pode. Cherry…

– Faltam quarenta segundos.

Ele recolheu a camiseta do chão.

– Vou voltar.

– Se cruzar meu caminho de novo eu vou matar você. – ela alertou, muito séria.

– Então parece que vou ter que ser mais esperto que você. – ele sorriu, zombeteiro. – Até breve, Cherry Vicious.

Cherry fechou a porta assim que ele saiu, certificando-se de girar todas as trancas. Encostou-se na madeira fria, rindo e lembrando-se do dia em que foi presa…

Cinco anos antes

Era sua primeira missão oficial depois de estar finalmente pronta para assumir os negócios da família. Se é que podia dizer que queria assumir o legado que seus pais há tanto tempo se esforçaram para mantê-la longe. Tráfico de drogas não era sua praia.

No entanto, ela prometera ao tio ajuda-lo em seus negócios. Depois de tudo o que ele fez por ela certamente merecia algum tipo de retribuição. E, convenhamos, Cherry era uma assassina. Estava disposta a matar qualquer um que cruzasse seu caminho só para vingar a morte dos pais. Que outros negócios combinariam tão bem com ela? Além do mais, estar por dentro dos crimes que aconteciam facilitaria em sua busca.

E ela estava pronta para começar a caça!

Era só mais um dia de outono quando Klaus a avisou que sua primeira missão estava pronta para ser cumprida. E ela estava ansiosa por ser perfeita. Queria mostrar ao tio tudo o que aprendeu e, acima de tudo, provar a si mesma que já não era mais Mona – a menina medrosa e dependente que um dia foi.

Cherry era uma mulher forte. Destemida. Letal.

Ela sorriu com maldade, os lábios pintados de vermelho fogo, e ajustou adaga bem trabalhada dentro da bota. Estava ansiosa, a adrenalina correndo em suas veias. Aquela noite seria divertida!

Sabia que o plano era ousado e completamente estúpido. Roubar um banco internacional sozinha era o cúmulo da estupidez e ousadia. Um milhão de dólares. Só para ela! Cherry tinha gargalhado quando o tio mencionou o que ela teria que fazer… E gargalhou mais uma vez de pura satisfação quando soube que poderia ficar com a grana se conseguisse sair de Miami intacta.

Ou passar uma boa parte de sua vida na cadeia se fosse pega.

No entanto, quanto a essa parte, ela não estava preocupada. Oras, ela não seria pega! Sua arrogância não era de todo infundada. Seu treinamento incluía muito mais do que golpes e tiros, ela aprendeu a se esquivar como um felino. E era extremamente habilidosa. Klaus não a treinou somente para se defender. Ele a treinou para ser a melhor… Uma Von Kern.

E os Von Kern arrasavam! Não era à toa que mandavam no governo da Escandinava e no resto de meio mundo. Poder não se conquistava com fraqueza, ele era obtido pelos melhores.

Cherry terminou de se arrumar, deixando por último seu par de pistolas Sig Sauer. Encaixou-as com cuidado no coldre em sua cintura, vestiu o Sobretudo e saiu do Hotel.

Lá embaixo estava tudo meticulosamente preparado. O Mustang vermelho de Sander esperava estacionado em frente à fachada luxuosa. Sander foi bonzinho em emprestá-lo para sua primeira aventura, fazendo questão de dizer que ficaria feliz se ela o devolvesse intacto. Cherry riu, entrando no carro sofisticado. Ela se esforçaria para não arranhar a pintura, embora estivesse contanto com uma pequena perseguição.

Só de pensar em fugir da polícia em alta velocidade pelas estradas de Miami, seu coração se agitava. Seria engraçado. No entanto, isso não fazia parte do plano. Ela precisava entrar no banco, recolher um milhão de dólares e depois voltar para New York. Nada de aventuras! Uma pena.

Estava tudo acertado. Cherry tinha passado a última semana estudando o movimento do banco, os funcionários e os horários de maior pico. Através de homens da Família soube também que um grande depósito em nome de Alexander Hoffman havia sido feito. Um milhão. A quantia perfeita para ela! Era o dinheiro dele que Cherry iria roubar.

Como um bom político, Alexander vinha desviando dinheiro do fundo de hospitais e ONGs de solidariedade e usando-o para benefício próprio. Era um homem mau. E Cherry, como boa samaritana, estava pronta para ensiná-lo que pessoas más não vão para o céu.

O Banco Internacional Whitfield de Miami era uma estrutura sofisticada de cimento e vidros fumê. A faixada não era chamativa, mas dizia piamente que ali só eram aceitos homens importantes. O típico de pessoas arrogantes que queriam esbanjar seus dólares e dizê-los mais válidos do que o de pessoas menos favorecidas. Cherry odiava gente assim.

Ela desligou o motor do Mustang, estacionando-o audaciosamente em frente ao banco. Desligou o som, colocou seus óculos de sol, apoiou a Firepower Shotgun no ombro e saiu do carro. Cherry olhou a rua vazia, era bom Miami ter pouco movimento durante à noite embora isso jamais fosse um empecilho para o que estava prestes a fazer. Ela deu um último trago no cigarro e o jogou fora.

– Vamos logo com essa merda! – disse, engatilhando a arma com um só tranco.

As portas giratórias não ousaram denunciá-la, até porque se o fizessem ela meteria o pé naquela droga e a faria em pedaços. O fato de ela estar com uma espingarda de alta pressão apoiada no ombro não surtiu o mesmo efeito nas pessoas do que o seu visual motoqueira punk selvagem.

Pessoas sofisticadas que se davam ao trabalho de ir ao banco no meio da noite para retirar suas joias ou seus dólares tão preciosos não esperavam ver uma garota usando calças de couro e um colete sexy entrar pela porta empunhando uma arma monstruosa. Então o choque foi um tanto cômico, porque Cherry não tinha certeza se o que as assustou foi o seu estilo ou a ideia do assalto.

Havia seis pessoas dentro do banco. Um segurança, três funcionários e dois clientes vestidos ricamente. Cherry atravessou a porta com elegância, tirou a adaga presa na sua bota e a arremessou no ar, acertando a mão do segurança e o imobilizando junto á parede. Antes que qualquer pessoa pudesse começar a gritar ou apertar o alarme, ela correu pelo amplo espaço, saltou em cima do balcão e apontou a Shotgun para o funcionário ruivo.

– Eu não faria isso se fosse você. – disse, olhando para onde o dedo dele estava se dirigindo. O botão vermelho que chamaria a polícia.

O menino, que deveria ter menos que vinte anos, engoliu em seco, olhando para a bela moça com a arma.

– Eu não quero confusão. – ele gaguejou.

– Nem eu. – Cherry sorriu para ele. – Muito bem, pessoal. Isso é um assalto! Fiquem todos quietos e reunidos naquele canto ali – ela apontou para o banco elegante no meio de dois vasos de orquídea.

As duas funcionárias com uniforme que estavam atrás do balcão se encaminharam para fora, choramingando. Sentaram-se no banco em silêncio junto aos dois outros clientes que estavam presentes. O segurança apenas observava calado, sentindo sua mão latejar; estava presa na parede pela adaga e ele não tinha qualquer vontade de tirá-la.

Cherry voltou sua atenção para o jovem ruivo.

– Você tem acesso ao sistema. Quero que abra o cofre de Alexander Hoffman. Pode fazer isso para mim?

– S-sim, senhora. – o jovem assentiu, morrendo de medo. – P-posso pegar o dinheiro dos caixas também…

– Não. Só quero o que está dentro do cofre do Senhor Hoffman.

O menino franziu o cenho, mas obedeceu, checando o sistema no computador sob a supervisão atenta da mulher. Era engraçado, mas apesar de estar quase se mijando nas calças e morrendo de medo de toda aquela situação, ele achava a garota sexy. Mas como não achar? Com todo aquele couro, tatuagens e batom vermelho… E, cara! Ela estava com uma arma! Não tem coisa mais sexy que uma mulher apontando uma arma para você. Espere! Isso soou tão estranho…

– Não está tentando me enganar, não é? – a moça disse, interrompendo seus pensamentos idiotas.

– Mas é claro que não! – ele se apressou em dizer, olhando-a com nervosismo.

Cherry lançou um sorriso sensual para o garoto.

– Bom. Agora ande logo com isso, quero estar em uma banheira cheia de espumas antes que o dia amanheça.

O ruivo se apressou, terminando de transferir os códigos para o acesso ao cofre. O computador apitou, mostrando um quadrado verde piscando. O acesso foi liberado. Cherry lhe passou três mochilas pretas.

– Encha-as. Um milhão de dólares, é o que tem no cofre. Quero tudo dentro dessas três sacolas e nem pense em me enganar ou tentar ser espertinho. Eu te abro do pescoço para baixo e ofereço suas entranhas á sua família no natal!

O garoto a olhou aterrorizado, o rosto pálido. Rapidamente foi até o corredor elegante onde ficavam os cofres e procurou pelo nome que a loira havia mencionado. O cofre do senhor Alexander Hoffman estava piscando, aberto. Nervoso, o menino retirou todo conteúdo que havia lá dentro e o enfiou nas três malas. Coube certinho. Quando retornou à recepção, entregou as malas à ladra e se abaixou junto ao restante de reféns.

Cherry olhou dentro das sacolas, certificando-se que as verdinhas estivessem no lugar certo. Ela sorriu, apanhando um maço e cheirando-o. Revirou os olhos como uma viciada em heroína.

– Muito bem, ruivo. Devo estar certa em supor que está tudo aqui, como lhe ordenei?

– S-sim, senhora. – o garoto assentiu.

– Perfeito.

Ela checou os bolsos, apanhou um cigarro e o acendeu.

– Vou embora agora. – disse, soltando a fumaça sensualmente. – Contem até dez e podem voltar para suas vidinhas medíocres, indignados por terem sido roubados.

Cherry gargalhou, saindo com suas três malas pesadas e cheias da grana.

Ela estava na estrada há mais de cento e vinte por hora, ouvindo Sex Pistols, os cabelos ao vento e gargalhando quando a polícia a interceptou. Oh, ela tentou fugir, é claro. Mas quase se matou no processo. O belo Mustang capotou indo parar do outro lado da estrada.

Cherry chutou a porta com força e conseguiu sair, cuspindo sangue. Mas se arrependeu no mesmo instante. Os dois policiais estavam ali esperando-a e não foram nada gentis quando a algemaram e gritaram seus direitos.

Klaus tentou ajuda-la, subornando a juíza. Mas a cretina não aceitou tal abuso.

Foi condenada a quatro anos – generosidade do suborno no sistema penal. Se não fosse por Klaus ela teria pegado muito mais tempo.

Cherry suportou cada dia na prisão, aprendendo com as outras criminosas o que o tio deixou de ensiná-la. Não havia um dia em que não se metesse em confusão, a solitária se tornou sua segunda casa. Tornou-se muito mais forte naqueles quatro anos. E quando sua sentença chegou ao fim, foi com alivio que se despediu daquelas paredes nojentas e mofadas.

Klaus estava incumbido de ir busca-la naquele verão maravilhoso quando saiu. Cherry estava mais do que feliz em livrar-se das roupas laranja, vestiu sua calça vermelha favorita, a blusa branca cavada comum da cadeia e os sapatos puídos. Insistiu para a guarda deixa-la passar seu batom vermelho há muito guardado e saiu pelo portão da frente, sorrindo quando o sol tocou em seu rosto.

Avistou um Mustang vermelho estacionado fora dos portões. Ela riu, mal acreditando. Quem estava no volante não era Klaus e sim Sander. O primo sorriu para ela, acenando como o galã que era. Os cabelos loiros e os olhos azuis eram um atrativo às meninas, assim como seu corpo bem definido e a grana no banco. Só Cherry não caia no charme dele e isso nada tinha a ver com o parentesco. Para ela Sander era apenas um grande amigo.

Cherry entrou no carro, ouvindo sua canção favorita do AC/DC.

– Eu achei que tivesse detonado essa porcaria. – ela disse, apontando para o Mustang.

– Você detonou. Mas meus mecânicos são ótimos!

– Senti sua falta.

– E eu a sua, coração. – Sander sorriu para ela, deixando transparecer uma dose de sua sensualidade. – Vejo que ganhou novas tatuagens – apontou para o tribal tatuado no braço dela.

– Cortesia de umas amigas. – Cherry sorriu.

– Papai me mandou vir busca-la. Para onde quer ir agora que é uma mulher livre?

Cherry fuçou o porta luvas, apanhando um maço de cigarros. Ela equilibrou um nos lábios, acendeu e deu um longo traço. Quando falou, sua voz estava cheia de ironias.

– Para a estrada do inferno.

O carro saiu cantando pneu.

Continua

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Pessoal, para quem não sabe, a Natasha Morgan é a escritora do livro O Toque da Meia Noite, publicado pela Novo Século. Ela me disse que logo menos sai a continuação do livro dela, então o jeito é ficar na torcida e ir lendo o conto A Garota Má! Venha conhecer o trabalho dela, só clicar no link a seguir: O Toque da Meia Noite, e aproveite a promoção!

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