Lendas & Mitos: Minerva e Aracne

Texto retirado do livro: As 100 Melhores Histórias da Mitologia, de  A.S. Franchini e Carmen Seganfredo

Minerva e Aracne

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Aracne era uma bela moça, filha de um tintureiro de lã, na cidade de Colonon. Sendo filha de quem era, desde cedo acostumara-se a bordar e tecer, revelando um talento inato para essa arte. À medida que Aracne foi tornando-se adulta, sua arte também mais e mais se aperfeiçoava, de tal sorte que logo seus trabalhos eram disputados por todas as mulheres da cidade. Senhoras de outras localidades também acorriam, sem se importar com a distância, desde que pudessem levar para casa algum trabalho saído das mãos da extraordinária artesã.

— Bordado é o da Aracne, o resto é bobagem — diziam as moças, que saíam da casa da talentosa jovem com suas peças estendidas, admirando à luz do sol o tom diversamente colorido dos bordados e das tramas. De tal forma a fama de Aracne cresceu, que mesmo as ninfas dos rios e lagos próximo deixavam as águas para admirar os trabalhos de Aracne. Um dia, Diana, que ficara sabendo do assunto pelas ninfas, levou-o ao conhecimento de Minerva.
— Minerva, acho que finalmente você encontrou uma rival à altura — disse Diana, com
um tom de ironia.

Ora, deuses e deusas não suportam que lhes falem nesse tom, ainda mais quando um de seus atributos é posto em dúvida. A deusa, considerada a protetora das obreiras e dos artesãos, não admitia que uma reles mortal pudesse sequer emparelhar com as suas obras, respeitadas em todo o Olimpo.
— Quem é mesmo essa fulana? — disse Minerva, com a voz repassada de inveja.
— Aracne é o seu nome — disse Diana, que sob o pretexto de fazer um favor saboreava, na verdade, o despeito da outra.

No mesmo dia Minerva decidiu apresentar-se diante da rival e ver se realmente ela era tudo aquilo que afirmavam. Metamorfoseando-se numa velha, a deusa rumou para o país onde vivia Aracne. Quando lá chegou, encontrou a artesã sentada à beira de um regato, cercada por um exército de ninfas, que deitadas sobre a relva admiravam o seu magnífico trabalho.
— Bom-dia, minha jovem! — disse, aproximando-se.
— Bom-dia, minha senhora — disse Aracne, sem desviar os olhos de seu imenso bordado.

“Ela é boa artesã, mesmo, a desgraçada!”, pensou a velhota e disse:
— Que belo trabalho está fazendo! — exclamou Minerva, apoiada a seu bordão, cujo elogio fingido escondia uma secreta admiração.
— É o que todos dizem — falou Aracne, com um ar de presunção que irritou Minerva.
— Mas convém agradecer sempre a Minerva este dom recebido — disse a velha.
— Ora, e que méritos eu teria se devo exclusivamente a ela meu talento? -disse Aracne.
— Ela que cuide de seus bordados que eu cuido dos meus.

Um sussurro de espanto correu por entre as ninfas.

— Oh, não diga isto! — disse a velha, escandalizada. — Não percebe que é uma ingratidão sem tamanho?
— Vovó, por favor, me deixe trabalhar em paz — disse a jovem, pondo um fim na
conversa.
— É esta, então, a idéia que tem de mim, atrevida? — disse Minerva, desfazendo-se do disfarce e surgindo em todo o seu esplendor diante da tecelã e das ninfas, que recuaram, entre assustadas e reverentes. Aracne, contudo, não demonstrou grande impressão e prosseguiu a bordar como se nada houvesse acontecido.

— Olhe para mim, sua mal-agradecida! — bradou Minerva.
— Estou trabalhando, não está vendo? — disse Aracne, com maus modos.
— Proponho, então, um desafio! — disse Minerva, certa de que a vitória seria sua.
— Diga lá! — respondeu a moça, que não queria outra coisa senão medir-se com a própria deusa dos trabalhos manuais.
— Vamos, ninfas ociosas, tragam toda lã que puderem encontrar e a depositem aqui, em partes iguais, a nossos pés — ordenou Minerva.

As duas mostravam-se extremamente arrogantes. Não se podia saber qual seria a vencedora daquele empolgante confronto. Ao sinal da deusa, as duas começaram a trabalhar. Os dedos ágeis desfiavam a lã e a colocavam rapidamente sob os pentes do tear que tinham à frente.

Os fios deslizavam, esticados ao máximo, parecendo as cordas afinadas de um piano. Nem bem saíam da máquina e dedos os capturavam, comprimindo-os sob as agulhas douradas. Cada qual tinha aos joelhos uma grande tela, na qual deveriam bordar um grande tapete figurativo. Minerva escolhera fazer o retrato de uma disputa que tivera com Netuno, enquanto Aracne bordava magistralmente a cena do rapto de Europa por Júpiter.

Aos poucos as figuras ganhavam forma nas armações quadradas que cada qual tinha diante de si. Os fios de diversas cores passavam pelos dedos das mulheres como os fios que tecem o arco-íris, misturando-se numa mesma maçaroca. mas saindo separados e uniformes sobre a tela.

— Veja, a tela de Minerva está mais bela — dizia uma ninfa, observando o trabalho da deusa, que começava a ganhar forma diante dos olhos de todas.
De fato, o mar, os peixes, o deus Netuno com seu tridente, tudo parecia adquirir vida própria, enquanto os dedos finos da deusa tramavam agilmente as linhas de diversas cores.

— Não, o de Aracne é mais belo — disse outra ninfa, abaixando o tom de voz para não
ofender a deusa.

O tapete de Aracne, com efeito, não ficava a dever nada ao da sua rival em matéria de cor, beleza e vivacidade. Todas podiam ver aos poucos o alvo touro que raptara Europa ganhar forma sob as costuras. O alvo fio ia desenhando o contorno da bela jovem com tal perfeição que ela parecia estar viva e prestes a sair do tapete: seus pés erguiam-se a poucos centímetros da água de um anil perfeito, por sobre a qual era levada pelo animal.
A medida que as duas finalizavam o trabalho, a ansiedade e a expectativa das ninfas tornavam-se quase insuportáveis.
De repente, Minerva pôs-se em pé, com um grito de triunfo:

— Pronto, amadora, apresente também o seu trabalho! Aracne, dando o último nó em seu bordado, ergueu-o desafiadoramente.
— Que as ninfas julguem com imparcialidade! — disse, encarando a rival. Minerva, arrebatando o tapete das mãos de Aracne, comeu-o com os olhos.

Enquanto o estudava, procurava com ele ocultar o próprio rosto, a fim de que as demais não vissem a admiração estampada na sua face. “Maldita! Seu trabalho tenho de reconhecer, é levemente superior ao meu!”, pensou a deusa.

Temendo, porém, que as julgadoras chegassem à mesma conclusão, Minerva perdeu a cabeça e fez em pedaços o belo tapete, mostrando que não admitiria sofrer uma humilhação.
— Oh, como você é cruel e injusta! — disse Aracne, tomada pela ira. Em seguida, rasgou também o trabalho da rival, sapateando em cima.
— Veja o que restou de seu horrível bordado — disse, arreganhando os dentes para a deusa.

Isto foi demais para a paciência de Minerva, que não podia admitir tamanha afronta de uma reles mortal. Erguendo sua mão sobre a cabeça de Aracne, rogou-lhe uma praga terrível. A moça, que ainda estava sob o efeito da cólera, não sentiu a princípio que seu corpo encolhia até transformar-se numa bola negra. Depois, de seus flancos saíram várias pernas cabeludas, o que encheu de horror as ninfas, que se lançaram à água, temerosas de que a deusa resolvesse puni-las também.

Tomando em suas mãos a asquerosa criatura, Minerva pendurou-a em um galho.

— Veja, aí está o prêmio da sua arrogância! — disse a deusa, com uma risada de escárnio.
Já ia dando as costas para se retirar, quando percebeu um ruído vindo da árvore. Voltou-se e viu que a criatura negra movimentava suas pernas com extraordinária agilidade, costurando um manto com uma seda extremamente fina que retirava de seu dorso abaulado. Aos poucos Minerva viu surgir diante de seus olhos um magnífico bordado circular, que excedia a tudo que ela antes já fizera, como se Aracne, mesmo sob aquela odiosa forma, tivesse se tornado ainda mais talentosa com seus diversos braços.
Minerva, reconhecendo-se finalmente derrotada, partiu correndo do maldito bosque.

Texto retirado do livro: As 100 Melhores Histórias da Mitologia, de  A.S. Franchini e Carmen Seganfredo

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