Lenda do Túmulo da Cigana

Lenda do Túmulo da Cigana
“A Santa Predileta dos Humildes”

Escrito por Saul Guterres

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Boa tarde gente, hoje trago mais uma história do povo cigano a vocês.  Esse fato ocorreu na cidade de Lavras do Sul – Rs, e é uma das lendas mais comentadas pelos moradores desta região, que com muito entusiasmo me foi passado através de meu amigo B. Casttro. Vamos lá?

Lá pelos idos de 1920, logo após a construção do novo cemitério, um  bando de ciganos acampou nos arredores de Lavras. Esse povo errante, de vida incerta, espalhando-se por todo o mundo, vive,
ainda hoje, exercendo os seus vários mistérios e vivendo de seus pequenos  expedientes.

De origem indiana, há muitos e muitos anos, eles cruzam as estradas,  boêmios da própria sorte. Desta feita, acampados do outro lado do arroio, no depois chamado Bairro  Militar, alçaram os seus toldos e invadiram as ruas da cidade, oferecendo  os seus tradicionais tachos de bronze, suas figas protetoras, brincos, anéis e
colares multicores.

As ciganas mais velhas, mal-enjorcadas e com suas saias e sobressaias  andrajosas, davam-se a interceptar os incautos e a saber deles se queriam  ver “la suerte”. E seguiam pelas ruas a cambiarem os seus relógios e a  oferecerem a sua variedade de quinquilharias.  Cruzavam as nossas ruas em bandos alegres, tagarelas, batendo nas portas,  xingando os moleques.

Apartadas do bando, andavam outras ciganas mais moças e mais vistosas.  Iam logo atrás, com seus colares e pingentes chamativos, de um rude  artesanato, enfeitando aquela estranha comitiva.  Mais asseadas e risonhas, elas chamavam a atenção dos populares quando  passavam pelas esquinas da cidade.  Uma delas, uma ciganinha de olhos claros, bonita e singela como uma flor  do campo, foi logo apontada e cobiçada pelos moços desairosos, que a  seguiam, espreitando-a como uma perdiz na moita.  Alvo de seus olhares indiscretos, que a deixavam enrubescida, ela sorria,  sorria ingênua e vaidosa, ressaltando mais o seu encanto de cigana.

O povo de Lavras, calmo e hospitaleiro, com o passar dos dias,  experimentou uma certa convivência amistosa com o singular bando de  ciganos.  Gostaram do lugar. Foi a resposta dada pelo chefe do bando para justificar
aquela permanência que se prolongava. Era um homem já de meia-idade,  alegre e muito dado a prosa.

Com a mesma espontaneidade com que eles invadiram as ruas de Lavras, o povo também foi visitar seu acampamento lá no outro lado do arroio. Nos finais de tarde, ao redor da sua toldaria, a molecada se recreava com o inusitado. Alguns puxavam assunto com eles só para ouvi-los, com a sua  prosa arrevesada. Também os tais moços galanteadores, de mansinho, foram se achegando  por lá, à espreita da bela ciganinha debutante e de olhos claros e risonhos. Dela, somente dela, eles compravam todo o tipo de quinquilharia e sem  barganharem o preço. Ela, sempre sorridente e ingênua, parecia feliz com  aquele assédio permanente por todos os lugares onde andava.  Um deles, mais afoito, chamando-a para um local ermo, longe da cigana  velha, aventurou-se a lhe comprar um beijo. E a ciganinha estulta, num ato próprio de sua ciganice, acedeu e lhe vendeu aquele gesto puro por um alto dinheiro.

Certo dia, espalhou-se, rapidamente, pela cidade a notícia do casamento de dois jovens ciganos, notícia que entibiou o entusiasmo da rapaziada  galante, ao saberem que a noiva era justamente aquela que vendia beijos, a linda ciganinha de olhos claros, asseada, de tranças reluzentes e saias
coloridas.

Um dos moços, nesse dia, afastou-se da cidade sem motivo justificado.  O poviléu, curioso, dirigiu-se para o outro lado do rio para assistir ao tão  comentado casamento.  Do lado de fora das barracas, muita gente, acotovelando-se, espiou o  movimentado baile ali realizado. Sem participar dele, a excitada plateia
deliciou-se com o que via: os ciganos dançando de chapéu, uma gaita e  uma rabeca executando ritmos estranhos, farta comilança e o vinho, sem  parar, distribuído em jarras coletivas.

Ali permaneceu aquela gente curiosa até altas horas, quando, afinal, o  sereno frio da madrugada forçou-a a ir embora para as suas casas.

No outro dia, cedo, envolveu-se a polícia com o aflito bando de ciganos:
– A noiva estava morta!
– De morte natural – constatou a autoridade.
Tão dada e tão alegre! … Sua morte consternou a nossa pequena urbe. E os motivos reais do desenlace a fantasia popular enriqueceu.

– Foi assassinada pelo noivo! Forçada a se casar, vendida a ele, suicido-use! Ninguém ficou sabendo afinal o exato motivo daquela repentina e estranha morte. Várias outras causas, as mais fantasiosas, foram alvo da adivinhação dos habitantes de Lavras…

O chefe do bando pediu licença ao Intendente para sepultá-la no cemitério da municipalidade. Construíram ali o hoje chamado “túmulo da cigana”, prestaram-lhe suas últimas homenagens, levantaram acampamento e foram-se embora. Mas deixaram em Lavras o mistério daquela linda flor do campo, morta na primeira noite de suas bodas de mel. tempos depois, alguém versado nos códigos da honra dos ciganos objetivou que, entre eles, ao noivo é permitido matar sua consorte caso ela não seja mais virgem.

Daí restou, em última análise deste axioma evidente, a causa determinante daquela inesperada tragédia que despertou piedade e horror no meio da nossa justiça.

Os anos se passaram e esse sentimento, enraizado na alma dos humildes, numa consequente devoção, revelou-se, sublimado, entre muitos adeptos. A infeliz cigana, canonizada pelo povo, tornou-se a sua santa predileta. Quem visita o nosso cemitério, assomando ao portão, logo à direita, depara-se com o chamado “túmulo da cigana”. À sua cabeceira, vê-se uma imagem de mulher, grosseiramente esculpida na argamassa. Está de pé, com o rosto inclinado a insinuar-lhe uma auréola de santa e de mártir. Seu corpo, naturalmente, está ali, coberto por uma lápide, dormindo no chão do cemitério. É um jazido único, exposto a céu aberto, que está,
permanentemente, enfeitado com flores, fitas coloridas, garrafas de vinho e toda sorte de oferendas. Muitas vezes sua imagem se mostra com um rosário circundando-lhe os ombros.

Sua estatueta, de porte médio, é um monumento singular de fé cristã, onde o povo humilde vem pedir graças e pagar promessas, razões emocionais do sofrimento. O “túmulo da cigana”, daquela que foi morta por não mais ser virgem, é hoje, em Lavras, a vereda sentimental dos que creem no poder divino ou daqueles que, um dia, também foram injustamente sacrificados.

Existem dois pedidos, os mais celebrados, aos quais a cigana jamais deixa de atender: o das mulheres que são vítimas de seus maridos alcoolistas e o dos homens privados de sua antiga virilidade. São dois pedidos caros, e estigmatizados por um ritual inculto e obsceno. Notadamente, às vezes, sobre sua lápide e ao seu redor, há um cheiro forte de cachaça e urina. A primeira, derramada por tais mulheres quando a invocar-lhe graças e premonições de enjoo à bebida. E a segunda, por tais homens, quando, de maneira explícita, suplicam-lhe forças que se desvaneceram.

A cigana dos aflitos, com o poder e a magia da crença, devolve àquelas e a estes a paz conjugal e o vigor indispensável para procriar. E, assim, com a sua missão popular de servir e proteger, ela apaga vícios e traz harmonia através dos verdadeiros sentimentos! E você o que pediria?

Fim

Comente, diga o que achou! Incentive o autor a continuar escrevendo novas histórias!

12 comentários em “Lenda do Túmulo da Cigana

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